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segunda-feira, 9 de abril de 2018

Um mito revigorado


O Tempo e a Memória são elementos invisíveis que operam em conjunto nas sombras da existência para conferir (ou não) permanência aos nomes de quem viveu. Há aqueles que se assentam em lugares perenes na História devido aos seus feitos transformadores ou destruidores; esses são os vultos ilustres que perpassam gerações e ultrapassam fronteiras. Há aqueles cuja amplitude de referência se restringe a círculos mais íntimos ou restritos, em especial nos âmbitos familiares ou de comunidades específicas, postos que podem ser ocupados pelas pessoas ditas comuns. E há aqueles cujos nomes simplesmente se esvanecem em meio à penumbra do Tempo, restando fios de sua memória latentes somente enquanto viverem aqueles que fizeram parte de seus círculos de relações. Depois, tudo volta ao nada, e é assim com a maioria de todas as gentes que existem, que já existiram e que ainda virão a existir. Nosso destino geral é o des-existir absoluto.
O que fazer para driblar as armadilhas do esquecimento e alcançar a permanecência mesmo após nosso desaparecimento físico? Esse é um mistério cuja fórmula o Tempo e a Memória jamais revelam, mantendo acesa a chama da surpresa, do imponderável e do inexplicável. Reflexões como essas me assaltam quando, por exemplo, observo o calendário e verifico que a quinta-feira desta semana, dia 12 de abril, é uma data que se reveste de significância especial para quem trafega pelo universo da literatura e da cultura serrana e gaúcha, pois que estaremos celebrando os 125 anos de nascimento da poetisa Vivita Cartier, nascida a 12 de abril de 1893 em Porto Alegre e falecida em 21 de março de 1919 em Criúva, onde segue sepultada há 99 anos. Arrebatada da existência física por uma tuberculose que lhe fez penar os últimos sete anos de existência, Vivita acumulou somente 25 anos de vida, período em que não casou, não deixou filhos, mas dedicou-se à construção de uma persona poética que legou à posteridade uma dezena de poemas conhecidos e uma trajetória que configurou-se em mito. Como? Por quê? De que maneira seu nome de curta existência e sua obra de modesto volume driblaram as brumas do esquecimento e se fazem presentes, ativos e “audíveis” até os dias de hoje?
Qual o mistério que explica sua permanência e sua influência? Por onde passam os meandros da manutenção da sua memória? Questões como essas, e muitas outras, estarei debatendo com quem desejar comparecer esta noite a mais uma edição gratuita e aberta da Órbita Literária, a partir das 20h, ali na Livraria e Café do Arco da Velha (Rua Dr. Montaury, 1570). Todos convidados.
(Crônica publicada no jornal "Pioneiro", de Caxias do Sul, em 9 de abril de 2018)

terça-feira, 30 de dezembro de 2014

Para ser telúrico

Assim como um telefone celular, um notebook e uma câmera digital precisam ter suas baterias recarregadas com frequência para que sigam operantes, também eu necessito, sazonalmente, recarregar aquilo que chamo de minhas energias telúricas. Uma vez que “telúrico” é o termo que se emprega para fazer referência a tudo o que se relaciona à terra, ao solo, eu me aproprio da expressão para criar uma imagem de recarga das energias vitais só possível de ser obtida revisitando o solo da cidade em que nasci. No meu caso: Ijuí, 400 quilômetros distante de nossa Caxias do Sul.
Fui-me então no Natal passar por lá alguns dias e enfiar na tomada o cabo que liga aquele telurismo de lá com as energias psíquicas, mentais, espirituais e emocionais que me movem cá. Essas sessões de recarrego se dão por meio de atos simples, a começar pelo fato de estar lá. Chegar, permanecer, revisitar ruas, logradouros, praças; percorrer caminhos antigos repletos de significados e lembranças; revisitar pessoas; tomar chimarrão com os familiares; reescutar cigarras e sabiás. Tudo recarrega.
Recarrega também, no meu caso particular, dar uma passadinha sempre pela Rua dos Viajantes, situada nos limites do centro com um bairro, onde reside ainda a casa em que vivi minha infância e adolescência e que foi sede para o processo de meu despertar para o mundo. Fui lá em uma típica quente tarde natalina, para recapturar odores, sons e sabores e – surpresa! – asfaltaram a Rua dos Viajantes! Tascaram-lhe asfalto por sobre a irregularidade ancestral dos paralelepípedos daquela rua, aproximando-a de um progresso urbano da qual até então vinha se mantendo inexplicável e ferrenhamente alheia.

