segunda-feira, 4 de abril de 2011

Despertar felino


Eu, por mim, acordava sempre meia hora mais tarde. No meu horário de acordar, mesmo. Problema é que o gato de estimação que mora lá em casa tem um relógio biológico diferente do meu e não se contenta em dar início às suas atividades felinas matinais sozinho. Ele exige minha presença, minha participação ativa nas tarefas a que se propõe desde o raiar do sol. E, para isso, lança mão (ou lança patas, unhas e língua) a todos os expedientes que conhece para me despertar e me envolver em suas demandas. Minha esposa possui a bênção do sono profundo e ele sabe disso, o que o faz ignorá-la e direcionar seus esforços todos sobre mim. Eu, amaldiçoado com sono leve, não preciso de mais do que dois miados no ouvido, ou uma patada no focinho (quer dizer, no nariz), ou uma roçada de cabeça no joelho para me colocar plenamente desperto às seis e meia da manhã. E ele também sabe disso. O que ele não sabe é que não sou escravo de horários fixos predeterminados. Tenho minha própria agenda de compromissos, maleável, instável, cambiante, diferenciada. Sou meu próprio patrão. Não preciso me levantar às seis e meia. Posso pular da cama às sete, que é como programo meu cotidiano, para, assim, dar início aos meus trabalhos às oito e meia. Mas fazer o que, se a jornada de Bioy, o gato, começa às seis e meia, e ele decidiu que, para iniciá-la, precisa de mim a seu lado? E não adianta simplesmente acordar, virar para o lado e pelo menos permanecer na cama pela meia hora que, de direito, ainda me pertence. Impossível fazê-lo com um gato mordiscando os dedos do teu pé, ou miando em teu ouvido, ou trazendo na boca a conta de luz na esperança de que aquele papel se transforme em bolinha a ser jogada com ele. Não tem jeito, a única alternativa é saltar da cama e interagir com o bichano às seis e meia da manhã mesmo, para a alegria e felicidade dele. Meia hora depois (às sete em ponto, portanto), quando já estou irremediavelmente desperto, ele traidoramente se entrega ao mais felino e profundo dos sonos matinais no sofá da sala. Um sono de dar inveja. E de morrer de raiva. Ainda não o esganei e nem tenciono fazê-lo. O consolo é que começo a desconfiar de que sou uma boa alma... (Crônica publicada no jornal Pioneiro em 1 de abril de 2011)

