terça-feira, 20 de agosto de 2013

Para mim, costela

Costela. Costela e picanha. A costela, sempre bem passada, obviamente. Já a picanha pode vir ao ponto, ou bem passada, ou mal passada mesmo, que aceito de qualquer jeito, sempre com uma tirinha de gordura, que é para esfregar na farinha e proporcionar aquele sabor inigualável na boca. Para mim, esses dois cortes são os que justificam minhas idas frequentes a churrascarias, nas quais dou vazão ao instinto carnívoro que compõe a essência de meu ser e que me perdoem os vegetarianos porque agora é tarde e já não mudo mais, lamento (lamento?).
O fato é que, sempre que tomo lugar à mesa em uma churrascaria dessas de espeto corrido, de imediato identifico os garçons que prioritariamente desfilam pelo salão portando os espetos revestidos por costelas e picanhas e neles sintonizo meu radar-especial-de-monitorar-a-presença-de-garçons e fico ali, garfo numa mão, faca de serrinha na outra, sempre à espreita, semelhante à postura que meus ancestrais cro-magnons adotavam nas esquinas de suas cavernas à espera da passagem de algum tigre-dente-de-sabre mais boca aberta.
 Passa o garçom com a costela e eu plau, sim, quero! Passa o outro com a picanha e eu puxo-o pelo avental: “aqui, aqui”. E assim vou indo, almoço dominical adentro, ignorando premeditadamente os rabanetes, chuchus e cenouras que ornamentam o buffet de saladas disponível ali ao lado. E lá vou eu, adiante: costela, sim; salsichão, não, obrigado; picanha, sim; galeto, passo; costela, uhum; coraçãozinho, nã, nã, nã; abacaxi, o    quê???

Mas em meio ao ritual carnívoro abate-se sobre mim sempre uma pena imensa dos garçons portadores dos espetos que refugo. O da ovelha, o do cupim, o do filé ao alho e óleo... Fica me parecendo que ninguém aceita aquilo que eles oferecem com tanta generosidade. A ovelha vem de lá de dentro tinindo no espeto, o garçom para na primeira mesa e todos recusam; na segunda, ninguém quer; na outra, sequer respondem... e lá vem ele, direto para o meu lado, logo eu, que espero mais picanha e costela, terei também de dizer “não”. A vida é feita de escolhas e de recusas. Estóicos, centrados e resolvidos, os garçons da ovelha e do cupim devem saber disso como ninguém. Admiro-os de boca cheia...
(Crônica publicada no jornal Pioneiro em 20 de agosto de 2013)

segunda-feira, 19 de agosto de 2013

Na boca do tubarão

O norte-americano Erik Norrie é um cidadão, no mínimo, singular. É difícil encontrar um adjetivo que melhor classifique aquilo que ele é. Poder-se-ia dizer que Erik Norrie possui superpoderes como o Hulk e tem o corpo fechado, pois nada o atinge. Ou isso, ou é odiado pela natureza, uma vez que, ao longo de seus 40 anos de idade, vem colecionando uma série de episódios bizarros nos quais foi vítima de acidentes terríveis que teriam despachado qualquer outro direto para o além. A morte ronda Erik Norrie, desfere golpes certeiros contra ele, mas não consegue enredá-lo. Por que será?
Vejamos. Sua mais recente peripécia mortal foi ter escapado vivo de um ataque de tubarão nas Bahamas, onde estava pescando com um arpão. Norrie conseguiu nadar para longe do faminto peixe que aperitivava sua perna, pediu socorro em terra e virou notícia, quando então relatou que não era a primeira vez que escapava da morte.
A primeira mesmo foi aos dez anos de idade, quando andava à toa na vida na Flórida, em meio a uma tempestade, e foi atingido por um raio que o lançou longe. Sobreviveu, como já sabemos, para, três anos mais tarde, ser picado por uma cobra, o que quase acarretou a perda de sua perna direita. Depois disso, já adulto, foi atacado duas vezes por macacos. Uma delas em Honduras, quando sua esposa, “por brincadeira”, conforme relata (aí tem), trancou-o na jaula de uma fêmea, que avançou contra ele. Por fim, passava férias na Amazônia, no Brasil, quando um macaco tupiniquim deu-lhe um soco na cabeça.

