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segunda-feira, 21 de maio de 2018

Reinações de lá e de cá


Enquanto aqui em Caxias do Sul celebramos a goles de graspa e vino rosso a coroação do novo trio de soberanas da Festa da Uva, entronizadas na noite do último sábado, os britânicos espalhados pelo planeta seguem elevando brindes com suas “pints” ao enlace matrimonial de seu Príncipe Harry com a atriz norte-americana Meghan Markle, ocorrido também no sábado, devidamente distanciados os dois eventos em termos de fuso, pompa, gala e gastos. Conforme me ia relatando o barbeiro, na gélida manhã de sábado da semideserta Caxias encarangada de frio, enquanto conduzia por minha cabeça a máquina de corte (que pouca resistência capilar encontrava pelo caminho), informado que estava a respeito dos dois majestosos eventos, soube que só o vestido de noiva da sorridente Meghan custara cerca de 500 mil reais. Coisa de arrepiar os cabelos, caso eu os tivesse em volume suficiente que justificasse idas mais frequentes ao encontro do atilado profissional da tesoura, do corte e da costura de dados curiosos.
Quinhentos mil reais por um vestido de noiva é coisa que dá o que pensar. Bem, né, madama, dá o que penar às cabeças de nosotros, terceiro-mundistas militantes das plagas de cá das mazelas do mundo, espevitados que andamos com os escândalos financeiros envolvendo políticos nacionais, cujas cifras permitiriam financiar vestidos de casamentos reais por gerações e gerações de sangues azuis sem pestanejar. A sorridente Meghan deve ser a última mortal do mundo a encasquetar-se com isso, especialmente hoje, em que já deve estar saboreando as delícias da sua edílica lua-de-mel com a real barba-ruiva de seu marido em um hotel de luxo lá na Namíbia, sul da África, emoldurada ao pôr-do-sol e ao rugir dos leões e das zebras. Das zebras não, que zebra não ruge, né, madama. Dos leões e dos tigres, então. Como? Tigres também não, pois não há tigres na África, só na Ásia? Ora, madama, Ásia, África, tigre, leão, vestido caro, e lá a norte-americanice natural de Meghan e seu sorriso haverão de se importar com esses frivolidades? Ela está é dedicada a usufruir de sua suíte de 2,5 mil reais a diária, isso sim, onde há de haver um cofre grandão para guardar seu vestido de meio milhão de dinheiros.
Ou isso, ou está analisando as provas da estátua de cera de sua pessoa, a ser instalada no Museu da Madame Tussauds, em Londres, para que nós, da plebe mundial, possamos fazer selfies ao lado de sua agora nobre imagem. Tudo isso fiquei sabendo ao longo do corte, por meio do barbeiro esclarecido. Pena que pouco me sobrou sobre a cabeça para sair dali devidamente arrepiado.
(Crônica publicada no jornal "Pioneiro" em 21 de maio de 2018)

sábado, 5 de setembro de 2015

Monarquia em alta

Francamente, venha cá, vamos combinar: estamos carecas de saber que não faz o menor sentido viajar a Roma e não ver o Papa, ainda mais agora, sendo o Papa um tomador de chimarrão igual a todos nós. Todos os outros deslizes semelhantes são até desculpáveis, como ir à Inglaterra, ficar mosqueando na frente do Palácio de Buckingham durante horas e não ver a Rainha, como fez certo cronista mundano caxiense um par de meses atrás, e nem vou dizer quem, para não gerar constrangimentos e intrigas literárias.
Ou atravessar a Grã-Bretanha até o Lago Ness, no norte da Escócia, e não avistar nem sinal de Nessie, o monstro pop-star que habita aquelas escuras e misteriosas águas, como fez outro mundano cronista de nossa cidade na mesma época, e de novo não vou revelar quem, para não ser tachado de destruidor de reputações literárias. Tudo isso, exceto a questiúncula ali relativa a Roma e ao Papa, é plenamente justificável e compreensível, perdoável, até, quando for o caso. Mas não se aplica perdão nenhum ao sujeito e à sujeita que (igual à questão do Papa e a viagem a Roma), estando em Caxias do Sul neste feriadão, mais especificamente no sábado à noite, não direcionar suas atenções à escolha do novo trio de soberanas da Festa da Uva, evento que mobiliza a comunidade inteira, onde, conforme diria minha avó, se o pudesse, “só se fala em outra coisa”.
Perdoável não ver a Rainha em Buckingham; perdoável não avistar Nessie no Lago Ness e, vá lá, perdoável também não ver sequer o Papa em Roma, porque o Papa é o Papa e perdoaria tamanha distração. Mas não ter candidata a Rainha da Festa da Uva, ah, convenhamos! Até eu tenho! Nunca vi o Papa ao vivo, nem Nessie e tampouco a Rainha da Inglaterra, mas vou acompanhar o evento de escolha no sábado à noite, e torcer pela minha candidata. Afinal, sou filho adotivo desta terra há 23 anos e também me sinto, sim, representado pela simpatia, pela inteligência, pela cultura, pelo carisma e pelo charme (pela beleza não, porque elas, belas que são, não representam nem de longe minha cara de uva chupada pelo Monstro do Lago Ness) das futuras Rainha e Princesas, sejam elas quem forem. Façam suas apostas e boa torcida a todos.

