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sexta-feira, 3 de julho de 2015

O despertar da pessoa

Existe um momento na vida de cada um de nós em que se dá aquilo que meu sogro denomina como “o despertar da pessoa”. Trata-se de um lampejo súbito, como o clarear da mente em relação à sua posição no universo, ao sentido de sua própria existência, ou mesmo em termos mais prosaicos e aparentemente simples como uma mudança de rumo, o abandono de um mau hábito, o que for. “O despertar da pessoa”, seja ele na intensidade em que se der e direcionado ao assunto que for, sempre se caracterizará por uma espécie de desobstrução do sol em um céu carregado de nuvens.
E não existe idade específica para que essa espécie de insight aconteça. Na verdade, se formos analisar mais a fundo, chegaremos à conclusão de que é possível até mesmo haver uma série de despertares ao longo da vida de algumas pessoas, mesmo que elas não se deem por conta disso. Você passou muitos anos de sua vida dirigindo seu automóvel até o dia em que o acaso o depara com a necessidade de trocar um pneu furado, coisa que até então você jamais havia tido a necessidade de fazer, ou porque os pneus não furavam, ou porque sempre havia alguém que os trocasse por você. Então você desce do carro, bota a mão no macaco e voilá! Troca o pneu com uma destreza e uma habilidade que jamais imaginava existirem latentes ali dentro de você. Você aprecia o suor escorrendo pela sua testa enquanto desaperta os parafusos da roda, você sente uma sensação prazerosa nas mãos que vão se sujando de graxa, você treme com a sensação do toque na borracha do estepe. E, quem diria: súbito, você se vê um exímio trocador de pneus furados, e já pensa em largar a carreira médica e abrir uma borracharia ali depois da curva do quilômetro oito! Deu-se então um inequívoco despertar da sua pessoa!

Meu afilhado de três anos de idade, por exemplo, já anda exercitando o inglês que está aprendendo na escolinha, a julgar pelo sonoro “ailoviú” que dispara a torto e a direito para pais, dindos, profes e demais entes queridos de suas relações. Está a despertar para uma língua estrangeira desde cedo, aquele pequeno pedacinho de pessoa. Muitos outros despertares aguardam por ele ao longo da trajetória pessoal que está a dar início. Importante é saber estar atento aos mais significativos desses despertares, evitando assim o risco de passar a vida sonambulando.
(Crônica publicada no jornal Pioneiro em 3 de julho de 2014) 

domingo, 26 de abril de 2015

Gol artístico

Existe um personagem humano cuja essência ainda resta cercada de mistérios e incompreensões, especialmente porque as artes, por alguma razão que desconheço, não se debruçaram suficientemente sobre ele até o momento. Sabemos que é por meio das artes que conseguimos estabelecer conexões com as mais diversas facetas da alma humana, conhecendo aspectos essenciais relativos aos outros e a nós mesmos. As artes possuem essa função subliminar e fundamental, que une a sensação do prazer estético, na primeira leitura que oferece, ao processo de apreensão de conhecimento, que se dá de forma nem sempre racional. As artes são vitais para o desenrolar do processo civilizatório e para a permanente transformação dos seres humanos em mais humanos.
Daí que os filmes, as peças teatrais, a literatura, as esculturas, os espetáculos de dança, a mímica, a fotografia, a pintura e as demais manifestações artísticas, quando lançam suas luzes sobre determinada faceta do imensurável espectro humano, aproximam-nos da compreensão daquilo que, por experiência própria, jamais vivenciaríamos. Compreendemos as angústias do palhaço de circo porque já vimos filmes e lemos livros que abordam como personagens os palhaços de circo. Conhecemos a profundidade do sentimento de obsessão levado ao extremo porque navegamos pelas páginas da obra “Moby Dick”, de Herman Melville, acompanhando a caçada insana que o Capitão Ahab empreende pelos vastos mares em busca da baleia branca, motivo do ódio que lhe consome a alma. Conhecemos o horror da guerra ao fruirmos as linhas e as formas criadas pelo pintor Picasso em sua tela “Guernica”. E assim por diante.