Agora não se cruza mais a 20 por hora pela Rua dos Viajantes. Agora, a rua de minha infância passa a ser também abordada por flamejantes veículos desrespeitadores das regras de trânsito, que lhe passam voando por cima do tapete de piche que cobre os paralelepípedos em cujos buracos soterram-se as marcas de meu passado. O progresso é inexorável. Mas, mesmo assim, permanece escondida ali num cantinho a tomada para a minha recarga telúrica.
(Crônica publicada no jornal Pioneiro em 30 de dezembro de 2014)

terça-feira, 11 de novembro de 2014

Memória afiada

Se alguém disser que o dia de hoje “anda meio esquecido”, é porque está tentando fazer uma gracinha. Bata nas costas do sujeito, dê uma risadinha dizendo “tá bom, tá bom” e siga adiante, afinal, isso não vai mudar o seu dia nem para melhor, nem para pior. Como existe atualmente dia para tudo, decidiu-se, não se sabe quem, nem onde, muito menos quando, que no 11 de novembro se comemora o Dia da Memória.
Daí a razão da tentativa de gracinha dita ali em cima, que alguém certamente tentará fazer, e não deixará de ter razão, afinal, quem é que se lembrava disso? Ou melhor: quem é que sabia disso? Eu é que não! E se alguma vez na vida soube, confesso que já havia esquecido. E não, não se trata de gracinha. Como lembrar-se de uma data que, no fundo, não tem significado algum? Quer dizer, claro que a memória em si é importante, fundamental para a existência humana e da civilização (o que seria dos historiadores se não fosse o resguardo da memória?), mas o que fazer de especial em um dia destinado a celebrá-la? Pensemos.
Talvez uma forma interessante de marcar a passagem do Dia da Memória seria destinar alguns minutos para praticar seu uso e recordar. Recordar dos tempos idos, da infância perdida, das pessoas que já se foram e nos marcaram, dos amigos com quem perdemos contato, da época da escola, da antiga rua em que vivemos, essas coisas. Podemos recordar atos dos quais nos orgulhamos de termos feito, bem como dos outros atos dos quais nos arrependemos e envergonhamos, afinal, conhecer nosso próprio passado e refletir sobre ele é a melhor forma de moldarmos nossa maturidade pessoal. Mas dá para fazer ainda mais nesse dia.
Além de evocarmos o passado, também prestaremos homenagens à memória se praticarmos a lembrança de afazeres que gostamos de deixar abandonados no esquecimento. Podemos lembrar de telefonar para aquela pessoa querida que passou por dificuldades, ou lembrar de pagar aquele empréstimo feito junto ao amigo, ou de devolver um favor, de fazer um convite, de ser gentil. Falando nisso, lembrei de algo importante: comprar presente de Natal para o afilhado. Que tal um jogo de memória?

 (Crônica publicada no jornal Pioneiro em 11 de novembro de 2014)

segunda-feira, 27 de outubro de 2014

Gente diferente

Fiquei sabendo com uma semana de atraso do falecimento de meu médico, o coloproctologista Edson José Baron. Li a notícia neste domingo, dia 26, quando então descobri que ele havia morrido no sábado anterior, dia 18, tendo sido cremado no domingo, 19.
Edson Baron estava com 59 anos de idade e perdeu a batalha contra o câncer. Era casado há 32 anos com Eva Marisa Baron, com quem tinha os filhos Eduardo e Erica. A notícia me deixou entristecido no domingo em que tinha de votar no segundo turno das eleições. Triste pela perda de um profissional competente em quem eu aprendera a confiar plenamente; triste pela perda humana derivada de sua morte e triste pela perda de um interlocutor que, com o passar dos anos e com o aprofundar dos contatos, se transformaria em amigo. Triste também por não ter podido estar presente na ocasião de prestar minha despedida a ele.
Conheci o doutor Baron há pouco mais de um ano, quando, em setembro do ano passado, ele me diagnosticou portador de uma doença crônica dentro de sua área de especialização médica. “Fui inventar de ser cronista e desenvolvi doença crônica”, brincava eu com ele, ao longo das baterias de consultas e exames. Brincava com ele porque ele escutava. Edson Baron pertencia a essa categoria humana de profissionais da saúde que realmente se importam com a individualidade de seus pacientes. Ele, em si, era paciente, pois tinha paciência. Sabia ouvir, sabia se interessar. Olhava seus pacientes nos olhos, conversava com eles, perscrutava seus corações sem ser cardiologista. O coração que ele auscultava era aquele outro, não físico, que faz de cada um de nós um ser especial.

