Blog destinado à publicação de crônicas e textos assinados pelo jornalista e escritor Marcos Fernando Kirst em jornais e revistas, além de textos aleatórios quando for o caso.
sexta-feira, 20 de agosto de 2010
A traição de Hermenilda
Tirei do sério mais uma vez aquele grupo de distintas senhoras que me lê com assiduidade e que, tempos atrás, oficializou reclamação referente a meu estilo de escrita de tirar o fôlego devido à extensão impiedosa de alguns dos períodos que componho quando escrevo estas crônicas, nos quais acabo sendo irritantemente parcimonioso com o uso das pausas advindas das benfazejas vírgulas. A exemplo desta última frase, como podem ver, elas estavam cobertas de razão, pelo que, aliás, procuro não mais me estender tanto, o que nem sempre consigo, como também esta segunda e interminável construção frasal se esforça em comprovar, sem falar que esta, bem mais rica em vírgulas do que a anterior, em nada ajudou na intenção de proporcionar uma leitura menos asfixiante.
Desta vez, a reclamação dessas minhas fiéis leitoras aponta contra o hábito nem sempre explícito que tenho de tascar nos meus textos termos, expressões e vocábulos de difícil compreensão, dando não só a impressão de que possuo a ignóbil intenção de pavonear meus supostos dotes literários como, pior do que isso, obrigo-as a abandonar as confortáveis poltronas nas quais se abancam para degustar minhas crônicas com chás e torradas para dirigirem-se às estantes em busca dos pesados dicionários que lhes auxiliarão a desvendar as minhas más intenções literais. (Pausa para retomarmos as forças após este último maratonístico período).
Recompostos, sigamos, com as sobreviventes que houver. O que indignou agora esse grupo de fiéis leitoras foi a minha crônica de semanas atrás, que, segundo elas, já começava mal, com o despudorado uso da palavra “desagravo” logo no título. “Acho que devemos dar outro puxão de orelhas nesse rapaz”, disse uma delas, entornando a xícara de chá. “Vamos escrever para ele, reclamando”, propôs a que se chamava Hermenilda, mastigando uma torradinha. “Usaremos palavras difíceis e num estilo asfixiante, para ele ver o que é bom para a tosse”, ameaçou a terceira, tossindo. “Ele não encontrará ninguém que o desagrave”, emendou Hermenilda. Quero crer que ela foi vista pelas outras como traidora ao usar o hermético termo. Ela não sabe, mas desagravou-me.
(Crônica publicada no jornal Pioneiro em 20/08/2010)
domingo, 15 de agosto de 2010
Vidas torradas
A imprensa traz a esdrúxula notícia sobre um homem de 60 anos de idade que morreu na Finlândia durante um campeonato de resistência em sauna. O duvidoso certame funciona assim: os inconsequentes (eu deveria dizer “competidores”?) encerram-se em uma sauna, ficam lá dentro suando bicas e os carrascos lá fora (eu deveria dizer “organizadores”?) vão aumentando a temperatura interna da sala, sob os apupos dos sádicos que assistem (eu deveria mesmo dizer “da torcida”?). Ganha quem resistir mais tempo à mais alta temperatura. Pois um masoquista-suicida russo (ou seria “esportista”?) não resistiu e morreu, obviamente, apresentando queimaduras de trigésimo-oitavo grau por todo o corpo. Fascinante, não é mesmo?
Sim, fascinante a extensão da estupidez humana e o desvalor com a própria vida, desvios comportamentais que não escolhem raça, credo, religião, classe social, nacionalidade e sequer idade. Ao mesmo tempo em que detectamos entre nossos familiares, amigos e conhecidos a força e a vontade de viver buscadas lá do fundo de suas almas, especialmente quando estão doentes ou avançados na idade, ficamos sabendo de ações doentias como a da notícia, em que as pessoas lidam com seus sopros vitais como se pudessem ser prontamente recarregados caso algo saia errado. Descobrem, pois, da pior (e mais óbvia) maneira possível, que isso é impossível.
A mesma postura do cidadão de 60 anos de idade (que, com sua vasta experiência, deveria estar dando exemplos aos mais jovens) que torrou a própria vida pode ser encontrada em quem pisa desvairadamente fundo no acelerador, em quem entorna litros de álcool e enfia-se a dirigir, em quem guarda arma em casa, naqueles que, enfim, das formas mais criativas ou tradicionais, pouco valor dão às suas vidas e às dos outros. O que move alguém a brincar com isso?
