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sexta-feira, 12 de junho de 2015

Goleada contra a censura

Eu pergunto: quem não gosta de ver uma goleada? Eu respondo: somente aqueles que sofrem a goleada. Mas independentemente do lado em que você se posiciona (no do goleador ou no do goleado), a goleada em si sempre é revestida de beleza. A beleza da goleada. Poderíamos cunhar uma nova figura de linguagem: “belo como uma goleada”.
Aquela dos sete a um metidos pela seleção da Alemanha contra as redes da seleção brasileira na última Copa do Mundo, por exemplo, não foi linda de se ver? Triste e humilhante para nós, brasileiros, mas que foi bonita de se ver, ah, isso foi, porque, depois do terceiro, do quarto, do quinto gols, todos passamos a nos identificar mesmo era com os goleadores, no papel de quem desejaríamos estar. Porque é bom meter uma goleada. Lava a alma, exorciza o íntimo, alivia os pesos. Goleada tem papel purgativo.
Quem protagonizou um linda goleada histórica no Brasil esta semana foram os nove ministros do Supremo Tribunal Federal (STF), que meteram nove a zero sem dó nem piedade, derrubando por unanimidade a pretensa necessidade de autorização prévia para a publicação de biografias não-autorizadas em formato de livro ou de audiovisual. Ou seja, tinha gente querendo (e até então estavam conseguindo) que vigorasse no país a censura prévia à publicação de biografias de pessoas famosas, o que é um claro atentado antidemocrático à liberdade de expressão, direito, aliás, já garantido pela Constituição Federal. Mas agora, em uma atitude exemplar e que nos enche de orgulho (ao menos a nós, cidadãos brasileiros que defendemos a liberdade e somos contra qualquer tipo de censura), o STF consolida, na expressão de uma das ministras, o fato de que, no Brasil, ditadura é coisa do passado e o “cala a boca já morreu”, mesmo.

Censura prévia existe é na China, no Irã e em Cuba, países onde “democracia” e “liberdade” são expressões proibidas e passíveis de levar cidadãos à cadeia e até à pena de morte. Aqui, não, jacaré. Se os senhores Roberto Carlos, Caetano Veloso e Chico Buarque (propositores e defensores da censura prévia às biografias) se sentirem atingidos pelo que for escrito e publicado, que procurem seus direitos junto à Justiça, que está aí justamente para isso. Mas não venham me dizer o que eu posso ou não posso dizer e escrever. O STF afastou da gente o cálice da censura, felizmente.
(Crônica publicada no jornal Pioneiro em 12 de junho de 2015)

segunda-feira, 5 de maio de 2014

A grandeza do pequeno

Sempre há muito que aprender com quem possui mais cultura, mais história, mais trajetória e mais conhecimento do que a gente. Sempre. Esse é um dos segredos da sabedoria e um dos fatores a serem observados por quem pretende obter desenvolvimento e crescimento. Isso serve tanto para indivíduos quanto para agrupamentos de indivíduos. Serve até mesmo para nações inteiras.
Uma nação subdesenvolvida ética e culturalmente pode ter muito a aprender com nações que já atingiram patamares mais elevados nos quesitos que norteiam a convivência social. Nós, aqui do nosso Brasil do futebol, da alegria e da violência, podemos aprender bastante com povos de além-mar que estão alguns anos-luz à frente em questões importantes, como os direitos fundamentais do cidadão, por exemplo. Nesse quesito, o nosso país continental tem muito a aprender com o pequenino Principado de Mônaco, o segundo menor Estado do mundo (só fica atrás do Vaticano), com 202 hectares de área e uma população de cerca de 35 mil habitantes.
Isso ficou patente com a notícia de que a Família Real de Mônaco emitiu um comunicado oficial ao mundo, em que repudia a abordagem a respeito da vida da princesa Grace Kelly (1929-1982), feita pelo filme dirigido por Olivier Daha, com estreia mundial em 14 de maio no Festival de Cannes. “Grace: A Princesa de Mônaco”, traz Nicole Kidman no papel-título da obra que retrata a vida da famosa atriz de Hollywood que abandonou os holofotes para se casar com o Príncipe Rainier III, de Mônaco, até morrer em um controverso acidente automobilístico.
Mas a Família Real não gostou da abordagem efetivada pela obra cinematográfica e lançou nota oficial reiterando que o diretor não levou em consideração as observações feitas pelo Palácio do Principado. “Esse filme não pode ser classificado como uma biografia. Trata-se de obra puramente ficcional, baseada em referências históricas erradas e dúbias. A família da princesa não deseja ser associada a esse filme”, resume o comunicado.

