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quinta-feira, 5 de fevereiro de 2015

O vinho do conde

Aconteceu no ano de 1865, no mês de agosto, em Rio Grande (a primeira cidade fundada na Província, em 1787), na época com 14 mil almas. Estava de passagem por ali o Conde D´Eu e seu séquito, rumo ao encontro do imperador Dom Pedro II, já aquartelado em Caçapava com suas forças somadas aos Voluntários da Pátria, a fim de combaterem o exército paraguaio de Solano López, que invadira terras brasileiras e já tomara São Borja e Uruguaiana.
O Conde D´Eu, francês da nobre Casa de Orléans, havia recém voltado da Europa, onde estivera em viagem de núpcias com sua esposa, a Princesa Isabel, filha de Dom Pedro II. Ao chegar ao Brasil, descobriu que eclodira a Guerra do Paraguai (seu celular estivera fora de área a viagem toda e ele se recusara a acessar a internet para saber das notícias) e não tardou em ir se juntar ao sogro no Sul do país para ajudar a comandar in loco as tropas brasileiras combatentes. De barco e a cavalo, a viagem do Rio de Janeiro até Caçapava levou duas semanas.
No caminho, o séquito do Príncipe Consorte ia sendo recebido com pompas e gala nas localidades por que passava, sendo o Conde D´Eu hospedado nas luxuosas residências dos principais próceres de cada lugar. Assim também se deu em Rio Grande, onde foi recebido pelo distinto senhor Eufrásio Lopes de Araújo e sua família. No jantar, a esposa do anfitrião fez questão de que o Conde provasse o “vinho da terra”, uma vez que a Província do Rio Grande do Sul era a única do país, na época, que vinha produzindo vinho, a partir de cepas importadas dos Estados Unidos (os imigrantes italianos só começariam a chegar no Sul dali a dez anos).
O Conde provou, mas não gostou, relatando assim a experiência em seu diário de viagem: “É de cor vermelho-clara e tem um sabor que não é propriamente desagradável, mas que é acre e se não parece com o de nenhum vinho europeu”. Zero para o vinho gaúcho de 1865. Mas muita coisa mudou no cenário vitivinícola da região, passado um século e meio. Pena é que não seja mais possível convidar o Conde D´Eu para um jantar hoje na Serra Gaúcha, regado aos melhores rótulos das vinícolas da região. O que ele escreveu é imutável e traça o retrato de uma época. Felizmente, há coisas que mudam para melhor (quem procurar com afinco, acaba achando, nem que seja o vinho).

 (Crônica publicada no jornal Pioneiro em 5 de fevereiro de 2015)

segunda-feira, 29 de julho de 2013

No vinho, a verdade

Sim, sim, é verdade, eu aprecio um bom vinho. Em minha vivência de já mais de vinte anos aqui na Serra Gaúcha, aprendi a refinar o paladar para melhor detectar as surpresas sensoriais que afloram do contato com o líquido tutelado por Baco. Fiz cursos de degustação no Vale dos Vinhedos, viajei à França com grupo de jornalistas para visitar algumas cantinas instaladas nas tradicionais regiões viníferas daquele país, consumi literatura especializada, bochechei os mais variados varietais.
Por pouco não me transformei em um enochato. Felizmente, já faz tempo que tirei das costas a obrigação de transformar meu ato de apreciação de um vinho em um rito de iniciado, repleto de observações organolépticas (a própria palavra é intragável) que, a bem da verdade, nublavam com seus conceitos (e pré-conceitos) o simples prazer do usufruir, que percebi só conseguir obter a partir de uma postura mais descompromissada (até porque, cá entre nós, nunca consegui detectar toques de manjericão e de nozes em uma taça de merlot). Essa percepção relativa ao descompromisso da fruição serviu também para ressignificar minha relação com diversos outros aspectos de minha vida, tornando-a um pouco mais dócil, simples e prazerosa.
Dessa forma, sigo sendo, por exemplo, um leitor contumaz, mas minhas leituras não obedecem a nenhum método a não ser aquele ditado pela vontade do momento. Leio por puro deleite e, ao fazê-lo, me informo, cresço e me transformo sem dor. Sigo sendo um viciado em filmes, mas os assisto sem obrigações de nenhuma natureza e deles exijo apenas que sejam competentes na proposta que apresentam: se comédia, quero rir à larga; se terror, quero morrer de medo; se drama, que me suscite reflexões; se desenho animado, que me encante; se água-com-açúcar, que me arranque lágrimas escondidas; se policial, que prendam o bandido; se de ação, que dizimem metade do elenco de apoio; se de suspense, que me surpreenda no final. Só isso e nada mais.

Não preciso dar discurso iniciático frente a uma tacinha de carmenère, não preciso assistir só a filmes-cabeça, posso estar sim a fim de ler um best-seller e de dançar ao som de um bate-estaca. Deixei de cobrar satisfações e coerências de mim mesmo. Resultado: minha balança astral indica o sumiço de uns 300 quilos de sobre meus ombros...
(Crônica publicada no jornal Pioneiro em 29 de julho de 2013)