sexta-feira, 1 de abril de 2011

Que dia é hoje

Sou insistentemente contra essa imposição mercantilista que o comércio força sobre as pessoas, transformando datas especiais em pretextos para a gastança. Natal não é mais um convite para a reunião em família e a reflexão sobre a saúde dos valores humanos que regem nossas vidas (se é que eles ainda existem). Páscoa deixou de ser um momento em que a reflexão interior também ganha espaço e mesmo a tradicional brincadeira de procura pelo ninho escondido pelo Coelhinho já se esfumaça na memória dos mais velhos. Aniversário, dia das mães, dia dos pais, dia do amigo, tudo virou pretexto para comprar presentes, como se essa fosse a única maneira aceitável na atualidade de demonstrar afeto, carinho, consideração, lembrança. Como se não bastasse, até o norte-americano Halloween (o dia das bruxas) já estamos importando, bem como o Valentine’s Day, que nem sei direito de que se trata e, por favor, não se preocupem em me explicar, que pouco se me dá. Tudo, claro, para amplificar o tilintar dos cobres nas caixas registradoras do comércio e da indústria. Para aquecer a economia. Para gerar empregos e coisa e tal. Tudo muito lindo, sou a favor de aquecer a economia e de gerar empregos e coisa e tal, e como é que poderia ser contra? O que me preocupa é a subserviência pacífica, o comportamento de boiada que nos habituamos a adotar frente ao estímulo mais raso, ante a mais leve convocação do sistema para que gastemos. Se eu não der um presente para a minha mãe no dia das mães, é sinal de que não amo a minha mãe como deveria, correto? Pois é. É isso aí, seu desalmado. Monstro. Insensível. Filho ingrato, mau, horroroso. Como é que dorme à noite? Levanta, vai lá, compre um presente (de preferência, bem caro) e escancare o tamanho de seu amor. Caso contrário, se ficar só no sentimento, só naquela coisa de coração, ninguém vai ver, né? Pois é. É isso aí. Existe algo mais discriminatório do que o Dia Internacional da Mulher? Reservar um dia entre os 365 do ano para reverenciar as mulheres é consolidar a visão discriminatória que a sociedade nutre sobre o gênero feminino. Homens e mulheres devem lutar por igualdade e não por discriminação. Quer ser romântico e amoroso, seja-o hoje, amanhã. Surpreenda. Ludibrie o sistema, os comerciantes, e encante a quem você ama por você mesmo, não por imposição, não por obediência ao calendário. “Eu amo muito a minha mulher no Dia da Mulher. É quando mando flores para ela”. Que amor, você... Mas nada contra presentear. Eu adoro dar e receber presentes. Mas tudo contra a obrigação e a mercantilização dos sentimentos. Tudo contra a cobrança e a deturpação do real sentido e da real dimensão das coisas. Alice, a do País das Maravilhas, ensinou a celebrar o Dia do Desaniversário, pois não? É uma alternativa a se pensar... Ah, hoje é primeiro de abril, dia dos bobos, da mentira, lembra? Será que é só hoje mesmo...? (Crônica publicada no jornal Informante, de Farroupilha, em 1 de abril de 2011)

sexta-feira, 25 de março de 2011

O buquê abre-alas


O cenário urbano composto por passos ofegantes e veículos transtornados disputando primazia nos cruzamentos e calçadas é de súbito alterado ao cair da tarde de uma quinta-feira, nas quadras que formam a região central da cidade. Cotovelos que se esgueiram tentando evitar choques na multidão e pescoços projetados para a frente, abrindo caminho, repentinamente relaxam as tensões provocadas pelos horários e tarefas a cumprir para registrar a cena incomum que, por instantes, concede algumas gotas de humanidade a uma paisagem habituada à mecanicidade imposta pelo mundo moderno.
Trajando a indumentária típica do executivo metido em terno e gravata, o homem de meia-idade avança calçadas adentro sustentando em uma das mãos a pasta de trabalho e, na outra, o buquê de rosas vermelhas que, inesperadamente, vai abrindo passagens e arregalando olhares. Ele segue firme, rápido, determinado, o olhar fixo avante, pleno no desempenho de seu papel de cidadão apressado como tantos outros em meio à multidão. O que o distingue dos demais reside na doçura das formas e das cores das flores que na mão direita empunha. Todos abrem alas para o homem com flores.
As colegiais que debandam em grupos das escolas compartilham risinhos estupefatos represados pelas mãos. Os homens lançam e recolhem furtivos olhares que mal camuflam a surpresa. As mulheres de todas as idades sorriem por dentro julgando terem tido a rara sorte de detectar a existência de algum “último dos românticos” ainda à solta por aí. A moça em uniforme azul que monitora os parquímetros abre os braços lá adiante aguardando a aproximação do homem com flores e exclama, brincado: “muito obrigaaaada”. Ele cruza adiante com um meio-sorriso. Não são para ela, óbvio Vai saber se já recebeu flores antes. Vai saber se a brincadeira não lhe doeu na alma.
Não se sabe qual era o destino do buquê de rosas portado pelo homem apressado pelas calçadas do centro da cidade no final daquela tarde. Mesmo assim, cada uma daquelas flores tocou alguma parte da alma de quem presenciou a cena. Cai a noite, encerra-se outro ato de vida urbana. Um novo dia vem amanhã. Quem sabe se haverá rosas pelo caminho...
(Crônica publicada no jornal Pioneiro em 25 de março de 2011)