Baron sabia disso e tinha paixão pela profissão e encantamento por gente. Tenho convicção disso a partir do pouco contato que tive com ele, sempre em função de minha doença. Era um médico que se destacava entre seus pares e um cidadão que se destacava entre a humanidade em geral. Descubro agora que também estava doente e que partiu prematuramente. A vida é assim, cheia de surpresas. A melhor delas é quando conhecemos gente que faz a diferença.
(Crônica publicada no jornal Pioneiro em 27 de outubro de 2014)

sábado, 12 de julho de 2014

O passado presente

O passado, bem o sabemos, não existe. Pelo menos, não existe enquanto objeto ou fato tangível, uma vez que representa tudo aquilo que já existiu ou aconteceu (sempre no passado, naturalmente) em um tempo anterior ao presente instante. Viveríamos aprisionados em um infinito presente se não fôssemos dotados com o poder da memória, que tem a função de manter o passado presente, ou melhor dizendo, vívido (para não incorrermos em uma contradição em termos).
O dramaturgo inglês Harold Pinter (1930 – 2008), ganhador do Prêmio Nobel de Literatura de 2005, resumiu a questão desse modo: “O passado é aquilo que você lembra, aquilo que você imagina que lembra, que você se convence de que lembra ou finge lembrar”. Resumindo ainda mais, o que me parece que Pinter quer dizer é que o passado em si, mesmo sendo estático e encravado no tempo, é plenamente cambiante e mutável, uma vez que está à mercê dos sabores de nossa memória, ela sim, fugaz, etérea, fluida, inconstante, temperamental, inconfiável, volúvel (meu suposto resumo do resumo ficou imensuravelmente maior do que a tese, perdão).
Com o passar dos anos, acabamos transformando nossas próprias recordações em “causos” despudoradamente remodelados a fim de melhor se encaixarem à visão que temos de nós próprios, ou à imagem que pretendemos vender de nossas pessoas para quem nos cerca. Mas nem sempre (talvez quase nunca) esse processo se dá de forma consciente e deliberada.
Eu, por exemplo, até há poucos dias, estava me mortificando pelo fato de, cerca de 20 anos atrás, quando era editor do caderno Sete Dias do jornal Pioneiro, ter manuseado uma bela fotografia antiga da poetisa Vivita Cartier (1893-1919), morta e enterrada em Criúva, e publicado-a na capa do suplemento para ilustrar uma reportagem sobre eventos culturais que evocavam a memória de poetas do passado. Na época, não imaginava que eu mesmo, dali a duas décadas, estaria me escabelando em busca daquela mesma foto para ilustrar o livro que agora organizo sobre a história da vida da poetisa. Considerava uma ironia do destino o fato de eu mesmo ter manipulado a foto que agora me escapa e que tanto busco.

Porém, acabo de descobrir que não sou culpado de nada. Verificando as datas, percebi que a página do caderno em questão foi editada dois meses antes de eu chegar em Caxias do Sul para assumir a editoria do Sete Dias. O eu do passado que editou a foto de Vivita não existiu, diferentemente do que pensava o eu de hoje, que a procura. Não somos a mesma pessoa. Minha memória me culpava por algo de que sou totalmente inocente. Quero ver se as provas são suficientes para que ela me absolva. Isso, só o futuro dirá.
(Crônica publicada no jornal Pioneiro em 12 de julho de 2014)

