Mostrando postagens com marcador política. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador política. Mostrar todas as postagens

segunda-feira, 23 de março de 2015

Eles lá, nós cá

Um dos piores defeitos de fabricação do ser humano é a sua tendência à passividade. Gostamos que façam as coisas pela gente; preferimos delegar compromissos e atribuições a fazermos por conta própria o mundo andar como de fato desejaríamos. É por isso que precisamos tanto de líderes, sejam eles quem forem, desde que demonstrem possuir disposição para administrar os poderes, as tarefas e as atribuições que entregamos a eles.
 Liderar um grupo, uma comunidade, um povo, uma nação, requer, além das características acima expostas, também certa dose de abnegação, que se traduz pela disposição em ceder seu próprio tempo, seu próprio suor, seu próprio ser, em favor do fardo de assumir a frente de demandas comuns outorgadas por aqueles que depositam sua fé na atuação desse líder para a resolução de seus problemas. É assim que vemos surgirem e se perpetuarem as lideranças e não me parece que somos muito exigentes quanto à necessidade de detectarmos nos perfis de nossos líderes a manifestação de atributos como honestidade, moral, ética, confiabilidade, coerência, abnegação, disponibilidade, senso de justiça. Desde que liderem, desde que assumam a frente, enfrentem os compromissos e tomem as decisões, para nós, está bom, porque assim podemos seguir vivendo nossas vidinhas sem nos incomodarmos com nada.
Gostamos de nos fazer de indignados com a corrupção que corre solta pelo país; gostamos de latir e esbravejar, mas jamais ousamos morder de verdade. Odiamos os maus políticos, mas continuamos elegendo-os, afinal, nós, que somos honestos, é que não temos disposição para irmos lá tentar mudar as coisas. Perceber que as coisas não estão indo bem é um passo importante para que se possa ter esperança de que a situação venha a mudar para melhor. Saber que as coisas vão mal, resmungar pelos cantos e não tomar atitudes, porém, é uma postura que belisca perigosamente a fronteira da conivência. Saber e nada fazer pode ser uma decisão que garanta tranquilidade e conforto momentâneos, mas o preço que essa postura cobrará no futuro pode ser alto demais para a sua consciência. Está na hora de pensarmos seriamente sobre qual é o tipo de líderes que de fato queremos e arregaçarmos as mangas em favor deles desde já.

 (Crônica publicadano jornal Pioneiro em 23 de março de 2015)

terça-feira, 28 de outubro de 2014

Mãos à obra

Refletir. Sempre é importante refletir sobre as coisas. Observar, pensar, analisar e, quando possível, concluir. Se não for possível chegar a alguma conclusão no momento, então é preciso refletir mais, escutar mais, estudar mais. A paciência e a prudência são amigas da reflexão que origina conclusões lúcidas, serenas e construtivas.
Pois andei refletindo um pouco depois de encerradas as eleições, no domingo que passou, e cheguei a algumas conclusões que, então, compartilho. A principal delas é de que estou orgulhoso da maturidade cívica atingida pelo povo brasileiro nesse portentoso processo logístico que é concretizar uma eleição em um país tão grande como o nosso. Independentemente dos ânimos acirrados e de um que outro episódio sem maiores consequências aqui e acolá, o saldo final foi uma eleição tranquila, pacífica, ordeira em todos os sentidos. E isso não é pouco.
Os maiores vencedores dessas eleições são o povo brasileiro e o sistema democrático exemplar que vem se consolidando urna a urna após 21 anos de uma ilegítima ditadura militar, que acabou execrada por uma população que almejava exatamente isso que vimos agora: normalidade democrática, respeito constitucional ao resultado das urnas, candidatos derrotados aceitando a derrota e cumprimentando os eleitos. Desde a retomada do processo democrático livre e direto de escolha de nossos governantes, viemos gestando uma estabilidade institucional que se consolida como a verdadeira essência de nossa visão de sociedade. Ditadura, golpismo, casuísmo, são termos que vão sendo varridos para a lata de lixo de nossa história. Amém.