É a pergunta que me faço sempre que cometo a maior ousadia a que me permito em termos de esporte radical: andar de carrossel. Até a sala dos espelhos eu evito, temendo morrer de rir. Mas cada um é cada um, como já dizia meu finado avô. Detalhe: só morreu aos 90 anos e sempre apreciou uma boa sauna.
(Crônica publicada no jornal Pioneiro em 13 de agosto de 2010)
Sim, fascinante a extensão da estupidez humana e o desvalor com a própria vida, desvios comportamentais que não escolhem raça, credo, religião, classe social, nacionalidade e sequer idade. Ao mesmo tempo em que detectamos entre nossos familiares, amigos e conhecidos a força e a vontade de viver buscadas lá do fundo de suas almas, especialmente quando estão doentes ou avançados na idade, ficamos sabendo de ações doentias como a da notícia, em que as pessoas lidam com seus sopros vitais como se pudessem ser prontamente recarregados caso algo saia errado. Descobrem, pois, da pior (e mais óbvia) maneira possível, que isso é impossível.
A mesma postura do cidadão de 60 anos de idade (que, com sua vasta experiência, deveria estar dando exemplos aos mais jovens) que torrou a própria vida pode ser encontrada em quem pisa desvairadamente fundo no acelerador, em quem entorna litros de álcool e enfia-se a dirigir, em quem guarda arma em casa, naqueles que, enfim, das formas mais criativas ou tradicionais, pouco valor dão às suas vidas e às dos outros. O que move alguém a brincar com isso?
É a pergunta que me faço sempre que cometo a maior ousadia a que me permito em termos de esporte radical: andar de carrossel. Até a sala dos espelhos eu evito, temendo morrer de rir. Mas cada um é cada um, como já dizia meu finado avô. Detalhe: só morreu aos 90 anos e sempre apreciou uma boa sauna.
(Crônica publicada no jornal Pioneiro em 13 de agosto de 2010)
quinta-feira, 12 de agosto de 2010
Detalhes literais de um mundo diferente
O Planeta Livro é um lugar que não existe fisicamente. Ele não tem território definido, tampouco suas fronteiras são fixas. Seu tamanho é imensurável e sua órbita é impossível de ser rastreada pelo mais potente dos telescópios. No entanto, sabem-se algumas coisas sobre ele. Sabe-se, por exemplo, que ele é habitado por todas as pessoas que possuem alguma espécie de relação com o objeto livro e com o ato da leitura. Sabe-se que seus domínios são mentais e seu território é visitado sempre que alguém abre um livro para ler, ou visualiza com curiosidade uma lombada numa livraria, ou percorre as estantes labirínticas de uma biblioteca, ou escreve um poema, ou monta uma barraca numa feira de livros, ou inscreve um inédito num concurso literário, ou lê em voz alta para uma criança, ou comenta uma obra bacana, ou recomenda um autor para um amigo, ou participa de um sarau e outras coisas dessa natureza.
Recensear o Planeta Livro é uma tarefa difícil, pois o ato precisa levar em conta o número de livros existentes no mundo (além dos não mais existentes, mas que um dia foram publicados, e todos aqueles escritos e ainda engavetados, mais os que por enquanto só existem na imaginação de seus autores); todos os escritores que já publicaram e aqueles que desejam publicar; todos os editores e os livreiros e todos todos todos todos todos os leitores de livros do mundo, vivos e mortos, porque, nos domínios do Planeta Livro, ninguém morre de verdade, mas passa para a posteridade. Mesmo assim, existem os momentos de luto no Planeta Livro, como quando uma livraria fecha as portas ou quando um escritor muito querido passa a desexistir no plano físico para habitar para sempre a posteridade, não mais escrevendo novos livros.
