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quinta-feira, 9 de julho de 2015

Andando nas nuvens

Tenho visto 50 tons de cinza pela janela de meu quarto, dia após dia, nos amanheceres desses invernais dias de julho. O início de inverno neste 2015 decidiu nos brindar, aqui na Serra Gaúcha, com uma sucessão incansável de neblina, de cerração, de nevoeiro, cada uma dessas denominações acarretando um tom de cinza diferente, com todas as suas nuances que vão mudando de acordo com a hora do dia, daí os 50 ou mais tons perfeitamente verificáveis por quem tiver olhos para ver, sensibilidades para detectar, imaginação para mergulhar fog adentro.
Mesmo quem nunca esteve em Londres é capaz de sentir-se caminhando por ruas londrinas ao subir ou descer a Avenida Júlio de Castilhos de manhã cedinho sem enxergar nada dois palmos adiante de seu nariz, devido à intensa e cerrada cerração. Isso porque o termo “fog londrino” já se transformou em conhecimento arquetípico, em memória cultural coletiva universal, e somos todos londrinos, em qualquer lugar do mundo que seja abraçado por uma intensa neblina que remeta as mãos aos bolsos, enterre os pescoços golas adentro, acelere os passos pelas calçadas e espalhe pelas ruas um intenso tráfego de narizes transformados em chaminés ambulantes.
É como caminhar nas nuvens. Estamos no interior de uma carregada cumulus nimbus que desceu das alturas para ver como andam as coisas aqui na superfície, cansada de apenas observar do alto as agruras pelas quais passam os cidadãos dessas terras estranhas movimentadas por formiguinhas vestidas e apressadas. As nuvens descem momentaneamente de seus pedestais celestes e vêm aqui respirar um pouco de humanidade, para logo se dissiparem e tornarem a se reagrupar lá em cima, preferindo sempre, me parece, a companhia dos anjos, dos urubus, dos picos dos cerros e dos aviões que as perfuram e fazem-lhe cócegas.

Mas gosto desses dias cinzas, especialmente pelas surpresas que o andar pelas ruas emparedadas pela neblina proporcionam. Ontem, por exemplo, surgiu-me defronte, em uma esquina, um amigo que há tempos eu não via. Desembarcou à minha frente do meio da névoa como se descesse de um portal do tempo. Cumprimentamo-nos e desaparecemos ambos logo em seguida, engolfados pelo cinza de nossas neblinas particulares, cada qual em seu tom. O meu, um pouco mais ensolarado com o caloroso reencontro.
(Crônica publicada no jornal Pioneiro em 9 de julho de 2015)

quinta-feira, 25 de junho de 2015

É preciso coragem

É preciso ter coragem. É preciso ter sido moldado em boa cepa, evocar as próprias raízes, recordar dos antepassados, seus feitos, sua glórias, e inspirar-se nelas. É preciso ter determinação, garra, vontade de vencer. É preciso pensar no sabor da vitória quando alcançada, na satisfação de um dever cumprido, na honra de transpor a muralha da adversidade para romper com orgulho a faixa da chegada. É preciso reunir todas as energias de que somos capazes de aglomerar em nosso íntimo mais profundo. É preciso fazer um gesto rápido para jogar a pilha de cobertores para o alto, saltar da cama, calçar as pantufas e correr para o banho antes que a dimensão do imenso frio se apodere de todo o nosso ser e nos faça voltar correndo para o leito quentinho e decididamente não sair mais de lá até que chegue de novo a hora de vestir os maiôs e irmos para a praia no bom do verão e seja lá o que Deus quiser.
Mas é preciso ter força. O veraneio ainda está longe. Aliás, nesses dias de zero grau ao alvorecer, estão mais longe do que nunca aquelas coisas de sunga à beira-mar tomando água-de-coco e torrando os costados enquanto se decide por um mergulho no mar ou por uma caipirinha geladinha embaixo do guarda-sol. Miragens, miragens, tudo isso não passa de miragens, nada disso existe nem nunca existiu, são frutos de nossa fértil imaginação, congelada em uma realidade apenas tecida em nossos mais profundos sonhos e aspirações. Congeladíssima ali, por sinal. Muito, muito, mas muuuito congelada ali.
A verdade é que não existe verão, não existe praia, não existe areia escaldante. O que existe é esse pote de manteiga que deixei fora da geladeira ontem à noite e agora no café da manhã se apresenta tão dura quanto se tivesse passado a madrugada dentro do freezer. Nem ouso ir conferir a temperatura das duas latinhas de cerveja que comprei ontem no mercado e deixei guardadas no armário da despensa. Vai que estejam congeladas e eu tenha de jogá-las fora.