Foi só aí que passei a desconfiar do Erik Norrie. Ora, existe algo mais repleto de clichê preconceituoso e desinformado do que um norte-americano imaginar que ao vir para o Brasil correrá risco de vida porque será inevitavelmente atacado por macacos? Vai mentir para outro, Erik Norrie. Nós, brasileiros, somos muito mais competentes em colocar vidas em risco do que atiçando macacos contra turistas. Venha se internar em nossos serviços públicos de saúde, Erik Norrie. Venha dirigir em nossas estradas. Venha se colocar na mira dos assaltos com morte promovidos pela cadeia do tráfico e do vício. Venha beber leite adulterado com produtos cancerígenos. Quero ver o senhor enfrentar o cotidiano de um brasileiro por um ano inteirinho e aí, sim, sair ileso. Para nós, boca de tubarão e raio na cabeça são fichinhas...
(Crônica publicada no jornal Pioneiro em 19 de agosto de 2013)

domingo, 18 de agosto de 2013

Sorvete na Sibéria

Todos me olharam como se eu fosse um ET. Sequer se deram ao trabalho de disfarçar o fato escancarado de que, frente à proposta que eu acabara de fazer ao grupo, nenhum deles mantinha ainda nenhuma dúvida de que eu não devia ser desse planeta mesmo. Na cara de Rosvinda pude ler estampado: “Deve ser é de outro plano astral, ou de outra dimensão, mas daqui da Terra é que ele não é”. O Deves e o Jardel seguramente pensavam coisas semelhantes ou piores, especialmente quando se tratava de pensar desabonanças a meu respeito.
E tudo isso apenas porque eu propusera aos amigos irmos comer sorvete no meio daquela tarde gelada de julho, décadas atrás, o vento minuano a soprar e transformar na passagem nossas orelhas em estalactites pendentes uma de cada lado de nossas cabeças estudantis. Sim, sorvete, ué, e por que não? Que tem a ver a temperatura ambiente com aquilo que nos desperta a fome e o desejo? Por que não posso saborear uma transbordante taça de sundae ou de banana split (os mais antigos pediam “balalaicas”), mesmo que os termômetros estejam marcando temperaturas siberianas? Que tem a ver a temperatura de minha boca, garganta, esôfago e estômago com as nuances do clima?
Afinal, não se toma café também nos meses de verão aqui em nosso eclético território? Sou proibido, então, de saborear uma feijoada em fevereiro? Sopa é só no inverno? Cerveja gelada apenas na praia? Vinho tinto somente de junho a agosto? Os esquimós não podem chupar picolé nunca na vida? Aos beduínos do deserto jamais lhes será permitido saborear uma garrafa de merlot acompanhada de um picante goulasch repleto de páprica? Que coisa mais sem graça!
Desgarrei da turma vituperando essas frases todas, dobrei a esquina, atravessei a avenida e fui-me sentar sozinho na lancheria mais badalada da cidade. Pedi a tal da banana split e um refrigerante “bem gelado”. Ninguém percebeu que eu tremia frio enquanto aguardava a chegada do pedido, pois naquela época eu usava um pala providencial. Quando chegou o sorvete, mandei ver, convicto que estava de minha personalíssima postura.

Depois faltei uma semana de aula devido a uma inominável dor de garganta que por pouco não me despachou em definitivo ao calor dos quintos dos... Mas desde então, não pauto minhas vontades e decisões pelo senso comum. E arco, claro, com as eventuais consequências.
(Crônica publicada no jornal Pioneiro em 17 de agosto de 2013)

