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quinta-feira, 10 de julho de 2014

Fiasco de quem?

Eis que então caiu a máscara e pudemos, terça-feira, visualizar a verdade nua e crua: as zebras, no fim das contas, éramos nós! Não a Nigéria, a Argélia ou a Costa Rica, mas sim a trôpega e prepotente Seleção Brasileira, que resolveu fazer história pelo avesso, espalhando pistas sobre suas intenções já na primeira partida contra a Croácia, ao estrear sua avacalhada participação na Copa do Mundo com um gol contra.
Aliás, foi justamente o temor de protagonizar pirâmides de gols contra no processo de acolher os visitantes estrangeiros para a Copa, devido às conhecidas precariedades estruturais do país, que pautou a maioria dos debates anteriores ao início da competição. Porém, o que se viu foi que nossa verdadeira fragilidade não residia na capacidade externa de maquiarmos momentaneamente nossas mazelas para receber bem os turistas. Nossa real fragilidade situava-se mesmo era dentro de campo, quando a nossa essência teve de ser revelada, mostrando aquilo que somos: infantis, perdedores, messiânicos e descomprometidos. Acreditamos que nossos problemas e desafios solucionam-se a partir de passes de mágica.
A Seleção Brasileira de futebol se equivale à classe política brasileira (a quem tanto criticamos), uma vez que tanto uma quanto a outra é composta por brasileiros iguais a nós todos. Ambas nos representam fielmente; ambas são espelhos de nossas essências e refletem exatamente aquilo que somos. O que se viu em campo terça foi um embate entre a seleção do “jeitinho” e a seleção do trabalho árduo e focado. Só que o tal “jeitinho” não funciona mais, nem no futebol e nem em qualquer outro aspecto da vida humana, ocupando cada vez menos espaço no mundo civilizado, que se pauta pelo empenho, pela dedicação, pelo suor, pela constância de propósito, pela convicção de que os bons resultados advêm da entrega plena, e não da vontade de deuses, de santos, de salvadores da pátria, de golpes de mágica redentores do fracasso, do descompromisso e da vagabundagem.

Depois do jogo, as pessoas passaram a externar vergonha por serem brasileiras. Sim, com certeza que sim. Mas a goleada sofrida pela Seleção Brasileira frente à Alemanha é o menor dos problemas que devem nos envergonhar, só para situar a coisa dentro de seus devidos lugares. Agora temos eleições, por exemplo. Momento crucial para apontarmos aqueles brasileiros que vão representar a todos nós nos próximos anos. Há muito a fazer para que deixemos de tomar goleada da civilização. A começar pela mudança de nossas posturas pessoais no trânsito, no trabalho, em família, no dia-a-dia. Deixemos de ser hipócritas: os políticos são iguais a nós. Os fiasquentos da Seleção, também.
(Crônica publicada no jornal Pioneiro em 10 de julho de 2014)