Mas em nenhum momento a Família Real cogita a possibilidade de censurar o filme. Discordam, repudiam e manifestam seu ponto de vista. E ponto. Censura? Nem lhes passa pela cabeça. Já, do lado de cá do Atlântico, sempre que se trata de biografias, o gatilho da censura é acionado com destreza, altivez e desenvoltura, escancarando os nossos pés firmemente fincados nos atrasados conceitos totalitários de sociedade. Nossa caminhada para atingirmos o porte de um Principado de Mônaco ainda é longa, ó patrícios.
(Crônica publicada no jornal Pioneiro em 5 de maio de 2014)

terça-feira, 1 de abril de 2014

É preciso saber dizer

Conquistar uma liberdade específica é o primeiro passo no caminho da ampliação das potencialidades de manifestação da essência humana na sociedade em que se está inserido. Saber como usar essa liberdade atingida e o que fazer com ela é o segundo e mais importante passo, pois é somente dessa forma que esse direito se consolida como essencial, intocável, irrevogável, inquestionável. O mau uso de uma liberdade abre flancos para que ela seja questionada por aqueles que estão sempre à espreita, esperando pelas brechas que tornem possível o retrocesso.
Precisamos estar atentos, e a responsabilidade por manter incólume a justeza de uma liberdade conquistada cabe a todos nós enquanto conjunto social e a cada um de nós na expressão de sua individualidade diária. A reflexão vem a calhar nesses dias em que o calendário registra a transição de março para abril, efeméride que, há exato meio século, carimbava na história brasileira o golpe militar que faria descer sobre o país uma longa sombra de arbitrariedades ditatoriais cujos reflexos deletérios se fazem sentir até hoje. Ao lado da tortura, das prisões despóticas, do assassinato institucional, do aprofundamento da corrupção, da perseguição política, do estupro ao Judiciário e ao Poder Legislativo, do atropelo aos direitos constitucionais e do fomento à crise econômica, duas das crias mais perniciosas da ditadura foram a censura e a restrição à liberdade de pensamento e de manifestação de ideias e opiniões.
Foram necessários 21 anos de combate à essência da ditadura para que os direitos humanos, democráticos e fundamentais, universalmente reconhecidos como cruciais para o desenvolvimento de uma sociedade, fossem reconquistados, ao custo de vidas, cassações, deportações, perseguições etc. É preciso, agora, saber cultivar e honrar esses direitos, a fim de que jamais voltem a ser alvos fáceis para a ação dos que lucram com sua supressão.
Para que não sejamos censurados, por exemplo, precisamos saber usar o direito de expressão com maturidade, sapiência, discernimento, inteligência. Caso contrário, daremos munição ao inimigo que prefere nos ver para sempre calados. Nossa fala deve, portanto, sempre que possível, gerar diamantes. Do contrário, decidir optar pelo silêncio às vezes pode se configurar na expressão mais inteligente dessa mesma liberdade.

 (Crônica publicada no jornal Pioneiro em 1 de abril de 2014)

sexta-feira, 26 de novembro de 2010

A palavra que começa com "c"

Há uma tendência sórdida pairando nos ares do país nos últimos tempos, e seria conveniente a gente prestar atenção a isso e dar um pára-te-quieto enquanto ainda é tempo, antes de o caldo entornar e antes que derrame-se o leite. Trata-se das tentativas de resgate da censura, que vêm sendo impetradas de norte a sul no país, em diversas esferas, movidas pelos mais diversos agentes, sempre em nome de uma discutível questão ética.
Só para ficar em exemplos recentes, vale lembrar da tentativa de censura do livro “Caçadas de Pedrinho”, de Monteiro Lobato, que deveria ser banido das salas de aula por “conter conteúdo racista” em suas páginas. Fica mais fácil para os pseudo-guardiães da ética promover o exílio da obra do que aproveitá-la justamente para estimular em sala de aula o debate sobre a intolerância e a evolução dos conceitos morais e éticos, e de como uma ideia equivocada pode influenciar até mesmo os grandes talentos de determinada época. Mas nada de discussão, o que defendem é a censura pura e simples.
Agora andam querendo aplicar censura a filmes como “Tropa de Elite 2”, retirando a recomendação de faixa etária (“não-apropriado para menores de...”) e simplesmente impondo restrição ao acesso mesmo, ou seja, censura. Em nome da preservação dos menores de 16 anos às cenas de violência do filme. Ora, tem graça. Esses mesmos que defendem a censura ao filme devido às cenas de violência, que movam então seus esforços para banir a prática da violência na vida real, que está à solta nas ruas, nas escolas, nos shoppings, na internet, no mundo todo.
Sou contra a violência. Sou contra o racismo. Sou contra a erotização precoce. E sou violentamente contra a censura. As mazelas da sociedade, soluciona-se com debate, com discussão, aclarando as mentes, não tapando sóis com peneiras. A censura é o instrumento dos nazistas, dos fascistas, dos golpistas, dos ditadores, dos intolerantes, da Ku-Klux-Klan e de outros malfeitores históricos.
Vivemos a Era da Informação. Não dá para fazer de conta que não existiu e não existe racismo ou violência. São males que existem. Devemos conhecê-los, identificá-los, nos proteger deles, combatê-los e transformá-los. Com debate, com discussão aberta, com consciência, com informação irrestrita. Censura me causa comichões. Me dá náuseas. Me faz lembrar de José Sarney, que conseguiu censurar o último filme no Brasil, “Je Vous Salue, Marie”, de Goddard, por motivos religiosos, na década de 80. Uma atitude abestalhada e de triste recordação. Mas tem gente com saudades daquela época, como pode-se perceber.
Depois não sabem por que ranjo os dentes à noite...
(Crônica publicada no jornal Informante, de Farroupilha, em 26/11/2010)