 (Crônica publicada no jornal Pioneiro em 5 de setembro de 2015)

quinta-feira, 20 de fevereiro de 2014

Caprichem no galeto

Em tudo saindo conforme o esperado, Caxias do Sul recebe hoje a presidente da República Dilma Rousseff, que, dando sequência a uma tradição iniciada por Eurico Gaspar Dutra em 1950, prestigiará a abertura de mais uma edição da Festa da Uva. Além de todo o já tradicional e necessário aparato de segurança, de cerimonial e de estrutura que envolve uma visita da dirigente máxima do país, em se tratando de Caxias do Sul, de Serra Gaúcha e de Festa da Uva, existem também certas peculiaridades a serem levadas em conta. Dilma levou-as todas e, exercitando a diplomacia, a simpatia e o conhecimento de causa, manifestou o desejo de almoçar galeto nesta quinta-feira que passará conosco aqui na Pérola das Colônias. Em Roma, faça como os romanos, não é, presidente?
A notícia me causou certa preocupação ontem, por alguns instantes. Afinal, se a presidente deseja comer galeto na terra do galeto, da polenta, do queijo, do vinho e da uva, pois então que sirvam galeto para a presidente. Mas é preciso que seja um bom galeto, e não um galeto qualquer. Não podemos correr o risco de vermos ir-se de volta a Brasília uma presidente que eventualmente tenha sofrido o azar de degustar um galeto mal passado, mal temperado, chamuscado, cru ou borrachudo. Dilma, em explicitando seu desejo de comer galeto em Caxias, precisa necessariamente ser servida com um galeto de primeira, desses que só aqui, na Serra Gaúcha, se sabe fazer.
Mas logo meu temor foi sendo amenizado. Afinal de contas, Dilma estará em boas mãos. Basta ver que a organização desse manjar típico estrelado pelo galeto está a cargo do ministro do Desenvolvimento Agrário Gilberto Pepe Vargas, nosso ex-prefeito. Entre tantos outros assuntos que domina, Pepe, como bom representante da Serra que é, entende de galetos. Saberá determinar todos os detalhes prévios e, em sentando próximo da presidente, não deixará de ajudá-la a pinçar os exemplares mais atrativos.  Porque um bom galeto a gente reconhece de imediato pelo aroma e pelo visual, todos aqui sabemos.

E tem mais: além do fato de Dilma ter em Pepe um confiável cicerone gastronômico, quem é que ousa imaginar que se faça galeto ruim em Caxias do Sul? O bom galeto é uma questão de honra local e não haverá a mínima possibilidade de Dilma sair daqui sem ter seu desejo presidencial gastronômico saciado com louros. Ou, de preferência, com sálvia. Bem-vinda, presidente Dilma, e bom apetite!
(Crônica publicada no jornal Pioneiro em 20 de fevereiro de 2014)

