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quinta-feira, 20 de março de 2014

Daqui para lá

Já faz alguns meses que me mudei de um canto da cidade para outro canto da cidade, sendo que os dois cantos em questão (o canto velho e o canto novo) são relativamente bem distantes um do outro. Como é natural nessa espécie de processo, ainda estou em fase de namoro com as características das novas redondezas que passei a habitar, conhecendo as nuances do trânsito da região, descobrindo a rede de serviços existentes nas proximidades, os bares e restaurantes, o ritmo e o perfil do bairro, essas coisas.
Mas apesar desse bonito idílio habitacional, ainda existem alguns aspectos que me mantêm ferrenhamente conectado à região de minha antiga morada, até porque, foi lá que vivi os últimos 13 anos de minha já longa estada caxiense. É para o antigo canto da cidade que me dirijo, por exemplo, quando o assunto se refere a algum problema em meu automóvel. Caso ele esteja conseguindo andar, atravesso os bairros e rumo certeiro para a oficina mecânica que me atende há mais de década logo ali, perto de minha antiga morada. Fui fidelizado pelo atendimento personalizado, pela honestidade dos diagnósticos, pelo preço justo, pela competência profissional da equipe. Até porque, como todos sabem, oficina mecânica não se troca.
O mesmo se dá em relação ao técnico em informática que furunga e soluciona os xabus sazonais de meu computador. Ele segue morando lá perto de minha velha casa, e é até lá que continuo indo quando preciso de um socorro que vá além de meu conhecimento restrito a enfiar o cabo na luz, ligar a máquina e sair teclando. Ele me fidelizou pela confiança, pelo pronto atendimento, pelo conhecimento de causa.
O mesmo ainda se dá quando bate aquela vontade caxiense irresistível de consumir uma pizza metade portuguesa ou atum (para mim), metade marguerita (para a esposa). Existem, sim, porque já detectei, pizzarias aqui ao redor de minha atual morada. Mas não titubeio em atravessar a cidade para me assentar no acolhedor ambiente daquela pizzaria especial localizada a poucas quadras de meu antigo endereço, onde sou amigo do dono e dos garçons e onde a qualidade do produto rima com a qualidade do atendimento.

Sou facilmente fidelizado por essas questõezinhas básicas: cortesia no atendimento, qualidade no produto e no serviço e preço justo. Em busca disso, singro bairros e as distâncias se fazem pequenas.
(Crônica publicada no jornal Pioneiro em 20 de março de 2014)

quarta-feira, 5 de março de 2014

A sporta de Uvanova

Abordei ontem aqui a questão intrigante da cesta básica de Caxias do Sul, na qual constam, a título de produtos essenciais para a manutenção mensal de uma família, artigos como cigarro, cerveja, refrigerante, capeletti, leite condensado, pêssego em lata, mamão e outros. Botei-me intrigado por culpa totalmente minha, pois quem sou eu para decidir e julgar o que se configura como essencial e básico na cesta de quem quer que seja, exceto a minha. Leve-se em conta o fato de que, na minha mastodôntica ignorância, sempre julguei que os produtos de uma cesta básica eram, por definição, bem mais básicos, como feijão, arroz, farinha de trigo, massa, açúcar, bolacha salgada, essas coisas.
Mas o mundo evolui e, com ele, até mesmo a antiga “sporta” (cesta) básica tem o direito de refinar-se e ficar mais exigente. Curioso por natureza que sou, contatei alguns conhecidos meus, habitantes de Uvanova, a pequena e simpática cidadezinha de descendentes de imigrantes italianos, fincada no alto da Serra, limítrofe a Tapariu, a Vila Faconda e a Polentawood, com o intuito de saber quais os produtos que compõem a “sporta” básica dos moradores dali. A listagem que recebi começa a desfazer meus intrigamentos e a me revelar que vale também aqui o ditado: “revela-me tua cesta básica e dir-te-ei quem és”.
Eis a lista dos produtos essenciais que integram a “sporta” básica mensal de uma família de quatro pessoas em Uvanova: quatro garrafões de vinho (“due rosso, uno bianco e uno rosé”, conforme assinalado na lista); cinco quilos de bigoli; dois litros de graspa; dois quilos de café em pó, para pingar na graspa; cinco peças de salame; bastante capeletti (pode ser substituído por agnoline); um litro de vinagre; um pacote de grôstoli; um pacote de strunfuli; seis quilos de farinha de milho para fazer polenta; três maços de radicci; um pacote de sagu; um rolo de fumo; um pote de codeguim; um pacote de tortéi; uma forma de queijo; uma peça de morcilha; um espinhaço para botar no feijão; um pacote de mandolate e outro de rapadura; uma bacia de puína; um recipiente de crem; 40 rodelas de pien; dois peitos de frango para fazer carne lessa; uma uvada para passar no pão de manhã; um naco de toucinho; uma espiral de “Boa-Noite” (inseticida tradicional); cinco quilos de lenha para o fogão; um vidro de sal amargo.

