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segunda-feira, 7 de setembro de 2015

Bendito dito

Diz o ditado popular que você não pode julgar um livro pela capa. Sim, concordo, todos concordamos. Aliás, é de lei concordar com a essência dos ditados populares. Qualquer pessoa municiada de bom senso concorda, afinal, o que os ditos ditados populares fazem é encerrar em si toda a carga conceitual de uma visão de mundo compartilhada pela esmagadora maioria da população. Por isso é que são populares. Os ditados impopulares, por outro lado, até tentam lá ditar as suas coisas, mas são refutados pelo gosto do povo e acabam sugados pelas bocas-de-lobo da História. Da História dos ditados populares, diga-se, mas não de passagem.
Ninguém vai sair por aí repetindo um ditado impopular, porque, em fazendo isso, estará incorrendo em uma contradição em si mesma, uma vez que o próprio ato de evocar o ditado, tirando-o da sombra, o populariza, e ele, de impopular que originalmente era, passa imediatamente a ser alçado à categoria de ditado popular, que é ao que todos os ditados, em última análise, aspiram. E não podemos ser condescendentes – e muito menos coniventes - com as aspirações escusas dos ditados impopulares. Nós, não, jacaré! Tenho dito!
Mas falávamos do dito ditado referente às capas dos livros, que são insuficientes para determinar a qualidade do conteúdo literário que envolvem. Uma capa de livro bela, atraente, bem transada, não significa que a literatura nele contida está em igual patamar em termos estético-literários. Às vezes, ocorre justamente o contrário, e então, estaremos comprando gato por lebre e trazendo à luz outro ditado popular que momentaneamente neutraliza e impopulariza o ditado anterior. É claro que uma capa bonita, bem transada, conforme já dito, tem o poder de nos aproximar do objeto livro, especialmente quando pouco sabemos a respeito da obra e menos ainda sobre o autor.

 É só depois de efetivado o contato inicial, viabilizado pelo poder de atração exercido pela cosmética da capa, que passaremos a conhecer em detalhes a consistência do conteúdo do livro. Disso dependerá nossa decisão de nos afastarmos dele, ou de nele mergulharmos, independentemente da capa. Eis aí a sabedoria popular do ditado, já que serve de metáfora óbvia para tanta outra coisa. Bendito aquilo que está bem dito, ponho-me aqui a criar ditado novo, para ver se populariza.
(Crônica publicada no jornal Pioneiro em 7 de setembro de 2015) 

sexta-feira, 10 de dezembro de 2010

Como dizia o velho deitado

Minha avó tinha um jeito peculiar de metralhar ditos populares. Digo que ela os metralhava para usar o verbo em dois sentidos metafóricos plenamente aplicáveis ao caso de minha avó com os ditos ditos. Ela os “metralhava”, primeiro, porque disparava vários deles durante o dia. Segundo, porque, abusando de uma liberdade de adaptação textual e conjuntural que ela mesma concedia a si própria, ela “metralhava” os ditados populares porque os destruía em seu formato original e os reapresentava renovados, por meio de uma singular e característica readaptação.
Recitando os ditos à sua própria maneira, ela involuntariamente os ressignificava, provendo-os de um alcance ainda maior em termos de uso metafórico do que aquele que o formato original da frase normalmente permitia. Vamos a um exemplo, que é o que o leitor está ansiosamente esperando, depois de tanta verborragia reteórica (uma mescla de retórica e teórica, para não dizer que não aprendi nada com a sabedoria de minha avó). Quando ela se deparava com alguém que não via há muito tempo, exclamava, sem pestanejar: “quem é vivo sempre desaparece”!
Não era exatamente isso o que ela queria dizer, como o leitor sábio e letrado pode de cara perceber. No entanto, a frase ganha novo significado, e tem lógica naquilo que acaba literalmente dizendo. É claro que quem está vivo um dia vai desaparecer. Só nunca foi necessário que minha avó o dissesse para que as pessoas o soubessem, lógico...
Quando retornava do instituto (porque no tempo de minha avó, as mulheres iam se embelezar era no instituto, não na manicure e muito menos na cabeleireira ou no hair stylist), abastecida das mais recentes fofocas cabeludas do bairro, vinha relatando alegremente os “causos” reforçando que, lá no bairro, “só se fala em outra coisa”, quando o que realmente queria dizer era que não se falava em outro assunto.
Na verdade, nunca soube se ela desvirtuava as frases feitas deliberadamente, motivada por algum secreto sarcasmo, ou se de fato se enganava, produzindo acidentalmente as expressões que eu tanto apreciava e que abriram as picadas de minha visão sobre o potencial infinito da linguagem. Também nunca ousei perguntar enquanto ela vivia. “Agora, Inês é torta”, como ela seguramente diria...
(Crônica publicada no jornal Informante, de Farroupilha, em 10/12/2010)