domingo, 6 de julho de 2014

O direito delas

Amigo leitor, aproxime-se. Venha cá, sente-se aqui, ao lado. Sim, sim, o assunto é sério, foi por isso que o chamei. Quer um café para acompanhar a conversa? Melhor não, café é estimulante, excitante, pode deixá-lo nervoso. Garçom, uma água sem gás, por favor. Isso, perfeito. E aí, como vai indo a vida, a família, tudo bem? E a esposa? Vai boa? Pois então, é sobre ela que quero falar. Não, não, calma, nada disso, não se antecipe aos fatos. Relaxe aí na cadeira e me escute.
Lamento sinceramente, estimado leitor, ter de ser eu a fazer a revelação, mas existem responsabilidades que acabam recaindo sobre as costas de quem se dedica a burilar textos em colunas de jornais conceituados como este, e não há como se furtar de cumpri-las. Vamos, pois, a elas. Espero que assimile da melhor forma possível. Olha só, leitor, reflita comigo: sabe os jogos da Copa do Mundo, pois não? Você certamente percebeu o súbito interesse da sua patroa pelas partidas da Copa, não foi? De repente ela estava ali, com a tabela dos jogos nas mãos, sabendo melhor do que você o horário do jogo entre Portugal e Gana, não foi assim? E você ali, encantado com ela, pensando que finalmente surgira nela aquele interesse pelo nobre esporte bretão, moldando-se enfim a companheira com quem poderia passar a discutir as agruras do Gauchão e os acertos da direção de seu time no período de contratações para a nova temporada do Brasileirão.
Sonho seu, leitor ingênuo, sonho seu, nada disso. Mais uma água, isso, isso. Sabe o que é que despertava a atenção dela, e de todas as outras mulheres, a ficarem de olhos vidrados nas telas dos televisores durante os jogos? O tórax do Cristiano Ronaldo, meu querido leitor torcedor. Sim, senhor, elas olham para isso, especialmente nesses períodos de Copa do Mundo. E tem mais: não é a bola que elas estão acompanhando avidamente com o olhar, mas sim as dezenas de pares de gambitos dos jogadores que correm atrás dela pelo gramado. É por isso que elas não sabem se foi escanteio ou tiro de meta, meu amigo. Elas estavam olhando era para a calipígia avantajada do Hulk.
Você não viu em todos os sites, blogs, jornais e revistas, as votações abertas para eleger os musos da Copa? Quem você acha que propõe esse tipo de pauta? As mulheres jornalistas, meu querido, que se divertem à larga com o desfile de musos atléticos pelas telinhas nesse período. É isso aí... caiu na real, né? Pois é, as mulheres estão cada vez mais vivas e um dos mais importantes direitos que conquistaram foi exatamente esse: o de se divertirem. Calma, calma, vai trincar a borda do copo, larga, não fica mordendo, tá parecendo o Suárez...
(Crônica publicada no jornal Pioneiro em 5 de julho de 2014)

sexta-feira, 27 de junho de 2014

Fome, só por bola

Jamais. Jamais uma mordida de um ser humano em outro será justificável. A não ser em casos em que a prática esteja inserida em um contexto de demonstração de afeto, aquela coisa “mordidinha carinhosa”, que os casais apaixonados bem conhecem. Mas é só. Fora isso, uma pessoa atracar a dentadura no corpo de outra é crime de lesa civilização. E se mordeu, precisa responder pela consequência de seu ato canibalístico.
Essa é a discussão que se impôs desde a tarde de quarta-feira, quando percorreu o mundo a imagem do jogador uruguaio Luis Suárez cravando os caninos no ombro do italiano Chiellini, em partida da Copa do Mundo que despachou a seleção italiana de volta para a bota europeia. Além da humilhação da má performance do escrete tetracampeão mundial, Chiellini leva de volta na bagagem as marcas da dentadura do uruguaio tatuadas em seu ombro. Lamentável. Pior quando se fica sabendo que Suárez é reincidente na prática da mordida nos adversários dentro das quatro linhas. Em não havendo punição exemplar, estará aberta a porteira para o futebol ir se tornando uma disputa entre rottweilers e pittbulls... ganha quem morde mais. Ruim, hein?
O boxeador Mike Tyson também entrou para os anais do esporte maculado por bocanhadas ao cravar os dentes na orelha de Evander Holyfield no ringue em 1997. Cena dantesca, melhor nem ser lembrada. Nada disso se justifica. Meu afilhado de dois aninhos, dia desses, foi mordido por um coleguinha dele na escolinha, no dia em que todos deveriam levar brinquedos de casa e emprestá-los entre si, para irem aprendendo a noção de partilhar. Meu afilhado levou um cavalo garboso e o tal coleguinha quis adonar-se dele. Meu afilhado quis proteger a propriedade de seu cavalo e levou do coleguinha mordida nas costas. Mas são crianças, o episódio faz parte do processo de aprendizado, apesar de também precisar ser imediatamente identificado e coibido.

