Mostrando postagens com marcador férias. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador férias. Mostrar todas as postagens

domingo, 21 de dezembro de 2014

Papai Noel de sunga

A partir de domingo, os seguintes apetrechos voltam a ganhar status de parafernália oficial para os felizes habitantes do hemisfério sul: calção, sunga, biquíni, maiô, chinelo-de-dedo, sandália, rasteirinha, canga, chapéu de palha, boné, óculos-escuros, protetor solar, esteira, cadeira de dobrar, baralho, aparelhagem de frescobol, guarda-sol, toalha de banho, camiseta, bermuda e assemelhados. Os objetos-de-desejo passam a ser: milho verde, caipirinha, cerveja beeeeeeem gelada, pastel de siri, pastel de camarão, pastel de carne, espumante, batata frita, sol, calor, mar, areia, grama, piscina, ar livre, céu azul.
Estou certo ou errado? Bola na trave ou gol de placa? Sim, porque, a partir de domingo, dia 21 de dezembro, abrem-se oficialmente as portas nos países do hemisfério sul para a chegada do verão, essa estação que tanto amamos e que promete ficar por aqui a temporada inteira, até 20 de março. E o verão já chega trazendo seu tradicional solstício, o fenômeno que faz com que, no domingo, 21, o dia seja mais comprido do que a noite (haverá mais horas de luz solar, se não estiver nublado, do que de noite estelar). Já lá no hemisfério norte, os pobres dos europeus e norte-americanos passam a ser brindados, na mesmíssima data, com a chegada do inverno e com direito a solstício inverso, com mais horas de noite do que de luz solar. Ah, coitados!

Isso é o que obriga, todos os anos, o Papai Noel dos nortistas a se vestir daquele jeito esquimó, com a pesadona roupa vermelha forrada de algodão, luvas, botas, touca e espessa barba branca. Tudo térmico, para enfrentar a neve durante sua árdua tarefa de entregar presentes. Aqui no sul, ninguém nunca vê o Papai Noel justamente porque ele passa despercebido no meio da multidão com seus chinelinhos Havaianas, bermuda transadinha, um copinho de piña colada e o barrigão que, convenhamos, nove entre cada dez homens temos. Aqui no sul, basta entrar dezembro que Papai Noel raspa a barbona branca, porque ele não é bobo. É por isso que ninguém nunca o viu de verdade. Nosso Papai Noel é veronil. Fiquei sabendo que, este ano, vai veranear em Arroio do Sal. Fique atento.
(Crônica publicada no jornal Pioneiro em 20 de dezembro de 2014)

segunda-feira, 8 de dezembro de 2014

Nas ondas do mar

Informes vindos de todos os lados me dão ciência de que o litoral já anda apinhado de veranistas, nem bem entrado dezembro. O calor, o tempo firme (ao menos, enquanto redijo essas digitadas linhas), o clima natalino, a vontade de começar logo os rituais de encerramento do ano, a brisa que se transforma no nordestão mas tudo bem, o copo de caipirinha gelada vendido a preço de garrafa inteira de vodca mas tudo bem também, o cheirinho irresistível do milho cozido, o guarda-sol que sai voando, o cachorrinho tão fofinho da moça que desfila atrás dele seu bronze em fio-dental e que a gente finge que não vê, a barriga branca do senhorzinho enfiado na bermuda que a gente faz questão de não ver mas acaba vendo, a profusão de chinelos-de-dedo, a correria da criançada, o barulho do mar... ah, o mar... o mar, o mar.
Tudo isso já está rolando a poucos quilômetros daqui e eu ainda mergulhado em afazeres, em trabalhos a concluir, em prazos a cumprir, compras a fazer, contas a pagar, demandas a resolver, óleo do motor do carro a trocar, lista de presentes a solucionar, pendências a concluir, coisinhas aqui, coisonas acolá, mas a mente, a alma, o espírito e as vontades todas direcionadas às areias, essas mesmas que tocam o nosso litoral gaúcho, sempre tão desmerecido quando comparado ao resto do país, mas que todos os anos faz a alegria de tantos de nós, fielmente, com o nordestão e o pacote todo. Ah, o mar, o mar...
Às vezes fico pensando que seria mais fácil suportar essa distância se ao menos chovesse por aqui (mas não na praia, não sou estraga-prazeres e nem invejoso), pois, assim, eu não seria invadido minuto a minuto por esse clima praiano de sol, calor e brisa que permanece no meu entorno urbano de trabalho enquanto fico pensando no mar, no mar, no mar... No doce-salgado barulho do mar, nas ondas do mar, nas conchas do mar, nas areias e sereias do mar, do mar, do mar...

