domingo, 6 de março de 2011

O caso do buffet salpicado

Aconteceu na praia, neste veraneio. Eu estava na fila do bufê do restaurante que servia comida vendida a quilo, com o prato na mão, mareado de fome após horas matinais calientes à beira-mar, entupindo os ouvidos com a areia arremessada pelo Nordestão e lutando contra o contorcionismo das páginas do Informante que não paravam quietas devido ao vento. Eram duas da tarde e meu conceito de paraíso era um prato farto de comida quentinha para rebater a caipirinha, as espigas de milho e o pastel de camarões raros e tímidos que haviam aberto meu apetite desde as dez da manhã, sob a sombra do guarda-sol que se transveste de guarda-chuva nesses dias nublados que sorridentes nos aguardam a cada novas férias.
A bandeja repleta de bifes à parmegiana, lá na outra extremidade do bufê, era a minha principal meta assim que a fila andasse, mas a velhinha à minha frente pescava zelosa os grãozinhos de arroz com os quais lentamente ia forrando seu prato até que, não sei se motivada pelo excesso de curry despejado sobre as coxinhas de frango dispostas logo adiante, subitamente, ela inspirou o ar que a circundava com a boca aberta e espirrou com estrondo e vontade sobre quase todo o bufê. Ainda pude ver se materializarem no ar algumas gotículas que foram delicada e lentamente pousando sobre o feijão mexido, as polentas fritas, o brócolis refogado com molho de nata, as coxinhas de frango ao curry (maldito curry), a mandioca com farofa e o arroz. Quis acreditar que os bifes à parmegiana lá do outro lado escaparam de serem salpicados, mas sinceramente não ousei arriscar.
Devolvi o prato à pilha que se encontrava ao meu lado no mesmo momento em que várias pessoas atrás de mim na fila faziam o mesmo. Havia uma providencial carrocinha de churros estacionada ali do outro lado da rua e, ao lado dela, outra de crepes, que seriam a salvação de todos nós que não desejávamos nos alimentar de comida recém-salpicada. A velhinha salpicou o bufê e anestesiou minha fome. Talvez eu possa ter descoberto um bom método para impor dietas a quem não consegue resistir aos apelos de um bom cardápio. Salpique o rango de quem você ama e que está ligeiramente acima do peso. É batata. Mas por favor, poupe os bifes à parmegiana.
O contista russo Anton Tchekhov tem um conto intitulado “A morte do funcionário”, no qual um humilde servidor público vai ao teatro e não consegue evitar um espirro, por meio do qual salpica a nuca de um general sentado azaradamente à sua frente. “Eu o salpiquei”, pensa, horrorizado, o pobre funcionário, que se colocará em maus lençóis devido ao inusitado ocorrido. Vale como dica de leitura para o restante das férias, período no qual estou passando a salgadinhos e biscoitos retirados de embalagens hermeticamente lacradas.
(Crônica publicada no jornal Informante, de Farroupilha, em 4 de março de 2011)

sábado, 5 de março de 2011

Barrando Sir Paul


Isso é uma coisa que eu nunca revelei para ninguém porque trata-se de um pensamento íntimo, que deveria permanecer guardado para mim mesmo e me acompanhar ao túmulo, mas lá vai, vou tornar público e arcar com as devidas consequências. Eu sempre desconfiei, desde jovem, que eu deveria ter alguma coisa em comum com a realeza britânica. Sabe aquela sensação que as pessoas possuem de terem sido, em vidas passadas, personalidades importantes como Napoleão Bonaparte (todo o mundo foi Napoleão Bonaparte), Júlio César, Joana D‘Arc ou, mais recentemente, Ayrton Senna, John Lennon e Madre Tereza de Calcutá? Pois é, eu sempre pensei que deveriam correr alguns pingos de sangue azul britânico por minha veias porque... sei lá por quê.
Pois então, caros Johns e Joanas, é isso: eu tenho algo de realeza britânica, e acabo de descobrir uma notícia que confirma essa minha desconfiança, e que me faz perceber que eu tenho mesmo algo em comum pelo menos com o príncipe William, esse que vai casar em abril com a Kate Middleton e que é filho do príncipe Charles com a finada princesa Diana. Sabem o que nos aproxima? Uma ausência importante na lista de convidados para o casamento. Sim... li notícias que dão conta de que o ex-Beatle Sir Paul McCartney NÃO será convidado para o casamento do príncipe William... Igualzinho ao que aconteceu no MEU casamento, para o qual Paul também não foi convidado.
Inclusive o motivo para o não-convite nas duas cerimônias é absolutamente o mesmo: a do príncipe será restrita a familiares e amigos muito íntimos do casal, igual ao que foi o meu casamento. Em ambos os enlaces, Paul não se enquadrava nem na categoria de familiar e tampouco na de amigo íntimo, para tristeza dele e resignação nossa. Claro, os íntimos do príncipe preenchem uma lista de dois mil convidados e os meus ocuparam 100 assentos na capelinha, mas isso é uma comparação um tanto quanto rasa e fútil. Paul é Paul tanto em um quanto em outro caso, e o peso de sua ausência é o mesmo em ambos.
Quem sabe, nas bodas de papel... já ando confabulando sobre isso com minha esposa, mas ela espera um telefonema de Kate para ver o que ela acha. Paro por aqui porque o enfermeiro diz que é hora do remedinho...

