quarta-feira, 8 de julho de 2015

A nova habitante

A nova habitante de nossa casa finalmente chegou, antes de ontem. Já fazia algum tempo que ela vinha sendo esperada, com ansiedade e expectativa. Sabíamos de antemão que sua chegada iria alterar nossas vidas, iria dar um significado novo à nossa rotina, transformaria o cotidiano. Isso na medida em que o cotidiano pode ser transformado, em que a rotina pode ser ressignificada e em que a vida pode ser alterada a partir da chegada de uma nova cadeira para o escritório, claro.
Mas foi o que aconteceu. Chegou a cadeira pela manhã quando ainda estávamos ambos em casa, minha esposa e eu, trazida pela transportadora. Cadeira de escritório, ultramoderna, ergométrica, anatômica, repleta de alavancas cujas funções pretendo descobrir depois de me recuperar do susto inicial proporcionado pelo solavanco a que fui submetido estando sentado nela e mexendo na alavanquinha posicionada logo abaixo do assento, o que me fez cair quase ao nível do solo e foi por pouco, não fosse a ação atenta do anjo da guarda, que não espatifei o queixo e os dentes contra a beira da escrivaninha, ufa, dessa escapei.
Mas é coisa linda de se ver essa nova cadeira profissional que agora compõe o cenário de meu escritório caseiro (sim, “home office”, eu sei, eu sei). Fico observando o objeto ao longe, a partir da porta do escritório, e ponho-me a imaginar o quão felizes seremos juntos: quais os projetos que produzirei a partir de agora, sentado nela; os textos que escreverei; as ficções que elaborarei; os e-mails que remeterei; as crônicas que criarei...

Nada mais será o mesmo agora que pude trocar a cadeira que compõe o jogo da sala de jantar (temporariamente deslocada para o serviço no escritório) por esta criada em prancheta de engenheiro especialmente para vir abraçar o meu corpo, dar-lhe conforto e abrigo ao longo das horas que passo sentado à frente da tela do computador, voltado aos meus afazeres. Você não precisa de uma cadeira anatômica de escritório até o momento em que ganha uma. Mas não sei, ela ainda está fria... A crônica de ontem, escrita ainda na cadeira antiga, foi superior a esta... Veremos o que vai acontecer...
(Crônica publicada no jornal Pioneiro em 8 de julho de 2015)

terça-feira, 7 de julho de 2015

Mãos de tricoteira

Tudo na vida é relativo, já dizia Einstein décadas atrás, ao raciocinar sobre as coisas do mundo. E é mesmo, afirmo eu, décadas depois, consolidando assim, com minha anuência, a credibilidade do cientista famoso. “Ego também é uma questão de relatividade”, pensará o leitor crítico destas sempre mal-digitadas, e ele está certo também. Mas, vamos aos fatos, porque, sem eles, não haverá aqui crônica alguma e melhor seria passarmos logo ao almoço.
Tudo é relativo, dizíamos Einstein e eu. Vejam só: minhas mãos, por exemplo. Não é preciso ser versado em ciências biológicas ou anatômicas, muito menos possuir dons detetivescos de observação especial, para detectar, a partir de uma rápida olhada sobre elas, que tratam-se de mãos que jamais pegaram no cabo de uma enxada. Sim, minhas mãos são aquelas típicas mãos-de-fada, expressão de cunho pejorativo utilizada especialmente na roça e na colônia para fazer referência aos primos da cidade (eu sempre fui um primo da cidade, mesmo jamais tendo tido primos que morassem na colônia), que chegam com aquelas mãozinhas fininhas, branquinhas, lisinhas, desprovidas de calos e de arranhões, que jamais foram cortadas por arame farpado, jamais foram furadas por espinhos e rosetas, jamais colheram urtiga ou engoliram farpas de lenha.
Minhas mãos são dessas mãos de moça, mãos de donzela, imaculadas, alvas, polvilhadas com dedinhos babacas que tremem ao empunhar um martelo e ficam com cara de samambaia se lhe metem por cima um serrote ou uma chave-de-fenda. Mãos de pianista sem nunca terem dedilhado um piano; mãos de tricoteira sem saberem reger uma agulha; mãos de vidro, de cristal, de açúcar; mãos que abrem o berreiro se um palito de fósforo lhes queima a ponta do dedo, sim, são assim minhas mãos, admito.