segunda-feira, 21 de março de 2011

Eu quero um novo imposto

Tenho uma ideia para um projeto de lei que, se aprovado, ajudará a erradicar boa parte dos males que assolam a nação. Antes de mais nada, preciso de um deputado que encampe minha proposta e formate o projeto. Vamos ver se alguém se habilita. Minha proposta visa a erradicar do solo pátrio a burrice, essa pervertedora de cérebros e atravancadora do progresso. De que forma? Instituindo um Imposto Sobre a Burrice, o ISB. Sua aplicação será simples e imediata, a cada instante em que algum cidadão praticar um ato de burrice.
As ideias geniais que perduram e transformam a vida humana têm em comum a característica de serem assim, simples e fáceis de entender e de aplicar, como o palito de fósforo, a corneta militar, o guarda-chuva, a batata frita e o colchão de molas. Meu Impostinho Sobre a Burrice também habita essa seara das ideias simples e geniais e, garanto, se aprovada, transformará rapidamente nossa sociedade, pois que as asneiras cotidianas passarão a doer nos bolsos dos estultos, e aí sim, aiaiai, é que eu quero ver.
Ocorreu-me a iluminação súbita quando li na imprensa a notícia de que o prefeito de uma de nossas cidades praianas gaúchas decidiu suspender as aulas da rede pública de ensino na semana passada, quando soube das apavorantes notícias dos estragos causados pelo terremoto no Japão e os tsunamis (as ondas gigantes) que sobrevieram nas costas de vários países. Uma rádio local divulgou a informação de que reflexos do tsunami poderiam chegar ao litoral de países da América do Sul (o que é correto), e o prefeito resolveu agir com extremada prudência, mandando as criancinhas ficarem em casa. O detalhe é que o Japão localiza-se no Oceano Pacífico, e a região sul-americana na mira do alerta era a costa banhada pelas águas deste mar, como Chile, Peru e outros, e não a nossa Punta Del Leste Guasca, banhada, desde que eu me lembre, pelas águas do Atlântico, que nada teve a ver com esse pastel de siri.
Alguém aí faltou à aula de geografia: o prefeito ou o radialista. Talvez ambos tenham sido coleguinhas e gazearam aula no dia em que a profe desenrolava frente ao quadro-negro um mapa-múndi. Só espero que as aulas perdidas na semana passada na tal praia não tenham sido novamente sobre a localização dos continentes. Mas afinal, prudência em excesso não faz mal, haverá quem me critique pela minha intolerância. Mas é que somos recorrentes nesse tipo de pantomima, e deixamos de empreender esforços na solução de problemas reais e palpáveis. Eu me lembro que o Brasil, quando da primeira Guerra do Golfo, lá no início dos anos 90, sob a presidência de Fernando Collor de Mello, foi o único país do mundo a adotar racionamento de combustível durante o conflito (nem os diretamente envolvidos no confronto o fizeram). Que patuscada.
Alguém aí se habilita a apresentar meu projeto?
(Crônica publicada no jornal Informante, de Farroupilha, em 18 de março de 2011)

sábado, 19 de março de 2011

Inabilidade pessoal

(Se me avistarem em algum museu...)