sexta-feira, 16 de agosto de 2013

Vamos abrir os olhos

Mas esses chineses já estão passando da conta. Alguém tem de tomar uma atitude e ir até lá dar um basta nisso tudo, antes que seja tarde demais. O Arnaldo César Coelho, por exemplo, poderia singrar os mares e desembainhar um cartão vermelho para eles, sinalizando “stop” em linguagem universal (se bem que, sendo a China um dos últimos redutos comunistas do planeta, a cor vermelha pode ter lá o mesmo significado que por aqui atribuímos ao verde, e o ato do nosso intrépido juiz poderia vir a ser interpretado como “sigam em frente; avante, camaradas” e o tiro sairia pela culatra).
A gota d´água que transbordou meu copo de tolerância para com a onda de invasões chinesas em todas as áreas da existência se deu agora, ao ler reportagem revelando que, espalhadas por lugares diferentes do vasto e inapreensível território chinês, estão construídas réplicas perfeitas, em tamanho natural, de diversos pontos turísticos característicos de outros países do mundo. Existe, por exemplo, uma Torre Eiffel clonada em um bairro que reproduz todo um arrondissement parisiense, na cidade chinesa de Hangzhou (eu vi as fotos!). Em Hefei (Hefei, na China, sabe?), reproduziram lasca por lasca, menir por menir, o sítio megalítico britânico de Stonehenge. Na província de Guandong, ao invés de visitar lojas de porcelana da Dinastia Ming, você vai se ver andando pelas ruas de toda uma cidade histórica austríaca, que ali está reconstruída paralelepípedo por paralelepípedo igual à original.
E não fica nisso. Passeando por lá atrás de detalhes culturais típicos da rica e milenar cultura chinesa, em qualquer canto, inesperadamente, você pode deparar com uma réplica da Casa Branca de Washington, ou com a Esfinge do Planalto de Gizé, ou com esculturas gregas atenienses e assim por diante. Em continuando assim, se ninguém tacar-lhes um paratiquieto, não tardará muito para que o turista desavisado dê de cara por lá com imitações do Monumento ao Imigrante, da Casa de Pedra, do Santuário de Nossa Senhora de Caravaggio, da Pipa-Pórtico de Bento Gonçalves e assim por diante.
Em represália, já encomendei um lote de pedras de basalto de Nova Prata e amanhã mesmo começo a erguer uma Muralha da China daqui de casa até Galópolis, projeto para arregalar os olhos de qualquer chinês clonador.

 (Crônica publicada no jornal Pioneiro em 16 de agosto de 2013)

quinta-feira, 15 de agosto de 2013

Oba, catapora!

Uma das melhores coisas do mundo é pegar doença de criança quando se é criança. Muitas vezes nem chegava a ser doença: bastava um resfriado mais forte que trouxesse no pacote tosse, um risquinho de febre no termômetro, espirros de intumescer lenço de pano, dor na garganta e sonolência, que mães e avós, tias e irmãs mais velhas (nessas horas, zelosas) já tratavam de nos entrincheirar debaixo das cobertas, sob ordens expressas de não sairmos dali nem por decreto, o que nos púnhamos a cumprir sem pestanejar, especialmente por aquilo significar faltar às aulas de forma prá lá de justificada, o que, no fundo, era uma imensa satisfação.
Que eu me recorde, fora essas gripes sazonais, escapei de males maiores como coqueluche, sarampo e caxumba, que muito transtornaram vários de meus coleguinhas, mas capitulei na catapora. Um belo dia, minha pele inteira amanheceu pipocada de pequenas erupções circulares avermelhadas, desde o couro cabeludo até o último dedo do pé e, pimba, nada de aula para mim. Quarentena direto, devido ao alto poder de contágio daquela coisa. Meti o pijama listrado, arrebanhei a pilha de histórias em quadrinhos de que mais gostava, juntei alguns livros de Monteiro Lobato e da coleção juvenil da Ediouro e dirigi-me ao bunker em que minha cama se transformava nessas ocasiões, decidido a sair de lá somente pela força da cura.
No bidê ao lado da cabeceira, além dos remédios receitados pelo médico da família, minha mãe aquartelava os biscoitos de que eu mais gostava (Lanche Mirabel, a “Merendinha”), uma jarra de suco (pois que hidratação é vital numa hora dessas), um Danoninho (na época, só havia sabor morango) e barras de Chokito, Kri e Lollo. Minha irmã, rubra mas de inveja, colocava os cadernos na pasta e marchava à escola, torcendo para ser contagiada também por aquelas pintinhas que me transformavam em joaninha, para poder desfrutar das mesmas regalias com as quais me paparicavam. No que dependesse de mim, não melhorava nunca, porém, a evolução das brotoejas cataporais desmascarava qualquer manobra que eu quisesse inventar na tentativa de prolongar a situação e logo estava pronto para (raios!) retornar às aulas.
A infância é mesmo um presente de curta duração. Depois que se fica adulto, adoecer perde completamente a graça.


 (Crônica publicada no jornal Pioneiro em 15 de agosto de 2013)

quarta-feira, 14 de agosto de 2013

Todo o dia...