domingo, 1 de setembro de 2013

Bem mais que sorrisos

 Aportei de mala e cuia em Caxias do Sul em agosto de 1992. Não vim de vapor da Europa em viagem de 33 dias cruzando o Atlântico, tampouco tive de pegar em enxada para abrir picada a fim de ajudar a colonizar a área do Campo dos Bugres. Quando cheguei, a Pérola das Colônias já se configurava há décadas como uma das mais pujantes cidades brasileiras, orgulhosa do fruto do trabalho de seus fundadores e determinada a seguir crescendo em todos os aspectos. Mas cheguei compartilhando o objetivo de todos os imigrantes que para cá vieram e continuam vindo: a busca pela realização de sonhos pessoais.
E foi só vivenciando o cotidiano da cidade que comecei a absorver a amplitude do significado da Festa da Uva, evento sazonal que eu conhecia de passagem na adolescência e por acompanhar de longe as notícias na mídia estadual. Quando aqui tomei posse de meu primeiro endereço, corria o reinado de Catiana Rossato, eleita para a Festa do ano anterior à minha chegada. Já como jornalista do Pioneiro, acompanhei mais de perto a movimentação da cidade que resultou na escolha da nova rainha para a 20ª edição, Cristina Briani. Na Festa seguinte, a de 1996, vi a coroa ser entregue a Patrícia Horn Pezzi, no trio que marcou época com a beleza e simpatia advindas também das princesas Márcia Maróstica e Valéria Weiss. Dali em diante, nunca mais o evento me passou em branco e assumi também em mim, enquanto cidadão caxiense, o orgulho pelo significado que a eleição das soberanas representa.
Caxias do Sul, com sua escolha de rainha e princesas da Festa da Uva, vem consolidando uma visão diferente do conceito do belo. Nossas rainhas, princesas e embaixatrizes vêm se configurando, desde os primórdios, em grupos de moças cuja beleza extrapola os limites da mera composição física. A isso, elas agregam carisma, simpatia, desenvoltura social, cultura, conhecimento, gentileza, inteligência, curiosidade, perspicácia, envolvimento comunitário e outros atributos que as tornam belas, sim. Não apenas mulheres bonitas, mas belas pessoas, possuidoras das melhores características que desejamos ver expressas no conjunto dos habitantes de nossa comunidade.
Sejam quem forem as escolhidas no sábado, tenho certeza de que a coroa e as faixas da cidadania caxiense estarão mais uma vez muito bem representadas.
(Crônica publicada no jornal Pioneiro em 31 de agosto de 2013)

sexta-feira, 9 de março de 2012

Respingos da Festa

Apesar dos aguaceiros que obrigaram os organizadores e reprogramar os desfiles no centro da cidade, a Festa da Uva deste ano caracterizou-se por oferecer ao público uma ampla e democrática programação, permitindo que cada um particularizasse sua forma de apreciar o evento. Eu, por exemplo, já no primeiro dia, acessei os pavilhões empunhando um guarda-chuva recém-adquirido em um hipermercado da cidade, daqueles com botão automático, que desfrumbalizou-se (nem vá ao dicionário) por completo ao sucumbir a uma rajada de vento logo após a seção inicial Magia do Abraço. Era um indício do que estava por vir, em termos pluviométricos, naturalmente.
Nos pavilhões, após arremessar o ex-guarda-chuva para dentro da primeira lixeira que encontrei, decidi vivenciar a Festa de minha própria maneira, buscando aquilo que para mim, habitante desta cidade já há duas décadas, representasse o novo e o surpreendente. Foi assim eu me deliciei, na praça da alimentação, com um saboroso acarajé tipicamente baiano, seguido por tapioca, enquanto ao meu lado a turma se esbaldava em uvas, polentas fritas e brustoladas. E confesso que fiquei doido para dar uma voltinha em um daqueles trequinhos motorizados que a Brigada Militar utilizava para transporte individual de seus soldados nos Pavilhões e na Sinimbu durante os desfiles. Que coisa mais moderna!
No orquidário, realizei um sonho de infância ao levar para casa um exemplar de planta carnívora, que, de início, achei que fosse de mentirinha. Só passei a respeitar a planta depois de vê-la abocanhar (ou enfolhar) as dezenas de moscas, formigas e pequenas aranhas com as quais passei o final de semana presenteando-a. De madrugada, acordei escutando ruídos semelhantes a arrotos provenientes do quarto ao lado, onde ela repousava no potinho. Hoje o gato amanheceu sem um pedaço da orelha e estou desconfiado de que algo estranho ocorreu durante a noite, haja vista a bola de pelos que pende dos tentáculos da planta. Se aconteceu o que estou imaginando, terei de reclamar aos organizadores do evento...
Noves fora, acho que valeu, afinal, fazia tempo que não me empanturrava tanto de uvas dedos-de-dama como nesses dias de Festa. Xô, balança!
(Crônica publicada no jornal Pioneiro em 9 de março de 2012)

terça-feira, 28 de fevereiro de 2012

Os sabores da Festa

(Saboreando a gastronomia típica da Serra Gaúcha. FOTO: DANIELA XÚ/PIONEIRO)

