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segunda-feira, 23 de abril de 2018

Uma amizade transformadora


Ele é meu grande amigo, parceiro, companheiro e conselheiro. Travamos relações íntimas e amistosas há mais de meio século, desde que vim ao mundo. Multifacetado, apresenta-se a mim diariamente sob formas variadas, surpreendendo e colaborando para a ampliação de minha visão de mundo. Frequenta minha casa, onde é sempre bem-vindo e tem lugar de honra garantido devido à importância que sua presença exerce sobre os rumos de minha vida. É silencioso, mas estabelece comunicação profunda com minha essência, conhecendo como ninguém os caminhos que conduzem à minha alma, aprimorando-a, transformando-a, moldando-a, gerando um processo contínuo e infinito de construção, sempre para melhor.
Ele tem muito a dizer, mas só o faz quando é convidado a se aproximar e a compartilhar o conteúdo da sabedoria que conserva latente em sua forma peculiar de ser e de se apresentar ao mundo. É discreto, nada impõe, mas sei que cultiva uma ansiedade perene por ser evocado à minha presença quando possível e, felizmente, esses momentos de encontro têm sido criados com determinação diária dentro das brechas de minha agenda, há décadas. Sempre há e seguirá havendo espaço para encontrá-lo, pois sei que saio aprimorado de cada um desses momentos, por mais efêmeros que eventualmente sejam. Sabe-se que o segredo para cultivar uma amizade significativa e profunda é a manutenção da relação por meio do contato, mesmo que eventual. No nosso caso, ele é diário e antigo, iniciado ainda antes mesmo de eu nascer, durante a gestação na barriga de minha mãe, quando ela esperava por minha chegada já na companhia desse que se transformaria também em meu valoroso amigo: o livro.
Dedico a ele as linhas desta crônica de segunda, neste 23 de abril, Dia Mundial do Livro, data instituída pela Unesco por evocar as mortes de escritores basilares da literatura universal como Miguel de Cervantes e William Shakespeare (ambos em 1616). Apesar do advento da era da informática e da vida digital e virtual, o livro, essa invenção ancestral, segue firme sendo um instrumento poderoso e inigualável de formação de cidadãos plenos e de transformação humana. Tenho convicção de que, a partir do estabelecimento de uma relação íntima e pessoal com o livro e com a leitura, a pessoa asfalta e consolida sua estrada rumo à humanização constante de si mesma. Mais livro e mais leitura é mais tolerância, menos preconceito, mais sabedoria, mais convivência, mais maturidade, mais alegria, mais justiça, mais saúde física, mental, espiritual e social. Parabéns pelo seu dia, valioso amigo!
(Crônica publicada no jornal "Pioneiro", de Caxias do Sul, em 23 de abril de 2018)

segunda-feira, 7 de setembro de 2015

Bendito dito

Diz o ditado popular que você não pode julgar um livro pela capa. Sim, concordo, todos concordamos. Aliás, é de lei concordar com a essência dos ditados populares. Qualquer pessoa municiada de bom senso concorda, afinal, o que os ditos ditados populares fazem é encerrar em si toda a carga conceitual de uma visão de mundo compartilhada pela esmagadora maioria da população. Por isso é que são populares. Os ditados impopulares, por outro lado, até tentam lá ditar as suas coisas, mas são refutados pelo gosto do povo e acabam sugados pelas bocas-de-lobo da História. Da História dos ditados populares, diga-se, mas não de passagem.
Ninguém vai sair por aí repetindo um ditado impopular, porque, em fazendo isso, estará incorrendo em uma contradição em si mesma, uma vez que o próprio ato de evocar o ditado, tirando-o da sombra, o populariza, e ele, de impopular que originalmente era, passa imediatamente a ser alçado à categoria de ditado popular, que é ao que todos os ditados, em última análise, aspiram. E não podemos ser condescendentes – e muito menos coniventes - com as aspirações escusas dos ditados impopulares. Nós, não, jacaré! Tenho dito!
Mas falávamos do dito ditado referente às capas dos livros, que são insuficientes para determinar a qualidade do conteúdo literário que envolvem. Uma capa de livro bela, atraente, bem transada, não significa que a literatura nele contida está em igual patamar em termos estético-literários. Às vezes, ocorre justamente o contrário, e então, estaremos comprando gato por lebre e trazendo à luz outro ditado popular que momentaneamente neutraliza e impopulariza o ditado anterior. É claro que uma capa bonita, bem transada, conforme já dito, tem o poder de nos aproximar do objeto livro, especialmente quando pouco sabemos a respeito da obra e menos ainda sobre o autor.