Foi o que aconteceu em junho deste ano, por exemplo, quando morreu o escritor português José Saramago, único Nobel de Literatura em língua portuguesa até o momento. A notícia de sua morte aos 87 anos de idade, em 18 de junho, comoveu todos os habitantes do Planeta Livro, porque tratava-se de um dos mais renomados escritores vivos e em atividade no mundo nos dias de hoje. Saramago era um clássico em vida, e é raro coexistir em um tempo em que figuras desse porte caminham junto com a gente sobre a Terra. Independentemente de concordar-se ou não com suas posturas filosóficas e políticas ou com sua constante queda-de-braço com a religião, Saramago encarnava o escritor profissional de talento e de mão cheia, que vivia da e para a literatura, abrilhantando os domínios do Planeta Livro com o seu inquestionável talento.
Eu estava ministrando um bate-papo sobre literatura e crônicas aos alunos da oitava série de uma escola municipal em Farroupilha naquela mesma manhã em que Saramago morria. Eu encarnava meu lado escritor em Farroupilha enquanto o escritor de verdade desencarnava nas Ilhas Canárias, do outro lado do Atlântico. Fiquei sabendo da notícia ao chegar em casa, no final da manhã. Surpreendi-me e enlutei-me. A surpresa se deu porque eu não esperava sua morte (e quem, afinal, a espera?), uma vez que a imagem que tinha de Saramago era a de um escritor velhinho plena e constantemente ativo, escrevendo, publicando e concedendo entrevistas. Não sabia que andava adoentado nos últimos anos. Afinal, recém havia dado à luz a “Caim”, seu agora derradeiro romance.
Já o luto se deu pela pena em saber que da pena e do talento dele não mais teremos novidades literárias, restando-nos ler aqueles títulos que ainda não lemos e depois dedicarmo-nos aos prazeres das descobertas das releituras, tarefas que, aliás, são plenamente gratificantes e inesgotáveis. A gente desenluta rápido no Planeta Livro, porque se sabe que ter o privilégio de habitá-lo significa ter o direito a um constante estado de alegria, aquela alegria que só o mundo dos livros e da leitura pode proporcionar, e que Saramago, junto a tantos outros, soube florir como o jardineiro das letras que era e que para sempre será, agora na eterna posteridade.
(Texto publicado na revista Acontece Sul de agosto de 2010, na seção Planeta Livro)
Recensear o Planeta Livro é uma tarefa difícil, pois o ato precisa levar em conta o número de livros existentes no mundo (além dos não mais existentes, mas que um dia foram publicados, e todos aqueles escritos e ainda engavetados, mais os que por enquanto só existem na imaginação de seus autores); todos os escritores que já publicaram e aqueles que desejam publicar; todos os editores e os livreiros e todos todos todos todos todos os leitores de livros do mundo, vivos e mortos, porque, nos domínios do Planeta Livro, ninguém morre de verdade, mas passa para a posteridade. Mesmo assim, existem os momentos de luto no Planeta Livro, como quando uma livraria fecha as portas ou quando um escritor muito querido passa a desexistir no plano físico para habitar para sempre a posteridade, não mais escrevendo novos livros.
Foi o que aconteceu em junho deste ano, por exemplo, quando morreu o escritor português José Saramago, único Nobel de Literatura em língua portuguesa até o momento. A notícia de sua morte aos 87 anos de idade, em 18 de junho, comoveu todos os habitantes do Planeta Livro, porque tratava-se de um dos mais renomados escritores vivos e em atividade no mundo nos dias de hoje. Saramago era um clássico em vida, e é raro coexistir em um tempo em que figuras desse porte caminham junto com a gente sobre a Terra. Independentemente de concordar-se ou não com suas posturas filosóficas e políticas ou com sua constante queda-de-braço com a religião, Saramago encarnava o escritor profissional de talento e de mão cheia, que vivia da e para a literatura, abrilhantando os domínios do Planeta Livro com o seu inquestionável talento.
Eu estava ministrando um bate-papo sobre literatura e crônicas aos alunos da oitava série de uma escola municipal em Farroupilha naquela mesma manhã em que Saramago morria. Eu encarnava meu lado escritor em Farroupilha enquanto o escritor de verdade desencarnava nas Ilhas Canárias, do outro lado do Atlântico. Fiquei sabendo da notícia ao chegar em casa, no final da manhã. Surpreendi-me e enlutei-me. A surpresa se deu porque eu não esperava sua morte (e quem, afinal, a espera?), uma vez que a imagem que tinha de Saramago era a de um escritor velhinho plena e constantemente ativo, escrevendo, publicando e concedendo entrevistas. Não sabia que andava adoentado nos últimos anos. Afinal, recém havia dado à luz a “Caim”, seu agora derradeiro romance.