Existem tarefas domésticas das quais eu não gosto. Uma frase assim beira o pleonasmo, ou seja, uma redundância em si própria, uma vez que dificilmente existirão tarefas domésticas das quais se possa genuinamente gostar (entendendo-se por “tarefas domésticas” somente – e tão somente – aquelas referentes à prática da limpeza e dos serviços gerais que mantêm uma casa em ordem). Portanto, o mais correto seria iniciar este texto dizendo que existem tarefas domésticas das quais desgosto mais do que de outras. Assim sendo, comecemos daqui, leitor:
Existem tarefas domésticas das quais desgosto mais do que de outras (agora, sim, não precisamos de parênteses explicativos, mas eis que um já se infiltra aqui, parece até vicio). E não há muita explicação lógica ou racional para os gostares e os desgostares quando se trata da relação de determinada pessoa com a gama quase infinita de tarefas domésticas que podem existir. Eu, por exemplo, prefiro lavar louça a secar a louça. Considero o ato de secar a louça como uma desnecessária perda de energia e de desgaste de panos, uma vez que a louça, mais cedo ou mais tarde (dependendo da umidade relativa do ar daquele dia), acabará secando-se sozinha, sem que eu tenha de interferir nesse processo (a humanidade evolui continuamente e haverá de chegar o dia em que a louça lavar-se-á também por conta, quem viver verá, afinal fornos e gatos já atingiram o estágio de autolimpantes, basta seguir-lhes o exemplo).

Mas o que detesto mesmo é tirar a roupa da máquina de lavar e estendê-la nas cordinhas do varal na área de serviço. Não sei o motivo, mas odeio fazê-lo, me dá uma agonia, uma ânsia, aquelas roupas semiúmidas, o embaraço das cordas, os prendedores que me saltam das mãos como piruetas de gafanhotos... Pior é quando a esposa está por perto e grita de lá que é preciso chacoalhar as peças de roupas antes de prendê-las no varal, para que não sequem retorcidas. Eu não sei chacoalhar as roupas molhadas. Não tenho habilidade para isso e me embanano todo no processo. Chacoalho uma camisa e parece que estou perseguindo mosquitos, me torcendo todo... Minha esposa observa a cena e invariavelmente grita de lá de novo: “É para chacoalhar as roupas, não o traseiro”. Assim não dá. Prefiro limpar o vaso. A cada um as atribuições que seu talento permite.
(Crônica publicada no jornal Pioneiro em 14 de agosto de 2013)

terça-feira, 13 de agosto de 2013

Carta a São Pedro

Prezado senhor São Pedro:
Considerando que os meses de frio na região conhecida como Serra Gaúcha costumam se antecipar à chegada oficial do Inverno e se estender até depois de encerrado o prazo de validade dessa sazonal estação climática, fazendo-nos tiritar por cerca de oito dos 12 meses do ano;
Considerando que temperaturas desavergonhadamente baixas desestimulam a prática de esportes ao ar livre e também a prática de atividades quaisquer que sejam indoor, a não ser as relativas ao bate-queixo defronte às lareiras e aos fogões a lenha, quando muito o mergulho para baixo das montanhas de cobertores ainda cedo da noite sem mais nada querer de nada, colocando em risco até mesmo a manutenção da densidade demográfica serrana de que tanto nos orgulhamos, correndo riscos de extinção de toda uma cultura;
Considerando que até mesmo outras regiões como Santa Catarina e Paraná andam ultimamente anfitrionando a manifestação do fenômeno meteorológico conhecido como “neve”, que até então figurava como exclusividade das paisagens gaúchas e, entre elas, especialmente nas dos gaúchos destemidamente residentes na Serra, esvaziando para outras plagas o frio atordoante que até então os alegres turistas de longe só encontravam aqui entre nosotros;
Vimos nós, abaixo-assinados, reivindicar que os frios escorchantes - que nos encarangam as espinhas e gelam as almas até mesmo de quem não crê nelas - passem a ser optativos para cada habitante desta região serrana do Rio Grande do Sul. Que o senhor permita e exercite na prática a pluralidade climatológica individual, em que cada cidadão tenha o direito de vivenciar no inverno a temperatura que melhor aprouver à sua própria saúde, ao seu próprio bem-estar, ao seu pessoal e intransferível conceito individual de “frio” e de “inverno” (para mim, por exemplo, invernos poderiam estabilizar no meu entorno físico em temperaturas amenas que variem entre 15 e 20 graus centigrados, estamos combinados?).
Em sendo assim, agradecemos desde já a atenção dispensada e subscrevemo-nos, deixando-lhe as mais quentes, acolhedoras e aconchegantes manifestações de nossa estima e apreço, na certeza de que o senhor será sensível (e nãoinclemente) ao nosso apelo.

Assinado: Gente da Serra Gaúcha (Marcos Fernando Kirst e os seguintes leitores:..............)
(Crônica publicada no jornal Pioneiro em 13 de agosto de 2013)