Eu já tinha uns bons duns dez anos de idade quando cravei meus dentes com toda a força do mundo nos dedos do dentista que enterrava uma broca malvadíssima dentro de uma cárie em um dente meu, naquelas cadeiras de dentistas sem anestesia dos anos 1970, em Ijuí. Lacrei a boca e meti-lhe a dentadura, para que ele provasse da dor que estava me causando. Foi mal, lembro da marca dos meus dentes nos dedos gorduchos dele, e da cara de apavorado que fez. Eu não devia ter feito isso, e nem serve de exemplo para nada. Cravar os dentes não é civilizado, a não ser para degustar um hambúrguer ou uma costela bagual. Ademais... que gosto ruim a orelha do Holyfield, o ombro do Chiellini, o dedo do meu dentista... As costinhas do afilhado... bom... ele é fofo... até eu morderia... É o único caso justificável.
(Crônica publicada no jornal Pioneiro em 27 de junho de 2014)

domingo, 22 de junho de 2014

Gol contra nas alturas

Coitado do Mario Sergio Conti. Fiquei com pena dele, do mico pelo qual passou, ainda mais por ter pagado esse mico por pura ingenuidade pessoal ou por desinformação mesmo, o que, no caso dele, é grave, uma vez que se trata de jornalista conceituado no centro do país. Eu, assim como boa parte dos meus leitores, não sabia quem era o Mario Sergio Conti, até o mico dele ter virado notícia nacional esta semana. Ruim, isso, virar notícia nacional devido a mico pago. Daí que me deu pena.
Pois aconteceu de o Mario Sergio Conti, colunista do jornal “O Globo” e da “Folha de São Paulo/UOL”, apresentador da Globonews, embarcar em um voo na ponte Rio-São Paulo poucos dias atrás e pimba, dar aquela sorte de jornalista, de se sentar exatamente ao lado do técnico da Seleção Brasileira, Luiz Felipe Scolari! Conti não teve dúvidas: aproveitou os cerca de 40 minutos do voo e arrancou declarações interessantes do treinador em plena competição, como a de que “se tivéssemos três jogadores como o Neymar, a Copa seria uma tranquilidade”.
Foi “tá e pá”! O avião aterrissou e Conti voou para a redação, a colocar nos sites dos órgãos de imprensa para os quais trabalha as bombásticas declarações quentíssimas e exclusivas que obtivera do Felipão, seu colega de voo. Só que... só que não era o Felipão, gente. O técnico da Seleção Brasileira não fica pegando voo sozinho na ponte aérea Rio-São Paulo, especialmente em pleno andamento da Copa do Mundo, né. Tratava-se de um sósia. O jornalista Conti entrevistou ninguém menos do que Wladimir Palomo, sósia de Felipão que, inclusive, faz ponta no programa “Zorra Total”, da Rede Globo. Xii... que mico!
Tudo bem, o engano foi logo desmentido, não houve gravidade alguma, exceto a bola fora do jornalista. Mas eita que sósia mais competente esse, não? Eu, ao ler a notícia, não tive dúvidas: levantei da sala e corri ao espelho do banheiro para fitar a mim mesmo, imaginando qual a personalidade famosa pela qual eu seria capaz de me fazer passar. “Brad Pitt... David Beckham... Tarcísio Meira... Godzilla não vale, que sou melhor do que o original... Justin Bieber...”. Nisso, minha esposa passa pelo corredor, vê a cena e dispara: “Ah tá vendo? Tá horrível mesmo, né? Quando é que vai cortar esse cabelo?”.

Felizmente, eu tenho quem me traga de volta à realidade. Foi o que faltou ao lado do Mario Sergio Conti naquele voo, aquele dia...
(Crônica publicada no jornal Pioneiro em 21 de junho de 2014)