Mas, às vezes, a Arte deixa órfãs algumas nuances da aventura humana. Os goleiros, por exemplo. Quem sabe o que lhes passa pela cabeça durante os intermináveis minutos em que ficam parados frente ao gol, observando o jogo se desenrolar no meio do campo? Qual o tamanho de suas angústias ao terem de defender sozinhos um pênalti (o cineasta alemão Wim Wenders é um dos poucos que já se debruçou sobre o tema)? Seriam todos os goleiros filósofos? Pouco sabemos. Mas vale a pena refletir um pouco sobre o assunto, especialmente neste domingo, 26 de abril, Dia do Goleiro (e de rodadas de campeonatos estaduais).
(Crônica publicada no jornal Pioneiro em 25 de abril de 2015)

quinta-feira, 15 de janeiro de 2015

Cumprimento ambiguo

Tudo depende do ponto de vista. Tudo. Nada é absoluto. Nada. As coisas na vida apresentam, no mínimo, dois lados. Sabem muito bem disso os jornalistas, que passam suas vidas profissionais lidando com versões dos fatos, e o Tio Patinhas, o maior dono de moedinhas do mundo, esses objetos que, por essência, possuem dois lados.
 Já matemáticos e arquitetos têm intimidade com objetos repletos de lados, como cubos, pirâmides, tetraedros, pentágonos, coisas assim. É lado que não acaba mais. E cada lado apresenta um universo infindo de versões possíveis, fazendo do mundo uma teia de complexidades impossível de ser reduzida a um pequeno e raso denominador comum. A vida e o universo desconhecem os denominadores comuns, os ignoram e os subvertem. Por isso que viver é uma aventura desprovida de manual e de tutoriais definitivos. É preciso ir vivendo e procedendo às avaliações das coisas da melhor forma possível.
Essas considerações se apossaram de minha mente manhã dessas em que eu perambulava pelas dependências de um shopping de malhas situado em cidade vizinha, fazendo companhia e guarda às necessidades aquisicionais da senhora minha esposa. Mal começamos a flanar pelos corredores no ziguezague típico de quem olha uma vitrine do lado de cá e cruza para olhar a vitrine do lado de lá, quando uma moça, atendente de uma das lojinhas, saiu porta afora a fim de dar um pulinho sei eu lá aonde e, ao cruzar por nós, reconheceu minha esposa, abriu um largo sorriso e disse-lhe “oi, tudo bem?”.

Opa! O sinal de alerta ligou. Quando a atendente de uma loja, em um shopping situado a cerca de 30 quilômetros de distância, reconhece a sua esposa a ponto de cumprimentá-la efusivamente, é porque algo vai mal. Quer dizer, algo vai muito bem no que tange à simpatia da atendente e sua capacidade de reconhecer clientes. Mas, ao mesmo tempo, talvez algo possa estar indo mal com a saúde financeira de meu cartão de crédito e com a frequência com que a senhora minha esposa, a mesma citada no meio deste texto, coloca os pés e a carteira naquele estabelecimento. É preciso verificar.
(Crônica publicada no jornal Pioneiro em 15 de janeiro de 2015)

