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segunda-feira, 27 de julho de 2015

Ponto para o Dr Gilberto

Numa dessas minhas idas a Ijuí, minha terra natal, onde nasci há quase meio século (odeio essas crônicas pessoais nas quais, quando vejo, estou a revelar verdades inescondíveis), reencontrei meu pediatra, o doutor Gilberto. Ele é uma dessas figuras que se tornam, com o passar dos anos, em personagens quase surreais dentro da gama de personalidades que foram exercendo papeis cruciais na moldagem de nossa própria existência. O doutor Gilberto é uma dessas figuras, e das mais importantes, porque, se consegui chegar a essa idade respeitável (eu ia escrever “longeva”, mas dei-me um tapa na mão), é porque coube a ele debelar os males que me foram atacando na infância.
Tive catapora quando criança, em Ijuí, e foi o doutor Gilberto quem medicou e receitou as pomadinhas que tinha de passar sobre as feridas que secavam e coçavam. Tive gripes, febres, dores de garganta, e lá íamos, minha mãe e eu, de Kombi-lotação, até o consultório do doutor Gilberto, para abrir a boca, mostrar a língua, contar até 33 (verdade ou ilusão provocada pelo recriar da realidade?), ter o peito auscultado, receber batidinhas nas costas, respirar fundo, soltar o ar devagar, inspirar de novo, soltar. Havia brinquedos na sala de espera, mas eu os ignorava, preferindo sempre ficar sentado em um canto, ao lado da mãe, folheando os gibis. Tomava os remédios sem rebeldias (ao menos, nisso, e tapa nessa mão que insiste em enfiar parênteses), ficava curado e ponto para o doutor Gilberto.
Quando percebi que estava na hora de deixar de ser criança e ficar grandinho, lá pelos cinco anos de idade, que é quando a gente começa a ter história atrás da gente e a detectar gentes menores do que a gente em volta, decidi que devia abandonar a companhia do porquinho de pano que eu levava comigo junto sempre que ia ao dentista, ao pediatra e ao farmacêutico para tomar injeção (na Farmácia do Chico). Doutor Gilberto sentiu falta dele em uma das consultas, atento que era.

Mas eu dizia que reencontrei o doutor Gilberto, lá em Ijuí, dia desses. Cabeça repleta de cabelos branquinhos, jovial e simpático como sempre, posamos juntos para uma selfie, eu uns 20 centímetros mais alto do que ele. “Cresceu bem esse guri, é a prova de que acertei nos remédios”, orgulhou-se ele. Eu sou a prova da competência de meu pediatra. Agora, sim, posso aposentar de vez o meu porquinho...
(Crônica publicada no jornal Pioneiro em 27 de julho de 2015)

quinta-feira, 1 de janeiro de 2015

Lembrança abalada

Memórias, lembranças e recordações me assaltam alternadamente quando ando pelas ruas de minha cidade natal, Ijuí, que costumo visitar nos finais de ano. Uma delas deixou-me, digamos, abalado. Isso porque, quando vi, minhas pernas recordantes haviam me conduzido até a frente da Fábrica de Balas Soberana, indústria cujos produtos faziam a alegria de minha infância por razões óbvias e que andou sendo revitalizada, voltando a fabricar algumas das balas que marcaram época em minha história.
O principal produto da Soberana eram as balas Póca, que a gurizada devorava aos sacos na hora do recreio. Era uma balinha quadradinha, branca, com sabor de abacaxi, e vinha envolta em uma embalagem amarela, ilustrada com a imagem de um cervo. Por que o cervo? Mistério absoluto que perdura até hoje, ninguém sabe explicar. Também, não faz diferença alguma. Adorávamos as balas Póca. A lembrança mais remota que tenho de um bisavô é ele se aproximando e tirando do bolso um punhado de balas Póca, que oferecia a mim, à minha irmã e aos meus primos. Uau, que festa!
Não havia problema algum em receber balas do bisavô, mas todas as crianças daquela época éramos instruídas pelos adultos a jamais aceitarmos balas de estranhos. Havia temor de sequestros, especialmente depois da repercussão do sumiço do menino Carlinhos, raptado aos dez anos em 1973, no Rio de Janeiro, mistério insolúvel até hoje. Agora, pensando em retrospecto, fico a pensar: tá, mas e se o estranho nos oferecesse chocolate ou pirulito? Ou um maço de figurinhas para completar nosso álbum? Ou flâmulas de nosso time? Que fazer? Eu me sentia plenamente preparado para enfrentar o estranho com uma peremptória recusa ao convite de acompanhá-lo caso ele oferecesse balas. Mas e o resto? Felizmente, o estranho nunca apareceu nas esquinas daquela minha Ijuí do passado.