Observo o forno de micro-ondas com uma sensação estranha percorrendo meus pensamentos e me parece que uma ideia estúpida se vai ali formando. Parece que estou dimensionando com o olhar a largura e profundidade do interior do aparelho, para ver se dentro cabem meus pés. Devo parar enquanto é tempo. Conduzo-me, determinado, rumo ao chuveiro. Coragem.
(Crônica publicada no jornal Pioneiro em 25 de junho de 2015)

segunda-feira, 22 de junho de 2015

Negociação climática

Eis que então, no final de semana, chegou o inverno. Lá em casa, no entanto, ele já havia aparecido alguns dias antes da data oficial em que todos o esperavam. Não sei se minha esposa deu cópia da chave para ele ou se entrou sorrateiro pela porta entreaberta na tarde em que a faxineira veio fazer a limpeza do apartamento, já nas despedidas do outono. O fato é que, quando nos demos por conta, ele estava instalado, sem aviso ou cerimônias, como se fosse da casa, e foi ficando.
Quando uma visita inesperada chega assim, de supetão, é preciso você se adaptar a ela, para não ser indelicado. Com o passar do tempo, aprendi que não vale a pena assumir uma postura belicosa ou mesmo de amargor e confronto para com as facetas do clima, apareça ele em sua casa travestido de inverno, de verão, de primavera ou outono, e o melhor mesmo é aceitá-lo na forma como ele vem e encontrar meios de fazer com que a estada – normalmente longa, de três meses ao ano – seja o mais harmoniosa possível. Dos quatro visitantes sazonais, o mais difícil de lidar é justamente o inverno, que nos exige doses maiores de paciência, compreensão e adaptabilidade. Já estamos até meio que acostumados.
Só que dessa vez ele chegou em hora imprópria, ao antecipar em alguns dias inesperados a sua aparição lá por casa. Os cobertores tiveram de ser desencaixotados às pressas, as luvas e os chinelos de pano idem, as estufas para aquecer o banheiro na hora do banho foram resgatadas e a lareira da sala foi arrancada de sua hibernação e meio que teve de pegar no tranco. A cafeteira passou a trabalhar em turno dobrado e aquele vinho que há tempos rolava intocado levou um susto ao ser transformado de súbito em panela de quentão, pois que minha esposa fez aparecer, por mágica, acredito, alguns cravinhos-da-índia de dentro da despensa.

Como ele chegou este ano alguns dias mais cedo, já estou em negociações para que, a título de contrapartida, encurte sua estada e deixe lugar para a vinda da primavera alguns dias antes do oficial 23 de setembro. Primavera já enviou e-mail dizendo que topa. Quanto ao inverno, vamos ver, mas está meio difícil de quebrar o gelo e arrancar promessas de sua postura glacial...
(Crônica publicada no jornal Pioneiro em 22 de junho de 2015)