Se ainda não posso estar lá, ao menos inundo meus ouvidos com esse balanço de um mar imaginário. É o estímulo que necessito para solucionar as demandas e logo mais, ali adiante, molhar meus pés no mar, no mar...
(Crônica publicada no jornal Pioneiro em 8 de dezembro de 2014)

terça-feira, 18 de março de 2014

Garçom, querido, mais uma

Escrevi aqui sexta sobre a incrível capacidade de comunicação que se estabelece entre dois homens, quando um deles é garçom e outro é cliente, no processo de solicitar a materialização de mais uma garrafa de cerveja gelada na mesa do bar ou do restaurante. Em sendo o garçom do sexo masculino e o cliente também, o pedido será efetivado sem a necessidade de comunicação verbal, bastando um cruzar masculino de olhares acompanhado de gestos específicos, para que ela, a cerveja, seja devidamente reposta.
Algumas mulheres minhas leitoras me enviaram e-mails inquirindo se eu estava a desconfiar da (ou a desmerecer a) capacidade que elas, quando apreciadoras de cerveja, também possuem de solicitar ao garçom a reposição cervejal. Não, nada disso. Apenas afirmo que a comunicação, no caso do homem-garçom e da mulher-cliente, se dá de maneira diferente do que quando a equação é absolutamente masculina.
Mulheres não sabem fazer os gestos típicos masculinos de solicitação muda à distância de uma nova cerveja nesta mesa, por favor, e rápido, e mais gelada, pô, meu. Mulheres são mais doces, mais cândidas, mais singelas, mais complexas, mais civilizadas, mais evoluídas, mais elegantes, mais cheirosas, mais românticas, até mesmo na hora de pedir a simples reposição de uma cerveja. Elas também conseguem pedir, mas é diferente. Vejamos.
Antes, que fique bem claro que não importa a marca da cerveja a ser pedida. Pode ser uma Lhama Chopp, uma Islândica, uma Freskol, uma Molar, uma Desbravária, uma Morromalte, uma Nohêmia, uma Nova Spin, uma Bagaça, uma Kustáiser ou mesmo as antigas Esmalte 90 ou Xingariol, as mulheres cervejeiras também amam cerveja e, quando em bando, sabem fazer o garçom repor na mesa a garrafa vazia. Porém, garçom que é garçom jamais compreenderá de longe um pedido gestual de mulher por uma nova cerveja na mesa.
O garçom que é garçom vai se fazer de desentendido e vai se aproximar da mesa das mulheres. Vai mirá-las nos olhos, vai acompanhar com o olhar o movimento dos sensuais lábios úmidos de cerveja delas na formulação do pedido, vai usufruir de seu perfume ao se movimentar entre elas para resgatar a garrafa vazia, para só então retornar ao balcão e trazer a nova garrafa. Garçom que é garçom sabe atender personalizadamente a homens e a mulheres na hora do pedido por uma nova cerveja.

Em tudo, meus amigos, há ciência.
(Crônica publicada no jornal Pioneiro em 14 de março de 2014)

Um veranista de baixa

Ser um veranista de baixa temporada exige a adoção de alguns requisitos fundamentais para que as férias possam proporcionar ao cidadão e sua família os prazeres mínimos que julga-se necessários para abandonar a rotina e descansar perto do mar e longe do burburinho urbano que dá o tom da vida ao longo dos demais 11 meses do ano. Como em tudo, mas absolutamente tudo, existem as vantagens e as desvantagens. O segredo está (como em tudo, mas absolutamente tudo) em saber fazer a leitura adequada da balança e arcar com as consequências.
As primeiras partes do corpo do veranista de baixa temporada a sentirem os efeitos benéficos de optar por veranear depois do Carnaval são o bolso e a carteira. Isso porque os preços dos imóveis para alugar e das diárias dos hotéis despencam do patamar conhecido como “da hora da morte” para um nível mais razoável, que pode ser designado como “sobrevida alvissareira” ou “a UTI nem é tão ruim”.
A caipirinha fica menos salgada (falo em termos monetários, não gastronômicos), é verdade, mas, em compensação, surge o problema de conseguir encontrar quiosque aberto na orla a fim de adquiri-la. Muitas vezes é preciso empreender longas caminhadas pela areia até encontrar uma barraquinha solitária cujo dono se dispõe a permanecer operante março adentro. Vejo esses homens como abnegados cidadãos altruístas que pensam nos outros (ou seja, em nós) e se oprimem com a perspectiva de negar-lhes (nos) a cervejinha gelada, a água de coco (agora já quase secos), a batatinha frita, a isca de peixe empanada, essas coisinhas tão fundamentais pelas quais perpassa a verdadeira sensação de se estar, enfim, em férias à beira-mar.
A diminuição estratosférica da população praiana nesta época do ano em que a orla pertence aos veranistas de baixa temporada contribui para criar uma atmosfera intimista que sintoniza perfeitamente com o vento do meio da tarde que parece mais frio do que em fevereiro, com a ressaca do mar que parece pior do que a de janeiro e com o silêncio circundante, que pode ser ouvido com a diminuição da presença das crianças, dos argentinos, das caixas-de-som emplacadas ambulantes e dos vendedores de óculos escuros.