terça-feira, 11 de junho de 2013

Tristeza em Tapariu


Jimmy Rodrigues
A notícia da morte do jornalista Jimmy Rodrigues pegou de surpresa e entristeceu toda a vila de Tapariu, a Capital do Brócoli, a pequena cidade de colonização italiana incrustada em algum ponto da Serra Gaúcha. Não se falava em outra coisa em toda a Rua Rechercha, e foi a pauta de discussão entre o Epaminondas, o Francisquinho e o Professor Alcides, a pessoa mais ilustrada da vila, que recordavam a longa vida dedicada ao jornalismo, às crônicas e ao serviço público municipal do notável cidadão.
O Circo Sarrazani emudeceu com a tristeza do Palhaço Vira Cambotas e o Alcaide decretou luto oficial por três dias, recebendo apoio no ato até do Vereador Evandir. No Bar Bicha, na Pensão Familiar, na Casa de Pasto Prato de Ouro e no Bar da Esquina, localizado “bem no meio de uma das quadras laterais” da Praça do Fundador, todos recordavam a memória do saudoso repórter.
O Clube Invicto e o Arranca Toco Futebol Clube jogaram um amistoso em homenagem ao jornalista, e os correligionários do PUT (Partido União de Tapariu) e do PIC (Partido do Impávido Colosso) deixaram de lado as diferenças para prestar homenagem conjunta na Câmara de Vereadores, onde ele tinha sido funcionário durante anos. A rádio “A Voz de Tapariu” e o jornal “O Tapariuense” recordaram a biografia do seu ex-colaborador, autor de centenas de crônicas que refletiram a vida cotidiana da Serra Gaúcha, retratadas no cenário e nos personagens da fictícia Tapariu.

A verdadeira Caxias do Sul se une aos órfãos personagens concebidos pela imaginação do escritor e também imprime na memória a já saudosa lembrança de um de seus mais ilustres filhos. Uma prova desse talento eu tive o privilégio de conhecer ao selecionar e organizar as 100 crônicas de sua autoria que integram o livro “A Voz e a Palavra” (Editora Belas-Letras, 2008), que agora fica como um perene mostruário de seu estilo único e bem-humorado de retratar o cotidiano.(Texto publicado no jornal "Pioneiro" em 10 de junho de 2013)

segunda-feira, 3 de junho de 2013

Reflexão copeira

Quando a Seleção Brasileira conquistou a Copa do Mundo no México, em 1970, eu estava a duas semanas de completar quatro anos de idade e meus maiores interesses giravam em torno de um Pato Donald de plástico em cujo bico eu fizera um furo a fim de alimentá-lo com restos de minha própria comida, o que fez o brinquedo passar a cheirar muito mal algum tempo depois e ser descartado no lixo.
Da Copa de 1974 eu recordo vivamente da partida final entre Holanda e Alemanha Ocidental porque era domingo, 7 de julho, véspera de meu aniversário, e havia festa lá em casa devido à data. Porém, todas as atenções dos homens adultos estavam voltadas ao televisor posicionado próximo à mesa com docinhos, refrigerante e o bolo de meus oito anos. A Alemanha sagrou-se bicampeã mundial e recordo de meu avô paterno festejando muito tudo aquilo e comentando a qualidade do jogador Beckenbauer.
Na de 1978, realizada na Argentina, eu já era mais grandinho, tinha consciência de ser gremista e sabia até os nomes de alguns jogadores não só do escrete nacional como também da seleção anfitriã, como Kempes, Luque e Passarela. Uma televisão era instalada na sala de aula para acompanharmos os jogos da Seleção Brasileira e foi ali que comecei a aprender a torcer, observando as reações de meus colegas.
A Copa de 1982 foi a primeira que acompanhei de fato. Decorei a escalação da Seleção, colei com Cola Tenaz em um álbum as figurinhas dos jogadores de todas as equipes e assisti a todas as partidas que pude. Sofri sozinho em casa a desclassificação da Seleção Canarinho sob o chute certeiro do italiano Paolo Rossi. Era uma tarde nublada de segunda-feira, e meu estado de espírito também se acinzentou com aquele resultado adverso. Foi a primeira vez em minha vida que o futebol estabeleceu comunicação direta com a minha alma e me integrei para sempre à imensa população mundial que sofre e festeja com as derrotas e as conquistas de seus times do coração.