segunda-feira, 16 de junho de 2014

De olho na zebra

O que gosto mesmo nesses jogos de Copa do Mundo é das zebras. Tem algo mais delicioso do que ser surpreendido por uma seleção campeã do mundo levando uma goleada histórica já na sua partida de estreia, como o que aconteceu com a Espanha, batida em 5 a 1 pela Holanda, dias atrás? O que se espera de uma partida entre essas duas potências europeias do futebol é um embate equilibrado de forças, resultando em um palatável empate de zero a zero, 1 a 1, ou mesmo uma vitória sofrida de um dos escretes por um placarzinho apertado. Mas jamais 5 a 1! Zebra, total.
Isso sem falar dos países costeiros, que nessa arrancada de Copa do Mundo no Brasil decidiram brilhar um pouco. Tipo assim: se for para fazer figuração, vamos pelo menos incomodar e chamar a atenção. E chamam a atenção materializando as zebrinhas nos gramados. Que o digam os uruguaios, que estrearam perdendo de 3 a 1 para a equipe da Costa Rica. Se dependesse desse palpite para ficar rico na Loteria Esportiva, ninguém levaria o prêmio. Até porque, ninguém mais fica rico na Loteria Esportiva, né, já que estamos a falar em zebras...
E abram os olhos quando a Costa do Marfim entrar em campo. Basta ver o que fizeram com os japoneses no sábado à noite, vencendo a seleção do país do sol nascente por 2 a 1, de virada. Por mais que Zico tenha ensinado o Japão a jogar futebol, quem andou aprendendo melhor as lições foram os marfinenses mesmo, emplacando mais uma zebra nesse início de competição. Adoro essas zebras. Exceto quando envolvem a Seleção Brasileira.
O gol contra do Brasil contra o Brasil na primeira partida nossa, contra a Croácia, me causou um calafrio antártico na espinha. Estrear com gol contra, em casa, na tão sonhada segunda Copa do Mundo no Brasil, não é apenas uma zebra, mas uma manada zebrada. Felizmente a situação foi revertida em tempo de o azar inicial passar batido, uma vez que vencemos a Croácia e levamos os três pontos, como era de se esperar. Mas o aviso foi dado e é preciso estar alerta. As zebras têm como hábito rondar os estádios de futebol camufladamente. Elas desenvolveram táticas especiais para se infiltrarem nos estádios burlando a segurança e, quando a gente se dá por conta, lá estão elas, dentro do gramado, pintando (em listras brancas e pretas) e bordando gols para quem menos se espera.
Zebra no placar dos outros é divertido. Mas quando elas começam a forçar a cerca do quintal da nossa casa, é preciso estar alerta. Quando se trata de Seleção Brasileira, sou conservador: prefiro a lógica. E a lógica, nesse caso, é Brasiu-iu-iu-iu-iu...

 (Crônica publicada no jornal Pioneiro em 16 de junho de 2014)

domingo, 15 de junho de 2014

Foi, não foi...

“Quer pipoca? Posso fazer pipoca rapidinho, no micro. Tudo a ver, partida da Seleção com pipoca”.
“Sim, pode ser, amor, só sai de frente da tevê porque já começou, tá legal”?
“Ó, pipoca. Um pote pra você e um para mim. Bah, e se a gente pendurasse uma bandeira na janela? Toda a rua está embandeirada, menos nós. Lembra que a gente tem aquela bandeira do Brasil? Onde será que ela está”?
“Agora não amor, depois do jogo a gente procura e coloca. Agora senta aqui do lado no sofá e assiste comigo a partida”.
“Baaahhh! Falta no Neymar! Por que o juiz não marcou a falta? Ladrão! Sacana! De onde é esse juiz? Vai ver nem jogam futebol no país dele”!
“Não foi falta, amorzinho, foi lance normal. Futebol é assim. Jogo de contato”.
“Mas antes foi igual e você disse que foi falta, e ele também não marcou”.
“Sim, mas ele deu a lei da vantagem. O jogador que sofreu a falta recuperou rápido a bola e armou o ataque do time. Não tinha por que parar a jogada”.
“Ah, nada a ver. Olha lá, agora” Agora ele marcou falta, só porque foi um dos nossos que fez”!
“É que agora foi falta mesmo, amorzinho”.
“Mas foi a mesma coisa que antes”!
“Não foi. Foi diferente”.
“Ah tá. Quem é que entende? Isso lá são regras”?
“Mas é assim. Até agora, tudo certo, o juiz não errou”.
“Olha lá! Olha lá!!! Olha o Fred! Goooolll!! Goooooooooooll!!! Por que você não vibra?”
“Calma, amor, senta. Não foi gol, não valeu. O Fred estava impedido, olha lá. O jogo segue normal”.
“Mas que... como que não foi gol? A bola não entrou lá? Eu vi entrando”!
“Sim, entrou, mas o Fred estava impedido. O bandeirinha já tinha levantado a  bandeira, não valeu nada”.
“Ah tá... Agora essa. Que eu saiba, se chuta e entra é gol. Que que é isso agora? Depois tu me vem com essa de que beisebol e futebol americano é que são esportes que têm regras esdrúxulas. E quem é que entende isso aí”?
“Amor, senta, por favor... sai de frente da tel... putz... olha lá! Gol do Brasil e eu não consegui ver!!!”
“Ah, agora é gol, é??? Agora é???”