Não são só as mulheres que compram por impulso e depois se arrependem. Nós, homens, também aprontamos dessas às vezes, porém, não contamos a ninguém ou disfarçamos muito bem. Eu, por exemplo, dia desses, choquei toda a minha família ao anunciar que havia adquirido um estojo de ferramentas com furadeira. “Para quê?”, queriam saber tios, primos, avós, mãe, irmã, esposa, sogro, sogra, cunhados, cunhada, gatos e galinhas. O espanto geral procede, afinal, sou reconhecidamente um redondo zero à esquerda em matéria de habilidades manuais.
Em Uvanova, a pequena, simpática e acolhedora cidadezinha situada no meio da Serra Gaúcha, vizinha a Tapariu, onde residem meus sogros e família, todos já desistiram de me botar a enxada na mão ou de me convidar para ajudar a colher uvas. “Melhor mesmo é deixar o Marcos quieto lá no canto, lendo os livrinhos dele, que não coloca ninguém em risco”, compartilham todos os uvanovenses em relação a mim. Especialmente depois daquela feita em que fui ajudar a cortar a grama do pátio manuseando a maquininha de corte com fio e, quando vi, havia aparado todas as unhas do pé esquerdo no qual acabara de rasgar ao meio o chinelo-de-quase-ex-dedos que calçava. Tiraram-me das mãos o aparador e me mandaram para a casinha ler o jornal de ontem.
Desistiram definitivamente de mim poucas semanas atrás quando, também em Uvanova, meti-me a querer ajudar o pessoal a produzir geléia de uva, com os frutos recém colhidos do parreiral e da maneira como os antigos faziam. O sogro juntou a lenha enquanto tirávamos os grãos de uva dos cachos (isso me permitiram fazer) e logo o tacho estava no fogo, recebendo as uvas e o açúcar que, magicamente, logo se transformariam em saboroso doce. Como todos, quis também mexer a mistura com a mescola (pá de madeira usada para esses fins uvanovenses), mas fui catapultado de volta para a casinha do jornal de ontem quando minha descoordenação motora me fez começar a espalhar geléia por todo o pátio.
Por que, então, afinal, a aquisição da caixa de ferramentas com furadeira? Por causa da sedução irresistível da publicidade. Trata-se de um alerta. Protejam suas crianças. E me alcancem um jornal de ontem, por favor.
(Crônica publicada no jornal Pioneiro em 18 de março de 2011)

quarta-feira, 16 de março de 2011

Twittando a si mesmo

Depois que surgiram os aparelhinhos que permitem baixar livros pela internet, teve início a paranóia de que os livros no formato como os conhecemos, impressos em papel, vão acabar. É só o que se fala nos meios que lidam com a questão da leitura. Debates e mais debates, teses e contrateses analisadas por apocalípticos (que acham que a catástrofe da extinção dos livros é iminente e irreversível) e integrados (que dizem que a coisa não é tão feia assim e até existem pontos positivos no processo). Eu, de minha parte, tenho chamado a atenção para um outro fator que corre paralelamente a essa discussão: minha preocupação maior é com a possível extinção da raça dos leitores antes do desaparecimento dos livros.
O que vejo na sociedade deste século XXI e no perfil das pessoas que ela está moldando é um afastamento da capacidade e do ato de ensimesmar-se, ou seja, de estarem consigo mesmas durante pelo menos alguns momentos do dia. Conforme o Dicionário Aurélio, “ensimesmar” é o mesmo que “meter-se consigo mesmo” e, em minha opinião, esse ritual é o principal pré-requisito para a pessoa poder desenvolver o ato e o hábito de ler. A extinção do ensimesmamento é, ela sim, a maior ameaça à leitura, e não a internet, os e-books, a televisão, os videogames, os autoramas. O agito que molda a personalidade das gentes do mundo atual (e não me refiro apenas às novas gerações, mas à maioria dos que habitam o mundo hoje) faz as pessoas desconhecerem o silêncio e nem imaginarem o que significa mergulhar em seu próprio mundo interior.
Aprender a ler significa muito mais do que dominar a captura da compreensão do sentido existente em um texto impresso. Aprender a ler é algo mais profundo: requer o destemor de ter contato íntimo consigo mesmo. De invocar minutos de silêncio; de desobstruir o cérebro de estímulos visuais e sonoros, do desafio supremo de afastar-se dos e-mails, do facebook, do orkut, do twitter, do youtube, do BBB por um par de horas. De desligar o iPhone. De amansar o celular. De não estar para ninguém por alguns instantes e dar a si próprio o supremo prazer de sua visita: “Olá, Eu; vim ver-me. Como tenho andado? Vim ler Comigo um pouquinho”.
As pessoas hoje em dia têm a ânsia de estarem conectadas com outras pessoas e com o mundo por meio da virtualidade proporcionada pela internet. Em contrapartida, desejam ser também alvo do interesse dos outros e de todo o mundo: querem ser seguidas pelo twitter, querem que seus perfis eletrônicos sejam acessados, querem que seus blogs sejam lidos. Para isso, no entanto, esquecem que é necessário serem elas mesmas pessoas interessantes, às quais seja excitante seguir, com quem seja estimulante conectar-se. E como se molda uma pessoa interessante, com quem valha a pena estar conectado? Existe só um meio: lendo. Lendo, lendo, lendo e lendo. E depois, refletindo sobre o que leu, iluminando-se e gerando novas ideias. Aí sim, somos interessantes e despertamos nos outros o desejo de se conectarem conosco.
Antes, para que essa mágica aconteça, é necessário conectar-se com seu próprio mundo interior por meio dos prazerosos momentos de ensimesmamento, que aplacam o espírito, levam ao autoconhecimento e conduzem às leituras e à iluminação pessoal. Experimente essa ideia.
(Texto publicado na seção Planeta Livro, na edição de março de 2011 da revista Acontece Sul, de Caxias do Sul)