Já o luto se deu pela pena em saber que da pena e do talento dele não mais teremos novidades literárias, restando-nos ler aqueles títulos que ainda não lemos e depois dedicarmo-nos aos prazeres das descobertas das releituras, tarefas que, aliás, são plenamente gratificantes e inesgotáveis. A gente desenluta rápido no Planeta Livro, porque se sabe que ter o privilégio de habitá-lo significa ter o direito a um constante estado de alegria, aquela alegria que só o mundo dos livros e da leitura pode proporcionar, e que Saramago, junto a tantos outros, soube florir como o jardineiro das letras que era e que para sempre será, agora na eterna posteridade.
(Texto publicado na revista Acontece Sul de agosto de 2010, na seção Planeta Livro)
quarta-feira, 11 de agosto de 2010
A Maçã Era a Lei
Quando certo dia Guilherme Tell descansava sob a sombra de uma macieira, quis o destino que uma maçã lhe caísse na cabeça. Apesar de aparentemente insignificante, o acontecimento deixou Guilherme bastante intrigado. Segurou o fruto com a mão e pôs-se a pensar. Após alguns momentos de profunda reflexão, chegou à conclusão de que aquela maçã lhe caíra na cabeça por estar devidamente madura e julgou aquilo um sinal para que recomeçasse os seus treinos de pontaria. Guardou a maçã, correu para casa, pegou o arco e as flechas e chamou o seu filho, que no momento se distraía com um livro de Física, para que o ajudasse. O resto da história todos se lembram e muitos se perguntam, até hoje, de onde teria surgido aquela estranha obsessão do arqueiro por inutilizar toneladas de maçãs, flechando-as por sobre a cabeça de seu próprio filho.
Apesar de frustrada pela incompreensão, a macieira não desistiu. Afinal, não era a primeira vez que a sua tentativa de revelar ao Homem um segredo científico da maior importância era mal interpretado. Na verdade, ela já tentara fazê-lo desde o seu primeiro contato com a espécie humana, há muito, muito tempo. Mas, infelizmente, apareceu uma maldita serpente para estragar tudo. De qualquer forma, não teria dado certo mesmo, pois Adão, na época, parecia ainda mais preocupado com outros assuntos. Físicos, mas de outra ordem...
Uma nova oportunidade surgiu quando, anos depois, uma senhora, trabalhando num sítio, resolveu fazer uma pausa perto da macieira. Sem perder tempo, a histórica árvore pôs-se em ação. Largou o fruto e ele, como era de se esperar, lançou-se para baixo, acertando em cheio a mulher, uma quituteira famosa que, imediatamente, inventou a torta de maçã.
Indignada, cansada de tanta incompreensão, a macieira finalmente desistiu de tentar revelar ao homem o seu segredo, pelo qual fora justamente batizada, no Éden, de “Árvore da Sabedoria”. Tomada a decisão, a macieira, resignada, nunca mais bombardeou com seus frutos as cabeças daqueles que vinham ao encontro de sua sombra para descansar.
Foi assim durante muitos anos, até o dia em que nasceu um garoto chamado Newton. Cresceu e tornou-se um jovem problemático, cheio de dúvidas em relação a si próprio e à sua verdadeira vocação. Ele queria porque queria ser arqueiro, de tanto que gostava de atirar com arco-e-flecha. Seu maior ídolo era Guilherme Tell, que flechara uma maçã na cabeça de seu filho. Mas o pai de Newton o contrariava, dizendo-lhe que deveria ir para a Universidade, estudar e ficar rico e famoso, que o arco-e-flecha não dava dinheiro para ninguém e que, afinal de contas, ele atirava muito mal. Tentando provar o contrário, Newton inscreveu-se num concurso de tiro-ao-alvo. Treinou bastante, colhendo algumas maçãs e colocando-as na cabeça de seus amiguinhos, para flechá-las. Teve de cessar os treinos quando perdeu todos os seus amiguinhos, mas não desistiu de participar. Classificado em antepenúltimo lugar, Newton quebrou seu arco e foi curtir a fossa sob a sombra da famosa árvore. Ficou lá sentado durante horas e horas, e a macieira nada. Ela estava mesmo decidida a não voltar atrás em sua atitude de nunca mais se meter nos rumos da humanidade.