quarta-feira, 15 de outubro de 2014

Feijão filosófico

Até uns dias atrás, eu tinha a convicção de que o melhor momento para refletir sobre a vida, sobre o mundo, sobre as questões filosóficas primordiais da existência humana, era a hora do banho. Isso porque é comum eu me colocar a filosofar em silêncio enquanto a água do chuveiro vai lavando de meu corpo as impurezas do dia, como numa espécie de convite metafórico para que eu faça o mesmo com a impurezas psíquicas que poluem a parte intangível de meu ser.
Há tempos eu já havia desbancado o travesseiro na hora de dormir como o melhor interlocutor para essas elucubrações internas pessoais profundas e altamente transformadoras, em especial porque, nos últimos anos, com o avanço da idade, minha relação com a cama tem se dado no esquema pá-pum: deito e durmo. Não reflito nada. Não penso em nada. Sequer fico me revirando de um lado para o outro. Se me conduzo para a cama, é porque o sono já se apoderou de mim todo, tanto da parte corpórea quanto da etérea, e às vezes desconfio até de que já estou ferrado em sono profundo alguns passos antes de chegar na cama, o que é uma temeridade.
Só que, agora, descobri o poder de indução à reflexão existente no ato de escolher feijão. Muitíssimo melhor do que a hora do banho ou a do sono. O segredo para conseguir obter reflexões mais profundas e complexas reside em alguns fatores importantes, passando pela quantidade de feijão a ser escolhida (punhados maiores do grão espalhadas sobre a mesa proporcionam reflexões mais prolixas) e pela espécie de feijão a ser manipulada (o feijão azuki, menorzinho e mais entremeado de impurezas, permite permanecer por períodos mais longos refletindo, o que, por si só, deveria originar pensamentos melhor elaborados, no entanto, sempre é arriscado fornecer garantias nesse terreno movediço das reflexões íntimas).

Semana passada, escolhendo feijão azuki, obtive três reflexões seguidas (um recorde pessoal), sendo uma delas bastante profunda. Fiquei muito satisfeito comigo mesmo. É a prova de que feijão faz bem para o cérebro. Essa, aliás, foi uma das minhas brilhantes reflexões. Às vezes, me surpreendo comigo mesmo...
(Crônica publicada no jornal Pioneiro em 15 de outubro de 2014)

sábado, 12 de julho de 2014

O passado presente

O passado, bem o sabemos, não existe. Pelo menos, não existe enquanto objeto ou fato tangível, uma vez que representa tudo aquilo que já existiu ou aconteceu (sempre no passado, naturalmente) em um tempo anterior ao presente instante. Viveríamos aprisionados em um infinito presente se não fôssemos dotados com o poder da memória, que tem a função de manter o passado presente, ou melhor dizendo, vívido (para não incorrermos em uma contradição em termos).
O dramaturgo inglês Harold Pinter (1930 – 2008), ganhador do Prêmio Nobel de Literatura de 2005, resumiu a questão desse modo: “O passado é aquilo que você lembra, aquilo que você imagina que lembra, que você se convence de que lembra ou finge lembrar”. Resumindo ainda mais, o que me parece que Pinter quer dizer é que o passado em si, mesmo sendo estático e encravado no tempo, é plenamente cambiante e mutável, uma vez que está à mercê dos sabores de nossa memória, ela sim, fugaz, etérea, fluida, inconstante, temperamental, inconfiável, volúvel (meu suposto resumo do resumo ficou imensuravelmente maior do que a tese, perdão).
Com o passar dos anos, acabamos transformando nossas próprias recordações em “causos” despudoradamente remodelados a fim de melhor se encaixarem à visão que temos de nós próprios, ou à imagem que pretendemos vender de nossas pessoas para quem nos cerca. Mas nem sempre (talvez quase nunca) esse processo se dá de forma consciente e deliberada.
Eu, por exemplo, até há poucos dias, estava me mortificando pelo fato de, cerca de 20 anos atrás, quando era editor do caderno Sete Dias do jornal Pioneiro, ter manuseado uma bela fotografia antiga da poetisa Vivita Cartier (1893-1919), morta e enterrada em Criúva, e publicado-a na capa do suplemento para ilustrar uma reportagem sobre eventos culturais que evocavam a memória de poetas do passado. Na época, não imaginava que eu mesmo, dali a duas décadas, estaria me escabelando em busca daquela mesma foto para ilustrar o livro que agora organizo sobre a história da vida da poetisa. Considerava uma ironia do destino o fato de eu mesmo ter manipulado a foto que agora me escapa e que tanto busco.

