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segunda-feira, 26 de dezembro de 2016

A cenoura é a prova

A prova irrefutável de que o Papai Noel realmente visitou na madrugada do Natal a casa de meu afilhado de quatro anos de idade é uma cenoura que foi mordida por uma das renas que puxam o trenó do Bom Velhinho. Não há o que discutir quando as evidências falam por si e o peso das provas equaciona um mistério. O trenó do Papai Noel é puxado por renas. Seis renas, conforme me explica o afilhado, enquanto me ajuda a destruir a embalagem que nos impede de acessarmos com rapidez o conjunto de ferramentas de plástico a ele destinado também pelo Papai Noel, mas que foi deixado na casa dos dindos para a devida entrega.
São seis renas, portanto, aprendo. E elas devoram cenouras. Certo. Escuto com atenção. O Papai Noel não desceu pela chaminé porque não há lareira na casa, mas parece que conseguiu entrar pela janela do banheiro, enquanto todos dormiam - o que é uma lástima, já que ele desejaria muito ter visto o Papai Noel chegar e entregar os presentes. Mas a família toda caiu no sono e foi bem nessa hora que o velhinho resolveu aparecer. Bom, tudo bem, ao menos, as cenouras para as renas haviam sido diligentemente posicionadas sobre o balcão da sala, bem à vista do Papai Noel, que tratou de entregá-las às renas enquanto ele deixava os presentes. As renas ficam com muita fome enquanto levam o Papai Noel de casa em casa, e é importante deixar cenouras para elas se alimentarem.
Uma das cenouras, que não foi totalmente devorada, mas que mantém as marcas das dentadas desferidas por uma das renas, foi guardada como relíquia pelo afilhado, sob sua cama. Se eu queria ver? Mas claro que eu queria! Poc poc poc poc... Saiu correndo em desabalada carreira até o quarto, para voltar empunhando uma longa cenoura coberta de dentadas. Dentadas de rena natalina, evidentemente, como eu logo averiguava com meus próprios olhos e minha longa experiência em pistas deixadas pela ação do Papai Noel. Sim, sim, eram dentadas de rena, não havia dúvidas. Renas do Papai Noel são as que deixam marcas enormes na cenoura, como essas. De fato, Papai Noel esteve ali de madrugada.

Pena que ele não viu, porque pegou no sono. Bem, fazer o que... Nem tudo é perfeito nessa vida. Voltamos a desembrulhar as ferramentas de plástico, em silêncio, a cenoura escorada na parede da sala. “Ano que vem, vou ficar acordado, para ver o Papai Noel entregar os presentes e as renas comendo as cenouras”, disse, manuseando o alicate de plástico. Senti firmeza no propósito. Se eu fico junto? Fico, claro que fico. Também quero ver. Ano que vem, não posso esquecer das cenouras.
(Crônica publicada no jornal Pioneiro em 26 de dezembro de 2016)

domingo, 21 de dezembro de 2014

Papai Noel de sunga

A partir de domingo, os seguintes apetrechos voltam a ganhar status de parafernália oficial para os felizes habitantes do hemisfério sul: calção, sunga, biquíni, maiô, chinelo-de-dedo, sandália, rasteirinha, canga, chapéu de palha, boné, óculos-escuros, protetor solar, esteira, cadeira de dobrar, baralho, aparelhagem de frescobol, guarda-sol, toalha de banho, camiseta, bermuda e assemelhados. Os objetos-de-desejo passam a ser: milho verde, caipirinha, cerveja beeeeeeem gelada, pastel de siri, pastel de camarão, pastel de carne, espumante, batata frita, sol, calor, mar, areia, grama, piscina, ar livre, céu azul.
Estou certo ou errado? Bola na trave ou gol de placa? Sim, porque, a partir de domingo, dia 21 de dezembro, abrem-se oficialmente as portas nos países do hemisfério sul para a chegada do verão, essa estação que tanto amamos e que promete ficar por aqui a temporada inteira, até 20 de março. E o verão já chega trazendo seu tradicional solstício, o fenômeno que faz com que, no domingo, 21, o dia seja mais comprido do que a noite (haverá mais horas de luz solar, se não estiver nublado, do que de noite estelar). Já lá no hemisfério norte, os pobres dos europeus e norte-americanos passam a ser brindados, na mesmíssima data, com a chegada do inverno e com direito a solstício inverso, com mais horas de noite do que de luz solar. Ah, coitados!