E estaríamos até hoje nos perguntando por que a droga da caneta cai no chão quando escorrega de nossos dedos suados, obrigando-nos a fazer as mais mirabolantes contorções na tentativa de catá-la, arranjando, assim, lamentáveis dores nas costas e na cabeça, que bate na mesa quando já estamos voltando, se não fosse aquele ventinho providencial que soprou naquele momento e derrubou a maçã na cabeça de Newton, tornando-o famoso como o seu pai queria.
Pena que a História e as lendas costumem omitir tais detalhes...
(Crônica premiada em primeiro lugar no Concurso Literário Felippe D’Oliveira, de Santa Maria – RS -, em 1990)
Apesar de frustrada pela incompreensão, a macieira não desistiu. Afinal, não era a primeira vez que a sua tentativa de revelar ao Homem um segredo científico da maior importância era mal interpretado. Na verdade, ela já tentara fazê-lo desde o seu primeiro contato com a espécie humana, há muito, muito tempo. Mas, infelizmente, apareceu uma maldita serpente para estragar tudo. De qualquer forma, não teria dado certo mesmo, pois Adão, na época, parecia ainda mais preocupado com outros assuntos. Físicos, mas de outra ordem...
Uma nova oportunidade surgiu quando, anos depois, uma senhora, trabalhando num sítio, resolveu fazer uma pausa perto da macieira. Sem perder tempo, a histórica árvore pôs-se em ação. Largou o fruto e ele, como era de se esperar, lançou-se para baixo, acertando em cheio a mulher, uma quituteira famosa que, imediatamente, inventou a torta de maçã.
Indignada, cansada de tanta incompreensão, a macieira finalmente desistiu de tentar revelar ao homem o seu segredo, pelo qual fora justamente batizada, no Éden, de “Árvore da Sabedoria”. Tomada a decisão, a macieira, resignada, nunca mais bombardeou com seus frutos as cabeças daqueles que vinham ao encontro de sua sombra para descansar.
Foi assim durante muitos anos, até o dia em que nasceu um garoto chamado Newton. Cresceu e tornou-se um jovem problemático, cheio de dúvidas em relação a si próprio e à sua verdadeira vocação. Ele queria porque queria ser arqueiro, de tanto que gostava de atirar com arco-e-flecha. Seu maior ídolo era Guilherme Tell, que flechara uma maçã na cabeça de seu filho. Mas o pai de Newton o contrariava, dizendo-lhe que deveria ir para a Universidade, estudar e ficar rico e famoso, que o arco-e-flecha não dava dinheiro para ninguém e que, afinal de contas, ele atirava muito mal. Tentando provar o contrário, Newton inscreveu-se num concurso de tiro-ao-alvo. Treinou bastante, colhendo algumas maçãs e colocando-as na cabeça de seus amiguinhos, para flechá-las. Teve de cessar os treinos quando perdeu todos os seus amiguinhos, mas não desistiu de participar. Classificado em antepenúltimo lugar, Newton quebrou seu arco e foi curtir a fossa sob a sombra da famosa árvore. Ficou lá sentado durante horas e horas, e a macieira nada. Ela estava mesmo decidida a não voltar atrás em sua atitude de nunca mais se meter nos rumos da humanidade.
E estaríamos até hoje nos perguntando por que a droga da caneta cai no chão quando escorrega de nossos dedos suados, obrigando-nos a fazer as mais mirabolantes contorções na tentativa de catá-la, arranjando, assim, lamentáveis dores nas costas e na cabeça, que bate na mesa quando já estamos voltando, se não fosse aquele ventinho providencial que soprou naquele momento e derrubou a maçã na cabeça de Newton, tornando-o famoso como o seu pai queria.
Pena que a História e as lendas costumem omitir tais detalhes...
(Crônica premiada em primeiro lugar no Concurso Literário Felippe D’Oliveira, de Santa Maria – RS -, em 1990)
sábado, 7 de agosto de 2010
Saudades dos Trapalhões?