Porém, acabo de descobrir que não sou culpado de nada. Verificando as datas, percebi que a página do caderno em questão foi editada dois meses antes de eu chegar em Caxias do Sul para assumir a editoria do Sete Dias. O eu do passado que editou a foto de Vivita não existiu, diferentemente do que pensava o eu de hoje, que a procura. Não somos a mesma pessoa. Minha memória me culpava por algo de que sou totalmente inocente. Quero ver se as provas são suficientes para que ela me absolva. Isso, só o futuro dirá.
(Crônica publicada no jornal Pioneiro em 12 de julho de 2014)

quinta-feira, 10 de abril de 2014

O nocaute da popozuda

Tem vezes em que o hábito em mim arraigado, de procurar manter-me informado sobre o que rola mundo afora, ao invés de me proporcionar aquela sensação saudável de ser um cidadão consciente, acaba mesmo é me causando um profundo cansaço. Isso acontece naqueles dias em que minha estrutura psíquica está mais sensível ao ataque da sucessão de descalabros que nos atingem diariamente, disparados de todos os lados sem nos concederem possibilidade de defesa, o que, sabe-se bem, é um indesculpável agravante.
Hoje é um desses dias. Folheio os jornais pela internet e vou levando golpes na boca do estômago do meu bom senso até quase ir a nocaute (e não há técnico nenhum no corner preocupado com o resguardo de minha integridade, pronto para jogar no ringue a toalha e me proteger do massacre). Vou folheando e tentando encaixar um jab de esquerda que vem de Brasília, um gancho de direita desferido de Porto Alegre, um direto vindo direto de Caxias mesmo, um cruzado do exterior e por aí afora. Perco rapidamente o fôlego, baixo a guarda, os golpes continuam e nada de soar o gongo da cidadania, da seriedade, da humildade, da honestidade, da fraternidade, da tolerância, para me salvar.
Às vezes, a vontade que dá é de simplesmente desamarrar as luvas e pular sobre as cordas, fugindo do ringue no qual meus escudos se mostram impotentes. Não consegui, por exemplo, encaixar bem o cruzado direto no queixo desferido pela notícia de que a funkeira Valesca Popozuda foi retratada como “grande pensadora contemporânea” em uma prova de filosofia em uma escola pública no Distrito Federal, esta semana. O professor que elaborou a prova foi quem cometeu a barbaridade, e não algum aluno inventando resposta engraçadinha. Fui à lona.
O golpe concluiu o estrago que vinha sendo feito há tempos em minha tolerância ao absurdo, iniciado pelas declarações recentes do atorzinho global que orgulhosamente afirmou não gostar de ler e nem de assistir a peças de teatro e às do ex-presidente da República que admitiu que ler, para ele, era uma grande chatice. Frente a esses descalabros, dá vontade de fazer como dizia o mestre cronista Rubem Braga, décadas atrás, e passar a agir como se fosse “um sueco em trânsito”, e “não saber de nada, não entender uma palavra do que estão dizendo e escrevendo por aí, não ter nada a ver com nada, não se sentir responsável por nada, não ter vergonha de nada”.
Hoje, queria ser um sueco em trânsito. E, se possível, tocar fagote, como o Evandro, amigo do Braga, fazia.

 (Crônica publicada no jornal Pioneiro em 10 de abril de 2014)

terça-feira, 18 de março de 2014

O feminino de Adélia

Televisão não é só BBB e Domingão do Faustão. Não sei se as graças a isso devem ser dadas a Deus ou a algum raríssimo programador inteligente, mas o fato é que basta deixar de lado um pouquinho a preguiça e passear pelos diversos canais que sempre haverá a oportunidade de se deparar com algo que valha a pena o afundamento no sofá que você está protagonizando ali, em frente ao aparelho de televisão da sala.
Noite dessas, por exemplo, aconteceu de eu dar de cara com a escritora Adélia Prado, essa nossa sumidade nacional na literatura e na arte do raciocínio perfumado com o bom senso e com a elegância e o frescor do pensamento. O programa, na TV Câmara (Federal)  transmitia o bate-papo que ela protagonizou dentro da programação da segunda edição do Festival Literário de Araxá, o Fliaraxá, realizado na cidade mineira em setembro do ano passado. O aparente distanciamento de meses entre o evento e a transmissão foi plenamente justificado pela atualidade das palavras da escritora-pensadora, sempre atenta às nuances que regem a vida em seu tempo.
“O mundo está doente. As pessoas estão adoecendo”, sentenciou Adélia, mesclando a doçura da forma de dizer com a contundência daquilo que dizia. Adélia tem percebido, pelas conversas que capta das pessoas em seu entorno (“ao celular, nas filas, nos ambientes de trabalho e domésticos”), que o foco das preocupações do cotidiano são as questões práticas, na maioria das vezes, visando ao lucro material. “As pessoas, no mundo todo, não dispõem mais de tempo para si próprias e nem para os outros. Não dão mais importância para o lúdico, para o humano, para a espiritualidade, para a formação cultural pessoal, para o cultivo do Belo”.