Agora adulto, torço é para que, muito além do futebol, os brasileiros possam dar exemplos de cidadania ao sediarem ano que vem, uma Copa do Mundo, a ponto de podermos sair orgulhosos do evento, independentemente do resultado que nossa Seleção obtiver nos gramados.
(Crônica publicada no jornal Pioneiro em 31 de maio de 2013)

sexta-feira, 26 de abril de 2013

Uma troca fantasiosa


O despertar de minha mente curiosa pautou parte de minha adolescência com o aprofundar de desejos fantasiosos que, caso concretizados, tornariam o mundo um lugar bem mais divertido para se viver. Naquelas longínquas tardes pré-internet, vividas na Rua dos Viajantes em Ijuí, eu acreditava, ou melhor, sonhava, ou melhor ainda, desejava que fossem reais algumas criaturas esdrúxulas e certos poderes paranormais a respeito dos quais devorava artigos publicados na revista “Planeta”, então editada pelo escritor Ignácio de Loyola Brandão e tendo como colaborador um Paulo Coelho antes de descobrir a fórmula mágica para vender livros aos milhões.
Eu queria, e como queria, que o Monstro do Lago Ness fosse logo fotografado, para que os céticos mordessem suas línguas. Desejava também que o Pé Grande, ou o Yeti, fossem capturados em alguma armadilha para ursos no Canadá ou nos Estados Unidos para serem exibidos na televisão, reportagem que eu aguardaria ansioso no Fantástico domingo à noite, para pautar os comentários na hora do recreio na escola segunda-feira, comendo um pastel e bebendo uma Minuaninho Limão. Treinava meus dons mentais tentando fazer uma viagem astral fora do corpo até a casa ao lado para ver a filha da vizinha saindo do banho, o que nunca consegui, provavelmente devido à baixeza de minha motivação. Procurava enviar mensagens telepáticas ao meu coleguinha estudioso durante a sabatina de matemática a fim de obter dele, via ondas cerebrais, a resposta para os problemas envolvendo Bháskara. Aguardava por um contato imediato de terceiro grau com seres interplanetários para me explicarem a origem do universo e da vida, bem como desvendarem a extinção dos dinossauros e o motivo de Sandra não dar bola para mim.
Depois cresci e essas esperanças ingênuas e juvenis foram sendo substituídas por crenças mais terrenas e pés no chão, como o desejo de ver as pessoas sendo cidadãs, sabendo viver em sociedade, considerando o próximo, exercitando a solidariedade, trabalhando honestamente e respeitando as leis escritas e também as sugeridas pelo bom senso. Que burro, eu. Troquei fantasias plausíveis pela mais absoluta irrealidade.
(Crônica publicada no jornal Pioneiro em 26 de abril de 2013)

sexta-feira, 12 de abril de 2013

Tempo, memória e poesia


Vivita Cartier, a Noiva do Sol, que fez poesia e morreu em Criúva

A passagem ininterrupta do tempo é a maior inimiga da manutenção do frescor da memória. A fim de conservar vivas as lembranças que nos são significativas, não podemos contar apenas com a saúde dos nossos neurônios e precisamos lançar mão à imensa gama de recursos que servem de gatilhos para o recordar e de instrumentos para a manutenção e o resguardo da história. As fotografias, os livros, os jornais, os relatos, as entrevistas, os depoimentos, os documentários, os filmes, os eventos e as homenagens são alguns desses expedientes, fundamentais para que a vida humana e cada existência em particular não se transformem em um eterno recomeçar do zero a cada novo dia, mas se configurem em um processo contínuo de construção da história.
É nesse sentido que merece aplauso a iniciativa da Biblioteca Pública Municipal Dr. Demetrio Niederauer que, hoje à noite, a partir das 20h, realiza a terceira edição do projeto “Noite na Biblioteca”, tendo como tema os 120 anos de nascimento da poetisa Vivita Cartier, porto-alegrense nascida em 12 de abril de 1893 que morreu tuberculosa aos 26 anos de idade em 21 de março de 1919, em Criúva, onde há anos se estabelecera procurando nos ares da Serra uma esperança de cura. Enquanto buscava nos recursos da medicina de seu tempo o alento para os males físicos que a afligiam, Vivita produzia poesia a fim de amenizar as dores que lhe corroíam também a alma, entre elas, uma paixão não correspondida e a distância da efervescência cultural da Capital, da qual fizera parte ativamente nos anos anteriores ao agravamento de sua doença.
Produziu pouco e morreu jovem. Mesmo assim, os recursos da manutenção de sua memória e de sua contribuição para a literatura vêm sendo colocados em uso ao longo desses quase cem anos de sua morte, a ponto de Vivita amadrinhar cadeiras em duas academias literárias: a de Caxias do Sul e a Feminina do Rio Grande do Sul. O evento de hoje à noite é mais um importante lampejo para garantir que jamais se extinga a luz poética que sua vida e sua poesia trouxeram de forma fugaz, bela e sensível ao mundo, enquanto nele permaneceu. A memória de sua vida e de sua obra, ao que tudo indica, seguirá permanecendo.
(Crônica publicada no jornal Pioneiro em 12 de abril de 2013)