terça-feira, 18 de novembro de 2014

Apenas sonhos

Fosse eu jogador de futebol, não teria dúvidas: meu sonho seria fazer um gol de bicicleta. Mas não um gol de bicicleta qualquer (perdão, perdão, em se tratando de gol de bicicleta, nenhum pode ser classificado como “qualquer”, têm razão, leitores), e sim um gol de bicicleta que resultasse em virada histórica em partida decisiva para o meu time conquistar título há muito perseguido. Para ser consagrado pela torcida, penetrar para a eternidade dentro do coração de cada torcedor, ter estátua erguida na entrada do clube, ganhar placa (gol de placa, pois não?). Esse seria meu sonho, na condição de Marcos, o artilheiro.
Agora, se eu fosse compositor musical, meu sonho seria outro. Meu sonho seria conseguir criar uma canção que tivesse um refrão maravilhoso, que enchesse de boas sensações a alma de quem a escutasse e acabasse se transformando em hino de toda uma geração. Que inspirasse milhares de versões posteriores nas vozes de vários outros cantores, que figurasse nas coletâneas das melhores canções do século, que embalasse o início de romances, que fosse trilha sonora obrigatória nos momentos de felicidade de cada um. Esse seria o sonho do compositor Marcos.
Se eu fosse cientista, sonharia em descobrir a cura para alguma doença. Se ator de cinema, sonharia em protagonizar um papel que fizesse jus à arte dramática. Se bailarino, sonharia com a perfeição da leveza. Se eu fosse astrônomo, passaria as noites em meu observatório, olhos grudados nos telescópios, singrando estrelas e sonhando com a descoberta de um planeta habitado com vida inteligente, mas tão inteligente e generosa que fosse capaz de ensinar a nós, terráqueos, a suprema inteligência do convívio em paz e harmonia. Se eu fosse astrólogo, sonharia com conjunções astrais que emanassem poderosas vibrações positivas que envolvessem toda a Terra.

Ah, antes que eu me esqueça. Se eu fosse meteorologista, sonharia com uma semana inteirinha de acertos totais nas previsões do tempo, sem nenhum erro sequer, vaticinando chuva em dias em que chovesse e sol nos dias ensolarados, certinho, certinho. Isso sim, seria minha maior consagração pessoal! Mas são sonhos, só sonhos...
(Crônica publicada no jornal Pioneiro em 18 de novembro de 2014)

segunda-feira, 4 de agosto de 2014

Um pinguim no Saara

Meu corpo não possui o mesmo ritmo alucinado que identifico no clima da região em que moro, a saber, a Serra Gaúcha. Não tenho essa rapidez toda em me readaptar de acordo com a súbita alternância extremada de temperaturas, que seria conveniente para a saúde. Meus processos pessoais de degelo e de superaquecimento são excessivamente lentos, o que costuma me causar complicações no cotidiano, como é de praxe, em eu sendo insistentemente eu mesmo.
No degelo, por exemplo, sou um mamute. Se está frio, muito frio, e ando para lá e para cá plenamente rocambolado dentro de blusões, casacos e sobretudos, não consigo, já no dia seguinte, quando a manhã nasce surpreendentemente ensolarada e quente (coisa que só os meteorologistas sabiam mas não contaram para ninguém), os termômetros saltando de trampolim de 4 graus centígrados para 31, não tenho a destreza necessária para me desfazer de imediato de todos os blusões, de todos os casacos e das mantas e dos sobretudos e dos capotes e dos palas e das luvas e dos gorros e das ceroulas. Não, eu sou mamute, sou bem mais lento.
O que acontece então? Ora, acontece de lá vir o Marcos, descendo a ladeira da Sinimbu, naquele calor todo de torrar minhoca no asfalto, embrulhado dentro de um sobretudo, suando bicas. O Marcos e sua pastinha, mamute sendo degelado à força nos cruzamentos da Praça Dante. Eita, quadro! Nem Salvador Dalí imaginaria cena tão surreal. Talvez imaginasse se me visse na situação inversa, dois dias adiante, quando, enfim acostumado com o retorno do calor, finalmente saio para a rua trajando apenas uma leve camisa de abotoar quando, pimba... De repente, a temperatura escorrega e desce o morro da Vó Sovelina, despencando para dois, três graus, e eu ali, praticamente de chinelo de dedo e bermuda, de novo na Sinimbu, a tiritar de frio como um camelo encerrado dentro de um iglu.