Adélia Prado atribui a disseminação dessa doença à crescente ausência do aspecto feminino na sociedade moderna, porque, segundo ela, a essência do feminino é justamente o cultivo da mansidão, da doçura do ser, do olhar zeloso para si mesmo e para o outro e, por conseguinte, para tudo o que compõe o mundo. Profundas palavras e sábia reflexão para os dias em torno do recém passado 8 de março, em que se celebra o Dia Internacional da Mulher, data que deveria servir para pensar bem mais a fundo naquilo que a autora propõe, bem além da entrega de flores e de cartões.
(Crônica publicada no jornal Pioneiro em 12 de março de 2014)

domingo, 9 de março de 2014

O despertar da pessoa

Deu muito tomate nas terras de meu sogro, este ano, e tive a oportunidade de participar, dois meses atrás, de um mutirão familiar dedicado a transformar quilos e quilos (transportados em cestas e cestas) do fruto (porque tomate, senhores, é um fruto) em massa de tomate para guardar depois em potes e utilizar na culinária quando for o caso de preparar molhos para macarrão, para polenta mole, para risoto, e o diabo de escrever uma crônica dessas no meio da manhã é que começo a salivar e a desejar que chegue logo o horário do almoço.
Mas estávamos nós lá, agrupados em torno da tomataiada (qual o coletivo de tomates?), cada um desenvolvendo a tarefa que lhe fora destinada (uns lavando os tomates, outros cortando-os em cruz e jogando-os em um tonel com água no qual os mais habilidosos os iam esmagando para tirar-lhes as sementes e assim por diante), enrubescendo as mãos e compartilhando “causos”, quando a destreza de determinado membro da família chamou a atenção de todos. O indivíduo em questão (que não vou identificar por medo de ganhar menos presentes no Natal, é preciso pensar a longo prazo) demonstrava uma habilidade ímpar, e até então velada, em desempenhar com maestria todas as etapas daquele processo tomateiro, impressionando a todos.
Generosos e expansivos como somos, não poupávamos comentários elogiosos ao cunhado em questão (ahá... mas eu não disse cunhado de quem!), até que meu sogro, do alto de sua calma e sabedoria, resumiu tudo em uma frase: “Isso é o despertar da pessoa”. Aquilo calcou fundo na alma de cada um. Facas pairaram suspensas no ar por alguns segundos; borbulhas na tina de tomate estouraram silenciosas; movimentos ritmados cessaram; olhares se cruzaram. Isso tudo durante uma fração de segundo, lógico, porque logo seguimos adiante na balbúrdia porque o sol nunca para e ainda era preciso cozinhar aquilo tudo num tacho fervente e depois lavar as calçadas e fazer o almoço e descascar pêssegos e...
Mas o fato é que, em paralelo ao extrato que extraímos dos tomates naquela manhã de janeiro, extraiu-se da sentença de meu sogro a compreensão de que sempre haverá, em algum momento de nossas vidas, o despertar da pessoa. Nem que seja esmagando tomates. Ou lendo um livro. Ou escutando a história de alguém. Ou observando o mar. Ou na tristeza. Ou na alegria. Importante é que, em algum momento, a pessoa desperte. Não dá para passar a vida adormecido.