domingo, 10 de março de 2013

Olhos de passarinho


Do topo de um prédio alto, muito alto, posicionado bem no coração central da cidade, um giro de 360 graus me proporciona uma visão ampla do avanço ininterrupto das crias da civilização sobre a hospitalidade ingênua da natureza, primitiva habitante dessa serra. A linha do horizonte, em seus quatro cantos, já está praticamente toda tocada pelo concreto das construções e pelo asfalto das rodovias, que levam, trazem e assentam os protagonistas diários da pujança coletiva que empurra a história para frente, tirando do meio do caminho as pedras e também as formigas, a relva, as flores, os ninhos dos pássaros e algumas formas antigas de ser gente.
Cá embaixo, uma demanda incomum me põe a perambular com olhar diferente pelas vias centrais lotadas de compromissos alheios, cotovelos apressados e buzinas intolerantes. Em meio ao burburinho das esquinas que tanto conheço, meu olhar procura hoje não o tempo certo do semáforo para cruzar a rua junto ao cardume, mas sim os vestígios de uma existência que insiste em manter-se viva por detrás das placas de propaganda e do cruzamento apressado dos ônibus carregando atrasos. A partir de então, cada passada abre um portal para um mundo que permanece alheio à urbanidade nossa de cada dia.
Nos fundos da casa espremida entre os dois prédios, o empresário aposentado, chapéu de palha na cabeça, cutuca a terra com a enxada, organizando sua horta repleta de ervas aromáticas. Na esquina entre os dois cruzamentos de todos os dias, surge um armazém com cheiro de história, em cujas prateleiras de madeira desfilam o fumo em corda, as caixas de palheiros, os coadores de pano para café, os fervedores de leite, as bacias de louça, os fluidos para isqueiro, as formas de alumínio para pão e bolo, a creolina, a pedra para limpar chapa de fogão a lenha, as ratoeiras, os serrotes, os bilboquês e os piões de madeira. Ao lado da sinaleira, na desbotada casa ancestral, a velha senhora cultiva gatos e mantém a solidão do lado de fora.
São pequenos oásis de resistência, dentro dos quais biografias pulsam sem pressa. Raros são os olhos que os enxergam e nem todas as passadas levam a eles. A credencial, meus caros, é ter olhos de passarinho.
 (Crônica publicada no jornal Pioneiro em 8 de março de 2013)

sexta-feira, 1 de março de 2013

Sopros antigos


Aqueles eram tempos de joelhos e pés encardidos. As casas tinham pátios com gramados e terra e era comum haver num canto do quintal um montinho de areia sobrado de alguma reforma, no qual os gatos enterravam suas necessidades e nós depois brincávamos faceiros construindo estradinhas para o tráfego dos caminhões de plástico e dos tratores de madeira. Eu tinha carrinhos de chumbo e passava as tardes lustrando o chão de meu quarto com os joelhos, a criar cidades com quadras moldadas pela disposição ordenada de várias revistas, entre as quais surgiam ruas e esquinas imaginárias.
Quando vinham os amigos, jogávamos bola fazendo a parede do galpão de goleira ou voávamos de bicicleta sobre rampas erigidas com tijolos e tábuas. Caíamos muito e esfolávamos joelhos e cotovelos, que pareciam terem sido criados exatamente para isso. Depois, nossos adereços consistiam em band-aids e no vermelhidão do Mertiolate passado nas feridas, processo que ardia muito e era amenizado pelo sopro carinhoso e alentador de nossas mães, à noite.
Tínhamos de lavar os pés no bidezinho do banheiro antes de irmos para a cama, e havia hora certa para ir para a cama. Mas era comum ficarmos ainda muito tempo de olhos abertos na escuridão do quarto revivendo tintim por tintim as aventuras empreendidas ao longo daquelas intermináveis tardes de infância. Adormecíamos ao sabor do som distante das conversas dos adultos, submergindo assim em uma atmosfera de aconchego que vai se esvaindo com o avançar do tempo e o acúmulo dos aniversários.
Por mais que os escovássemos, os garrões dificilmente ficavam realmente limpos, pois não era fácil eliminar o acúmulo dos vestígios daquelas infâncias serelepes vivenciadas entre irmãos, primos, vizinhos e coleguinhas. Uma fina tampinha de pele mais tarde surgia sobre os machucados, ao cicatrizar, e os mais corajosos entre nós gostavam de se exibir arrancando-as lentamente como se não sentissem a dor aguda que penetrava na espinha dos outros que assistiam impressionados à cena.
Depois, com o tempo, a gente se transforma em adultos de pés limpos, joelhos lisos e cotovelos de reunião. Já aqueles que forem dotados de boa memória e gosto pela nostalgia, terão um pouco mais de sorte.
(Crônica publicada no jornal Pioneiro em 1 de março de 2013)

