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sexta-feira, 2 de outubro de 2015

Livre-se na praça

Começa hoje em Caxias do Sul, na Praça Dante Alighieri, uma programação na qual pretendo me livrar. Não, madame, a senhora não leu errado, tampouco eu cometi deslize de concordância, muito menos o revisor deixou passar bobagem, até porque a figura do revisor há muitos anos extinguiu-se das redações dos jornais, o que é, sim, aí concordamos, uma lástima das mais tristes. O que eu escrevi era o que eu queria escrever mesmo: pretendo me livrar na (e não “da”) programação que tem início hoje na praça e se estende até o dia 18 de outubro.
Afinal, o que uma criatura como eu e como tantas milhares de outras como eu, leitores e amantes dos livros, poderia fazer ao longo de 17 saborosos dias de Feira do Livro se não livrar-se por inteiro nela, mergulhando fundo no planeta dos livros, locupletando-se de livros, livros e mais livros? Afinal, esta é a festa anual de quem sofre alegremente da doença da paixão pela literatura! São as bacanais de outubro para os leitores, livreiros, leitores, escritores, leitores, professores, leitores, agentes de leitura, leitores, produtores culturais e leitores. Tudo sob o olhar benévolo e atento de Dante Alighieri (1265 - 1321), o poeta italiano que dá nome ao logradouro e cujo busto adorna a praça há mais de um século, ali bem do ladinho. Poeta, aliás, que em breve deixará de estar sozinho na sua contemplação diuturna da cidade, mas isso é outra história, para outra ocasião. Falemos de Feira do Livro.
Nossa Feira chega este ano à sua 31ª edição, tendo como Patrono o escritor Uili Bergamin e como Homenageada a escritora Maria Helena Binelli Catan, ambos integrantes da Academia Caxiense de Letras. A “Entrelinhas”, programação cultural especial da Feira que este ano está em sua segunda edição, homenageia desta vez o artista, músico e cantor Samuel Sodré. Um trio afinado que irá acolher e apadrinhar todas as pessoas que aparecerem na praça ao longo desses dias, trazendo a alegria de transitar entre a literatura e as gentes que a fazem ser uma realidade transformadora ao longo de todo o ano.

Vá à Praça, leve a ela o melhor de si e comungue com quem estiver lá essa capacidade que temos de, em meio à cultura e à literatura, provarmos que a humanidade avança, sim, rumo à civilização, por meio de pequenos atos cotidianos de confraternização pública, como uma Feira do Livro. A abertura oficial acontece hoje na própria Praça Dante, a partir das 18h30min. Todos convidados e boas leituras!
(Crônica publicada no jornal Pioneiro em 2 de outubro de 2015)

quarta-feira, 26 de novembro de 2014

A sombra de Clara

Clara é o nome de uma jornalista de cerca de 25 anos, solteira, desempregada, que anda vivendo uma crise pessoal sem precedentes. Tentando reorganizar os cacos de sua vida dilacerada, cujas pontas se agudizam com a ruptura recente com um namorado, Clara está mergulhando em um turbilhão caótico de eventos que só fazem piorar à medida em que vamos conhecendo mais intimamente os detalhes de sua vida. Caos e farsa são os elementos que parecem predominar ao seu redor.
Fora o fato de também ser jornalista, não possuo nada em comum (ao menos, em uma primeira análise) com Clara. Às vezes, quanto mais a conheço, chego até a pensar que somos de espécies diferentes. E conheço-a muito bem, por sinal. Tão bem a ponto de elencar outro aspecto no qual diferimos eu e ela profundamente: eu sou real, enquanto que ela é fruto de minha imaginação. Eu criei Clara, mas Clara me impressiona, me intriga e me surpreende.
A mais recente grande surpresa que ela me proporcionou ocorreu na noite de segunda-feira quando, no Teatro Renascença, em Porto Alegre, ela foi responsável por me fazer conquistar a maior premiação que já obtive em minha carreira literária. Clara é a protagonista de meu romance “A Sombra de Clara”, contemplado com o Prêmio Açorianos de Criação Literária, categoria integrante do mais renomado prêmio literário gaúcho, destinada a publicar obras ainda inéditas. O livro já está em fase de pré-produção (contrato assinado e tudo) e virá a público na Feira do Livro de Porto Alegre no ano que vem.
O desafio que me impus na produção desse texto foi assumir a voz narrativa e a visão de mundo da personagem, uma vez que é Clara quem conta a sua história ao leitor, do seu jeito, em seu estilo próprio, a partir de suas próprias convicções. Parece que funcionou, porque os jurados me confessaram que, ao ler o livro, juravam que ele tinha sido escrito por uma autora feminina. “Você deve conhecer muito bem as mulheres”, disseram-me os jurados. Não sei, penso eu. Conheço bem Clara. Quer dizer, Clara é um mistério em si mesma, que cabe aos leitores tentarem desvendar.
Calma, novembro de 2015 está logo aí. Desde já, todos convidados para a sessão de autógrafos.