Nasci para ser veranista de baixa temporada. Eu, meu chinelo, vento gelado, quiosque solitário de caipirinha e um livro volumoso. Em março, sinto-me na praia em Marte.
(Crônica publicada no jornal Pioneiro em 12 de março de 2014)

quinta-feira, 6 de fevereiro de 2014

Eu, menina (!?)


Comentei aqui ontem sobre os esforços bem-intencionados de meus pais, na década de 1970, quando eu era criança, para me proporcionar entretenimento saudável no verão, inscrevendo-me compulsoriamente no programa de colônia de férias oferecido pela milicada do Quartel em minha cidade natal, Ijuí. A julgar pelo tom do texto e pelas entrelinhas, os leitores puderam perceber, sem maiores esforços, que minha relação com aquele tipo de atividade ao ar livre, sob o comando de trombetas e de ordem unida, não era das mais harmoniosas.
Recebi diversos e-mails de leitores e leitoras se solidarizando com meu relato, eles próprios revelando terem também vivenciado experiências similares em suas infâncias (o que, de passagem, denunciava também suas idades). Só tem uma coisa que aconteceu comigo, e que eu não contei ontem, que supera as eventuais más experiências que qualquer um tenha tido com as tais colônias de férias dos anos 1970 realizadas em quartéis.
Foi logo na chegada, no primeiro dia. As Kombis verde-oliva que arrebanhavam a gurizada pela cidade foram despejando meninos e meninas pelo pátio do Quartel, de manhã bem cedinho, e lá saltei eu, oito ou nove anos de idade, cabelinho bem branquinho e cheinho, chapéu de palha na cabeça, calção, tênis e a mochilinha.
Ao saltar, recebi de imediato uma ordem (a primeira delas): “Você, vai para lá!”. Sendo que “lá”, conforme indicava a direção do dedo apontado do milico, significava uma formação organizada de umas dez filas de... meninas! Habituado a obedecer ordens desde cedo, não titubeei e dirigi-me para “lá”, onde uma professorinha me inseriu no grupo, eu de mãos dadas com as demais menininhas. Nem me passou pela cabeça que milico e professora haviam me confundido com uma menina. Fiquei lá, parado, quieto, escutando os risos dos meninos nas fileiras de trás, até que as meninas a meu lado chamaram a professorinha dizendo: “Tia, tia, ele não é menina, ele é menino”.

A mulher veio, me olhou atentamente, convenceu-se do fato e me realocou de fila, junto aos meninos que iniciavam sua colônia de férias rindo à larga... às custas de meu vermelhidão nas faces, esse que me acompanha até hoje mesmo que não tenha passado nem perto de um copo de vinho. Foi bullying não intencional. Depois, tornei-me um perigoso serial killer, mas acho que isso já pode ser fruto de minha imaginação...
(Crônica publicada no jornal Pioneiro em 5 de fevereiro de 2014)

quarta-feira, 5 de fevereiro de 2014

Divirtam-se, já!

