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sexta-feira, 18 de abril de 2014

Conceito de normalidade

O cenário futebolístico gaúcho foi movimentado nos últimos dias devido à decisão do Tribunal de Justiça Desportiva de rebaixar para a Segunda Divisão o clube Esportivo, de Bento Gonçalves, como penalidade às ofensas racistas que parte de sua torcida desferiu contra o árbitro Márcio Chagas, em partida disputada contra o Veranópolis ainda durante as rodadas do Gauchão deste ano. A dura (e justa, e apropriada, e necessária) medida foi tomada em primeira instância e o clube pode recorrer para tentar revertê-la. De qualquer forma, o recado começa a ser dado de maneira mais explícita: não há lugar para o racismo na sociedade moderna, e os que insistem nisso devem estar cientes das consequências de seus atos incivilizados.
Mas houve outro detalhe que me chamou a atenção em meio às dezenas de reportagens que fui lendo para acompanhar o desenrolar desse caso. A equipe do jornal Zero Hora conseguiu entrevistar um dos torcedores suspeitos das agressões racistas, na intenção de compreender melhor suas estranhas motivações. Mantido no anonimato, o suspeito declarou, em certa altura da entrevista, à guisa de “defesa”, que não teria pronunciado frases racistas, mas que xingar juiz de futebol é algo “normal”. Em suas próprias palavras, ele diz assim: “Esse negócio de chamar de ladrão, safado, vagabundo, ordinário, isso é normal em jogo de futebol. Agora, dizer que eu o ofendi, aí é outra coisa, né? Posso ter xingado de ladrão e dessas coisas normais no futebol”.
Ou seja, traduzindo: o citado “cidadão” (?) nega ter gritado insultos racistas, mas admite ter proferido xingamentos de vários tipos contra o árbitro, o que, em sua visão, é uma atitude considerada “normal”. Eu leio isso e fico aqui, me perguntando: desde quando xingar alguém pode ser considerado algo normal? Xingar é normal? Insultar então é aceitável no cenário do futebol, uma prática esportiva que se apresenta como justa, fraterna, civilizada?

A partir do momento em que passa a ser considerado “normal” desferir insultos em determinado local ou situação, contra determinadas pessoas e/ou representantes de determinada função, então, convenhamos, algo anda muito mal na base dos conceitos éticos e morais de uma sociedade. Daí a avançar para insultos racistas, basta um passinho. Hoje é “normal” insultar. Amanhã será “normal” fazer insultos racistas. Depois de amanhã será “normal” jogar pedras. Depois de depois de amanhã... bem... melhor nem pensar...
(Crônica publicada no jornal Pioneiro em 18 de abril de 2014)

segunda-feira, 7 de abril de 2014

Toca Xirú!

Uma típica cena de filme policial sacudiu a pequena e pacata cidade de Giruá (17 mil habitantes), no Noroeste do Estado, sexta-feira passada. Os ouvintes que no final da tarde estavam sintonizados na Rádio 104.1 FM, acompanhando o programa conduzido pelo comunicador Jair Wathir, surpreenderam-se ao escutarem, de repente, algumas pancadas secas desferidas contra a mesa de som, vozes alteradas e ruídos similares a uma briga. Sem entenderem o que estava acontecendo, chamaram a Brigada Militar, que chegou a tempo de invadir o estúdio e evitar uma tragédia.
O locutor estava sendo ameaçado a faca por um ouvinte que, bêbado, exigia que fosse irradiada a música que ele havia solicitado minutos antes por telefone e que lhe fora negada. O agressor foi detido e o locutor explicou que negara o pedido do ouvinte porque a música não se encaixava no estilo da programação, um tradicional e popular programa de melodias de bandinhas alemãs. E o que o ouvinte inflexível queria escutar era a gauchesca “Corpo esgualepado”, do Xirú Missioneiro. Definitivamente, não dava, e o que quase aconteceu foi o esgualepamento ao vivo do corpo do comunicador.
Felizmente, tudo acabou bem: o locutor não se feriu, o agressor foi curar o porre no xilindró e o programa de bandinhas alemãs não foi desvirtuado bruscamente pela invasão de versos como “Cada dia que passa parceiro/ Meu corpo véio me dá uma sintoma/ Resquícios de uma vida bruta/ De tropiada, de esquila e de doma”. Teria sido um verdadeiro trauma.
O episódio todo tem origem no desatino causado pelo excesso de consumo de álcool por parte do protagonista, o que embaça qualquer tentativa de justificá-lo. Mesmo assim, sempre é possível refletir um pouco, e me flagro a pensar nessa tendência que temos às vezes de querermos ver nossas demandas atendidas sem atentarmos a quem endereçamos a exigência. Não podemos querer boa música campeira de uma banda de rock, ou que o restaurante de comida típica italiana sirva coraçãozinho de galinha, ou que o cronista Fulano escreva no estilo do cronista Sicrano, ou que Beltrana aprecie os mesmos filmes que eu, ou que todos pensem igual a mim, ou ainda que se comportem da forma como espero que o façam.

Conhecer os limites impostos pelas diferenças, aceitá-los, respeitá-los e mesmo valorizá-los é o primeiro passo para desobstruir o caminho da tolerância, a única via possível para uma convivência pacífica entre os semelhantes, tão dessemelhante que somos entre nós mesmos.
(Crônica publicada no jornal Pioneiro em 7 de abril de 2014)

domingo, 24 de abril de 2011

O demônio da intolerância

Houve uma época em minha vida em que estive repleto de certezas e razões. O período durou do final da adolescência até o início da idade adulta, fase em que descobri o engajamento político e passei a ver o mundo sob um determinado prisma ideológico, que enquadrava tudo dentro de sua própria lógica. Comigo estavam os que pensavam igual a mim, e contra mim estavam os que pensavam diferente. Bem assim, maniqueísta e fácil. Maniqueísta, fácil e, obviamente, obtuso e preconceituoso, que são o troco inevitável de quem decide adonar-se da razão. Para minha própria felicidade, demorei-me poucos anos nessa fase, e logo percebi que vivo melhor e mais feliz estando desprovido de certezas e de razões, e mais municiado da capacidade de maravilhar-me com o mundo, com as pessoas e com as formas inesgotáveis como elas expressam suas maneiras únicas de viver suas vidas.
A diversidade é a maior riqueza da humanidade, foi o que aprendi, no final das contas. E para poder apreciar a diversidade, é fundamental saber exercitar a tolerância. Mas é a ausência dela que faz o mundo ainda não ser um bom lugar para se viver. É na intolerância que reside a fonte de quase a totalidade dos males que assombram o planeta.
É a intolerância ao diferente que move o bullying nas escolas e forja desequilibrados que vão cobrar a fatura anos mais tarde na forma de chacinas. É a intolerância ao diferente que move piadinhas racistas que não doem na alma de quem as faz mas que dilaceram o espírito de quem delas é alvo. É a intolerância que inspira uma multidão de torcedores a oprimir com xingamentos o atleta homossexual que está na quadra disputando campeonato. Foi a intolerância levada ao extremo que consolidou o nazismo e o transformou em ordem vigente na culta Alemanha durante alguns anos.
Não podemos ser tolerantes com a intolerância. Se é na marra que o ser humano evolui, então que se avolumem os processos contra os atos de intolerância, movidos por vítimas corajosas. É preciso transformar o mundo em um lugar melhor para todos, nem que seja aos trancos. Afinal, para extirpar o nazismo, foi necessário fazer terra arrasada da Alemanha. A História sempre tem muito a ensinar.
(Publicado no jornal Pioneiro em 22 de abril de 2011)