Eu não sou descendente de italianos e nem nasci na colônia. Sou um guri da cidade, proveniente de terras quase missioneiras, tetraneto de imigrantes alemães. Uma rápida passada de olhos pelo formato de minhas mãos logo denuncia que jamais empunhei o cabo de uma enxada e a planta de meus pés se esfola ao contato com o mais simples pedregulho ou com a rosetinha mais mixuruca. Picada de mosquito cria ferida de guerra em minha pele e me escondo do sol como um vampiro recém-nascido.

Com todas essas características a atulhar a minha bagagem genética e cultural, eu tinha tudo para me sentir um peixe fora da pesqueira quando aportei por essas terras caxienses, 20 anos atrás, atraído, como tantos outros antes de mim ao longo de toda a história dessa região, por alvissareiras perspectivas de trabalho e de vida que por aqui se apresentavam (vai ver eu também sonhava com a “cocagna”). No entanto, finquei raízes e acabei me aquerenciando de tal maneira por aqui que, hoje, me sinto mais caxiense do que qualquer outra coisa, plenamente integrado aos costumes e ritos da Serra Gaúcha, atuante na comunidade que me acolhe e orgulhoso de fazer parte dela.

Entre diversas outras razões, tenho certeza de que o aspecto gastronômico característico de Caxias do Sul e de toda a região de colonização italiana exerceu papel crucial para o meu rápido e profundo processo de inserção no cotidiano dessa cidade, tão bem representado periodicamente pela ampla programação cultural decorrente das edições da Festa da Uva. Trocando em miúdos, fui capturado não só, mas também, pelo estômago. Basta ver que o Marcos de 26 anos e 61 quilos que veio para cá ficou duas décadas e 16 mil gramas distante deste ser que hoje perambula, faceiro e mais rechonchudo, pelos restaurantes e cantinas que oferecem o saboroso, tentador, farto e inesgotável cardápio típico italiano, que tanto aprendi a apreciar.

Foi por aqui que conheci e passei a saborear iguarias como o queijo à milanesa, o radicci cotti, a carne lessa (olhava aquilo com o canto do olho e a boca retorcida, e hoje puxo o prato todo para o meu lado), a sopa de agnolini (e tudo bem que chegue à mesa batizada de capeletti, sorvo do mesmo jeito, com barulho e tudo), o grostoli (uma tia de minha esposa, em Nova Bassano, inclui gotas de cachaça na receita, e evito me empanturrar de sobremesa antes de dirigir), o café com graspa, a fortaia (prima do similar alemão eierschmier, ou “schmier de ovos”, que meus parentes faziam em Ijuí e em São Borja, na minha infância), o piem e tantas outras delícias, e vou parando a lista porque já estou salivando.

Isso sem falar no vinho, claro. Foi vivendo aqui que meu paladar evoluiu dos primitivos “vinhos de formação” de minha adolescência como Katz Wein, Liebfraumilch e os primeiros cabernet franc, para a apreciação dos excelentes varietais e espumantes produzidos na região. Colaborou para tanto a participação em cursos de degustação promovidos pelas vinícolas, o que faz com que hoje o ato de saborear um bom “biccierotto de vin” se transforme em um rito de prazer e respeito pelo fruto do esforço de tanta gente, por tantas gerações.

A Festa da Uva que nós, caxienses, protagonizamos a cada dois anos, mais do que apresentar o resultado da pujança e das tradições de um povo, se configura em um momento em que celebramos também o simbolismo da prosperidade que se expressa em uma mesa farta, aspecto cultural cultivado por onde quer que se pare para fazer uma refeição por essas plagas. É ao redor de uma boa mesa que a alegria de viver e nossas melhores características afloram. Quem comete a agradável ousadia de apreciar, durante a Festa, o cardápio típico da colônia servido no Salão Paroquial, sabe bem do que estou falando. Salute e buon appetito a tutti quanti!

(Publicado no jornal Pioneiro na seção especial intitulada "O Cronista na Festa", em 28 de fevereiro de 2012)