sexta-feira, 14 de dezembro de 2012

As cápsulas do tempo


Uvanova é uma pequena e simpática cidadezinha de colonização italiana encravada no alto da Serra Gaúcha na divisa entre Tapariu e o Rio das Antas, conhecida por seu povo amigável e pelo sagu de polenta cuja receita secreta as nonas não revelam nem no confessionário, apesar de muitos padres já as terem tentado a fazê-lo, infrutiferamente. Os uvanovenses são apaixonados por futebol e, agora em dezembro, coincidentemente, os dois clubes citadinos dedicados à prática do esporte bretão celebram 30 anos de chutes, caneladas, raros gols, rivalidade acalorada e muita alegria.
 Fundados no mesmo dia 3 de dezembro de 1982, tanto o Esporte Clube Que Lance quanto a Associação Atlética Canoa Furada dividem as emoções esportivas de toda a comunidade. Este ano, o prefeito Parreirino Della Merlota resolveu realizar um evento cuja intenção era promover a união entre os correligionários, atletas e diretores dos dois times, oferecendo-lhes um sopão de anholine grátis no domingo passado, no salão de festas da igreja.
Aproveitando a ocasião histórica, o secretário municipal de Cultura, Desportos, Educação, Agricultura e Saneamento Básico sugeriu que fossem abertas as duas cápsulas do tempo (urnas contendo material da época e documentos a serem legadas para as gerações vindouras) que haviam sido enterradas três décadas atrás em cada clube, junto com a pedra fundamental de cada estádio (que nunca saíram da planta). Abertas as urnas, a surpresa e a decepção: em uma delas, um disco em vinil contendo o hino do clube; uma fita cassete trazendo declarações dos dirigentes da época e dos jogadores e uma fita VHS com imagens e depoimentos relevantes. Nada foi aproveitado, pois ninguém em Uvanova encontrou um toca-discos para escutar o vinil, nem um gravador para rodar a fita e tampouco um videocassete para exibir o VHS. Já o outro clube, cuja cápsula do tempo trazia um livro narrando a história de sua criação, um jornal com entrevistas com os dirigentes e jogadores e um álbum de fotografias analógicas reveladas em papel, teve sua história revivida e apreciada por todos de forma imediata.
Ninguém mais em Uvanova discute a questão do fim do livro ou dos veículos impressos.
(Crônica publicada no jornal Pioneiro em 14 de dezembro de 2012)