 (Crônica publicada no jornal "Pioneiro" em 8 de março de 2014)

segunda-feira, 9 de setembro de 2013

O segredo das coisas

Há alguma coisa em certas coisas que faz com que essas coisas sejam coisas diferenciadas do restante das coisas. Se você se der ao trabalho de ler novamente a frase de abertura desta crônica, perceberá que, dessa vez, estou coberto de razão. Mas vou dar um exemplo para ser mais claro e consolidar essa minha teoria filosófica, fruto de anos de observação e reflexão.
Tomemos a questão dos pastéis. A princípio, tendemos a crer que pastéis são pastéis e pronto. Mudam os recheios, certo, especialmente nos dias de hoje, em que tudo parece ser válido para atender aos gostos da freguesia, por mais heréticos que possam ser (há pastéis de anchovas, acreditem), porém, para efeitos de demonstração aqui nesta crônica, quando falarmos em pastéis estaremos nos delimitado aos tradicionais acepipes empanturrados com um tradicional guisado mesmo, combinado? Então: os pastéis. Pastéis são pastéis, porém, você haverá de concordar em discordar comigo, dizendo: “sim, pastéis são pastéis, porém, os pastéis da Tia Rosvilda são os melhores do mundo”. Eu não conheço os pastéis feitos pela sua Tia Rosvilda, mas aceito como válida sua observação porque ela contém a verdade universal que desejo aqui externar. Pastéis são pastéis, coisas são coisas, mas há alguma coisa nos pastéis da sua Tia Rosvilda que...
O que será essa coisa que faz com que o pastel dela, apesar de ser pastel, e de guisado, como tantos outros ao redor do mundo e das rodoviárias, que faz dele um diferencial entre a massa ignota dos pastéis universais? Onde reside o segredo da diferença? Na forma cadenciada de Tia Rosvilda mexer o guisado na panela escutando Odair José no radinho de pilha vermelho? Na saudade de um amor secreto escondido em seu coração, despertada sempre que faz pastéis, quitute que costumava compartilhar com aquele lindo mancebo nos anos de sua distante juventude? Você não sabe, eu não sei, mas algo há nos pastéis da Tia Rosvilda que os fazem ser coisa diferente de todas as coisas, sendo aparentemente a mesma coisa.

Talvez também não haja coisa alguma nos pastéis da Tia Rosvilda e o segredo da coisa resida dentro de você mesmo, na forma como trabalha internamente a poesia de seu universo particular, conferindo significados especiais às coisas aparentemente banais que compõem a sua existência. Mas agora migramos dos pastéis para a filosofia, o que desperta minha fome. Preciso urgentemente de um pastel da lancheria de Espumoso...
(Crônica publicada no jornal Pioneiro em 9 de setembro de 2013)

sábado, 9 de julho de 2011

Final da primeira etapa

Quem chega aos 45 anos de idade habilita-se a crer que cumpriu com relativo sucesso o primeiro tempo que lhe foi concedido na partida da vida. Pena que os 15 de intervalo não sejam computados na soma total do jogo. Pior do que isso é descobrir que, na verdade, não há intervalo algum e a trama segue direto segundo tempo adentro, sempre correndo atrás da bola.
O que é preciso agora é rezar para conseguir jogar com dignidade o segundo tempo inteiro e atingir os 90 completos, o que já se caracterizaria como uma partida de bom tamanho. Os acréscimos, como bem se sabe, ficam por conta do bom humor do Juiz nosso que está em campo. Uns três ou quatro a mais são sempre bem-vindos, mas não dá para contar com isso e a partida pode ser repentinamente encerrada no tempo regulamentar. Ou antes, dependendo de conjunção de fatores normalmente alheias à vontade do jogador, que sempre é a de estender a disputa ao máximo. Ninguém deseja escutar o apito final.
O foco principal ao adentrar inexoravelmente na segunda etapa da partida é continuar perseguindo o gol e marcar o máximo possível de tentos, para contrabalançar com os tentos inevitavelmente sofridos ao longo do primeiro tempo. O ritmo agora, porém, já será outro, e é preciso saber dosar as energias que ainda restam. Na verdade, a intensidade do desempenho do jogador na segunda etapa vai derivar diretamente de como ele se preparou para enfrentar a partida inteira.
Fundamental é ter a torcida a favor, e é um alento saber que, na maioria das vezes, ela incentiva e não joga contra. Mas não dá para esconder que, a partir de agora, vai-se jogar mantendo um olho permanentemente na direção do banco, no lugar ocupado pela equipe médica. Tomara mesmo é que não seja necessária uma substituição antes do tempo previsto. Até porque, nesse caso, substituições são inimagináveis: ninguém jogará seu jogo por você. Para quem está despreparado, mais 45 podem se configurar como um suplício. Mas para quem entra em campo todas as manhãs com disposição para driblar a zaga adversária e pelo menos tentar o gol, a segunda etapa pode ser um reservatório de ótimas emoções. Nesse caso, a partida jamais termina empatada.
(Crônica publicada no jornal Pioneiro em 8 de julho de 2011)

