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quinta-feira, 20 de fevereiro de 2014

Caprichem no galeto

Em tudo saindo conforme o esperado, Caxias do Sul recebe hoje a presidente da República Dilma Rousseff, que, dando sequência a uma tradição iniciada por Eurico Gaspar Dutra em 1950, prestigiará a abertura de mais uma edição da Festa da Uva. Além de todo o já tradicional e necessário aparato de segurança, de cerimonial e de estrutura que envolve uma visita da dirigente máxima do país, em se tratando de Caxias do Sul, de Serra Gaúcha e de Festa da Uva, existem também certas peculiaridades a serem levadas em conta. Dilma levou-as todas e, exercitando a diplomacia, a simpatia e o conhecimento de causa, manifestou o desejo de almoçar galeto nesta quinta-feira que passará conosco aqui na Pérola das Colônias. Em Roma, faça como os romanos, não é, presidente?
A notícia me causou certa preocupação ontem, por alguns instantes. Afinal, se a presidente deseja comer galeto na terra do galeto, da polenta, do queijo, do vinho e da uva, pois então que sirvam galeto para a presidente. Mas é preciso que seja um bom galeto, e não um galeto qualquer. Não podemos correr o risco de vermos ir-se de volta a Brasília uma presidente que eventualmente tenha sofrido o azar de degustar um galeto mal passado, mal temperado, chamuscado, cru ou borrachudo. Dilma, em explicitando seu desejo de comer galeto em Caxias, precisa necessariamente ser servida com um galeto de primeira, desses que só aqui, na Serra Gaúcha, se sabe fazer.
Mas logo meu temor foi sendo amenizado. Afinal de contas, Dilma estará em boas mãos. Basta ver que a organização desse manjar típico estrelado pelo galeto está a cargo do ministro do Desenvolvimento Agrário Gilberto Pepe Vargas, nosso ex-prefeito. Entre tantos outros assuntos que domina, Pepe, como bom representante da Serra que é, entende de galetos. Saberá determinar todos os detalhes prévios e, em sentando próximo da presidente, não deixará de ajudá-la a pinçar os exemplares mais atrativos.  Porque um bom galeto a gente reconhece de imediato pelo aroma e pelo visual, todos aqui sabemos.

E tem mais: além do fato de Dilma ter em Pepe um confiável cicerone gastronômico, quem é que ousa imaginar que se faça galeto ruim em Caxias do Sul? O bom galeto é uma questão de honra local e não haverá a mínima possibilidade de Dilma sair daqui sem ter seu desejo presidencial gastronômico saciado com louros. Ou, de preferência, com sálvia. Bem-vinda, presidente Dilma, e bom apetite!
(Crônica publicada no jornal Pioneiro em 20 de fevereiro de 2014)

terça-feira, 11 de fevereiro de 2014

O matricida estabanado

Tentei matar minha mãe. Não consegui, haja vista eu continuar solto e serelepe pelas ruas da cidade atrás de assuntos para crônicas que alguns supõem divertidas. Assolado que sou pelos ditames de minha consciência, confesso aqui em detalhes o fato, na tentativa de purgar a culpa que me flagela.
 Aconteceu meses atrás, em um animado almoço comunitário na acolhedora localidade de Mato Perso (‘mato perdido’, em dialeto, e minha mente ali, já maquinando bobagens). Minha mãe, que mora na distante e pacata Ijuí, estava a nos visitar naquele final de semana e a arrastamos junto ao programa sabatino para o qual já havíamos sido convidados por um casal de amigos. Sob o irrecusável argumento de que ali é servido o mais saboroso pien da região, ao lado de uma sopa de capeletti que parece anholine de tão boa e de uma carne lessa de fazer padre ajoelhar, mamãe concordou alegremente em nos acompanhar no passeio. Tadinha dela.
Durante o evento empanturral, um tenor italiano importado especialmente para a ocasião cantava a plenos pulmões enquanto comíamos, o que era ótimo, porque ninguém podia, assim, escutar as mastigadas dos outros à mesa. Quando enfim, devidamente fartos de pien e maionese, resolvemos partir, fui buscar o carro para perto do salão comunitário onde esperavam minha esposa e minha progenitora, e de dentro do qual ainda ecoavam os gritos retumbantes do animado tenor. Estacionei com o motor ligado e, enquanto elas entravam, fui comentando sobre a altura da cantoria, que achei ligeiramente indigesta. Dito isso, arranquei.
E eis que então minha mãe começou a gritar igual ao tenor italiano: “aaaiiia aaaiiii oooo iii aiaiii!”, ao que eu julguei que ela, num acesso de indignação, estava a imitar o turbinado cantor. Nada disso. Eu é que, ogro desatento como sou, arranquei o carro com ela ainda em pleno processo de entrada, e arrastei-a por alguns metros - uma perna dentro, outra fora, o salto riscando o cascalho de Mato Perso -, obrigando-a a disputar com o tenor o vigor de seus pulmões.  Só parei quando minha esposa percebeu e gritou “amor, para!”.

Felizmente, o resultado da desatenção não foi além do susto e de uma ralhada que o filho da mãe aqui não ganhava merecidamente há mais de 40 anos. Moral da crônica: sejam atentos no trânsito; cuidem de suas mães; ouçam suas esposas; experimentem o pien de Mato Perso (quando não houver tenor italiano por perto).
(Crônica publicada no jornal Pioneiro em 11 de fevereiro de 2014)