 (Crônica publicada no jornal Pioneiro em 26 de novembro de 2014)

quinta-feira, 16 de outubro de 2014

Leitura adolescente

A matéria de capa do caderno “Comportamento” , do Pioneiro de segunda-feira, trazia um dado interessante relativo ao movimento registrado nas barraquinhas da Feira do Livro, cuja 30ª edição segue na Praça Dante Alighieri até domingo, dia 18. A equipe do caderno circulou entre os livreiros inquirindo a respeito dos títulos mais procurados pelos leitores até o momento, e o resultado proporciona, no mínimo, algumas reflexões curiosas.
Dos três livros mais vendidos na maioria dos estandes, eu não conhecia nenhum. Os títulos das obras não me diziam nada e seus autores não me evocavam referências. Isso, em si, não quer dizer nada. Do alto de minha soberba, poderia eu pensar que tratam-se de obras insignificantes, já que eu, leitor calejado, não as conhecia. Mas descendo do pedestal, poderia ser que eu não as conhecesse por simplesmente ser impossível hoje em dia saber de tudo e conhecer tudo. Dito e feito, era isso.
Que fiz? Fui para a internet. E foi assim que descobri que os livros “Se Eu Ficar” (de Gayle Forman), “A Culpa é das Estrelas” (de John Green) e “O Sangue do Olimpo” (de Rick Riordan) são os grandes hits literários que fazem sucesso hoje entre o público adolescente. Ou seja, os três livros mais vendidos da Feira estão sendo adquiridos pelos adolescentes, quebrando o mito de que criança lê, adulto lê, mas adolescente não lê. Adolescente lê, sim senhores. Lê, vai à Feira e compra livro. Que boa notícia que nos trouxe segunda passada o Pioneiro, em sua matéria de capa do caderno de cultura e variedades!

Não se trata aqui de fazer juízo de valor a respeito da qualidade literária existente ou não (não sei, não li, podem ser obras excelentes) nessas obras. O que é significativo é que a gurizada, por meio delas, está enraizando dentro deles mesmos o hábito da leitura, que significa domesticar o próprio ser para dar a si mesmo esses momentos de introspecção, de silêncio, de ensimesmamento que o ato da leitura requer. E é só assim que se forma o cidadão que reflete, que absorve arte e cultura e a traduz na forma de cidadania. Que boa notícia!
(Crônica publicada no jornal Pioneiro em 16 de outubro de 2014)

sexta-feira, 3 de outubro de 2014

O autor analfabeto

Às vezes me questionam, em entrevistas, sobre desde quando eu escrevo. Minha resposta à pergunta sempre é cambiante, uma vez que faz décadas que prefiro ser uma “metamorfose ambulante do que ter aquela velha opinião formada sobre tudo”. Mas ultimamente, já que a pergunta induz a pensar em retrospecto, venho respondendo que escrevo desde antes de ser alfabetizado. Ah, pois!
Sim, explico. Isso é verdade porque, muito antes de ingressar na escola e começar a aprender que bê com a faz ba e bê com e faz be, eu já elaborava historinhas em quadrinhos criadas em minha própria imaginação e as desenhava em cadernões repletos de folhas em branco, que minha mãe comprava para mim na Livraria Cultural, em Ijuí. Depois, quando ela chegava em casa do serviço à noitinha, eu ia lá atazanar e pedir para que inserisse os diálogos que havia criado para os personagens, já que eu ainda era um analfabeto. Ou seja: tecnicamente, quem exercitava o ato mecânico de colocar o texto nas páginas era minha mãe, mas quem os criava era eu. Eu, o autor. Eu, o escritor analfabeto, que escrevo desde antes de aprender a juntar letrinhas.
Por tabela, volta e meia surge também a questão sobre desde quando sou leitor, e a resposta é a mesma: desde antes de aprender a ler. Sim, porque minha mãe (de novo ela) lia livros do Monteiro Lobato para mim, na cama, antes de eu dormir à noite, e não tinha jeito de eu pregar o olho porque, antes de dormir, ficava era ligadão querendo saber o resto da história. Ao invés de adormecer, despertou em mim o leitor.