sexta-feira, 15 de abril de 2011

Bilhões fazem pensar

Precisamos ser mais humildes em relação à importância que conferimos a nós mesmos enquanto seres individuais e enquanto espécie. Humildade significa consciência a respeito de seu real valor e significado perante a existência, e maior consciência representa libertação interior, tolerância e mais capacitação para aprimorar a convivência com nossos iguais. A humildade, analisando as coisas sob esse prisma, pode ser o mais eficaz instrumento de promoção da cidadania de que a civilização humana já dispôs. Fomentados especialmente pelas religiões e mesmo pelas conquistas científicas decorrentes do cultivo do pensamento lógico e cerebral, nós, seres humanos, temos a tendência de cultivar uma autoimagem estratosfericamente positiva a respeito de nós mesmos. Achamos que somos maravilhosos a ponto de sermos os donos do pedaço, e julgamos, entre outras coisas, ser plausível a crença de que ou somos imortais, ou viveremos em algum outro plano de existência após nossas mortes terrenas, ou reencarnaremos ou qualquer outra coisa semelhante que a divina providência (que só existe para atender às nossas vontades humanas, como bem sabemos) providencialmente providenciou para nós, esses seres tão fantásticos e indispensáveis que somos. Alta autoestima, dizem os psicólogos, não faz mal a ninguém. Porém, prepotência crônica pode levar à autodestruição. Vamos analisar uma coisinha, para fazer um pouco de água nesse canteiro de rosas filosófico em que nos embretamos. Segundo estimativas feitas pelo Population Reference Bureau, uma agência americana especializada em pesquisas relativas a questões populacionais, desde o surgimento da raça humana até os dias de hoje já viveram cerca de 107 bilhões de pessoas sobre a Terra. Usando-se como parâmetro a (super)população atual de humanos do planeta – cerca de 7 bilhões -, é fácil dimensionar que o número de indivíduos que já passeou por essas plagas é realmente enorme. Cabe tudo isso no céu, pergunto eu? 107 bilhões de pessoas se acotovelando lá entre as nuvens, engarrafando, sujando e tumultuando o paraíso? Nossa... é gente, hein? Sem falar que, desses 107 bilhões de seres, quantos deles deixaram algum sinal relativo à sua passagem pela vida? A mais absoluta maioria (99,999999%, talvez) nasceu, viveu, sofreu, sonhou e morreu sem imprimir nenhuma marca na história. Seus corpos viraram pó e sua lembrança virou fumaça. Dá no que pensar, não é mesmo? Para mim, isso tudo funciona como um bálsamo. Humildemente consciente de minha insignificância e de minha inegociável finitude, procuro aproveitar o milagre que me foi concedido e viver uma vida o mais plena possível, valorizando-a ao máximo e também a de meus semelhantes, companheiros de inexplicável aventura, respeitando-os de forma cidadã. Deveria bastar essa percepção para que o mundo fosse um lugar mais agradável e tolerante para vivermos essa tão curta, única e instigante experiência que é a vida. Se assim fosse, tenho convicção de que muita porcaria poderia ser evitada e banida de nossos noticiários. (Crônica publicada no jornal Informante, de Farroupilha, em 15 de abril de 2011)