Estamos mostrando ao mundo que somos capazes de construir uma democracia madura, calcada na paridade do peso do voto de todos os cidadãos, que atendem ao dever cívico de maneira consciente, pacífica, cidadã. A cada eleição que realizamos, protagonizamos goleadas de mais do que seis a zero na intolerância, na injustiça, no autoritarismo. Somos bons nisso. E sabemos que, passadas as eleições, repleto que está o país de questões a serem resolvidas, temos, todos e cada um, muito, muitíssimo a fazer. Mãos à obra.
(Crônica publicada no jornal Pioneiro em 28 de outubro de 2014)

segunda-feira, 6 de outubro de 2014

Coligação de sabores

Minha mãe gosta de cozinhar e cozinha como hobby para desestressar da correria que suas demandas profissionais lhe impõem. Herdou a habilidade de minha avó, que cozinhava não como passatempo, mas como uma das atribuições da dona de casa que era. Outros tempos, outros ingredientes de vida e de panelas, mas em ambas a mesma competência em administrar sabores, o mesmo amor pela arte da gastronomia, seja ela a simples do dia-a-dia ou a requintada dos chefs.
Minha mãe cultiva há décadas um caderno no qual vai lançando as receitas que experimenta e julga terem tido tal sucesso a ponto de querer perenizar ali os ingredientes e o modo de fazer, a fim de repetir a experiência da transformação alquímica de ingredientes solitários em compostos deliciosos. Como o acúmulo de prática e experiência gera conhecimento e segurança, ela usa a imaginação na criação de pratos novos ou mesmo no incremento, com seu toque pessoal, daqueles cardápios batidos que se renovam ao mexer de suas colheres.
Está enjoado de estrogonofe? Isso porque nunca experimentou o estrogonofe feito por minha mãe. Boeuf bourgignon, sabe o que é? Buenas, nunca comeu lá em Ijuí, azar o seu. E uma torta salgada de cebola, o que acha? Uma mousse de pepino? Uma galinha a escabeche? Um ratatouille? Pimentões verdes recheados, que acha? E goulash com páprica picante, já comeu? E guisado com mandioca? Ah, isso você conhece? Sim, mas já experimentou o feito pela minha mãe? Não, né? Ah pois...
Ontem, em homenagem ao dia das eleições, baixou nela o santo do cozinheiro inventão e ela se foi para as panelas, inventar moda culinária. Telefonou para mim lá de Ijuí, só para me encher de água a boca, ao narrar a nova estripulia, batizada de Coligação de Sabores. Não sei como é nem que gosto tem, mas a julgar pelo relato dos ingredientes, logo terei de ir a Ijuí experimentar. É à base de PV (pimentão vermelho), PAF (pimentão amarelo da feira), PCCF (punhado de cubos de carne fritos), PAR (porção de abobrinha refogada), PS e PP (pouco sal e pitadas de pimenta). Eis uma coligação que não vai revoltar o estômago de ninguém!

 (Crônica publicada no jornal Pioneiro em 6 de outubro de 2014)

sábado, 4 de outubro de 2014

O sonho do voto

O dia 5 de outubro de 1984, 30 anos atrás, caiu em uma sexta-feira. Não posso afirmar em detalhes o que eu estava fazendo naquela data exata, mas, como ainda administro minhas lembranças, consigo ter uma ideia devido ao contexto em que estava inserido. Junto com essas recordações nubladas, é possível resgatar algumas certezas.
Uma dessas certezas é de que eu era, na época, um jovem estudante universitário cursando o segundo semestre de Jornalismo na Universidade Federal de Santa Maria. Sim, aquele jovem ali era eu, apesar da magreza dos 62 quilos, da hirsuta barba e cabeleira típicas do então militante trotskista, da pastinha preta da Comunicação exibida com orgulho pelas ventosas ruas da cidade e dos bolsos repletos de certezas absolutas e verdades prontas a mudarem o mundo para melhor. Nesses bolsos havia também muita disposição para participar de um movimento estudantil que se unia de ponta a ponta no país com diversos outros movimentos sociais que exigiam a recuperação de um direito básico dos cidadãos: o de votar diretamente para presidente da República.
Trinta anos atrás, circulando naquela sexta-feira de 5 de outubro pelas ruas de Santa Maria a caminho de alguma aula de Introdução ao Jornalismo ou a algum debate do Diretório Acadêmico ou a alguma assembleia estudantil para produzir algum panfleto combativo ou a algum encontro da comissão organizadora da Feira do Livro (eram os estudantes da Comunicação que organizavam a Feira do Livro de Santa Maria na época), eu sonhava com o dia em que os brasileiros pudessem ir às urnas escolher pelo voto direto o presidente da Nação. Mas ainda havia muitas pedras no caminho a serem removidas, a começar por uma ditadura militar que aniversariava duas décadas de desmandos no Poder.