“...Amor... por favor... vai lá fazer pipoca, vai...."
(Crônica publicada no jornal Pioneiro em 14 de junho de 2014)

sexta-feira, 13 de junho de 2014

Os nervos da Tia Edewiges

Tia Edewiges era uma anfitriã esmerada. Eu me lembro da Tia Edewiges mordida nos calcanhares nos dias em que meu tio telefonava do trabalho dizendo que à noite levaria o sócio e a esposa para jantarem em casa, para ela preparar alguma coisinha qualquer, sem maiores cerimônias, que o Palhares não era de cerimônias, ela sabia disso, mas a mulher do Palhares, essa sim, era metida a fina e não desempinava aquele nariz arrebitado nunca, e era importante dar uma aduladinha no Palhares, afinal, era sócio majoritário na firma e essa coisa de estreitar relações sempre é importante para colher no futuro e, quem sabe, depois de uns uisquezinhos, o Palhares não afrouxava a guarda e concordava em assinar aquele empréstimo...
Era o que bastava para deixar a Tia Edewiges em pânico. Para ficar “mordida nos calcanhares”, como ela própria dizia. E ficava mesmo, pois só o que se via pela casa, a partir daquele momento, eram os calcanhares da Tia Edewiges socando as tábuas do piso dos cômodos, de lá para cá, metralhando ordens para a coitada da Loris, a empregada, que tinha de deixar os trabalhos usuais do dia e correr atrás das tarefas que Tia Edewiges ia empilhando. “Descasque as batatas que vou fazer um purê, porque sei que a dona Lavínia, mulher do Palhares, gosta de coisa fina e purê de batatas igual ao meu quero ver se ela vai encontrar nesses restaurantes do estrangeiro por onde desfila”, gritava da sala a Tia Edewiges para a Loris, na cozinha.
Uma descascava as batatas e a outra ia organizando a louça e os talheres sobre a toalha branca rendada que só era içada do fundo da gaveta no Natal, no Ano Novo e nas vezes em que desejavam impressionar no jantar. Purê de batatas e estrogonofe era o que Tia Edewiges maquinava para o cardápio, numa época em que pratos assim representavam o suprassumo da finura.

O fato é que Tia Edewiges não conseguia relaxar um só segundo quando se via investida na condição de anfitriã. Detalhista e ansiada, desejava que tudo corresse às mil maravilhas, desde os cajuzinhos e amendoins servidos na entrada até o cafezinho ao final do ágape. No fundo, ela compartilhava essa sensação universal de que é muito melhor, mais leve e mais divertido ser convidado e hóspede do que ser anfitrião. Talvez seja por isso que estejamos, nós, brasileiros, meio tensos com essa coisa de Copa do Mundo aqui em nossa casa. Ao longo dessas semanas, somos 200 milhões de Tias Edewiges, mordidos nos calcanhares.
(Crônica publicada no jornal Pioneiro em 13 de junho de 2014)

