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sexta-feira, 7 de março de 2014

O xeque presente

Não era Natal, não era meu aniversário, tampouco Páscoa ou Dia das Crianças. A surpresa, portanto, foi muito intensa quando meu avô paterno chegou lá em casa para o tradicional chimarrão de sábado à tarde me trazendo dois pacotes de presente. Eu tinha 13 anos de idade e, junto com os embrulhos, recebia também uma importante lição, pois o que meu avô estava fazendo era o cumprimento de uma promessa.
Rasguei os papéis de presente e saltaram aos meus olhos o refinadíssimo estojo contendo 32 peças torneadas em madeira e com as bases de feltro vermelho, acompanhado pelo elegante tabuleiro. Tudo de primeira linha. Um jogo de xadrez completo, lindo, e meu. “Prometi que te daria quando tu me vencesses pela primeira vez no xadrez”, explicou meu avô. Eu não me lembrava da promessa dele, uma vez que a fizera “em passant” em uma remota tarde, um ano antes, quando se dispusera a sentar comigo e me explicar as regras básicas do jogo que, desde então, passou a me fascinar.
As aulas de xadrez haviam sido transformadas em ritual entre neto e avô. Todas as terças-feiras de tardinha eu saía de casa com minha irmã a tiracolo e cruzávamos a pé as seis quadras que nos separavam da residência dos avós. Lá, ganhávamos janta e, depois, meu avô e eu subíamos as escadas até seu escritório, onde o tabuleiro já armado nos aguardava. Minha irmã, nesse ínterim, ficava lá embaixo, na sala, jogando moinho com minha avó. Disputávamos uma partida de xadrez (que eu invariavelmente perdia, pois o propósito era aprender com os erros) e depois uma de damas, “para relaxar”, conforme ele dizia.
Certa noite, dei-lhe um xeque-mate. Quando fiz o movimento ameaçando seu rei e falei a frase, ele retesou o corpo na cadeira, empertigou-se, colocou a mão no queixo, analisou a situação em silêncio e, por fim, derrubou com um toque o próprio rei, dando-se elegantemente por vencido. Parabenizou-me, desceu as escadas relatando o meu feito, satisfeito. Duas semanas depois, veio o presente, que guardo até hoje como símbolo de que promessas devem ser cumpridas.

Sorte a do norueguês Magnus Carlsen, o supercampeão mundial que está em Caxias como convidado do Torneio Aberto Internacional de Xadrez da Festa da Uva, que eu não segui carreira nos tabuleiros enxadrezados. Optei por ir dando xeque-mates na vida mesmo.
(Crônica publicada no jornal Pioneiro em 6 de março de 2014) 

quinta-feira, 5 de setembro de 2013

Amanhã fico bom

Quando eu era criança, acreditava piamente que meu avô materno era uma espécie de super-herói, invulnerável e imbatível. Eu escutava as histórias que ele contava e o enquadrava como um ser especial entre os personagens do mundo que aos poucos ia se abrindo aos meus olhos. Nesse aspecto, eu estava coberto de razão.
Certa feita, na fazenda que ele tinha no interior de São Borja, passou a manhã inteira serrando toras de madeira com a motosserra e só parou quando minha avó, por volta de onze horas, pediu que ele matasse um pato para ser transformado em almoço. Apressado, resolveu fazer o serviço utilizando um revólver calibre 22 (tenente reformado do exército, possui licença especial para porte de armas). Escolheu aquele aparentemente mais saboroso e fez a mira. Porém, as mãos tremiam devido ao esforço contínuo com a motosserra, e decidiu apoiar os braços na forquilha de uma árvore, envolvendo a arma com as duas mãos.
 Refez a mira no pato e puxou o gatilho. O som do disparo, no entanto, foi “plé” ao invés do esperado “bang”. E o pato, ao invés de cair estatelado, fez “quá” de susto e seguiu andando. No dedo esquerdo de meu avô, todo ensanguentado, alojara-se a bala. Sem querer, envolvera o cano da arma com os dedos da mão esquerda e acabara desferindo um tiro no próprio indicador. Entrou em casa apressado, sob os questionamentos de minha avó: “Cadê o pato?”. E respondeu: “Um deles está lá fora, o outro, aqui dentro”. Sem se abalar, pegou um facão, arrancou o projétil fora, passou alguma coisa no dedo (Merthiolate, Cobrina, Frixal?), tomou um gole de algo (Olina, Underberg?) e foi dormir “que amanhã estaria bom”. A mesma frase e o mesmo método eu sei que ele usou outra feita, quando tirava mel das caixas de abelhas e foi atacado pelos insetos, levando diversas ferroadas. “Vou dormir que amanhã estarei bom”, dizia.
Seguindo esse mantra, de alguma forma, completará 90 anos de vida no início da semana que vem. Não recomendo seguir à risca suas atitudes em casos como esses. Essa gente nascida há quase um século era fabricada em moldes menos frágeis e delicados do que os nossos atuais. Mas também vinham imbuídos de uma maneira menos complicada de se relacionar com a vida. Essa, sim, é a parte que deveríamos aprender a seguir com mais atenção.

 (Crônica publicada no jornal Pioneiro em 5 de setembro de 2013)