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sexta-feira, 16 de maio de 2014

A pedra no sapato

Somos criaturas incompreensíveis e insaciáveis, mesmo. Renegamos aquilo que desejamos a partir do instante em que o desejo é saciado. Conquistamos benesses que passam a nos parecer estorvos e depois criamos mecanismos para burlá-las. Ou não sabemos o que queremos, ou queremos o que não conhecemos, ou desejamos o que não precisamos ou sei lá qual é a nossa. Somos humanos, alguém aí vai fazer questão de lembrar, e eu vou responder dizendo que sim, somos, mas o que somos de fato é uns humanos bem chatinhos.
Reflexões como essas eram as que eu fazia noite dessas ao chegar em casa após um longo dia de trabalho que me exigiu praticar caminhadas exaustivas entre um ponto e outro da cidade a fim de cumprir as metas estipuladas por mim mesmo para aquela data. A meteorologia estava colaborativa e me proporcionara um dia ensolarado e com temperatura amena, o que me permitiu caminhar sem correr o risco de me ensopar com chuva ou com suor, aparecendo penteado, apresentável e sorridente em todos os lugares previstos.
Cumpridas todas as tarefas, a jornada se encerrava com o chegar em casa e trocar de roupa para então relaxar jantando e compartilhando os fatos do dia com a esposa. Sentado à beira da cama, desfazia os nós dos cadarços e liberava um longo suspiro de prazer ao desarrolhar para fora dos pés cada um dos sapatos. “Ahh, que prazer iningualável esse o de tirar os sapatos após um longo dia de trabalho caminhando”, pensava aquela parte de mim que produz pensamentos-chavões em modo piloto-automático.
 Mas logo a outra parte entrou em cena, aquela que tem como prazer próprio contradizer e questionar os pensamentos-padrões da parte Polyana, e me induziu a refletir que a humanidade precisou de séculos pisando em gravetos e espinhos para inventar os primeiros calçados para proteger os pés na caça aos mamutes ou nas fugas da fome dos tigres-de-bengala (o que seria da nossa linhagem humana se aquela tigrada não precisasse de bengala, hein?) e agora, que temos sapatos, ficamos nos achando no direito de pensar que o prazer reside em tirá-los dos pés, quando deveríamos era imaginar o horror a que estaríamos submetidos se, sem a invenção dos sapatos, tivéssemos de ir visitar os clientes tropicando nos paralelepípedos e grudando o calcanhar nos chicles jogados nas calçadas.

Viram como é difícil saciar um ser humano? E de quebra, o leitor ainda é brindado com um exemplo prático de como é complexo filosofar. Especialmente quando há uma pedra dentro do sapato.
(Crônica publicada no jornal Pioneiro em 16 de maio de 2014)

segunda-feira, 29 de julho de 2013

No vinho, a verdade

Sim, sim, é verdade, eu aprecio um bom vinho. Em minha vivência de já mais de vinte anos aqui na Serra Gaúcha, aprendi a refinar o paladar para melhor detectar as surpresas sensoriais que afloram do contato com o líquido tutelado por Baco. Fiz cursos de degustação no Vale dos Vinhedos, viajei à França com grupo de jornalistas para visitar algumas cantinas instaladas nas tradicionais regiões viníferas daquele país, consumi literatura especializada, bochechei os mais variados varietais.
Por pouco não me transformei em um enochato. Felizmente, já faz tempo que tirei das costas a obrigação de transformar meu ato de apreciação de um vinho em um rito de iniciado, repleto de observações organolépticas (a própria palavra é intragável) que, a bem da verdade, nublavam com seus conceitos (e pré-conceitos) o simples prazer do usufruir, que percebi só conseguir obter a partir de uma postura mais descompromissada (até porque, cá entre nós, nunca consegui detectar toques de manjericão e de nozes em uma taça de merlot). Essa percepção relativa ao descompromisso da fruição serviu também para ressignificar minha relação com diversos outros aspectos de minha vida, tornando-a um pouco mais dócil, simples e prazerosa.
Dessa forma, sigo sendo, por exemplo, um leitor contumaz, mas minhas leituras não obedecem a nenhum método a não ser aquele ditado pela vontade do momento. Leio por puro deleite e, ao fazê-lo, me informo, cresço e me transformo sem dor. Sigo sendo um viciado em filmes, mas os assisto sem obrigações de nenhuma natureza e deles exijo apenas que sejam competentes na proposta que apresentam: se comédia, quero rir à larga; se terror, quero morrer de medo; se drama, que me suscite reflexões; se desenho animado, que me encante; se água-com-açúcar, que me arranque lágrimas escondidas; se policial, que prendam o bandido; se de ação, que dizimem metade do elenco de apoio; se de suspense, que me surpreenda no final. Só isso e nada mais.

Não preciso dar discurso iniciático frente a uma tacinha de carmenère, não preciso assistir só a filmes-cabeça, posso estar sim a fim de ler um best-seller e de dançar ao som de um bate-estaca. Deixei de cobrar satisfações e coerências de mim mesmo. Resultado: minha balança astral indica o sumiço de uns 300 quilos de sobre meus ombros...
(Crônica publicada no jornal Pioneiro em 29 de julho de 2013)