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domingo, 22 de junho de 2014

Gol contra nas alturas

Coitado do Mario Sergio Conti. Fiquei com pena dele, do mico pelo qual passou, ainda mais por ter pagado esse mico por pura ingenuidade pessoal ou por desinformação mesmo, o que, no caso dele, é grave, uma vez que se trata de jornalista conceituado no centro do país. Eu, assim como boa parte dos meus leitores, não sabia quem era o Mario Sergio Conti, até o mico dele ter virado notícia nacional esta semana. Ruim, isso, virar notícia nacional devido a mico pago. Daí que me deu pena.
Pois aconteceu de o Mario Sergio Conti, colunista do jornal “O Globo” e da “Folha de São Paulo/UOL”, apresentador da Globonews, embarcar em um voo na ponte Rio-São Paulo poucos dias atrás e pimba, dar aquela sorte de jornalista, de se sentar exatamente ao lado do técnico da Seleção Brasileira, Luiz Felipe Scolari! Conti não teve dúvidas: aproveitou os cerca de 40 minutos do voo e arrancou declarações interessantes do treinador em plena competição, como a de que “se tivéssemos três jogadores como o Neymar, a Copa seria uma tranquilidade”.
Foi “tá e pá”! O avião aterrissou e Conti voou para a redação, a colocar nos sites dos órgãos de imprensa para os quais trabalha as bombásticas declarações quentíssimas e exclusivas que obtivera do Felipão, seu colega de voo. Só que... só que não era o Felipão, gente. O técnico da Seleção Brasileira não fica pegando voo sozinho na ponte aérea Rio-São Paulo, especialmente em pleno andamento da Copa do Mundo, né. Tratava-se de um sósia. O jornalista Conti entrevistou ninguém menos do que Wladimir Palomo, sósia de Felipão que, inclusive, faz ponta no programa “Zorra Total”, da Rede Globo. Xii... que mico!
Tudo bem, o engano foi logo desmentido, não houve gravidade alguma, exceto a bola fora do jornalista. Mas eita que sósia mais competente esse, não? Eu, ao ler a notícia, não tive dúvidas: levantei da sala e corri ao espelho do banheiro para fitar a mim mesmo, imaginando qual a personalidade famosa pela qual eu seria capaz de me fazer passar. “Brad Pitt... David Beckham... Tarcísio Meira... Godzilla não vale, que sou melhor do que o original... Justin Bieber...”. Nisso, minha esposa passa pelo corredor, vê a cena e dispara: “Ah tá vendo? Tá horrível mesmo, né? Quando é que vai cortar esse cabelo?”.

Felizmente, eu tenho quem me traga de volta à realidade. Foi o que faltou ao lado do Mario Sergio Conti naquele voo, aquele dia...
(Crônica publicada no jornal Pioneiro em 21 de junho de 2014)

quarta-feira, 7 de maio de 2014

E vamos xingando

A deselegância, para não dizer o descontrole e a falta de educação, do técnico da Seleção Brasileira de Futebol, Luiz Felipe Scolari, ao xingar com palavrões o fotógrafo Roni Rigon, do jornal Pioneiro, que no domingo passado fazia seu trabalho ao cobrir a visita de Felipão ao Santuário de Nossa Senhora de Caravaggio, em Farroupilha, causou espécie. O perfil pouco polido do treinador já é conhecido de longa data, porém, o que causou espanto foi a truculência das palavras aliada a um estado de espírito agressivo, carrancudo, hostil às manifestações naturais da população e da mídia à sua presença, haja vista a figura pública que ele encarna.
Mas eu não me espanto. O Felipão utilizou-se de palavreado de baixíssimo calão contra o fotógrafo e seu trabalho, lá no terreno sagrado do Santuário, sob os olhares escandalizados da santa que teoricamente foi homenagear, por uma simples razão: xingar e mandar as pessoas irem para “aquele lugar” são atitudes que, infelizmente, são encaradas como “naturais” no ambiente futebolístico. Prova disso é aquele outro fato recentemente ocorrido também aqui em nossas plagas serranas, que abordei em crônica recente, quando torcedores do Esportivo de Bento Gonçalves agrediram o árbitro com palavras e atos racistas em partida do Gauchão. Chamado às contas, um dos acusados, na tentativa de se defender, afirmou que não proferiu frases racistas, mas que apenas fez “xingamentos normais contra o juiz”. Xingar, então, é considerado “normal” no futebol por torcedores, jogadores, treinadores e todos os demais personagens das tramas desenvolvidas nos gramados.
O problema é que tudo aquilo que se transforma em “normal” devido ao uso comum, mesmo não o sendo (matar é “normal” nas guerras; estuprar também; justiçar com as próprias mãos é “normal” no submundo do crime e por aí vai), acaba virando regra de conduta, e é aí que mora o perigo. O xingamento, no cenário do futebol, de tão corriqueiro que é, se transformou em banal e usual. O problema é que o uso comum cria a falsa impressão de normalidade, levando as pessoas envolvidas a esquecerem que normal é que não é. Pode ser corriqueiro, mas não é normal, nem aceitável, nem louvável, muito menos justificável.

Daí a irmos nos xingando no trânsito, no trabalho, em casa, na escola, na vida, nos santuários, é só um passo. Driblar essa falsa normalidade é o desafio que se impõe às celebridades como Felipão e a cada um de nós.
(Crônica publicada no jornal Pioneiro em 7 de maio de 2014)