Você faz aquele gênero saudosista, que tem saudades dos antigos programas de tevê da sua infância, adolescência e juventude? Eu, sim. Vamos ver se, nesse quesito, temos algumas saudades em comum. Por exemplo: você tem saudades dos Trapalhões, aquele quarteto humorístico que apostava no humor simples e direto, formado por Didi, Dedé, Muçum e Zacarias? Sim? Bom, eu, não. Quer dizer, explico-me:
Saudades do quarteto formado por Didi, Dedé, Muçum e Zacarias eu tenho, sim, e quem é que viveu aquela geração que não tem? Mas dos Trapalhões não tenho saudades não, porque continuo tendo a oportunidade (vejam bem, eu não disse “tendo o prazer”) de vê-los em ação nos domingos pela manhã, em dias de corrida de Fórmula-1. Lá estão eles, fazendo suas trapalhadas há anos. Palhaços fantasiados de esportistas que, depois de muito me irritar porque eu tolamente os levava a sério no início, agora me fazem rir, porque finalmente percebi os palhaços que na realidade eles são. Passaram de “ás no volante” para “asnos volantes”.
Sim, porque eu sou do tempo em que os pilotos brasileiros integrantes do chamado Circo da Fórmula-1 nos enchiam de orgulho não só pelos títulos que conquistavam nas pistas, mas pela postura de verdadeiros esportistas e de verdadeiros campeões que eram. As biografias de Emerson Fittipaldi, Nelson Piquet e Ayrton Senna estão aí para quem quiser ver e relembrar. Depois da morte de Senna, acabou a metáfora contida na palavra “circo” e as aspas caíram fora, com a chegada em cena dos modernos Trapalhões.
Além de se submeterem feito fantoches às maquiavélicas e anti-desportivas práticas dos dirigentes, simulando acidentes na pista (prova de mau-caratismo de todos os envolvidos, a começar pelo piloto), nossos pilotos protagonizam anualmente façanhas dignas de filmes dos Três Patetas, inclusive com um dos brasileiros arremessando peças de seu carro, em treino, contra a cabeça de outro brasileiro que vem atrás e que o deixa fora do ar por alguns meses. Depois, em plena recuperação nas pistas, esse mesmo brasileiro faz igual ao anterior e se rende aos desmandos de sua própria equipe, abrindo passagem para um companheiro que vem atrás e que deve conquistar os pontos da vitória. Muita palhaçada. Quem ainda leva a sério? Quem ainda se digna a torcer de verdade? Melhor usar essas duas horas dominicais dormindo, mesmo.
Minhas saudades, portanto, remontam aos tempos em que eu ligava a tevê domingos pela manhã para assistir a verdadeiras competições de automobilismo, regidas pela sadia e verdadeira competitividade entre pilotos e equipes, nas quais nomes brasileiros brilhavam pela competência e pela postura. Um tempo que, pelo visto, morreu junto com Senna na curva Tamburello.
“O, tempora, o, mores”! “Oh, tempos, oh, costumes”, escandalizavam-se os romanos sempre que detectavam os aspectos cotidianos que escancaravam a decadência de sua cultura e de sua civilização. Em termos de decadência ética, moral e de competência, estamos de fato acelerando na reta final...
(Crônica publicada no jornal Informante, de Farroupilha, em 06/08/2010)
Saudades do quarteto formado por Didi, Dedé, Muçum e Zacarias eu tenho, sim, e quem é que viveu aquela geração que não tem? Mas dos Trapalhões não tenho saudades não, porque continuo tendo a oportunidade (vejam bem, eu não disse “tendo o prazer”) de vê-los em ação nos domingos pela manhã, em dias de corrida de Fórmula-1. Lá estão eles, fazendo suas trapalhadas há anos. Palhaços fantasiados de esportistas que, depois de muito me irritar porque eu tolamente os levava a sério no início, agora me fazem rir, porque finalmente percebi os palhaços que na realidade eles são. Passaram de “ás no volante” para “asnos volantes”.
Sim, porque eu sou do tempo em que os pilotos brasileiros integrantes do chamado Circo da Fórmula-1 nos enchiam de orgulho não só pelos títulos que conquistavam nas pistas, mas pela postura de verdadeiros esportistas e de verdadeiros campeões que eram. As biografias de Emerson Fittipaldi, Nelson Piquet e Ayrton Senna estão aí para quem quiser ver e relembrar. Depois da morte de Senna, acabou a metáfora contida na palavra “circo” e as aspas caíram fora, com a chegada em cena dos modernos Trapalhões.