(Crônica publicada no jornal Pioneiro, em 4 de março de 2011)

sexta-feira, 25 de fevereiro de 2011

Sono e inteligência


Uma pesquisa feita nos Estados Unidos (os americanos fazem pesquisas sobre tudo o tempo todo, como também mostram recentes pesquisas) revelou que as pessoas inteligentes vão para a cama dormir algumas horas mais tarde, em média, do que as menos inteligentes. Esse comportamento, ainda conforme a pesquisa, decorre do fato de as pessoas mais inteligentes serem mais curiosas, possuirem um espírito mais inquieto e perscrutador e, por isso, aproveitam as horas noturnas para exercitar a mente na busca por conhecimento. As menos curiosas e mais conformadas com as coisas como elas são, entregam-se mais rapidamente à sedução do sono, dormindo como anjos e garantindo o esvaziamento, a assepsia e a baixa quilometragem de seus cérebros.
Não sou eu quem está dizendo, são as tais pesquisas superinteressantes dos americanos, publicadas em revistas dedicadas a popularizar o conhecimento científico mundial. Não me venham telefonar lá em casa altas horas da noite querendo rebater os dados aqui expostos. Se o fizerem, vão me encontrar de mau humor por ter sido tirado do bom do son... quer dizer.... do bom das minhas leituras, obviamente.
Problema mesmo está enfrentando um primo meu que reside lá na distante Bobolândia. A tal pesquisa também foi publicada em uma revista por lá, chamada Superinquietante, e atraiu a atenção do filho dele, um adolescente de 15 anos que só quer saber de computador e internet e andava levando bomba nos estudos. Ao ler a tal matéria, esse filho de meu primo decidiu adotar uma nova postura de vida para ficar mais inteligente e obter uma performance melhor nas provas de final de ano.
O que fez ele? Ora, decidiu ir dormir cada vez mais tarde, a fim de ficar mais inteligente, pois foi dessa maneira que interpretou os dados da pesquisa. “Quem dorme mais tarde é inteligente. Quem dorme cedo é anta”, raciocinou a anta. Como suas aulas (e também as provas) ocorrem no turno da manhã, ele começou a chegar na escola tresnoitado e foi reprovado em absolutamente todos os exames. Agora anda querendo ser cientista social, para comprovar que a teoria publicada na revista é falha. Ele deve ser fruto de algum gene recessivo da família, só pode...
(Crônica publicada no jornal Pioneiro em 25 de fevereiro de 2011)

domingo, 20 de fevereiro de 2011

Cozinhando analogias

“Tudo é símbolo e analogia”, já dizia o poeta português de quem só lembram da alma que não era pequena. O fato é que, se pensarmos bem, veremos que sempre é possível extrair algum aprendizado mesmo dos mais aparentemente banais atos do cotidiano. Quer um exemplo? Acompanhe-me pelas linhas que correm.
No Natal passado, ganhei de presente uma panela wok. Sabem o que é uma panela wok? Bom, uma rápida busca Google bastaria para assassinar-lhe em um instante a insapiência sobre o inusitado tema, mas vou poupar-lhe trabalho e explicar por aqui mesmo. A panela wok é um utensílio de cozinha originário da China, concebido para ser versátil em seu uso (é capaz de refogar, fritar e/ou cozinhar a comida), permitindo que o calor se distribua de forma uniforme pelos alimentos nela contida. É um objeto de desejo para gourmets e diletantes da cozinha, esfera esta na qual me incluo. Ou achava que me incluía até a semana passada, quando decidi finalmente estrear minha garbosa panela wok materializando uma receita com legumes e carne de porco que escolhi a dedo (limpo) em um livro de receitas exclusivas para serem feitas em... panelas wok!
Era dia de semana, encerrei minhas tarefas profissionais relativamente cedo e pus-me a iniciar os trabalhos cozinhais. Como todo bom cozinheiro sabe (até os maus cozinheiros como eu o sabem, por sinal), é recomendável ler toda a receita antes de começar a prepará-la, para não ser surpreendido no meio do caminho por algum passo irreversível (um primo meu da Bobolândia, certa vez, só descobriu na metade do processo que o polvo deveria ser fritado vivo, mas aí já era tarde demais). Li a receita (cujo autor jurava ser possível de produzir em apenas 35 minutos, o que não se confirmou), preparei os ingredientes, piquei alguns, ralei outros, pesei algoutros, fiz o caldo, cortei a carne, temperei o porco, escorracei o gato e mandei bala.
Duas horas depois de muito vapor e suor, o cozido estava finalmente pronto. Apesar de ter levado o quádruplo do tempo que a receita velhacamente previa, o aspecto condizia com o da fotografia no livro. A esposa chegou do trabalho e fomos à mesa, ávidos para saborear o resultado do presente e de sua estreia. Uma garfada, duas garfadas, algumas mastigadas, olhares trocados e a concordância mútua: “bom, bom, bonzinho...”. Foi aí que minha esposa, num ato súbito, pegou o vidrinho de molho shoyu e disse: “talvez se metermos um pouco disso, o sabor não realça?”. Pois assim disse, assim fez e assim se deu: tacou o shoyu e simplesmente, em um mero ato de um segundo, enriqueceu a receita que eu levara duas longas horas para produzir penando frente ao fogão e a wok empinada nele.
Lance de gênio. A genialidade está nas pequenas coisas, e não se sensibiliza com o suor dos esforçados. Ela simplesmente contempla os que são agraciados por ela. Como é que eu não vi aquele vidro de shoyu antes?
(Crônica publicada no jornal Informante, de Farroupilha, em 18/02/2011)