Isso sou eu, o inadaptável. Eu, aquele do termostato interno quebrado. Eu, o pinguim desavisado que acredita nas previsões da meteorologia. Eu, o habitante da Serra Gaúcha que, apesar de tudo, gosto daqui especialmente por saber que jamais morrerei de tédio climático. De choque térmico, pode ser, mas de tédio, jamais.
(Crônica publicada no jornal Pioneiro em 4 de agosto de 2014)

segunda-feira, 3 de fevereiro de 2014

Em defesa da sombrinha

Qualquer um que precise gastar sola de sapato pelas calçadas da cidade por motivos profissionais ou quaisquer que sejam, nesses inclementes dias veranis, sabe muito bem que o sol não anda para peixe. Estranhou a comparação? Pois experimente deixar um peixe ao sol sobre a calçada em plena Sinimbu, para ver o que acontece.
Estamos a vivenciar aqui, nessa nossa (até então) sempre fresquinha Serra, calorões dignos de concorrer com o clima da mormacenta Porto Alegre, da abafada Santa Maria e de outras quenturas mais tradicionais do Estado. Pingando sob a concorrida sombra das marquises das lojas na Avenida Júlio de Castilhos, fico a imaginar se a neve com que o mês de agosto do ano passado nos brindou não teria sido uma alucinação coletiva. Se visto uma camisa vermelha para perambular rumo a uma reunião, me sinto como se fosse um picolé de picanha a verter água pelo centro da cidade. Se me enfronho em uma camisa preta, tenho a sensação de ter me travestido em um carvão de churrasco ambulante.
Via de regra, ao sair de casa apressado catando óculos escuros, carteira, chaves, pasta, caneta e moedas, acabo esquecendo de lambuzar braços, pescoço e rosto com o protetor solar, o que me rende certeiros queimões do sol e justas xingadas da esposa (ambos me deixam corado). Nessas ocasiões, derretendo impunemente e a olhos vistos em público, fico a me perguntar por que diabos não trouxe junto o guarda-chuva, para me proteger da insolação?
Por que cargas d´água a população contemporânea abandonou o uso das sombrinhas nos dias de sol de camelo, uma vez que o apetrecho já foi tão usual e útil em décadas passadas? Afinal de contas, o nome do artefato revela seu uso: sombrinha. Ou seja, foi criada exatamente com o intuito de proporcionar uma sombra particular e ambulante, que acompanha a cabeça do proprietário por onde quer que ele perambule, sem ter de ficar disputando centímetros de alívio sob as marquises ou as árvores, essas cada vez mais escassas em nossos centros urbanos.

Faço aqui o lançamento de um libelo (sempre quis escrever “libelo”) a favor da volta indiscriminada das sombrinhas ao nosso convívio urbano. E que sejam usadas indiscriminadamente por homens e mulheres que não desejam ter seus miolos fritando a qualquer circuladinha de nada pela Praça Dante. Quem me vir, verá...
(Crônica publicada no jornal Pioneiro em 3 de fevereiro de 2014)

segunda-feira, 16 de dezembro de 2013

Fechando o tempo

Estou revoltado. E faz tempo. E revoltado exatamente com o tempo. Não com o tempo cronológico, esse passar das horas que vai enrugando minha pele e esbranquiçando os meus cabelos, me deixando cada vez mais velho. Não, com isso não. Tá, um pouquinho também com isso, admito, mas o foco da revolta hoje é outro. É com o tempo meteorológico. Na verdade, minha revolta é contra a meteorologia. Contra a previsão do tempo. Eu não acredito em meteorologia, e isso é o que me revolta.
Não acredito na capacidade que os meteorologistas alegam ter de conseguirem prever com antecedência de dias o comportamento do clima. Não me venham dizer hoje, segunda-feira, que daqui a três dias, na quinta, vai chover. Admitam: vocês não têm capacitação para tanto. E não é culpa ou incompetência dos meteorologistas, em cuja boa-fé e esforços eu acredito e admiro e respeito. Trata-se apenas de admitir que nós, seres humanos, ainda não alcançamos uma tecnologia científica capaz de oferecer o serviço a que a meteorologia se propõe.
Em resumo: a previsão do tempo é tão científica quanto as profecias de Nostradamus. Deveríamos, aliás, rebatizar a coisa como profecia do tempo, e não previsão. Dia desses, dei-me ao trabalho de acompanhar o andamento da página do tempo nos jornais. Na segunda-feira, os meteorologistas previam não só o comportamento do clima ao longo do dia, como também já se adiantavam em dizer o que iria acontecer no restante da semana. Pois que, assim, na segunda, preconizavam sol para terça e chuva de quarta a sexta. Muito bem. A terça, no entanto, amanheceu com chuva. Já a página meteorológica do jornal na terça, afirmava que sim, choveria no dia (ontem, dizia que faria sol) e que haveria sol de quarta a sexta, desdizendo totalmente a previsão da semana do dia anterior. Tá, mas e aí? Qual das páginas está valendo?