Além de se submeterem feito fantoches às maquiavélicas e anti-desportivas práticas dos dirigentes, simulando acidentes na pista (prova de mau-caratismo de todos os envolvidos, a começar pelo piloto), nossos pilotos protagonizam anualmente façanhas dignas de filmes dos Três Patetas, inclusive com um dos brasileiros arremessando peças de seu carro, em treino, contra a cabeça de outro brasileiro que vem atrás e que o deixa fora do ar por alguns meses. Depois, em plena recuperação nas pistas, esse mesmo brasileiro faz igual ao anterior e se rende aos desmandos de sua própria equipe, abrindo passagem para um companheiro que vem atrás e que deve conquistar os pontos da vitória. Muita palhaçada. Quem ainda leva a sério? Quem ainda se digna a torcer de verdade? Melhor usar essas duas horas dominicais dormindo, mesmo.
Minhas saudades, portanto, remontam aos tempos em que eu ligava a tevê domingos pela manhã para assistir a verdadeiras competições de automobilismo, regidas pela sadia e verdadeira competitividade entre pilotos e equipes, nas quais nomes brasileiros brilhavam pela competência e pela postura. Um tempo que, pelo visto, morreu junto com Senna na curva Tamburello.
“O, tempora, o, mores”! “Oh, tempos, oh, costumes”, escandalizavam-se os romanos sempre que detectavam os aspectos cotidianos que escancaravam a decadência de sua cultura e de sua civilização. Em termos de decadência ética, moral e de competência, estamos de fato acelerando na reta final...
(Crônica publicada no jornal Informante, de Farroupilha, em 06/08/2010)
domingo, 1 de agosto de 2010
Desagravo à rabugice
por andar torrando a paciência de Roma inteira)
Esses dias de frio intenso que andam nos atacando neste inverno funcionam como um ótimo gatilho para a reflexão sobre assuntos variados durante o recolhimento aos rocamboles de cobertores e mantas a que nos submetemos no sofá da sala à noite, tiritando. O ato de bater os dentes intermitentemente ativa o cérebro e faz com que os neurônios se coloquem a funcionar por conta própria, surpreendendo-nos com ideias, pensamentos e conclusões sobre assuntos que não imaginávamos estarem transitando livres por dentro de nossas cabeças.
Foi assim que, numa noite siberiana dessas, fui atingido de súbito pela descoberta do motivo que faz com que as pessoas, à medida em que vão envelhecendo, costumem apresentar em comum (salvas as exceções) a característica de ficarem mais ranzinzas, rabugentas e intolerantes do que antes. Descobri que trata-se de um processo lento, gradual, irrestrito, contínuo e silencioso, que vai modificando o temperamento dos seres humanos e decorre de uma causa perfeitamente identificável: acúmulo de convivência com as piores características dos seres humanos.
A pessoa fica ranzinza, rabugenta e impaciente simplesmente porque passou tempo demais testemunhando ao seu redor a falta de educação, o desrespeito, o egoísmo, a truculência, a trapaça, o embrutecimento, as expressões da barbárie, a burrice, a deselegância, a rapinagem, a avidez, a incivilidade, o individualismo, a estupidez, a injustiça, o escárnio, a pilantragem, a violência e complete você mesmo a lista, que eu sei que é capaz. Paciência tem limite, a gente diz e ouve dizer, e esse limite parece que chega ao fim depois de tanto vermos triunfar as injustiças.
Nascemos e somos carregados, na origem, com uma dose determinada de paciência e tolerância a serem consumidas por nossos espíritos durante o transcurso das existências, ao lado de nossos desiguais semelhantes. Mas isso vai sendo consumido à medida em que a barbárie, que teima em não nos abandonar, se manifesta dia após dia, nas pequenas coisas do cotidiano até os fatos mais relevantes. E vamos cansando.
“Quosque tandem, Catilina, abutere patientia nostra?”, perguntava o orador Cícero em latim, mais de dois mil anos atrás, no senado romano, confrontando o conspirador (e colega senador) Catilina, que tramava contra César. Cícero indagava a Catilina até quando ele abusaria da paciência alheia. Nossos contemporâneos, compreensível e autorizadamente rabugentos, desejam saber até quando a paciência deles sofrerá com os abusos da falta de civilidade da maioria das gentes que os cercam. Qual é o momento em que a paciência com os defeitos humanos começa a se esvair? Qual é a dose de paciência que temos para com as mazelas protagonizadas por nossos semelhantes?