E, de fato, não foi nada fácil. Neste domingo, 5 de outubro, 30 anos depois, ir às urnas já se consolidou como ato corriqueiro em uma democracia estabelecida, na qual os desafios são outros e cruciais para a construção de uma nação em que haja cidadania plena para todos. Cabe a cada um de nós saber usar com consciência esse direito conquistado a tão duras penas. Vote bem!
(Crônica publicada no jornal Pioneiro em 4 de outubro de 2014)

quarta-feira, 16 de julho de 2014

Saber delegar

Antes de ser jornalista, sou um auxiliar de laboratório de análises químicas. Minha formação secundarista habilitava-me a atuar profissionalmente nessa área específica e transitar no fascinante mundo dos laboratórios químicos, a desempenhar nem lembro quais funções.
Mas larguem-me sozinho e saltitante dentro de um laboratório de análises químicas e causarei estragos. Não tenho a menor habilidade para manusear buretas, pipetas, cadinhos, tubos de ensaio e coisa e tal. Não tardei a perceber que minhas aptidões vocacionais residiam nas áreas humanas e não nos laboratórios (para alívio de toda a humanidade) e fiz-me jornalista, cronista e escritor. Virei um alquimista das letras e o planeta livrou-se de um perigoso alquímico desastrado.
O segredo disso tudo reside na capacidade (e na responsabilidade) que temos de descobrir nossas verdadeiras vocações a tempo de evitar frustrações e cometer erros que prejudiquem a nós próprios, aos outros e à sociedade. O mundo a meu redor é mais seguro tendo a mim enjaulado em salas escrevendo, ao invés de pirilampeando desgovernado dentro de um laboratório, com as mãos e os braços balançando para todos os lados, como um polvo desequilibrado.
A moral da história é que devemos não só reconhecer nossas próprias habilidades e vocações, mas principalmente aprender a delegar, aos que forem melhor habilitados, a realização das tarefas para as quais não temos nenhuma aptidão. É o que fazemos quando vamos às urnas, votar nas eleições. Estamos ali, naquele momento, delegando poderes para que pessoas habilitadas legislem e governem em nosso nome, e assim, bem governados, possamos nos dedicar aos laboratórios, à escrita, às nossas atividades em geral.
Mas o que fazer quando alguns candidatos não possuem tais habilitações para nos representarem nos âmbitos da governança e da legislatura? Primeiro, não votar neles. Depois, se votados forem, devemos lembrar que não há mal que não possa ser remediado. Devemos e podemos nos livrar dos polvos loucos desgovernados que pirilampeiam pelo mundo da política no país, em todas as esferas.

Claro que ameaçar trancá-los dentro de um laboratório comigo lá dentro chacoalhando as pipetas não chega a ser uma solução e soaria sinistro. Melhor mesmo é puxarmos para nós a responsabilidade pela escolha correta, bem como assumirmos a postura de cidadãos participativos que acompanham o trabalho daqueles a quem delegamos poderes pelo nosso voto. Nessa hora, cada um de nós, com o título de eleitor na mão, representa um técnico responsável pela escalação da seleção de políticos que atuarão no país ao longo do próximo período. Precisamos evitar os fazedores de gols contra.
(Crônica publicada no jornal Pioneiro em 16 de julho de 2014)