 É só depois de efetivado o contato inicial, viabilizado pelo poder de atração exercido pela cosmética da capa, que passaremos a conhecer em detalhes a consistência do conteúdo do livro. Disso dependerá nossa decisão de nos afastarmos dele, ou de nele mergulharmos, independentemente da capa. Eis aí a sabedoria popular do ditado, já que serve de metáfora óbvia para tanta outra coisa. Bendito aquilo que está bem dito, ponho-me aqui a criar ditado novo, para ver se populariza.
(Crônica publicada no jornal Pioneiro em 7 de setembro de 2015) 

segunda-feira, 2 de março de 2015

No mundo dos insetos

Será o meu mel que ela busca aqui no alto do décimo-primeiro andar do prédio em que moro? Ela, não: elas, pois são mais de uma. Essa aqui, de hoje de manhã cedinho, fica dando espiadelas no meu dedilhar o teclado do computador já às sete e meia. Põe-se a voejar freneticamente quase sem sair do lugar do lado de fora e chama a minha atenção sempre que dá batidinhas de leve no vidro.
Estivesse o vidro aberto, ela já teria entrado, essa abelha, a exemplo daquela que ontem de tarde invadiu a sala a partir da porta que dá para o terraço. Irmã desta, prima, colega de trabalho, ou, quem sabe até, ela mesma, a própria, que segue hoje aqui, a me fazer companhia. Uma abelha-leitora, quem sabe? Interessada em acompanhar in loco o processo de produção de meus textos e depois levar notícias de mim para as companheiras operárias da colmeia? Extraio o mel de sua singela visita, repleta de poesia - dessa poesia que reside no fato de ser visitado no alto do décimo-primeiro andar de um prédio de concreto por uma pequena abelha.
Dia desses, minha esposa, sentada no sofá, à noite, descansando após mais um dia de rotina extenuante, foi surpreendida pela coceirinha que faz na pele do braço o caminhar de uma doce joaninha. Uma joaninha cor-de-laranja repleta de brotoejas pretas, que também surgiu ali, àquelas horas, sabe-se lá vinda de onde. É a natureza que se esforça em se fazer presente em meio ao avanço do cimento, resistindo ao processo de expulsar pequenos seres para longe e para os baús da memória afetiva de cada um de nós.

E foi exatamente na tentativa de resgatar um pouco da memória de tempos recém-passados, em que o contato com os pequenos seres insetais da natureza era mais comum no dia-a-dia das crianças que já fomos, que o artista plástico Antonio Giacomin e eu concebemos o livro “Insetolândia: Uma Viagem ao Redor do Quintal”, repleto de aquarelas (dele) e croniquetas (minhas) sobre as nuances de vinte desses bichinhos. O lançamento e a sessão de autógrafos ocorrem neste sábado, dia 28, lá na Livraria e Café do Arco da Velha (Rua Dr. Montaury, 1.570), em Caxias do Sul, das 10h até as 13h. Estão todos convidados a dar uma passadinha lá. Não sabe onde fica? Pergunte a qualquer formiga na esquina...
(Crônica publicada no jornal Pioneiro em 28 de fevereiro de 2015)