Para essas questões, ainda não tenho as respostas. Preciso tiritar mais um pouco...
(Crônica publicada no jornal Pioneiro em 30/07/2010)
quinta-feira, 29 de julho de 2010
Apadrinhando a Leitura
Uma mescla de sensações me toma desde o início da noite de quinta-feira da semana passada, 29 de julho, quando recebi oficialmente o convite (e o aceitei) para ser o Patrono da 26ª edição da Feira do Livro de Caxias do Sul, que ocorre de 1º a 17 de outubro, na Praça Dante Alighieri. Apaixonado pela leitura e pelo universo dos livros desde sempre, tenho meu histórico de quatro décadas mergulhado em literatura coroado pelo surpreendente convite, que traz consigo uma responsabilidade inimaginável. Excitado, nervoso, feliz, lisonjeado, preocupado... todas essas sensações encontram um pouco de amparo na consciência de que estarei trafegando em meio ao aquário em que mais me sinto à vontade desde que me conheço por gente: o planeta composto por livros, autores, livreiros, editores e leitores.
Sou muito grato pela confiança depositada pela Secretaria Municipal da Cultura, pelo Programa Permanente de Estímulo à Leitura (PPEL), pela recém-criada Associação dos Livreiros Caxienses e pela Secretaria Municipal de Educação, entidades que puxam a frente da Feira. Espero desempenhar à altura das expectativas o papel que se almeja de um Patrono de Feira do Livro, a exemplo das brilhantes participações recentes que pude presenciar nas figuras de outros ex-patronos.
Meu inesgotável encantamento com a leitura e com o universo dos livros deve ter nascente em alguma fonte secreta escondida nos subterfúgios de minha psiquê. É nela que buscarei as energias para apadrinhar a Feira, junto com o apoio de familiares, amigos e colegas amantes dos livros. A companhia de Frei Aldo Colombo abrilhanta a empreitada, uma vez que ele compartilha comigo o desafio na condição de justíssimo homenageado desta edição.
O tamanho do desafio aceito é a chave para engrandecer o desafiado, já dizia Herman Melville, ao compartilhar a grandeza da narrativa que ele se punha a escrever em seu “Moby Dick”: “Dai-me uma pena de condor! Dai-me a cratera do Vesúvio por tinteiro! Amigos, firmai meus braços!”. A sorte está lançada, o desafio está aceito. Uma boa Feira do Livro 2010 a todos, repleta de boas leituras.
(Crônica publicada no jornal Pioneiro em 06/08/2010)
Sou muito grato pela confiança depositada pela Secretaria Municipal da Cultura, pelo Programa Permanente de Estímulo à Leitura (PPEL), pela recém-criada Associação dos Livreiros Caxienses e pela Secretaria Municipal de Educação, entidades que puxam a frente da Feira. Espero desempenhar à altura das expectativas o papel que se almeja de um Patrono de Feira do Livro, a exemplo das brilhantes participações recentes que pude presenciar nas figuras de outros ex-patronos.
Meu inesgotável encantamento com a leitura e com o universo dos livros deve ter nascente em alguma fonte secreta escondida nos subterfúgios de minha psiquê. É nela que buscarei as energias para apadrinhar a Feira, junto com o apoio de familiares, amigos e colegas amantes dos livros. A companhia de Frei Aldo Colombo abrilhanta a empreitada, uma vez que ele compartilha comigo o desafio na condição de justíssimo homenageado desta edição.
O tamanho do desafio aceito é a chave para engrandecer o desafiado, já dizia Herman Melville, ao compartilhar a grandeza da narrativa que ele se punha a escrever em seu “Moby Dick”: “Dai-me uma pena de condor! Dai-me a cratera do Vesúvio por tinteiro! Amigos, firmai meus braços!”. A sorte está lançada, o desafio está aceito. Uma boa Feira do Livro 2010 a todos, repleta de boas leituras.
(Crônica publicada no jornal Pioneiro em 06/08/2010)
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