Blog destinado à publicação de crônicas e textos assinados pelo jornalista e escritor Marcos Fernando Kirst em jornais e revistas, além de textos aleatórios quando for o caso.
segunda-feira, 21 de maio de 2018
Reinações de lá e de cá
sábado, 5 de setembro de 2015
Monarquia em alta
quinta-feira, 20 de fevereiro de 2014
Caprichem no galeto
domingo, 1 de setembro de 2013
Bem mais que sorrisos
sexta-feira, 9 de março de 2012
Respingos da Festa
Nos pavilhões, após arremessar o ex-guarda-chuva para dentro da primeira lixeira que encontrei, decidi vivenciar a Festa de minha própria maneira, buscando aquilo que para mim, habitante desta cidade já há duas décadas, representasse o novo e o surpreendente. Foi assim eu me deliciei, na praça da alimentação, com um saboroso acarajé tipicamente baiano, seguido por tapioca, enquanto ao meu lado a turma se esbaldava em uvas, polentas fritas e brustoladas. E confesso que fiquei doido para dar uma voltinha em um daqueles trequinhos motorizados que a Brigada Militar utilizava para transporte individual de seus soldados nos Pavilhões e na Sinimbu durante os desfiles. Que coisa mais moderna!
No orquidário, realizei um sonho de infância ao levar para casa um exemplar de planta carnívora, que, de início, achei que fosse de mentirinha. Só passei a respeitar a planta depois de vê-la abocanhar (ou enfolhar) as dezenas de moscas, formigas e pequenas aranhas com as quais passei o final de semana presenteando-a. De madrugada, acordei escutando ruídos semelhantes a arrotos provenientes do quarto ao lado, onde ela repousava no potinho. Hoje o gato amanheceu sem um pedaço da orelha e estou desconfiado de que algo estranho ocorreu durante a noite, haja vista a bola de pelos que pende dos tentáculos da planta. Se aconteceu o que estou imaginando, terei de reclamar aos organizadores do evento...
Noves fora, acho que valeu, afinal, fazia tempo que não me empanturrava tanto de uvas dedos-de-dama como nesses dias de Festa. Xô, balança!
(Crônica publicada no jornal Pioneiro em 9 de março de 2012)
terça-feira, 28 de fevereiro de 2012
Os sabores da Festa

Eu não sou descendente de italianos e nem nasci na colônia. Sou um guri da cidade, proveniente de terras quase missioneiras, tetraneto de imigrantes alemães. Uma rápida passada de olhos pelo formato de minhas mãos logo denuncia que jamais empunhei o cabo de uma enxada e a planta de meus pés se esfola ao contato com o mais simples pedregulho ou com a rosetinha mais mixuruca. Picada de mosquito cria ferida de guerra em minha pele e me escondo do sol como um vampiro recém-nascido.
Com todas essas características a atulhar a minha bagagem genética e cultural, eu tinha tudo para me sentir um peixe fora da pesqueira quando aportei por essas terras caxienses, 20 anos atrás, atraído, como tantos outros antes de mim ao longo de toda a história dessa região, por alvissareiras perspectivas de trabalho e de vida que por aqui se apresentavam (vai ver eu também sonhava com a “cocagna”). No entanto, finquei raízes e acabei me aquerenciando de tal maneira por aqui que, hoje, me sinto mais caxiense do que qualquer outra coisa, plenamente integrado aos costumes e ritos da Serra Gaúcha, atuante na comunidade que me acolhe e orgulhoso de fazer parte dela.
Entre diversas outras razões, tenho certeza de que o aspecto gastronômico característico de Caxias do Sul e de toda a região de colonização italiana exerceu papel crucial para o meu rápido e profundo processo de inserção no cotidiano dessa cidade, tão bem representado periodicamente pela ampla programação cultural decorrente das edições da Festa da Uva. Trocando em miúdos, fui capturado não só, mas também, pelo estômago. Basta ver que o Marcos de 26 anos e 61 quilos que veio para cá ficou duas décadas e 16 mil gramas distante deste ser que hoje perambula, faceiro e mais rechonchudo, pelos restaurantes e cantinas que oferecem o saboroso, tentador, farto e inesgotável cardápio típico italiano, que tanto aprendi a apreciar.
Foi por aqui que conheci e passei a saborear iguarias como o queijo à milanesa, o radicci cotti, a carne lessa (olhava aquilo com o canto do olho e a boca retorcida, e hoje puxo o prato todo para o meu lado), a sopa de agnolini (e tudo bem que chegue à mesa batizada de capeletti, sorvo do mesmo jeito, com barulho e tudo), o grostoli (uma tia de minha esposa,
Isso sem falar no vinho, claro. Foi vivendo aqui que meu paladar evoluiu dos primitivos “vinhos de formação” de minha adolescência como Katz Wein, Liebfraumilch e os primeiros cabernet franc, para a apreciação dos excelentes varietais e espumantes produzidos na região. Colaborou para tanto a participação em cursos de degustação promovidos pelas vinícolas, o que faz com que hoje o ato de saborear um bom “biccierotto de vin” se transforme em um rito de prazer e respeito pelo fruto do esforço de tanta gente, por tantas gerações.
A Festa da Uva que nós, caxienses, protagonizamos a cada dois anos, mais do que apresentar o resultado da pujança e das tradições de um povo, se configura em um momento em que celebramos também o simbolismo da prosperidade que se expressa em uma mesa farta, aspecto cultural cultivado por onde quer que se pare para fazer uma refeição por essas plagas. É ao redor de uma boa mesa que a alegria de viver e nossas melhores características afloram. Quem comete a agradável ousadia de apreciar, durante a Festa, o cardápio típico da colônia servido no Salão Paroquial, sabe bem do que estou falando. Salute e buon appetito a tutti quanti!
(Publicado no jornal Pioneiro na seção especial intitulada "O Cronista na Festa", em 28 de fevereiro de 2012)