E Feira do Livro, desde quando participo? Também, desde sempre. Lá em Ijuí, meus pais me levavam toda a sexta-feira de tardinha até a Livraria Progresso e me deixavam pegar dois gibis à minha escolha. Desde os sete anos que eu faço minhas feiras de livros. Podem imaginar, então, como me sinto hoje, dia da abertura de mais uma edição da Feira do Livro de Caxias do Sul. Nos próximos 18 dias, a Praça Dante vai estar repleta de gente faceira por livro igual a mim. Vai lá dar uma olhada, é divertido, é lúdico, é criativo, é humano, é vida pura! Bem-vinda, 30ª edição!
(Crônica publicada no jornal Pioneiro em 3 de outubro de 2014)

sexta-feira, 30 de setembro de 2011

Embarque na Praça Dante

Atenção senhores passageiros do voo 027 partindo de Caxias do Sul com destino às mais altas nuvens da literatura local, nacional e universal, favor dirigirem-se a partir desta sexta-feira ao portão de embarque da Praça Dante Alighieri. A decolagem está prevista para logo mais, às 18h30min, na plataforma do palco central da Feira do Livro de Caxias do Sul. Tenham em mãos seus cartões de embarque, constituídos pela vontade de ler, de vasculhar livros, de circular pelos estandes das livrarias, de encontrar pessoas, de bater papo com autores, de capturar autógrafos nas sessões de lançamento, de participar dos debates, de ler no Leiturário, de frequentar o café literário, de respirar cultura.
A previsão de duração de voo até o nosso destino, as paradisíacas praias do crescimento pessoal a partir da leitura, é de 17 dias, independentemente de sol ou chuva, uma vez que não existe mau tempo quando se trata de alçar a viagem da literatura. Sobrevoaremos ininterruptamente a Praça Dante, nos esforçando para proporcionar a todos os passageiros o melhor serviço de bordo capaz de agradar aos clientes de nossa companhia literária. No cardápio, oferecemos uma dieta de leitura farta, eclética e compatível com todos os gostos, da poesia à crônica, do romance à autoajuda, dos contos às fábulas, apta a alimentar os espíritos de todas as gentes.
Oferecemos às crianças que optam por nossos serviços um atendimento personalizado, com cabines especialmente projetadas para os seus interesses e gostos, bem como uma programação específica elaborada no sentido de fidelizá-las para sempre em nossa companhia e na dos livros. Em caso de turbulência, não se espantem: é apenas o tremor causado pela algazarra dos pequenos leitores correndo a bordo de nossa aeronave, entusiasmados com a diversidade de livros a seu dispor durante o passeio.
Não há distinções de classe em nossa aeronave, sendo permitido o acesso livre dos passageiros a todas as dependências existentes, criadas para o deleite de todos. Se a bagagem de mão forem livros, não há nenhum limite de peso por passageiro. Desapertem os cintos, circulem à vontade e uma ótima viagem a todos, sob os cuidados da comandante Luiza Motta e do patrono-piloto Marco de Menezes.
(Crônica publicada no jornal Pioneiro em 30 de setembro de 2011)

sexta-feira, 8 de outubro de 2010

Velozes feirantes

(Crédito do fotógrafo: Chimia)
Circulo por entre os estandes da Feira do Livro com um cuidado redobrado nas manhãs e tardes dos dias de semana, quando o movimento, durante os horários tradicionais de expediente, permite o surgimento de espaço para transitar com certa dose de desenvoltura. Mas é preciso estar alerta. Minhas décadas de presença em ambientes de feiras de livros me permitem saber que não devo me iludir, e que é justamente aí que mora o perigo. Engana-se quem pensa que, por ser dia de semana e horário de trabalho, fica mais fácil perambular despreocupadamente de um lado para o outro entre as barraquinhas, ziguezagueando o olhar pelas sedutoras capas e títulos de todos aqueles livros que estamos doidaços para levar para casa. Nananinanina!
É nesses momentos que nosso trote livresco costuma ser interceptado por pequenos bólidos de cerca de um metro e pouquinho mais de altura que surgem zunindo a gente nunca sabe de onde e cruzam perigosamente quase por entre as nossas pernas, quando não metem um “chega-prá-lá” com os cotovelinhos afundando nossas frágeis barrigas passeadeiras e feirantes, alertando-nos para a presença de um dos elementos que mais fascinam e justificam a realização de feiras de livros: as crianças. Fique então sabendo e vai o alerta, você aí que se julga esperto e deseja passear pela Feira de segunda a sexta, em horário comercial: os corredores estão mais livres, é verdade, mas pertencem às crianças, e o limite de velocidade costuma estar flexibilizado.
Elas passam zunindo para lá e para cá, os cabelinhos esvoaçantes, a gargalhada solta sublinhando o prazeroso encontro das pequenas mãozinhas com o volume dos livros recém capturados. O deleite do contato com o livro encantador costuma ser compartilhado à larga e anunciado sem autocensuras, verdadeiramente esparramado por entre os estandes e as pernas de adultos desavisados. Que felicidade deve ser essa, a de ser livro infantil e cair nas graças de um pequeno grande leitor, que sai correndo com ele pela praça, espalhafatando satisfação literária!
Abram alas! Numa boa Feira do Livro, como essa nossa, criança está sempre na preferencial.
(Crônica publicada no jornal Pioneiro em 08-10-10)