Mas como tudo na vida é relativo, eis que surgem finalmente os ipads e os smartphones, com suas câmeras fotográficas digitais e seus botõezinhos milimétricos, criados especificamente para proporcionar a redenção da masculinidade de meus dedos. Sim, ao pegar um desses aparelhos e tentar bater uma foto, meus dedinhos viram dedões destroncados, apertando os lugares errados e teclando tudo junto ao mesmo tempo, atabalhoadamente. Finalmente consigo ser pelas mãos o troglodita que a relatividade há tanto tempo esperava de mim.
(Crônica publicada no jornal Pioneiro em 7 de julho de 2015)

segunda-feira, 6 de julho de 2015

Boca de ouro

Tratava-se de ouro. Sim, ouro mesmo. Não ouro puro, mas pó de ouro misturado a outros elementos, ela adiantou-se em explicar. Mesmo assim, era ouro. Ela falava e exibia a prótese dentária que havia extraído de minha boca, na revisão sazonal que fazemos de minha arcada dentária, ela e eu: eu, o portador dos dentes; ela, a dentista que deles cuida há anos. A partir de sua acurada competência, detectara ela um leve frouxar na prótese, o que bastou para que a arrancasse, investigasse, limpasse e recolocasse no lugar, firme e forte, pronta para seguir triturando e mastigando os nacos de picanha de que tanto gosto.
A novidade, no entanto, era a informação de que a tal prótese, fabricada para minha boca há décadas por outro dentista em outra cidade, fora muito bem forjada, com o uso, inclusive, de pó de ouro, o que surpreendeu a ela e a mim deixou de boca aberta, com um sugador resfolegante dependurado na gengiva. O que ela queria dizer era que o material encravado em minha boca era de primeira qualidade, o que me deixou bastante satisfeito, afinal, quem por aí tem o privilégio de mastigar ouro nas churrascarias de Caxias do Sul além de mim? Porém, à medida em que ela ia trabalhando dentro de minha boca, sensações diversas desfilavam por minha mente, antes de desaparecerem sugador adentro.
Uma delas foi a de medo. Medo de dormir de boca aberta em um ônibus ou em um assento de avião e despertar mais tarde dando por falta de minha valiosa prótese, surripiada por algum meliante atento a tudo o que reluz no interior da cavidade bucal de fortuitos e desatentos companheiros de viagem. Outra sensação foi a de esperteza, quando me dei por conta de que, em se aprofundando essa crise que atualmente nos assola, tenho na manga (ou na gengiva) a possibilidade de empenhar a prótese no caso de falta de recursos para a conta de luz ou para a conta na churrascaria.

Por fim, assomou-me à mente a percepção maior de todas: a de que nem sempre a presença de ouro na boca garante o valor daquilo que sai por ela. Muitas vezes, vale mais ouro aquilo que uma boca não diz. Obrigado pelo pequeno pó de sabedoria, minha prótese.
(Crônica publicada no jornal Pioneiro em 6 de julho de 2015) 

sábado, 4 de julho de 2015

Bergamotas ao sol

Veja só, que bom, abriu o sol, venha, traga as bergamotas e vamos comê-las lá fora, à beira da calçada, encostados no muro baixo que circunda a casa, pois que o melhor sabor das bergamotas se obtém quando desfrutadas assim, ao calor doce e manso de um solzinho de inverno. O melhor mesmo é praticar o ritual logo após o meio-dia, naquela curta e preciosa meia hora que ainda temos de folga antes de voltarmos cada um a seus compromissos no trabalho ou na escola ou na casa mesmo, quando conseguimos estar juntos celebrando o ato da vida em um prosaico encontro de almas, ao sabor, claro, das bergamotas.
A malvadeza do frio do amanhecer que nos fez mais uma vez desejar mandar tudo às favas e ficarmos na cama debaixo dos cobertores já foi amainado com as horas que passamos nos desincumbindo de nossas tarefas na primeira parte do dia, tendo a ameaça de chutação de balde sido de novo protelada e concretizada somente no setor secreto dos íntimos desejos jamais realizados. O sol agora se mostra amigo, acolhedor e convidativo, como que nos chamando à sua presença para que lhe emprestemos um pouco de nosso calor humano lá fora, ele que é obrigado a passar o inverno inteiro ao ar livre, longe do quentume de nossas casas, dos fogareiros, do fogão a lenha, dos aquecedores, das lareiras, dos rocamboles de cobertores nos quais nos amarfanhamos e adormecemos rezando por sonhos quentinhos.
Esse solzinho de meio-dia no inverno produz um calor e uma luminosidade diferentes do sol do verão, que também desejamos, mas frente ao qual precisamos tomar precauções para evitar consequências danosas oriundas do estender dos encontros. Nem todos os sóis são iguais, apesar de a ciência nos jurar que bailamos ao redor de uma mesma estrela por todo o sempre. Mas eu cá comigo, descascando essa bergamota, sentindo respingar nos olhos o chuvisco das gotas do gomo que saltam longe ao desgrudar da casca, cultivo as minhas desconfianças de que eles são vários, cada um com suas características, personalidades diferentes, calores e aconchegos variados.