quarta-feira, 26 de novembro de 2014

A sombra de Clara

Clara é o nome de uma jornalista de cerca de 25 anos, solteira, desempregada, que anda vivendo uma crise pessoal sem precedentes. Tentando reorganizar os cacos de sua vida dilacerada, cujas pontas se agudizam com a ruptura recente com um namorado, Clara está mergulhando em um turbilhão caótico de eventos que só fazem piorar à medida em que vamos conhecendo mais intimamente os detalhes de sua vida. Caos e farsa são os elementos que parecem predominar ao seu redor.
Fora o fato de também ser jornalista, não possuo nada em comum (ao menos, em uma primeira análise) com Clara. Às vezes, quanto mais a conheço, chego até a pensar que somos de espécies diferentes. E conheço-a muito bem, por sinal. Tão bem a ponto de elencar outro aspecto no qual diferimos eu e ela profundamente: eu sou real, enquanto que ela é fruto de minha imaginação. Eu criei Clara, mas Clara me impressiona, me intriga e me surpreende.
A mais recente grande surpresa que ela me proporcionou ocorreu na noite de segunda-feira quando, no Teatro Renascença, em Porto Alegre, ela foi responsável por me fazer conquistar a maior premiação que já obtive em minha carreira literária. Clara é a protagonista de meu romance “A Sombra de Clara”, contemplado com o Prêmio Açorianos de Criação Literária, categoria integrante do mais renomado prêmio literário gaúcho, destinada a publicar obras ainda inéditas. O livro já está em fase de pré-produção (contrato assinado e tudo) e virá a público na Feira do Livro de Porto Alegre no ano que vem.
O desafio que me impus na produção desse texto foi assumir a voz narrativa e a visão de mundo da personagem, uma vez que é Clara quem conta a sua história ao leitor, do seu jeito, em seu estilo próprio, a partir de suas próprias convicções. Parece que funcionou, porque os jurados me confessaram que, ao ler o livro, juravam que ele tinha sido escrito por uma autora feminina. “Você deve conhecer muito bem as mulheres”, disseram-me os jurados. Não sei, penso eu. Conheço bem Clara. Quer dizer, Clara é um mistério em si mesma, que cabe aos leitores tentarem desvendar.
Calma, novembro de 2015 está logo aí. Desde já, todos convidados para a sessão de autógrafos.

 (Crônica publicada no jornal Pioneiro em 26 de novembro de 2014)

quarta-feira, 29 de outubro de 2014

Ao livro, em seu dia

Agora, sim, as centenas de exemplares de livros que habitam as prateleiras de minha casa estão em festa desde manhã cedinho. Hoje, 29 de outubro, é o Dia Nacional do Livro, a data tendo sido escolhida para homenagear a fundação da Biblioteca Nacional, ocorrida em 1810.
O Brasil passou a contar com uma Biblioteca Nacional por iniciativa do rei D. João VI, que instalara a Corte Portuguesa em solo brasileiro em 1808, fugindo da perseguição de Napoleão Bonaparte, o francês que derrubava monarquias pela Europa. Depois de dois anos por aqui, D. João sentiu saudades de seus livros e mandou vir de Portugal a Real Biblioteca Portuguesa, que chegou de navio em 29 de outubro de 1810 e com cujo acervo fundou-se, então, a Biblioteca Nacional. D. João VI, aliás, que gostava de ler, foi também responsável pela criação no Brasil da Imprensa Régia, logo em sua chegada, em 1808, quando então o Brasil finalmente começou a publicar livros. Nos primeiros três séculos desde o descobrimento, livro só aparecia por aqui se fosse importado, vindo de navio, mareado e salgado.
O primeiro livro publicado no Brasil pela Imprensa Régia foi o longo poema intitulado “Marília de Dirceu”, de autoria do escritor lusitano Tomás Antônio Gonzaga (1744 – 1810). Nele, o autor canta sua paixão pela jovem camponesa brasileira Marília, de quem fora noivo, e, desde então, o livro consta na lista dos mais reeditados de todos os tempos no Brasil. Por sinal, é em homenagem à obra e à sua musa inspiradora que a famosa cidade paulista recebeu o seu nome.

Assim que, dessa forma, temos o dia de hoje como data especial para rendermos homenagens aos livros, aqui no Brasil, esse país enorme que sabe realizar eleições democráticas, que gosta de futebol, que é bonito por natureza, que beleza, mas que ainda tem pela frente todo um universo da leitura e da literatura a desbravar. Que a data de hoje possa ajudar a aproximar um milímetro a mais os livros do cotidiano dos brasileiros, para assim ir diminuindo a goleada que andamos levando em termos de educação frente ao restante do mundo, desde sempre.
(Crônica publicada no jornal Pioneiro em 29 de outubro de 2014)