sexta-feira, 1 de outubro de 2010

Livros iluminam a praça


A partir do meio-dia desta sexta-feira, os livros voltam a assentar-se na Praça Dante Alighieri para a realização de mais uma Feira do Livro de Caxias do Sul. Na nossa cidade, a praça da Feira tem nome de escritor clássico. Pode-se desejar mais? Sob o lema “Ler é iluminar-se”, tenho a honra, o orgulho e o desafio de desempenhar o papel de patrono desta 26ª edição do evento literário de maior porte de todo o interior do Estado. Irmanado a mim nessa jornada, conto com o apoio, a presença e a fé do Frei Aldo Colombo, o justo homenageado da Feira deste ano, que também tem uma biografia profissional e pessoal ligada à defesa e propagação da leitura e dos livros.
A Feira do Livro representa o ponto culminante anual de todo um trabalho permanente e incansável em favor da promoção da leitura em nossa cidade, por parte dos esforços conjugados de vários setores do poder público, de livreiros, de educadores, de escolas, da imprensa, de empresas privadas, de editores, de escritores, de promotores culturais, de incentivadores da leitura em geral. É durante os dias de Feira que essa gente toda se encontra na praça para celebrar a alegria que é fazer parte desse verdadeiro Planeta Livro que toma forma e existe nos corações e nas mentes de todos os seres que amam a literatura.
Basta circular pelo ambiente da Feira para ser contagiado pelo clima de alegria, aconchego e compartilhamento da sensação positiva e saudável que emana do contato com a leitura. A presença cada vez maior das crianças em meio aos livros é algo que emociona, contagia e desanuvia as visões apocalípticas de futuro que às vezes teimamos em manter. Sempre haverá esperança enquanto uma criança deleitar-se no gesto de abrir um livro. Tenho fé genuína nisso.
Sob a batuta abnegada e incansável da Luiza Darsie da Motta, diretora do Programa Permanente de Estímulo à Leitura (PPEL), órgão ligado à Secretaria da Cultura e responsável pela organização e realização do evento, juntamente com toda a sua batalhadora equipe, tenho certeza de que teremos 17 dias de aconchego literário em nossa praça. Bem-vindos à Feira do Livro, e boas leituras a todos!
(Crônica publicada no jornal Pioneiro em 1 de outubro de 1910)

quinta-feira, 16 de setembro de 2010

Uma reflexão trigueira

Publica-se em Caxias do Sul. Escreve-se e publica-se. Caxias do Sul possui uma feira de livros anual portentosa, repleta de (óbvio) livros, autores, debates e sessões de autógrafos. Há livrarias grandes em Caxias do Sul, e editoras de livros florescem aqui. Também existe há décadas um concurso anual literário que revela novos talentos e a prefeitura dispõe de dispositivos como a Lei de Incentivo à Cultura e o Financiarte para prover, com verbas públicas, a publicação de obras literárias aprovadas pelos critérios de seleção.
Espaço, portanto, para a prática da literatura, em Caxias do Sul, há. Não sei se há leitores em igual proporção, mas isso já é outra história. O fato é que nunca antes foi tão fácil levar ao conhecimento público aquilo que se forja em termos literários em Caxias do Sul como nos dias atuais. Isso é, em essência, e por princípio, bom, muito bom.
Já dizia Honoré de Balzac (escritor francês do século dezenove) que, para conseguir escrever bem, é preciso escrever muito. Pode-se interpretar essa frase de efeito sob duas óticas válidas e não-excludentes. Uma, é a de que só o exercício constante e contínuo da escrita é que conduz o escritor ao domínio da técnica narrativa e à conquista de um estilo admirável. Outra, é a de que, produzindo bastante e constantemente, acabaremos, em meio a todo o joio que geramos, inevitavelmente parindo aquelas exceções (os trigos) que de fato vão se configurar como literatura de qualidade. Os dois vieses, a meu ver, estão corretos.
O trigo que vai sobrar entre todo esse joio é a posteridade quem vai decidir, naturalmente. A grande promessa literária de hoje pode cair no esquecimento absoluto dentro de um par de anos, e aquele livro que passou batido por nossos olhos pode vir a ser o representante de nossa geração dentro de algumas décadas. Quem vai saber?
Mas sempre me inclino a pensar que as condições propícias para que o trigo surja e se manifeste decorrem da abundância do joio jorrando ao redor. Que haja joio! Recebamos o joio todo de braços abertos e sorrisos largos, para que em meio a ele tenhamos sazonalmente a surpresa agradável de vermos, uma ou outra vez, pousar em nossos colos um delicado e valioso raminho de trigo.
Ah, e que sejamos, ó Senhor das Letras, sempre capazes de identificar a identidade desses tão valiosos raminhos e não deixá-los secar solitários abandonados ao fundo das prateleiras das livrarias. Além dessa lucidez, dai-nos também, Senhor das Letras, a humildade e a sabedoria necessárias para acolhermos melhor os eventuais ramos que afobadamente arremessamos para o monte dos joios. Sempre pode haver pérolas inesperadas escondidas entre eles e, pior do que arremessar pérolas aos porcos é não sermos nós mesmos capazes de detectar pérolas em meio ao joio.