Isso é o que obriga, todos os anos, o Papai Noel dos nortistas a se vestir daquele jeito esquimó, com a pesadona roupa vermelha forrada de algodão, luvas, botas, touca e espessa barba branca. Tudo térmico, para enfrentar a neve durante sua árdua tarefa de entregar presentes. Aqui no sul, ninguém nunca vê o Papai Noel justamente porque ele passa despercebido no meio da multidão com seus chinelinhos Havaianas, bermuda transadinha, um copinho de piña colada e o barrigão que, convenhamos, nove entre cada dez homens temos. Aqui no sul, basta entrar dezembro que Papai Noel raspa a barbona branca, porque ele não é bobo. É por isso que ninguém nunca o viu de verdade. Nosso Papai Noel é veronil. Fiquei sabendo que, este ano, vai veranear em Arroio do Sal. Fique atento.
(Crônica publicada no jornal Pioneiro em 20 de dezembro de 2014)

terça-feira, 16 de dezembro de 2014

O cara não era o cara

A lembrança mais remota que tenho de meus contatos com o Papai Noel me reconduz a dezenas de anos passados, quando eu devia ter uns cinco ou seis anos de idade e morava na Rua dos Viajantes, em Ijuí. Coisas estranhas e maravilhosas aconteciam na Rua dos Viajantes em Ijuí naquela época, e essa foi uma delas.
A informação de que Papai Noel faria uma visita ao nosso lar na noite de Natal foi sendo revelada aos poucos para mim e minha irmã pelos meus pais, enquanto o clima natalino ia se instalando pela casa a partir da metade de dezembro. Falava-se em bom comportamento como requisito fundamental para receber de Papai Noel os presentes que tanto almejávamos (eu queria uma bicicleta Caloi e minha irmã desejava uma boneca Suzy, creio). A expectativa, portanto, era grande.
Naquela época era usual as famílias adquirirem pinheirinhos de verdade e instalá-los dentro de uma caixa de metal a um canto da sala, ao pé do qual montávamos o presépio. Passávamos dias ajudando nossos pais a ornamentar os espinhudos galhos do pinheiro com os enfeites coloridos que reapareciam das caixas guardadas a sete chaves pelos adultos. No jardim da infância, produzíamos enfeites artesanais com cartolina e palitos de fósforo, que obtinham lugar de destaque na árvore. Assim, o clima natalino se estabelecia, embalado com a trilha sonora de discos de vinil que iam sendo tocados com Jingle Bells, Noite Feliz e outras canções similares.

Aí então, na noite de Natal, chegou Papai Noel, o tão esperado visitante, carregando nas costas um saco de estopa do qual foi retirando presentes. Lembro de quando cheguei perto dele e percebi que se tratava de uma pessoa usando uma máscara, o que me causou certa estranheza.     “Ué, esse Papai Noel não é o verdadeiro, mas sim um homem fantasiado”, pensei. De qualquer forma, não disse nada, peguei meus presentes e saí. Em momento algum duvidei ali da existência de Papai Noel. Apenas, aquele que viera não era o próprio, ok, sem problemas. Afinal, ali, na Rua dos Viajantes, a fantasia tinha primazia e não era uma máscara que colocaria tudo por terra. A prioridade era seguir sendo feliz. Magias do Natal.
(Crônica publicada no jornal Pioneiro em 16 de dezembro de 2014)

segunda-feira, 15 de dezembro de 2014

Obrigado, Papai Noel

Eu não estava lá, mas fiquei sabendo porque me contaram. O cenário: os pavilhões da Festa da Uva, onde, no final de semana, uma empresa de grande porte concretizava a festa de final de ano para seus funcionários e familiares. O motivo: entrega de cestas natalinas aos funcionários e de presentes para seus filhos. O protagonista: meu afilhado, um cidadão de dois anos e sete meses de idade. O personagem coadjuvante: Papai Noel, aquele ser de longas barbas que veste um quentérrimo pijama vermelho em pleno calor de dezembro. O causo: é isso que vou narrar agora, leitor.
O causo se deu assim: tarde de sol nos Pavilhões, final de semana, a gurizada correndo doidivanasmente para cima e para baixo, fazendo a festa e ligando as atenções de seus pais, todos na expectativa da chegada do Papai Noel, aquele que tem a incumbência de trazer presentes. Em dado momento, Papai Noel chegou e passou a distribuir presentes a todos os meninos e meninas que se comportaram e foram bonzinhos ao longo do ano que passou. Por coincidência, e deitando por terra a credibilidade de qualquer instituto de pesquisa, a totalidade absoluta da criançada se comportou bem e era merecedora dos presentes que Papai Noel trazia. Entre eles, meu afilhado, lógico, o João Vitor.
Papai Noel, que possui poderes extranaturais, havia deixado um presente a ser entregue ao João Vitor, o que foi feito por seus pais, lá nos pavilhões. Entregaram o brinquedo ao meu afilhado e informaram que Papai Noel, aquele ali, de barba e de vermelho, é quem havia mandado fazer a entrega para ele. Dito isso, João Vitor disparou. E disparou reto em direção ao Papai Noel. Chegou perto das barbas do bom velhinho e fez o que havia decidido fazer, em um ímpeto incontrolável: agradeceu. “Obigado, Papainoéu”, disse ele. E voltou correndo para junto de seus pais.