Não são todos os sóis: o sol, não. Há sóis e sóis, como poderá ver se vier comigo lá fora comer bergamotas. Como? Hoje não pode, pois está sem tempo? Ah, então esquece, tchau, vou lá sozinho mesmo, e, depois, escrevo uma crônica.
(Crônica publicada no jornal Pioneiro em 4 de julho de 2015)

sexta-feira, 3 de julho de 2015

O despertar da pessoa

Existe um momento na vida de cada um de nós em que se dá aquilo que meu sogro denomina como “o despertar da pessoa”. Trata-se de um lampejo súbito, como o clarear da mente em relação à sua posição no universo, ao sentido de sua própria existência, ou mesmo em termos mais prosaicos e aparentemente simples como uma mudança de rumo, o abandono de um mau hábito, o que for. “O despertar da pessoa”, seja ele na intensidade em que se der e direcionado ao assunto que for, sempre se caracterizará por uma espécie de desobstrução do sol em um céu carregado de nuvens.
E não existe idade específica para que essa espécie de insight aconteça. Na verdade, se formos analisar mais a fundo, chegaremos à conclusão de que é possível até mesmo haver uma série de despertares ao longo da vida de algumas pessoas, mesmo que elas não se deem por conta disso. Você passou muitos anos de sua vida dirigindo seu automóvel até o dia em que o acaso o depara com a necessidade de trocar um pneu furado, coisa que até então você jamais havia tido a necessidade de fazer, ou porque os pneus não furavam, ou porque sempre havia alguém que os trocasse por você. Então você desce do carro, bota a mão no macaco e voilá! Troca o pneu com uma destreza e uma habilidade que jamais imaginava existirem latentes ali dentro de você. Você aprecia o suor escorrendo pela sua testa enquanto desaperta os parafusos da roda, você sente uma sensação prazerosa nas mãos que vão se sujando de graxa, você treme com a sensação do toque na borracha do estepe. E, quem diria: súbito, você se vê um exímio trocador de pneus furados, e já pensa em largar a carreira médica e abrir uma borracharia ali depois da curva do quilômetro oito! Deu-se então um inequívoco despertar da sua pessoa!

Meu afilhado de três anos de idade, por exemplo, já anda exercitando o inglês que está aprendendo na escolinha, a julgar pelo sonoro “ailoviú” que dispara a torto e a direito para pais, dindos, profes e demais entes queridos de suas relações. Está a despertar para uma língua estrangeira desde cedo, aquele pequeno pedacinho de pessoa. Muitos outros despertares aguardam por ele ao longo da trajetória pessoal que está a dar início. Importante é saber estar atento aos mais significativos desses despertares, evitando assim o risco de passar a vida sonambulando.
(Crônica publicada no jornal Pioneiro em 3 de julho de 2014) 