sexta-feira, 18 de fevereiro de 2011

Alinhado a cabresto

Nao fosse por elas, sairíamos às ruas vestidos desse jeito aí de cima

Homens não se vestem. Homens se ensacam. Essa é a teoria sustentada por minha esposa sempre que desço as escadas pela manhã, vestido para o trabalho. “Não, não, não, não, não”, enfileira ela, de segunda a sexta, ao me ver da mesa do café. “Pode voltar. Essa calça você usou ontem e essa camisa não combina”, sentencia. “O que há com vocês, homens, que não conseguem ver o óbvio? Que isso não combina com aquilo e que não é preciso usar uma calça até ela sair andando sozinha pela casa e que o amplo espectro das cores exige um pouco de bom senso na hora de combinar uma camisa com uma calça e com uma meia” e muito além disso eu não consigo mais discernir porque já subi de volta e tirei tudo e rapidamente troco a camisa verde pela bege e a calça (pomba, mas só havia usado ela ontem) ainda limpinha por outra dobradinha e passadinha que eu estava imaginando poupar para o domingo e desço de novo para o tão esperado olhar de aprovação que, para minha surpresa, ainda não surge.
“Ué! Não era isso?”, indago, desnorteado, plantado a oceanos de distância da seara dos metrossexuais (desconfio de que estou mais para centimetrossexual mesmo).
“Sim, mas e esse cabelo? Passa um gel, penteia para cá, joga para lá, arruma essa gola e puxa um pouco para fora a camisa das calças para disfarçar a barriga senão fica parecendo um boneco de plástico todo espichado e vem cá que eu te ajeito”, é o que, em síntese, ela responde, já distribuindo por mim mãos e dedos serelepes que meus olhos sequer acompanham. É uma polva, ela, nesses momentos. Seus tentáculos em ação têm a sobrenatural capacidade de me fazer apresentável à sociedade em poucos minutos, transformando-me em um outro eu, que me ponho a transportar junto com a pasta rumo a meus afazeres.
“Pô, meu, tu tá na estica hoje, hein?”, exclama o colega, quando adentro a sala da reunião.
A tentação é a de puxar um ar blasé e responder algo genérico como “você acha? Apenas vesti rapidamente aquilo que estava mais à mão”, mas não ouso fazer desfeita e rendo as devidas loas à minha “personal-tudo”. “Obra da loirinha”, respondo, percebendo mais uma vez o valor de receber um belo xingão de amor.

(Crônica publicada no jornal Pioneiro em 18/02/2011)

segunda-feira, 14 de fevereiro de 2011

Subliteratura onde?