PÉROLAS NA PRAÇA
Falando em pérolas literárias, a Feira do Livro de Caxias do Sul já tem data: acontece de 1º a 17 de outubro, na Praça Dante Alighieri. Em sua 26ª edição, a Feira leva ao centro da cidade livreiros, livrarias, escritores e leitores, que comungam sua paixão pelos livros e pela leitura em debates, bate-papos, mesas-redondas, sessões de autógrafos, encontros e conversas informais, rodas de leitura e muito mais. Entre as barracas de livros e as bandejas de saldos, é possível encontrar muitas pérolas literárias ansiosas para serem levadas para a sua casa e lidas por você. Fique atento, organize-se e vá à praça fazer a feira... de livros. Este ano, tenho a honra de ser o patrono do evento, ao lado do homenageado Frei Aldo Colombo. Espero-os lá!
(Publicado na seção "Planeta Livro" da revista Acontece Sul, edição de setembro de 2010)

quinta-feira, 29 de julho de 2010

Apadrinhando a Leitura

Uma mescla de sensações me toma desde o início da noite de quinta-feira da semana passada, 29 de julho, quando recebi oficialmente o convite (e o aceitei) para ser o Patrono da 26ª edição da Feira do Livro de Caxias do Sul, que ocorre de 1º a 17 de outubro, na Praça Dante Alighieri. Apaixonado pela leitura e pelo universo dos livros desde sempre, tenho meu histórico de quatro décadas mergulhado em literatura coroado pelo surpreendente convite, que traz consigo uma responsabilidade inimaginável. Excitado, nervoso, feliz, lisonjeado, preocupado... todas essas sensações encontram um pouco de amparo na consciência de que estarei trafegando em meio ao aquário em que mais me sinto à vontade desde que me conheço por gente: o planeta composto por livros, autores, livreiros, editores e leitores.
Sou muito grato pela confiança depositada pela Secretaria Municipal da Cultura, pelo Programa Permanente de Estímulo à Leitura (PPEL), pela recém-criada Associação dos Livreiros Caxienses e pela Secretaria Municipal de Educação, entidades que puxam a frente da Feira. Espero desempenhar à altura das expectativas o papel que se almeja de um Patrono de Feira do Livro, a exemplo das brilhantes participações recentes que pude presenciar nas figuras de outros ex-patronos.
Meu inesgotável encantamento com a leitura e com o universo dos livros deve ter nascente em alguma fonte secreta escondida nos subterfúgios de minha psiquê. É nela que buscarei as energias para apadrinhar a Feira, junto com o apoio de familiares, amigos e colegas amantes dos livros. A companhia de Frei Aldo Colombo abrilhanta a empreitada, uma vez que ele compartilha comigo o desafio na condição de justíssimo homenageado desta edição.
O tamanho do desafio aceito é a chave para engrandecer o desafiado, já dizia Herman Melville, ao compartilhar a grandeza da narrativa que ele se punha a escrever em seu “Moby Dick”: “Dai-me uma pena de condor! Dai-me a cratera do Vesúvio por tinteiro! Amigos, firmai meus braços!”. A sorte está lançada, o desafio está aceito. Uma boa Feira do Livro 2010 a todos, repleta de boas leituras.
(Crônica publicada no jornal Pioneiro em 06/08/2010)