Sem falar no aplicativo de meteorologia baixado em meu tablet. Ele faz a mesma coisa: (des)prediz o (mau) comportamento do clima para a semana toda, e ainda ousa afirmar o estado do tempo em tempo real. Só que dia desses, aquele solzão de fritar formiga no paralelepípedo lá fora, o aplicativo tentava me convencer de que chovia! Foi o cúmulos nimbus! Excluí o aplicativo e liguei para minha sogra. “Não, Marcos, amanhã não chove”, disse ela. E não choveu. Não, ela não é meteorologista. A ciência dela chove vida mesmo.
(Crônica publicada no jornal Pioneiro em 16 de dezembro de 2013)

quarta-feira, 11 de setembro de 2013

Tá, e a neve?


Encontrei parentes e amigos no final de semana passado em minha terra natal, Ijuí, distante 400 quilômetros de Caxias do Sul. A sensação do encontro eram as fotos e filminhos que fizemos aqui, pouco mais de duas semanas atrás, quando a Serra foi brindada com uma das mais significativas nevadas de sua história recente.
Os telhados branquinhos, as calçadas congeladas, as copas das árvores nas ruas parecendo um desfile de pinheiros de natal que só se vê em filmes europeus e norte-americanos. As pessoas encasacadas, enluvadas, entoucadas e enrodilhadas em cachecóis a construir bonecos de neve na frente de suas casas e a brincar no alvo presente da natureza, esquecendo o frio que nos encarangava as almas.
Pois é, isso tudo há tão pouco tempo, e já aparentemente tão distante em nossas memórias, especialmente nesses primeiros dias de setembro que agora nos empurram para o extremo oposto e nos fazem pensar em camelos cruzando o deserto do Saara debaixo de um sol esturricante. Olho para fora da janela e vejo um céu límpido, azul, pontilhado de raras nuvens. O termômetro da sala bate na casa dos 24 graus centígrados (positivos, né), e parece desconfortável ao lado da grossa jaqueta que ainda pende esquecida no encosto da poltrona, pronta para ser vestida a qualquer momento a fim de enfrentar o frio, a chuva, o vento, o inverno, que até ontem ainda nos fazia reclamar e escrever crônicas evocando a visita do sol. Eis ele aí, pois, a pedidos.
Saltamos de um frio de fazer gemer urso polar em uma semana para esses calores de derreter dromedário poucos dias depois, sem que haja tempo para uma transição paulatina que nos permita irmos saindo dumas e entrado noutras com mais vagar. Até o clima parece ter decidido entrar em sintonia com esses tempos modernos criados pela sociedade, nos quais a correria, a transição ultrarrápida, a impermanência das coisas se transforma em regra geral. Neve de madrugada, eclipse de lua com Vênus de noite, calores desertificantes logo ali adiante, chuva e mais chuva daqui a pouco... Todas as opções de clima, temperatura e pressão disponíveis no menu, a fim de satisfazer a todos os gostos. Até a meteorologia parece estar ingressando na era da customização de serviços.