quinta-feira, 12 de junho de 2014

Os convocados em cena

Então, a Croácia. Hoje de tarde, a partir das 17h, brasileiros gaúchos, brasileiros baianos, brasileiros nordestinos, brasileiros paulistas, cariocas, brancos, pretos, mulatos, de todas as descendências e sotaques, ricos e pobres, empresários ou desempregados, jovens, crianças e velhos, estudantes e trabalhadores, estaremos todos envolvidos no verde e amarelo que nessas ocasiões elimina nossas diferenças para torcermos juntos pela Seleção Brasileira de Futebol contra o primeiro adversário que se apresenta para ser superado rumo à sonhada conquista do hexacampeonato. O nome dele é Croácia.
A Croácia, agora sabemos (ou, ao menos, deveríamos), é um país da Europa Oriental, desmembrado da antiga Iugoslávia, que veio abaixo e se fragmentou na década de 1990. Houve guerras e conflitos internos sérios naqueles territórios naquela época, que ganharam as manchetes internacionais devido à violência e às atrocidades registradas. Felizmente, hoje a Croácia está estabilizada e é a segunda maior economia da região dos Bálcãs, ficando atrás apenas da Grécia. A capital do país é Zagreb. A língua oficial é o croata. A maioria dos croatas é composta por católicos (mais de 80% da população, que é de pouco menos de 5 milhões de habitantes).
Informações como essas são fáceis de achar nos dias de hoje, especialmente com as ferramentas de busca da internet. Três décadas atrás, por exemplo, era um pouco mais trabalhoso obter dados sobre os primeiros adversários do Brasil em uma Copa do Mundo, como na de 1982 na Espanha, a primeira que eu acompanhei detalhadamente. Naquela ocasião, em que a Seleção Canarinho de Sócrates, Zico e Falcão encantava o mundo com o futebol-arte e se habilitava a trazer o tetracampeonato para o Brasil (o que não aconteceu por causa da performance da Azurra, a Seleção Italiana), foi mais difícil descobrir os perfis de países como Nova Zelândia, Escócia e União Soviética. Tive de mergulhar nos pesados volumes da Enciclopédia Delta Larousse e folhear as páginas do Almanaque Abril para me situar.

Agora, nesta Copa de 2014, que hoje tem seu pontapé inicial, as buscas google em todo o planeta convergem para suprir com dados a curiosidade de torcedores do mundo inteiro, interessados em desvendar os mistérios do país que sedia o certame. Vai saber o que vão encontrar sobre nós por aí, na rede. Nosso telhado de vidro está exposto ao mundo, e nossa responsabilidade em fazermos bonito extrapola, em muito, a dos 23 jogadores convocados. A convocação é para 200 milhões de brasileiros. E a meu ver, deveria ser permanente.
(Crônica publicada no jornal Pioneiro em 12 de junho de 2014)

segunda-feira, 9 de junho de 2014

Clima verde e amarelo

Aos poucos, o cenário verde-amarelo vai se avolumando pelas ruas e calçadas da cidade. Agora sim, faltando três dias para a abertura da competição sediada no nosso país, dá para dizer que o “clima de Copa” começa a surgir. Funcionários de uma loja vestem-se com as cores da bandeira nacional; bandeirinhas verdes e amarelas enfeitam a fachada de empreendimentos comerciais e os quintais de algumas casas; bandeiras do Brasil começam a ser estendidas nas janelas dos apartamentos. Sim, começamos, enfim, a respirar Copa.
Mas por que razão demorou tanto para que isso acontecesse? Será que até nesse quesito a tão propalada mania do brasileiro em deixar tudo para a última hora se manifesta, ou o furo será mais embaixo? Eu acho que é questão de furo mais embaixo, sim, porque o brasileiro até pode ser desligado e desorganizado em muitas coisas, mas jamais em função do futebol, essa sim, a paixão nacional incontestável. O brasileiro chega atrasado a reuniões importantes, aos encontros marcados de qualquer natureza, ao início dos espetáculos culturais, aos jantares, às solenidades, à cerimônia de casamento (dos outros e de seu próprio), a tudo. Menos às partidas de futebol.
Pode ver: em dia de jogo, a movimentação dos torcedores em torno dos estádios tem início muitas horas antes do começo da partida. Ninguém quer chegar atrasado ao jogo. Até porque, é preciso chegar antes para poder xingar o juiz em sua entrada em campo, já que xingar também faz parte da cultura nacional, como bem temos visto por aí ultimamente. Portanto, como vemos, a razão pela demora no desfraldar das bandeiras verde-amarelas e da adoção do “espírito da Copa” por parte dos brasileiros deve ter outro motivo.
E eu acho que sei qual é. Ao menos, tenho lá meu palpite, uma vez que também nessa coisa de palpites nós, brasileiros, somos feras. O meu palpite é de que demoramos para embarcar no espírito da Copa porque, até agora, tínhamos mais o que fazer. Afinal, somos brasileiros, somos trabalhadores, nada cai de graça no nosso colo. Se não somos criminosos e nem corruptos (e a maioria de nós não é, felizmente), precisamos trabalhar duro para ganhar a vida, uma vez que somos achacados o ano todo pelos impostos extorsivos, pela inflação dissimulada, pela precariedade dos serviços públicos essenciais, pelos problemas no transporte e na saúde, pela falta de segurança, por todas essas questões que fazem o dia-a-dia dos brasileiros se parecer com uma corrida de obstáculos.