Ainda não sei o custo da “sporta” básica em Uvanova. Aguardem o resultado de novas pesquisas.
(Crônica publicada no jornal Pioneiro em 5 de março de 2014)

terça-feira, 4 de março de 2014

A sporta básica

Confesso que não entendo nada de economia. No máximo, sei economizar, ou seja, essa coisa que se aprende desde criança ao guardar moedinhas no porquinho de plástico durante um tempo para depois carneá-lo com o canivete surripiado do pai a fim de torrar as economias de meses em uma rodada voraz de picolés sob a sombra de um jacarandá, com os coleguinhas e primos, em uma tarde de férias de verão. Mas de economia mesmo, essa de gente grande, abordada em páginas como o “Caixa-Forte”, do jornal Pioneiro, não entendo patavinas.
Números, para mim, servem para monitorar a situação da caderneta de poupança (amadurecimento natural dos cofrinhos carneáveis), quando não a ataco para pagar contas (a evolução natural dos inocentes picolés da infância); para detectar o aumento dos preços nas gôndolas do supermercado; e para marcar o número da página do livro que estou lendo. Fora isso, preciso da ajuda dos universitários. No caso, da titular do “Caixa-Forte”, mesmo, que me presta assessoria personalizada em questões numérico-econômico-financeiras (privilégio que detenho há anos e nem morto revelo as artimanhas que utilizei para obtê-lo).
Mas como não entendo de economia, é com prazer que às vezes me entrego ao encanto de saborear as surpresas que me causam alguns informes econômicos sem que eu os compreenda. A tal da cesta básica, por exemplo. Eu, na minha ingenuidade desinformada, sempre acreditei que os produtos que a compunham seriam aqueles inventariados como de primeiríssima necessidade (feijão, arroz, carne, leite, café, farinha de trigo, açúcar, óleo, manteiga...), desconsiderados os supérfluos. Qual a minha surpresa ao descobrir, na lista da cesta básica de Caxias do Sul, artigos como cerveja, cigarros, maionese, pêssegos em lata, refrigerante, leite condensado, mamão e capeletti (se tem capeletti, então não é cesta, mas sporta básica).

Claro, cada região, cada povo, cada cultura, possui uma visão específica do que seriam artigos de primeira necessidade. Meu vizinho pode valorizar mais uma lata de leite condensado (ou uma garrafa de cerveja, ou um maço de cigarros) do que um quilo de arroz. Todos merecem poder comprar leite condensado, mas isso não transforma o leite condensado em necessidade básica. Entusiasmado com a relatividade desse conceito, botei-me a listar a minha “sporta” básica personalizada. Lúcida, a titular do “Caixa-Forte” aconselhou-me a não publicá-la. Melhor dar ouvidos a quem entende...
(Crônica publicada no jornal Pioneiro em 4 de março de 2014)

segunda-feira, 6 de maio de 2013

Consumidor consumido


Muito além do amadorismo e ainda mais além da incompetência, parece-me que o maior problema que está a reger atualmente o setor dos prestadores de serviço reside na transferência de responsabilidades ao próprio consumidor. Ou seja: além de termos de pagar e de sermos muitas vezes mal atendidos, agora precisamos também arcar com os conhecimentos, as habilidades e até as ferramentas que deveriam ser inerentes à pessoa e/ou à empresa que está a prestar tal serviço (pelo qual você, consumidor, paga, reitere-se). O cenário é preocupante, pois consolida a tendência no mundo moderno de transferir as responsabilidades, passar adiante o abacaxi, fazer cada vez menos em troca de cada vez mais, conquistar o máximo viável por meio do menor esforço possível.
Para sustentar a tese, vamos aos exemplos práticos recentemente vivenciados pelo cronista/consumidor, a título de ilustração. Em Porto Alegre, peguei um táxi em um ponto, no bairro Menino Deus, e pedi ao motorista que me deixasse no centro, defronte ao Theatro São Pedro. Corrida rápida e simples, porém, após arrancar, o motorista afirmou não saber o caminho e pediu que eu o fosse conduzindo. Ora, fosse assim, usava eu meu próprio carro, ou, no melhor das hipóteses, dividiria com ele o custo da corrida, afinal, cabe a ele conhecer os trajetos ou utilizar o GPS (“não sei usar, senhor”). Lição: conhecer os detalhes dos trajetos ao pegar táxi em Porto Alegre.
Outro dia, chamei o desentupidor de ralos para vir à minha casa desentupir um ralo que entupido estava. Chegou, analisou a situação e pediu se eu dispunha de “um ferrinho comprido ou uma mangueira”, para ele executar o serviço. Aham. Lição: ao chamar prestadores de serviço, certificar-se de possuir em casa as ferramentas que cabem a ele utilizar para a execução da obra.
Ando com medo do que me espera ao ir a um restaurante e pedir um risoto de camarão. Terei de eu mesmo limpar os camarões na cozinha? Não deixarei de ir a restaurantes, mas, por segurança, pedirei singelos ovos fritos. Creio que me garanto em uma rodada de ovos fritos.
Mas a maior lição que fica é: a gente consome e nunca vê tudo.
 (Crônica publicada no jornal Pioneiro em 3 de maio de 2013)