quinta-feira, 2 de julho de 2015

Saudades do Argemiro

Eram quase onze horas da noite na terça-feira quando desliguei a televisão em casa, terminada a partida entre Argentina e Paraguai pelas semifinais da Copa América. O placar de 6 a 1 a favor da Argentina me fez lembrar do vexame sofrido (ou protagonizado?) pela Seleção Brasileira frente à Alemanha na Copa do Mundo do ano passado, quando a bola balançou nossas redes uma vez a mais do que a dos paraguaios. Ai que dor. E foi aí que me lembrei do jogador Argemiro.
 Você aí, leitor, certamente não se lembra de Argemiro. Aliás, certamente nunca ouviu sequer falar de Argemiro. Pudera: Argemiro não fez fama em nenhum clube, apesar de ter jogado na Portuguesa e no Vasco da Gama. Argemiro não foi jogar em time estrangeiro em negociações milionárias que ganharam a mídia internacional. Argemiro não desfilava pelas baladas noturnas e nem de carrão pelas avenidas das principais cidades brasileiras. Argemiro não aparecia nas revistas de fofocas e nem dava entrevistas na televisão, até porque não existia televisão no Brasil na época em que Argemiro entrava em campo. Como, então, recordar de Argemiro?
Pois Argemiro, apesar da modéstia da biografia futebolística, tem lá seu lugar na história da Seleção Brasileira, já que integrou o time que disputou a Copa do Mundo de 1938, realizada na França e vencida pela Itália. Argentino atuava como meia, e ajudou o Brasil a conquistar o terceiro lugar na competição, ao lado de jogadores como Leônidas e Domingos da Guia. Foi a única participação de Argemiro na Seleção. Como não trouxe o caneco e não foi mais convocado, acabou esquecido.
Mas Argemiro existiu. Chamava-se Argemiro Pinheiro da Silva, nascido em Ribeirão Preto (SP) em 2 de junho de 1915 (teria feito 100 anos no mês passado, caso não tivesse morrido em 1975). Atuou no Esporte Clube Rio Preto entre 1931 e 1935, na Portuguesa Santista de 1935 a 1938 e no Vasco da Gama de 1938 a 1946, quando pendurou as chuteiras. Em nenhum desses clubes há estátuas erguidas a Argemiro.

Por que então essa súbita saudade de Argemiro, a quem nunca vi jogar e de quem nunca ouvi falar? Ah, sei lá... Talvez porque, no fundo, esteja mesmo é com saudades de verdadeiros jogadores brasileiros de futebol...
(Crônica publicada no jornal Pioneiro em 2 de julho de 2015)

quarta-feira, 1 de julho de 2015

Feliz meio ano

Bem-vindo à metade do ano! Venha, sente-se, pegue um drinque, saboreie um canapé, circule entre as pessoas, socialize, sinta-se à vontade. E, principalmente, mais importante do que qualquer outra coisa, perceba o quão privilegiado é você em relação a todos aqueles que, da mesma forma, começaram este ano e, infelizmente, por alguma ou outra razão, não conseguiram chegar até aqui. Faça um brinde à vida, o primeiro de muitos ao longo desta singela celebração. Bem-vindo, de novo, à metade do ano!
Mais de 180 dias já se passaram desde que a gente ergueu brindes na passagem da última noite de 2014 para a entrada da primeira madrugada de 2015. Vimos os fogos de artifício, trocamos beijos e abraços com os entes queridos, expressamos aos outros nossos desejos de um ano bom e fizemos, em nossos íntimos, nossas próprias reflexões, elencamos metas, definimos objetivos, recauchutamos promessas que, talvez agora, seja o momento de reavaliar. Mais de 180 folhas já viramos nas agendas, mais de 180 quadradinhos já riscamos nos calendários oferecidos generosamente de brinde pelas agências bancárias que cuidam do nosso suado dinheirinho. E um novo lote de novos 180 dias e um punhado a mais nos espera. Vamos a eles. Um brinde também à segunda metade do ano, que agora se inicia!
Sejamos todos bem-vindos à segunda metade do ano! Vamos entrando, tomemos assento, escolhamos os lugares nos quais nos sintamos mais à vontade. Afinal, o perfil de nosso ano quem constrói somos nós mesmos, apesar da crise econômica, apesar das tragédias, apesar dos escândalos políticos, apesar da violência, das estradas esburacadas, da dificuldade intrínseca que é viver. Mas estamos vivos, aqui chegamos, e cabe a nós desincumbirmos com competência a tarefa que nos é dada, essa atitude tão significativa que é seguir vivendo. Alguns de nós também não cruzarão em 31 de dezembro a linha de chegada, sabemos disso, a saída de cena de alguns faz parte do roteiro, bem como a alegre chegada de outros, que darão início às suas caminhadas rumo ao acúmulo de várias metades de anos.

Mas por enquanto, apenas inspire fundo, tome um ar, relaxe, reorganize as forças e prepare-se para seguir em frente. Bem-vindo à segunda metade do ano. Temos vida ainda pela frente. Ao trabalho.
(Crônica publicada no jornal Pioneiro em 1 de julho de 2015)