João Vitor é um garoto educado. Recebeu o presente e decidiu que tinha de ir agradecer. Decidiu por conta própria. Por uma questão de consciência pessoal. Porque acha que é preciso demonstrar gratidão a quem lhe faz um agrado. Tem menos de três anos de idade. Já é um cidadão. Que siga assim.
(Crônica publicada no jornal Pioneiro em 15 de dezembro de 2014)

sábado, 29 de novembro de 2014

Ora, Papai Noel

Estava andando pelas ruas centrais da cidade manhã dessas e de repente recebi um encontrão de um Papai Noel apressado. Ele acotovelou-me nas costas, abrindo passagem entre o grupo de pessoas que aguardavam na esquina a abertura do sinal para pedestres, e foi-se reto rumo não à casa de alguma criança comportada que merecerá ganhar presentes, mas provavelmente em direção à loja ou ao shopping que o contratou para animar as vendas.
Mas a questão aqui é que ele não pediu desculpas. Quem esbarrou foi ele; quem recebeu o encontrão fui eu. E a matemática da vida em sociedade, nesses casos, tem uma equação bem clara: quem esbarra deve pedir desculpas a quem é esbarrado. Mesmo que o esbarrante seja o Papai Noel. A não ser que Papai Noel, Coelhinho da Páscoa, Bicho-Papão e a Cuca tenham imunidade que lhes absolve da necessidade de pedidos de desculpas. Ou talvez eles pensem que, uma vez que são celebridades perenes, a lógica deva atuar de forma invertida e o esbarrado pedir a eles desculpas pelo esbarro que eles próprios provocaram. Mas acho que não.
O fato é que isso comprova que muita coisa anda mudando e andando do avesso nesses dias de hoje. Primeiro, que Papai Noel não tem de ficar andando a pé e apressado pela cidade, mas o que fazer se, com esse trânsito caótico, precisou estacionar o carrinho com as renas várias quadras longe de seu objetivo? E hoje em dia também não importa mais se a criança se comportou e tirou notas boas no colégio. O comércio deseja vender, as pessoas querem consumir e a presentaiada forra tanto os sacos do Papai Noel que ele precisa empregar representantes diversos para dar conta do recado.

No meu tempo, criança que não se comportava recebia uma varinha de marmelo que Papai Noel colocava no topo do pinheirinho de Natal. Nunca era usada, mas funcionava como aviso. Hoje em dia, quem é que vai exigir bom comportamento das crianças se os adultos, que deveriam dar o exemplo, jogam lixo nas ruas, desobedecem às regras de trânsito, furam filas, sonegam impostos? E eu aqui, me impressionando com um pobre e apressado Papai Noel esbarrante...
(Crônica publicada no jornal Pioneiro em 29 de novembro de 2014)

sexta-feira, 31 de outubro de 2014

Tá, e o Saci?

Chegamos ao final de outubro e faltam agora somente dois meses para 2014 tomar assento no passado, ao lado de tantos outros anos que vão ali se acotovelando à medida em que o tempo, esse corredor incansável, vai comendo milhas. Hoje é Halloween, Dia das Bruxas, data pertencente às tradições norte-americanas que evoca o assassinato de três inocentes jovens em Salem no século 17, acusadas injustamente de bruxaria. Por aqui, nada sabemos dessas motivações históricas, o importante mesmo é imitarmos os americanos e celebrarmos também nosso Halloween brazuca.
Sim, porque daqui a pouco é Natal, data em que também imitamos os norte-americanos e recheamos as calçadas com papais noéis, aquelas figuras balofas enfiadas em trajes térmicos ideais para transitar em meio a pinguins, iglus e ursos polares, com botas, luvas e pompons, o que se justifica no hemisfério norte, onde faz frio e neva em dezembro, mas não aqui, nos trópicos, onde Papai Noel deveria distribuir presentes e doces usando bermuda, chinelo-de-dedo, boné e camiseta regata. Mas adoramos importar e macaquear americanices e dê-lhe Halloween e Papai Noel e hambúrguer de cadeia internacional de fast-food. Até tornados começamos a ter por essas plagas que, até então, em termos de ventanias, só conheciam pacatos tufões e vendavais movidos a vento norte e Minuano.
Mas vamos lá, vamos celebrar o Halloween, afinal, que é que tem importar mais um pouquinho de aculturação da nação dominante? Eu mesmo adoro rock and roll e, apesar de curtir Titãs e Pitty e Nenhum De Nós, sigo preferindo rock cantado em inglês mesmo. Claro que ninguém bate um samba de raiz tipicamente brasileiro e MPB, bom, MPB só em português mesmo, né, Caetano, Gil e Chico?

Mas aí é que está. Temos Caetano, Gil, Chico, Cartola, Noel para fazer frente com nossa competente música nacional ao competente estilo musical estrangeiro. Por que não fazermos o mesmo com outras manifestações culturais de nossa tradição? Afinal, hoje, 31 de outubro, é Halloween, certo. Mas também é o Dia do Saci. Sabiam? Ah, pois é... That´s the question!
(Crônica publicada no jornal Pioneiro em 31 de outubro de 2014)