Mas, agora, faltando pouco para o início do espetáculo, entramos, sim, no clima da Copa e vamos torcer pelo bom desempenho da Seleção Brasileira. Porque somos brasileiros. Nada nos cai de graça no colo, mas podem contar sempre conosco. Vamos lá, queremos o hexa.
(Crônica publicada no jornal Pioneiro em 9 de junho de 2014)

quarta-feira, 30 de abril de 2014

Kit básico para a Copa

Falta apenas um mês e meio para a chegada do dia 12 de junho, data em que terá início a Copa do Mundo sediada aqui no Brasil. De lá até 13 de julho, o país sorverá um mês inteiro de futebol, cujas partidas serão transmitidas para quase todo o planeta, em uma celebração esportiva das mais significativas. Até aí, tudo bem, é isso aí mesmo. Mas...
Sabemos que a retumbante maioria das pessoas, por uma simples questão de lógica espacial e física, não conseguirá assistir às partidas de corpo presente, nos estádios. Isso será um desfrute reservado a apenas alguns milhares que terão disponibilizado tempo, dinheiro e proatividade no sentido de liberar suas agendas, obter os ingressos, fazer reservas em hotéis, comprar as passagens aéreas, essas coisas. Nós, os integrantes da mastodôntica maioria, vamos mesmo é alugar, no máximo, o melhor lugar no sofá da sala defronte à televisão e mandar ver no controle remoto (cujo botão ficará lacrado no canal esportivo de nossa preferência durante todo o período).
Mas também para isso se fazem necessárias certas providências e é bom o amigo já ir se alertando. Não preciso ser eu a dizer que seria aconselhável já ir organizando os estoques de cerveja, refrigerante, linguicinha, sorvete e sacos e sacos de pipoca, enfim, essas porcarias todas que, via de regra, consumimos quando estamos com os olhos vidrados na frente da televisão acompanhando os maus tratos desferidos contra a pelota dentro das quatro linhas. Fazemos isso ao longo dos anos acompanhando nossos campeonatos estaduais, nacionais e continentais, e temos uma certa experiência no negócio.
Porém, em uma Copa do Mundo, a coisa muda, parceiro. Seu sofá e sua sala serão inundados por pessoas (esposas, namoradas, parentes em geral, vizinhos e amigos) que, via de regra, não estão nem aí para o futebol. Mas quando chega uma Copa do Mundo, a cada quatro anos, se transvestem de torcedores fanáticos, sentam ao seu lado, comem da sua pipoca, secam a sua cerveja, vibram na hora errada e ficam dando pitacos ilógicos provenientes de quem não entende patavinas das regrinhas básicas do esporte. E lá vai você, explicar a diferença entre tiro de meta e escanteio; explicar o inexplicável impedimento (impedimento, bem o sabemos, é uma questão de sensível percepção macro da coisa toda); informar o placar a cada dois minutos, essas coisas que nos torram a paciência.

Pois, então, amigo leitor torcedor: previna-se. Junto com os estoques de produtinhos básicos para emporcalhar seu sofá, vá desde já acumulando estoques ilimitados de paciência. Vai precisar de muita.
(Crônica publicada no jornal Pioneiro em 30 de abril de 2014)