Depois estranham quando uns tomam chimarrão em trajes de praia em plena neve. Por pouco, não fui um deles...
(Crônica publicada no jornal Pioneiro em 11 de setembro de 2013)

segunda-feira, 2 de setembro de 2013

Um convite sincero

Ao contrário do que você possa pensar, não é nada difícil chegar a Caxias do Sul, meu caro. Região serrana, instala-se a 817 metros acima do nível do mar, de cuja orla se distancia por cerca de 180 quilômetros. Se estiver vindo de Santa Catarina, pode acessar o município pelo norte, utilizando a BR-116. Se partir da capital do Rio Grande do Sul, Porto Alegre, utilize a mesma estrada federal, porém, acessará a cidade pelo sul. Conhece Passo Fundo? Pois, então. Também pode partir dali pela BR-285 rumo a Vacaria e de lá acessar Caxias pela afamada BR-116. Como pode ver, muitos são os caminhos capazes de conduzi-lo à nossa populosa, pujante, frenética cidade, que tanto gostaria de acolhê-lo com mais frequência.
Sim, porque somos um povo hospitaleiro, além de possuirmos várias outras características simpáticas e acolhedoras de que nos jactamos para atrair a sua atenção para essas nossas plagas. Mas eu andei gastando seu tempo com dicas de acessos viários terrestres, quando bem sabemos que, quando se decidir a finalmente dar as caras pela nossa cidade, você o fará vindo do alto, atravessando nuvens. Portanto, muito mais útil será oferecer-lhe coordenadas geográficas precisas. Assim, se olhar um mapa, conseguirá facilmente localizar nossa Caxias do Sul situada a 29 graus de latitude e 51 graus de longitude. Fácil, não?
Então fica o convite, feito de forma oficial e fraterna: venha nos visitar! Venha ver a beleza e a simpatia das nossas recém eleitas rainha e princesas da Festa da Uva 2014, o evento que realizamos aqui a cada dois anos para celebrar com orgulho o fruto de nosso trabalho e a concretização de nossos sonhos. Venha ver nosso interior colonial belo e repleto de história da imigração. Venha passear pelas nossas calçadas urbanas movimentadas de gente trabalhadora e faceira. Venha espiar para dentro das nossas casas por entre as frestas das janelas e detectar a alegria com a qual será recebido sempre por todos. Sorrisos se estamparão nos rostos de crianças, homens, mulheres, jovens e adultos, sempre que estiverem em contato contigo e isso será tão bom para cada um de nós quanto para você mesmo.

Garanto a você que será assim. Então venha, sol, venha nos visitar mais vezes. Venha para Caxias do Sul e nos proporcione estadas demoradas, sem data para ir-se de novo esconder por detrás das nuvens. Será recebido calorosamente por todos.
(Crônica publicada no jornal Pioneiro em 2 de setembro de 2013)

terça-feira, 13 de agosto de 2013

Carta a São Pedro

Prezado senhor São Pedro:
Considerando que os meses de frio na região conhecida como Serra Gaúcha costumam se antecipar à chegada oficial do Inverno e se estender até depois de encerrado o prazo de validade dessa sazonal estação climática, fazendo-nos tiritar por cerca de oito dos 12 meses do ano;
Considerando que temperaturas desavergonhadamente baixas desestimulam a prática de esportes ao ar livre e também a prática de atividades quaisquer que sejam indoor, a não ser as relativas ao bate-queixo defronte às lareiras e aos fogões a lenha, quando muito o mergulho para baixo das montanhas de cobertores ainda cedo da noite sem mais nada querer de nada, colocando em risco até mesmo a manutenção da densidade demográfica serrana de que tanto nos orgulhamos, correndo riscos de extinção de toda uma cultura;
Considerando que até mesmo outras regiões como Santa Catarina e Paraná andam ultimamente anfitrionando a manifestação do fenômeno meteorológico conhecido como “neve”, que até então figurava como exclusividade das paisagens gaúchas e, entre elas, especialmente nas dos gaúchos destemidamente residentes na Serra, esvaziando para outras plagas o frio atordoante que até então os alegres turistas de longe só encontravam aqui entre nosotros;
Vimos nós, abaixo-assinados, reivindicar que os frios escorchantes - que nos encarangam as espinhas e gelam as almas até mesmo de quem não crê nelas - passem a ser optativos para cada habitante desta região serrana do Rio Grande do Sul. Que o senhor permita e exercite na prática a pluralidade climatológica individual, em que cada cidadão tenha o direito de vivenciar no inverno a temperatura que melhor aprouver à sua própria saúde, ao seu próprio bem-estar, ao seu pessoal e intransferível conceito individual de “frio” e de “inverno” (para mim, por exemplo, invernos poderiam estabilizar no meu entorno físico em temperaturas amenas que variem entre 15 e 20 graus centigrados, estamos combinados?).
Em sendo assim, agradecemos desde já a atenção dispensada e subscrevemo-nos, deixando-lhe as mais quentes, acolhedoras e aconchegantes manifestações de nossa estima e apreço, na certeza de que o senhor será sensível (e nãoinclemente) ao nosso apelo.