segunda-feira, 14 de março de 2011

Um pequeno cidadão

O rapaz do caixa bate os dedos nas teclas da máquina de somar para descobrir o montante que devo desembolsar para quitar a conta de meu almoço no restaurante que serve comida vendida a peso. Subitamente o processo no qual estamos envolvidos é interrompido por um cidadão de cerca de um metro de altura, que aproximara-se sem que nenhum de nós houvesse dado por conta de sua presença. Do alto de seus não mais do que três aninhos de idade, enfiado em uma calça estilo capri e sandálias, ele ergue o braço direito em direção ao caixa e expressa sua solicitação:
- Moço, me dá uma bala?
Terminada a refeição na qual tenho certeza de que limpara todo o prato, o rapazinho fora liberado pelos pais a atravessar o salão e solicitar a guloseima distribuída gratuitamente às crianças pelos donos do estabelecimento, a título de sobremesa.
- Você quer a vermelha ou a verde? – indaga o caixa.
- Vermelha – responde, convicto, com a vozinha que mal alcança os ouvidos do interlocutor.
A balinha redonda envolta em papel transparente esvoaça entre os dedos do caixa saindo de dentro do baleiro e indo pousar na concha formada pela união das duas mãozinhas que recebem o trunfo tão aguardado naquele final de meio-dia. Antes de retomarmos o processo de cobrança e pagamento em que estávamos envolvidos, escutamos a derradeira frase do cidadãozinho, dirigida ao rapaz do caixa:
- Obrigado.
Com todas as letras e pronunciada sílaba por sílaba em bom som: “o-bri-ga-do”, disse ele; girou nos calcanhares e retornou ao local de onde viera para pescar sua bala vermelha. Gostei de ver o pequeno cidadão em ação. Ciente de seus objetivos, enfrentou sozinho a distância que o separava do aconchego da mesa dos pais até o alvo que continha sua meta desejada. Auxiliado por quem de direito, no caso, o rapaz do caixa, a quem acionara por meio de um pedido claro e consciente, não furtou-se de concluir o processo expressando o sinal da boa educação a que é submetido em casa, agradecendo o gesto com um sonoro “obrigado”, dito do coração, e não apenas para os pais verem (nem viram, estavam sentados longe).
Isso tudo com três anos de idade. Já é, pois, um cidadão. E com tanto a ensinar a tantos outros com tanta mais idade do que ele...
(Crônica publicada no jornal Pioneiro em 11 de março de 2011)