segunda-feira, 3 de junho de 2013

Reflexão copeira

Quando a Seleção Brasileira conquistou a Copa do Mundo no México, em 1970, eu estava a duas semanas de completar quatro anos de idade e meus maiores interesses giravam em torno de um Pato Donald de plástico em cujo bico eu fizera um furo a fim de alimentá-lo com restos de minha própria comida, o que fez o brinquedo passar a cheirar muito mal algum tempo depois e ser descartado no lixo.
Da Copa de 1974 eu recordo vivamente da partida final entre Holanda e Alemanha Ocidental porque era domingo, 7 de julho, véspera de meu aniversário, e havia festa lá em casa devido à data. Porém, todas as atenções dos homens adultos estavam voltadas ao televisor posicionado próximo à mesa com docinhos, refrigerante e o bolo de meus oito anos. A Alemanha sagrou-se bicampeã mundial e recordo de meu avô paterno festejando muito tudo aquilo e comentando a qualidade do jogador Beckenbauer.
Na de 1978, realizada na Argentina, eu já era mais grandinho, tinha consciência de ser gremista e sabia até os nomes de alguns jogadores não só do escrete nacional como também da seleção anfitriã, como Kempes, Luque e Passarela. Uma televisão era instalada na sala de aula para acompanharmos os jogos da Seleção Brasileira e foi ali que comecei a aprender a torcer, observando as reações de meus colegas.
A Copa de 1982 foi a primeira que acompanhei de fato. Decorei a escalação da Seleção, colei com Cola Tenaz em um álbum as figurinhas dos jogadores de todas as equipes e assisti a todas as partidas que pude. Sofri sozinho em casa a desclassificação da Seleção Canarinho sob o chute certeiro do italiano Paolo Rossi. Era uma tarde nublada de segunda-feira, e meu estado de espírito também se acinzentou com aquele resultado adverso. Foi a primeira vez em minha vida que o futebol estabeleceu comunicação direta com a minha alma e me integrei para sempre à imensa população mundial que sofre e festeja com as derrotas e as conquistas de seus times do coração.

Agora adulto, torço é para que, muito além do futebol, os brasileiros possam dar exemplos de cidadania ao sediarem ano que vem, uma Copa do Mundo, a ponto de podermos sair orgulhosos do evento, independentemente do resultado que nossa Seleção obtiver nos gramados.
(Crônica publicada no jornal Pioneiro em 31 de maio de 2013)

segunda-feira, 20 de maio de 2013

Banhadinhos e sorridentes


Vamos, nós, brasileiros, sediar uma Copa do Mundo no ano que vem e uma Olimpíada daqui a três anos. Centenas de milhares de turistas de todas as partes do planeta virão ao nosso país, atraídos pela realização dos dois mais significativos eventos esportivos mundiais da atualidade. Especialmente em função da Copa, a movimentação pode até mesmo vir a respingar diretamente em municípios da Serra Gaúcha, postulantes a sediar o abrigo a alguma seleção estrangeira na primeira fase da competição.
Glup, que medo!
Somos, nós, brasileiros, na maioria dos casos, bastante conscientes e autocríticos de nossas falhas e limitações em vários (senão todos) aspectos estruturais e (especialmente) culturais que podem nos deixar de saia justa e nos fazer passar uma astronômica vergonha perante o mundo, desnudando as mazelas que historicamente nos afligem. Tenho visto pela mídia a preocupação de formadores de opinião com as questões relativas a esse problema, convocando todos nós, brasileiros, a assumirmos nossa parcela pessoal de responsabilidade perante esses eventos, colaborando para, pelo menos durante esses períodos, transformar o Brasil em uma nação palatável e remotamente civilizada.
Para isso, estamos sendo convidados desde já a passarmos a praticar desde singelos gestos do cotidiano, como não jogar lixo nas calçadas e dirigir com responsabilidade, até ações estruturais como aeroportos modernizados, estradas decentes, segurança nas ruas e assim por diante. Ou seja, da noite para o dia, somos conclamados a nos civilizarmos, a deixarmos a barbárie egoística e inconsequente que rege nosso comportamento no cotidiano para aparecermos limpinhos, penteadinhos e sorridentes aos nossos futuros visitantes.
Vai ser difícil, pois trata-se de uma questão (in)cultural nossa, mas concordo que vale a pena o esforço. Depois que eles se forem, podemos retornar alegres e aliviados ao nosso verdadeiro estado incivilizado de ser, regidos que somos pela não-cidadania e pelo conjugar de todos os esforços possíveis em proveito próprio, ralando-se a ética e as regras básicas de convivência. Depois, podemos voltar a ser brasileiros. A não ser que, por algum milagre, passemos a apreciar a fugaz experiência da civilidade. Afinal, tudo pode acontecer...
(Crônica publicada no jornal Pioneiro em 17 de maio de 2013)