Mostrando postagens com marcador telúrico. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador telúrico. Mostrar todas as postagens

quinta-feira, 1 de janeiro de 2015

Lembrança abalada

Memórias, lembranças e recordações me assaltam alternadamente quando ando pelas ruas de minha cidade natal, Ijuí, que costumo visitar nos finais de ano. Uma delas deixou-me, digamos, abalado. Isso porque, quando vi, minhas pernas recordantes haviam me conduzido até a frente da Fábrica de Balas Soberana, indústria cujos produtos faziam a alegria de minha infância por razões óbvias e que andou sendo revitalizada, voltando a fabricar algumas das balas que marcaram época em minha história.
O principal produto da Soberana eram as balas Póca, que a gurizada devorava aos sacos na hora do recreio. Era uma balinha quadradinha, branca, com sabor de abacaxi, e vinha envolta em uma embalagem amarela, ilustrada com a imagem de um cervo. Por que o cervo? Mistério absoluto que perdura até hoje, ninguém sabe explicar. Também, não faz diferença alguma. Adorávamos as balas Póca. A lembrança mais remota que tenho de um bisavô é ele se aproximando e tirando do bolso um punhado de balas Póca, que oferecia a mim, à minha irmã e aos meus primos. Uau, que festa!
Não havia problema algum em receber balas do bisavô, mas todas as crianças daquela época éramos instruídas pelos adultos a jamais aceitarmos balas de estranhos. Havia temor de sequestros, especialmente depois da repercussão do sumiço do menino Carlinhos, raptado aos dez anos em 1973, no Rio de Janeiro, mistério insolúvel até hoje. Agora, pensando em retrospecto, fico a pensar: tá, mas e se o estranho nos oferecesse chocolate ou pirulito? Ou um maço de figurinhas para completar nosso álbum? Ou flâmulas de nosso time? Que fazer? Eu me sentia plenamente preparado para enfrentar o estranho com uma peremptória recusa ao convite de acompanhá-lo caso ele oferecesse balas. Mas e o resto? Felizmente, o estranho nunca apareceu nas esquinas daquela minha Ijuí do passado.

Mas o que importa mesmo é que, em um mercado local, consegui adquirir, passadas décadas, um saquinho de balas Póca e meti-me a comê-las todas. O sabor de infância permanece o mesmo: inclusive com a queda de uma obturação que habitava minha boca desde aqueles tempos. Cadê o número da dentista?
(Crônica publicada no jornal Pioneiro em 31 de dezembro de 2014)

terça-feira, 30 de dezembro de 2014

Para ser telúrico

Assim como um telefone celular, um notebook e uma câmera digital precisam ter suas baterias recarregadas com frequência para que sigam operantes, também eu necessito, sazonalmente, recarregar aquilo que chamo de minhas energias telúricas. Uma vez que “telúrico” é o termo que se emprega para fazer referência a tudo o que se relaciona à terra, ao solo, eu me aproprio da expressão para criar uma imagem de recarga das energias vitais só possível de ser obtida revisitando o solo da cidade em que nasci. No meu caso: Ijuí, 400 quilômetros distante de nossa Caxias do Sul.
Fui-me então no Natal passar por lá alguns dias e enfiar na tomada o cabo que liga aquele telurismo de lá com as energias psíquicas, mentais, espirituais e emocionais que me movem cá. Essas sessões de recarrego se dão por meio de atos simples, a começar pelo fato de estar lá. Chegar, permanecer, revisitar ruas, logradouros, praças; percorrer caminhos antigos repletos de significados e lembranças; revisitar pessoas; tomar chimarrão com os familiares; reescutar cigarras e sabiás. Tudo recarrega.
Recarrega também, no meu caso particular, dar uma passadinha sempre pela Rua dos Viajantes, situada nos limites do centro com um bairro, onde reside ainda a casa em que vivi minha infância e adolescência e que foi sede para o processo de meu despertar para o mundo. Fui lá em uma típica quente tarde natalina, para recapturar odores, sons e sabores e – surpresa! – asfaltaram a Rua dos Viajantes! Tascaram-lhe asfalto por sobre a irregularidade ancestral dos paralelepípedos daquela rua, aproximando-a de um progresso urbano da qual até então vinha se mantendo inexplicável e ferrenhamente alheia.

Agora não se cruza mais a 20 por hora pela Rua dos Viajantes. Agora, a rua de minha infância passa a ser também abordada por flamejantes veículos desrespeitadores das regras de trânsito, que lhe passam voando por cima do tapete de piche que cobre os paralelepípedos em cujos buracos soterram-se as marcas de meu passado. O progresso é inexorável. Mas, mesmo assim, permanece escondida ali num cantinho a tomada para a minha recarga telúrica.
(Crônica publicada no jornal Pioneiro em 30 de dezembro de 2014)