Ainda hoje é possível ouvir, em certos círculos literários, frases preconceituosas que insistem em classificar o gênero policial como “subliteratura”, seja lá como for que compreendam o termo. Na verdade, quem profere a sentença está apenas tentando desqualificar todo um universo de obras reunidas sob uma temática comum, reduzindo-as todas à baixa qualidade encontrada em algumas delas. Ora, má literatura é praticada despudoradamente em todos os gêneros literários, da poesia ao romance, e nem por isso os demais gêneros sofrem ataque reducionista e delimitante de forma tão sistemática.
Nomes consagrados pelas eras já transitaram pelo estilo, a começar por Edgar Allan Poe, a quem, inclusive, atribui-se a criação do gênero em literatura, tendo instituído seus pilares fundamentais. Arthur Conan Doyle, Agatha Christie, Luis Fernando Verissimo e mesmo Umberto Eco, Jorge Luis Borges e Adolfo Bioy Casares são nomes que necessariamente são salpicados pela visão preconceituosa sempre que ela é evocada, uma vez que todos esses deixaram suas assinaturas pelo gênero, eventual ou sistematicamente. Perigoso, pois, apostar nas generalizações.
E por que, afinal de contas, as sessões de apedrejamento são invariavelmente direcionadas tão somente ao gênero policial, livrando do estigma tantos outros que bem poderiam se credenciar como alvos para o mesmo preconceito? Ora, se vamos ser preconceituosos, que o sejamos de fato, empregando no processo toda a carga de insustentabilidade racional e lógica que a adoção de um preconceito requer. Sejamos democraticamente preconceituosos, portanto. Dentro do cesto da tal “subliteratura”, não deixemos sozinho o gênero policial, e sejamos generosos, acomodando ali, por que não, também a ficção-científica (e abram espaço para H.G. Wells, Jules Verne, George Orwell e Aldous Huxley, uma vez que Adolfo Bioy Casares e Edgar Allan Poe já estão lá, mas também neste gênero – ou subgênero, como queiram – se habilitariam) e os romances de aventuras (e acolham Johnathan Swift, Miguel de Cervantes, Robert Louis Stevenson) e os de horror (bem-vindos agora Bram Stoker, Mary Shelley, Guy de Maupassant...).
Subliteratura, minha gente, nada mais é do que literatura ruim, espécime abundante e pouco exigente, cujo habitat são as folhas impressas e editadas dentro do universo de todo e qualquer campo literário. O gênero policial não detém a primazia nem o privilégio absoluto de abrigá-la. Sugiro, para os mais contundentes, evitarem inclusive cair na tentação de levar a cabo a proposta de investigação que faço, sob pena de terem realmente de rever seus preconceitos. Aposto, se fosse possível concretizar tal aferição, que o percentual de livros ruins (subliteratura em essência, portanto) existentes dentro do gênero romance é infinitamente maior, em proporção, do que aquele que habita o gênero policial. O mesmo, aliás, poderia ser dito em relação à poesia. Se eu fosse você, não pagaria para ver.
(Texto publicado na seção "Planeta Livro", da revista Acontece, de Caxias do Sul, edição de fevereiro de 2011)

sexta-feira, 11 de fevereiro de 2011

Mágica nenhuma


Na hora do banho, como já revelei em crônica passada, minha mente vaga por searas esdrúxulas e se põe a meditar sandices. Esta semana, dei de ficar encasquetado com a questão do olho mágico, aquele artefato encravado nas portas de entrada dos lares cuja função seria a de permitir que os moradores identifiquem com segurança quem toca a campainha e deseja adentrar nossos domínios. Ora, pois, refleti eu, ensaboando a cabeça, trata-se de um dos mais inúteis objetos já produzidos pela inventividade humana, e explico por quê.
Pelo simples motivo de que não serve para nada, uma vez que, ao você meter o olho (o seu) no olho (o mágico), a imagem que lhe chega é uma monstruosidade distorcida, semelhante ao que se vê na sala dos espelhos dos parques de diversões. Impossível identificar, via olho mágico, quem está à porta. Você apenas detecta que, sim, é verdade, a campainha não tocou sozinha e você não está escutando batidas fantasmagóricas, existe mesmo alguém ali fora querendo entrar, mas definitivamente é impossível saber de quem se trata.
A não ser que a Estefânia tenha telefonado meia hora antes e dito: “Roxane, estou indo dar um pulinho aí daqui a pouco”. Aí, dali a um pouco, toca a campainha, você confere pelo olho mágico e vê que encontra-se ali, dando um pulinho, a imagem de alguém que parece ser, sim, remotamente, com aquilo que costuma ser a Estefânia. E abre-se então a porta, mais por consequência de uma conexão lógica de fatos do que devido à funcionalidade do olho mágico.
Os defensores do aparelho (os fabricantes e os instaladores de olhos mágicos) retrucarão que o objeto permite você se fazer de morto e fingir não estar em casa quando aquele indesejável aparece repentinamente para cobrar uma dívida ou tirar alguma satisfação. A réplica faria sentido caso fosse possível identificar a pessoa (o que já demonstramos ser impossível), mas mesmo assim o argumento é falho, uma vez que o visitante que está do lado de fora percebe a sombra do morador metendo o olho no olho pelo lado de dentro, o que prova que você está lá. O melhor será abrir a porta para evitar escândalos no corredor.
E, de quebra, cimentar o olho mágico da porta.
(Crônica publicada no jornal Pioneiro em 11 de fevereiro de 2011)