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quinta-feira, 6 de março de 2014

Cesta doce e salgada

A pesquisa de campo sempre é a melhor ferramenta quando se pretende conhecer um pouco mais sobre os usos, os costumes, a cultura e os ritos de uma população específica. Tenho me dedicado, nas últimas semanas, a obter elementos que me auxiliem a compreender melhor as características específicas que definem e diferenciam as comunidades a partir dos produtos que integram aquilo que elas consideram como essenciais para a manutenção de suas famílias ao longo de um mês.
Isso tudo porque descobri que os tradicionais 13 artigos que compõem a cesta básica do DIEESE (Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos) estão caducando, e produtos como leite condensado, refrigerante, cigarros, cerveja, lata de pêssego e outros já passaram a integrar as listas de anseios básicos em várias partes do país, a começar por Caxias do Sul. Há muito que as famílias da região não se contentam mais com apenas carne, leite, feijão, arroz, farinha, batata, tomate, pão, café, banana, açúcar, óleo e manteiga. Ontem, revelei quais são os produtos que integram a “sporta” básica dos habitantes de Uvanova. Hoje, demonstro o que é essencial na “basiskorb” dos descendentes de germânicos que habitam parte da Serra, especificamente em Nóia Alpertina, perto ali de Teutônia.
Eis a lista: um quilo de joelho de porco (conhecido como “eisbein”); um quilo de costela de porco; um quilo de lombo de porco defumado (para fazer cassler); um porco inteiro de uma vez, para acabar logo com isso; dois quilos de repolho roxo (para fazer chucrute e comer com cassler); dois patos para assar com laranja; duas dúzias de laranjas para servir com os patos; seis quilos de repolho branco para produzir chucrute; doze litros de chope para acompanhar o consumo de chucrute; mais doze litros de chope para beber sem acompanhar nada; trinta quilos de batata para fazer de tudo com elas, de purê a maionese; dezesseis quilos de salsicha bock; quatro bisnagas de mostarda para colocar na salsicha bock; cinco quilos de maçã para fazer apfelstruddel, que as crianças adoram; sal para colocar nas comidas doces e açúcar para colocar nas comidas salgadas; bastante farinha para fazer cucas; uma gaita de boca para animar bandinhas.
Minhas pesquisas continuam...


(Crônica publicada no jornal Pioneiro em 6 de março de 2014)

quarta-feira, 5 de março de 2014

A sporta de Uvanova

Abordei ontem aqui a questão intrigante da cesta básica de Caxias do Sul, na qual constam, a título de produtos essenciais para a manutenção mensal de uma família, artigos como cigarro, cerveja, refrigerante, capeletti, leite condensado, pêssego em lata, mamão e outros. Botei-me intrigado por culpa totalmente minha, pois quem sou eu para decidir e julgar o que se configura como essencial e básico na cesta de quem quer que seja, exceto a minha. Leve-se em conta o fato de que, na minha mastodôntica ignorância, sempre julguei que os produtos de uma cesta básica eram, por definição, bem mais básicos, como feijão, arroz, farinha de trigo, massa, açúcar, bolacha salgada, essas coisas.
Mas o mundo evolui e, com ele, até mesmo a antiga “sporta” (cesta) básica tem o direito de refinar-se e ficar mais exigente. Curioso por natureza que sou, contatei alguns conhecidos meus, habitantes de Uvanova, a pequena e simpática cidadezinha de descendentes de imigrantes italianos, fincada no alto da Serra, limítrofe a Tapariu, a Vila Faconda e a Polentawood, com o intuito de saber quais os produtos que compõem a “sporta” básica dos moradores dali. A listagem que recebi começa a desfazer meus intrigamentos e a me revelar que vale também aqui o ditado: “revela-me tua cesta básica e dir-te-ei quem és”.
Eis a lista dos produtos essenciais que integram a “sporta” básica mensal de uma família de quatro pessoas em Uvanova: quatro garrafões de vinho (“due rosso, uno bianco e uno rosé”, conforme assinalado na lista); cinco quilos de bigoli; dois litros de graspa; dois quilos de café em pó, para pingar na graspa; cinco peças de salame; bastante capeletti (pode ser substituído por agnoline); um litro de vinagre; um pacote de grôstoli; um pacote de strunfuli; seis quilos de farinha de milho para fazer polenta; três maços de radicci; um pacote de sagu; um rolo de fumo; um pote de codeguim; um pacote de tortéi; uma forma de queijo; uma peça de morcilha; um espinhaço para botar no feijão; um pacote de mandolate e outro de rapadura; uma bacia de puína; um recipiente de crem; 40 rodelas de pien; dois peitos de frango para fazer carne lessa; uma uvada para passar no pão de manhã; um naco de toucinho; uma espiral de “Boa-Noite” (inseticida tradicional); cinco quilos de lenha para o fogão; um vidro de sal amargo.

Ainda não sei o custo da “sporta” básica em Uvanova. Aguardem o resultado de novas pesquisas.
(Crônica publicada no jornal Pioneiro em 5 de março de 2014)

terça-feira, 4 de março de 2014

A sporta básica

Confesso que não entendo nada de economia. No máximo, sei economizar, ou seja, essa coisa que se aprende desde criança ao guardar moedinhas no porquinho de plástico durante um tempo para depois carneá-lo com o canivete surripiado do pai a fim de torrar as economias de meses em uma rodada voraz de picolés sob a sombra de um jacarandá, com os coleguinhas e primos, em uma tarde de férias de verão. Mas de economia mesmo, essa de gente grande, abordada em páginas como o “Caixa-Forte”, do jornal Pioneiro, não entendo patavinas.
Números, para mim, servem para monitorar a situação da caderneta de poupança (amadurecimento natural dos cofrinhos carneáveis), quando não a ataco para pagar contas (a evolução natural dos inocentes picolés da infância); para detectar o aumento dos preços nas gôndolas do supermercado; e para marcar o número da página do livro que estou lendo. Fora isso, preciso da ajuda dos universitários. No caso, da titular do “Caixa-Forte”, mesmo, que me presta assessoria personalizada em questões numérico-econômico-financeiras (privilégio que detenho há anos e nem morto revelo as artimanhas que utilizei para obtê-lo).
Mas como não entendo de economia, é com prazer que às vezes me entrego ao encanto de saborear as surpresas que me causam alguns informes econômicos sem que eu os compreenda. A tal da cesta básica, por exemplo. Eu, na minha ingenuidade desinformada, sempre acreditei que os produtos que a compunham seriam aqueles inventariados como de primeiríssima necessidade (feijão, arroz, carne, leite, café, farinha de trigo, açúcar, óleo, manteiga...), desconsiderados os supérfluos. Qual a minha surpresa ao descobrir, na lista da cesta básica de Caxias do Sul, artigos como cerveja, cigarros, maionese, pêssegos em lata, refrigerante, leite condensado, mamão e capeletti (se tem capeletti, então não é cesta, mas sporta básica).

Claro, cada região, cada povo, cada cultura, possui uma visão específica do que seriam artigos de primeira necessidade. Meu vizinho pode valorizar mais uma lata de leite condensado (ou uma garrafa de cerveja, ou um maço de cigarros) do que um quilo de arroz. Todos merecem poder comprar leite condensado, mas isso não transforma o leite condensado em necessidade básica. Entusiasmado com a relatividade desse conceito, botei-me a listar a minha “sporta” básica personalizada. Lúcida, a titular do “Caixa-Forte” aconselhou-me a não publicá-la. Melhor dar ouvidos a quem entende...
(Crônica publicada no jornal Pioneiro em 4 de março de 2014)