terça-feira, 21 de setembro de 2010

Nênia a um poeta e a um contista

Descobri tardiamente a poesia do padre Oscar Bertholdo, assim como tardiamente descubro muito do que há de bom na vida. Hipnotizaram-me os versos soprados à mão dele pela alma que lhe cabia, e comunguei com ele as sensibilidades que deitou pousar no volume batizado “Matrícula”, junto com outros então mancebos poetas que, com o tempo, tiveram chancelado o talento, igual ele.
De quebra, sem esperar, além do doce da poesia, ganhei de presente-surpresa a redescoberta de um pedaço de meu pai.
No ano que antecedeu à morte de meu pai, ele veio à Serra, ansioso por descobrir o resultado de um concurso literário do qual participara na condição de contista, em Farroupilha, o Concurso Regional de Poesias, Contos e Crônicas Oscar Bertholdo, então em sua primeira edição. Havia sido convidado pela comissão organizadora do evento para participar da solenidade de revelação dos vencedores e entrega dos prêmios, e estava confiante e exultante. Na “hora H”, coube-lhe o segundo lugar, um troféu e a frustração por não ter angariado os louros maiores e o prêmio em dinheiro.
Morreu meu pai alguns meses mais tarde e herdei eu o troféu, que ele esquecera a um canto entre seus pertences.
Hoje, ao palmilhar a delicada e profunda imersão que o poeta que empresta nome ao concurso faz na alma por meio de sua poesia, resgato e redimensiono o valor do segundo lugar que a obra de meu pai conquistou. Talvez, se ele tivesse, à época, conhecido o tamanho da arte de Bertholdo, poderia ter deitado um olhar mais carinhoso ao prêmio recebido e à própria arte de sua autoria que o troféu valorizava.
Um valor enobrece o outro e eu, em meio a isso tudo, valorizo minhas lembranças e alimento-as com poesia. Graças a almas como as que moveram homens como eles dois, cujos caminhos só se cruzam agora, nas encruzilhadas póstumas das recordações que trafegam pelos labirintos de minha memória.
PS 1 = Oscar Bertholdo nasceu em Nova Roma em 1935, então pertencente a Antônio Prado, e morreu assassinado, sem poesia, em Farroupilha em 1991. Era padre e poeta.
PS 2 = Meu pai nasceu em Ijuí em 1942 e morreu atropelado, sem poesia, em Ijuí em 2004. Era terapeuta naturista e contista.
PS 3 = Nênia, para facilitar a vida do leitor, é um canto fúnebre em homenagem a pessoas que partiram.
(Crônica publicada no jornal Informante, de Farroupilha, em 17/09/2010)

sexta-feira, 10 de setembro de 2010

As azedinhas

(Balinhas são o objeto do desejo de dez entre dez velhinhos iguais a mim)


Tudo é relativo. Quer ver? Leia-me.
Passeava eu, despreocupado, por um empório que comercializa produtos gastronômicos atraentes, quando topei com um artigo que me teletransportou para a minha infância. Manuseei embevecido o potinho transparente que continha as saborosas balinhas de açúcar, azedinhas e coloridas, cortadas como se fossem minitubinhos com as laterais ornamentadas com desenhos das frutas às quais seus artificiais sabores remetem, e me vi criança.
A lembrança dessas balinhas tipo pedregulhos havia se evaporado de minha memória junto com as nuvens que devem guardar inesgotáveis registros de objetos, fatos e sensações que povoaram e moldaram os primeiros anos de minha existência. Não tive dúvidas: capturei uma embalagem daqueles artiguinhos que me catapultavam de volta ao passado e dirigi-me ao caixa, ali pilotado por uma moça de seus vinte e poucos anos de idade, sorridente e simpática.
Tão sorridente e tão simpática que entabulou conversa comigo enquanto o scanner lia a tarja com o código de barras, perguntando-me se aquelas balinhas eram de fato gostosas. “São, sim. Ao menos, pelo que eu me recorde, são. Elas me lembram a minha infância”, respondi, também todo simpático e sorridente. Ao que ela emendou: “Pois é, vários idosos vêm aqui e compram essas balinhas, dizendo a mesma coisa”. E assim foi-se balcão abaixo o sorriso simpático de meus lábios, e pesaram-me as cãs no exato instante em que meu cérebro traduziu as entrelinhas do que a simpática moçoila me dizia, a mim, o idoso a adquirir balinhas pré-históricas.
Cheguei em casa, abri a embalagem e contei todas as balinhas (típica atitude de velhinho): 32 cubinhos recheados de sabores da infância, a serem degustados um a um enquanto recordo os tempos passados e procuro me habituar ao fato de que esse passado já é bem passadinho mesmo. Para mim, foi ontem que o garotinho míope chupava essas balas com o nariz enfiado em livros de Monteiro Lobato. Para a rapariga do empório, esses velhinhos como eu parecem tão simpatiquinhos comprando as balinhas de sua dinossáurica infância... Simpatia e velhice são, de fato, conceitos relativos...


(Crônica publicada no jornal Pioneiro, em 10/09/10)