Mas o que importa mesmo é que, em um mercado local, consegui adquirir, passadas décadas, um saquinho de balas Póca e meti-me a comê-las todas. O sabor de infância permanece o mesmo: inclusive com a queda de uma obturação que habitava minha boca desde aqueles tempos. Cadê o número da dentista?
(Crônica publicada no jornal Pioneiro em 31 de dezembro de 2014)

terça-feira, 30 de dezembro de 2014

Para ser telúrico

Assim como um telefone celular, um notebook e uma câmera digital precisam ter suas baterias recarregadas com frequência para que sigam operantes, também eu necessito, sazonalmente, recarregar aquilo que chamo de minhas energias telúricas. Uma vez que “telúrico” é o termo que se emprega para fazer referência a tudo o que se relaciona à terra, ao solo, eu me aproprio da expressão para criar uma imagem de recarga das energias vitais só possível de ser obtida revisitando o solo da cidade em que nasci. No meu caso: Ijuí, 400 quilômetros distante de nossa Caxias do Sul.
Fui-me então no Natal passar por lá alguns dias e enfiar na tomada o cabo que liga aquele telurismo de lá com as energias psíquicas, mentais, espirituais e emocionais que me movem cá. Essas sessões de recarrego se dão por meio de atos simples, a começar pelo fato de estar lá. Chegar, permanecer, revisitar ruas, logradouros, praças; percorrer caminhos antigos repletos de significados e lembranças; revisitar pessoas; tomar chimarrão com os familiares; reescutar cigarras e sabiás. Tudo recarrega.
Recarrega também, no meu caso particular, dar uma passadinha sempre pela Rua dos Viajantes, situada nos limites do centro com um bairro, onde reside ainda a casa em que vivi minha infância e adolescência e que foi sede para o processo de meu despertar para o mundo. Fui lá em uma típica quente tarde natalina, para recapturar odores, sons e sabores e – surpresa! – asfaltaram a Rua dos Viajantes! Tascaram-lhe asfalto por sobre a irregularidade ancestral dos paralelepípedos daquela rua, aproximando-a de um progresso urbano da qual até então vinha se mantendo inexplicável e ferrenhamente alheia.

Agora não se cruza mais a 20 por hora pela Rua dos Viajantes. Agora, a rua de minha infância passa a ser também abordada por flamejantes veículos desrespeitadores das regras de trânsito, que lhe passam voando por cima do tapete de piche que cobre os paralelepípedos em cujos buracos soterram-se as marcas de meu passado. O progresso é inexorável. Mas, mesmo assim, permanece escondida ali num cantinho a tomada para a minha recarga telúrica.
(Crônica publicada no jornal Pioneiro em 30 de dezembro de 2014)

sexta-feira, 18 de janeiro de 2013

Butiá na veia


(Quem diria que dessa frutinha é possível produzir um suco tão viciante?)

Você já tomou suco de butiá? Eu já, e viciei. Quem diria que aquela frutinha amarela, de carne fibrosa que gruda nos dentes igual manga, que marcou momentos de minha infância, iria reaparecer no meu leque de descobertas sensoriais décadas mais tarde, em minha idade já prá lá de adulta? Jamais imaginei butiá em forma de suco, e supunha que a última grande descoberta gustativa que me haveria de intrigar as papilas ficara por conta, três anos atrás, do picolé de melancia, que também é uma delícia inenarrável.
Mas agora me aparece o suco de butiá. É vendido em litrões de garrafas pet reaproveitadas, na Feira Livre de Ijuí, minha terra natal, onde apareço quando em vez para rever familiares e amigos e, agora, para me embebedar de litros e mais litros de suco de butiá. Ijuí também é famosa por produzir chope de primeira qualidade, afinal, é terra de alemães, mas ando tão ensandecido pelo sabor do suco de butiá que chego a esquecer o casco de cinco litros de chope na geladeira, para deliciar-me com as sensações proporcionadas pelo líquido doce e também amarelo do suco de butiá.
Ahhhhh, um copão de suco de butiá descendo geladinho pela garganta no calor de janeiro, não há o que pague. Tive de viver 46 anos para experimentar esse sabor, para mim, inusitado. Não sou mais o mesmo desde que experimentei suco de butiá. Ele acaba de desbancar para a segunda posição, em meu ranking pessoal de sucos, o de uva branca, que também conheci faz pouco tempo aqui na Serra e que tem sido minha primeiríssima opção de bebida em restaurantes e festas desde o benfazejo e louvável advento da Lei Seca no trânsito. Se forem analisar meu sangue, detectarão superdose de suco de butiá correndo em minhas veias nessa época do ano. Ou de suco de uva branca.
Fui a Ijuí festejar o Ano Novo e trouxe duas garrafas de suco de butiá. Não deu nem para a saída. Bebi tudo em apenas três dias e não sei o que fazer agora com a fissura. Ijuí dista 400 quilômetros daqui. Não dá para ir buscar mais a qualquer momento. Vou construir um Butiaduto ligando Ijuí a Caxias do Sul para aplacar minha sanha. Até que um novo sabor inusitado apareça no pedaço e me derrube os butiás do bolso. Sou mesmo bastante v(s)olúvel.
(Crônica publicada no jornal Pioneiro em 18 de janeiro de 2013)