Não sou pai, mas posso imaginar que, quando as férias de verão se aproximam, surge sempre o mesmo dilema: o que fazer para entreter as crianças? Hoje em dia, sei que alguns optam pela saída mais fácil (e menos recomendável), que é a de renovar o estoque de joguinhos eletrônicos e de dvds, sem esquecer de reforçar o forro do sofá da sala, onde a galerinha acampará ao longo dos meses que lhes cabem longe dos cadernos (ainda se usa caderno em sala de aula?). Outros, no entanto (e felizmente), se esforçam um pouco mais e buscam alternativas criativas.
Meus pais, nos idos dos anos 1970, quando eu era criança, buscavam essas alternativas criativas, até porque ninguém sonhava, na época, com a existência de joguinhos eletrônicos e muito menos com a possibilidade de assistir a filmes em casa que não fosse sintonizando a televisão na Sessão da Tarde. Pois eis que, então, deu de surgir lá em Ijuí a febre das colônias de férias. “Ah, que boa ideia, arrebanhar a gurizada e jogá-los juntos, o dia inteiro, ao longo de algumas semanas, numa colônia de férias, de onde só saem para virem dormir em casa”, alegravam-se os meus pais e os de outras dezenas de coleguinhas. “Ó vida, ó céus”, pensava eu, arrumando a mochilinha, vestindo o calção e a camiseta, calçando o tênis Bamba (Kichute não, porque entortava os pés) e indo para a frente do portão, aguardar a chegada da Kombi do Quartel que me tiraria de meu quarto, de meus livros, de meus gibis, das histórias em quadrinhos que eu tinha de produzir, para me levar a mais um looooongo e penoso dia de... colônia de férias!
Pois tinha mais essa: a colônia de férias, lá naquela Ijuí de minha infância, era promovida pelo Quartel. Éramos entregues às mãos de sargentos, cabos e soldados que se punham, com aquela didática e pedagogia infantis que se pode muito bem imaginar, a nos enfileirar em ordem unida, a marcharmos à cadência da corneta e do tambor, a dizermos “sim, senhor!”, a rirmos obrigatoriamente da piadinha incompreensível gritada pelo instrutor, a fazermos flexões e polichinelo, a jogarmos futebol (minha tática era sempre correr para o lado oposto da bola), a suarmos feito doidos.

Saudades? Sim, da hora do lanche. Pães com margarina e mortadela, tirados por um soldado boa praça de um enorme e profundo latão, acompanhados por um copão de Toddy bem gelado. E que alegria quando voltavam as aulas!
(Crônica publicada no jornal Pioneiro em 5 de fevereiro de 2014)

segunda-feira, 12 de agosto de 2013

Uma autodisputa

Foi numas férias dessas em que veraneávamos em alguma prainha de nosso litoral gaúcho, quando decidimos passar o dia em um desses parques aquáticos repletos de piscinas, escorregadores, crianças molhadas, senhoras de maiôs cintilantes, quiosques de lanches, brinquedos e mosquitos. A esposa, com sua peculiar alma de sereia, migrava de piscina para piscina, experimentando a térmica, a coberta, a fria ao ar ao livre, a das crianças, a maior, a menor, a funda, a com ondas, a rasa...
Já eu, aquela coisa de sempre, ocupava-me prioritariamente em perseguir, obstinado, a trajetória da sombra por entre árvores, bancos e quiosques, nos quais pudesse ler de forma razoavelmente confortável os livros, jornais e revistas que levara junto, obviamente que determinado a sair daquele parque, ao final do dia, tão seco quanto entrara, tão alvo quanto ao pular da cama de manhã cedo. Mas tudo mudou quando nos deparamos com a pista de kart. “Oba, uma pista de kart! Sempre quis andar de kart, e não tem ninguém! Só nós! Vamos lá!”, gritei, tão adolescentemente e tão entusiasmado que a esposa não teve como me privar da realização daquele desejo.
Fomos lá. Compramos os tíquetes que davam direito a três voltas na pista, colocamos os capacetes e sentamos cada um em seu respectivo kart, já ligados e dispostos lado a lado na posição de largada. À nossa frente, em pé entre os dois bólidos, o funcionário do parque explicava as regras da disputa: “Vocês só podem sair quando eu disser ‘já’”... e foi ele dizer aquele “já” explicativo que minha esposa não teve dúvidas: meteu fundo o pé e arrancou na minha frente, me deixando ali, abobado, olhando para o funcionário e vendo ela vencer já a segunda curva, voando as loiras tranças. “Bom, agora vai”, disse-me ele, tão pasmo quanto eu. Aí arranquei.
Ultrapassá-la se transformou em questão de honra e consegui fazê-lo ainda na metade da segunda volta, em um lance bem ousado que outro dia chamo Reginaldo Leme para me ajudar a detalhar aos leitores. O fato é que, apesar da queimada que ela deu na largada, venci a prova, ora bolas, o que é que ela estava pensando. Ruim mesmo é que ela achou a brincadeira sem graça. Não percebeu que saiu antes do que devia e que minha ultrapassagem fora uma prova de superação e habilidade. Deu de ombros para aquilo tudo e retornou para uma das piscinas. Eu havia disputado sozinho...

 (Crônica publicada no jornal Pioneiro em 12 de agosto de 2013)