Assinado: Gente da Serra Gaúcha (Marcos Fernando Kirst e os seguintes leitores:..............)
(Crônica publicada no jornal Pioneiro em 13 de agosto de 2013)

sexta-feira, 15 de março de 2013

A bigorna chorona

No interior do interior de Criúva, a estrada de chão batido conduz a uma ferraria, dessas estacionadas na esquina do tempo, onde as ferraduras para cavalo, os cravos e os marcadores de gado ainda são forjados a duros golpes de martelo sobre o ferro em brasa. Madeiras ancestrais deram forma às tábuas que escoram o galpão ao singrar das gerações e o chão em terra acolhe a chuva de suor do ferreiro quando maneja o pesado martelo, nos momentos em que incorpora, sem saber, o aspecto mais característico de Thor, o deus do trovão, sobre a impassível e inabalável bigorna, sua companheira fiel de labuta naquelas escondiduras.
O octogenário ferreiro, aparentando saúde também de ferro, ciceroneia o passeio dos curiosos da cidade chegados de surpresa. Mas é só na hora das despedidas que ele nos apresenta o que ali há de mais curioso: a bigorna que prevê chuva, uma bigorna meteorológica. O homem não jura, porque não precisa jurar, já que a verdade sai em forma de palavras pela sua boca que fala. Ele apenas afirma. Mostra e afirma que a bigorna, esta aqui, e não aquela lá, fica úmida a ponto de escorrer água sempre que o tempo está para chuva. Quando a bigorna chora, o céu chove. Não tem erro. Chora a bigorna, chove, no máximo, dois dias depois. Aquela bigorna ali, e não a outra. A outra deve possuir habilidades mudas e secretas que ainda não foram descobertas, mas esta aqui chora quando chove.
A bigorna estava seca e impassível naquele dia de nossa visita. Não choveria, portanto, tão cedo, presumi. E de fato, o tempo permaneceu firme a semana toda. Mas eu queria ver a bigorna chorando e acompanhei a previsão da meteorologia atentamente, até o dia em que, pelo rádio, soube que haveria chuva dali a dois dias. Toquei-me para a ferraria em Criúva, a fim de ver a bigorna chorando. Cheguei lá, e nada. Bigorna seca e quieta. Fui-me embora desconfiando de lorota e de conversa de ferreiro-pescador, porém, ao contrário da previsão da meteorologia, não houve chuva alguma, o tempo seguiu firme e seco semana adentro. Afinal, só chove quando a bigorna chora. Peguei o telefone do ferreiro e, a partir de agora, não faço mais caso da previsão do tempo. Quando quero saber de chuva, ligo para Criúva.
(Crônica publicada no jornal Pioneiro em 15 de março de 2013)

sexta-feira, 27 de agosto de 2010

Entrando no clima


A constância da instabilidade climática é um dos mais importantes fatores de estímulo à agregação social existentes no mundo. Ter sempre à mão a opção de ingressar pelas veredas do clima em situações de iminente embaraço social é um poderoso instrumento a serviço da sociabilidade humana, sem o qual certamente estaríamos ainda relegados a condições bem mais bárbaras de convivência. Quantos amigos já não fizemos na vida simplesmente mergulhando de mãos dadas em vitupérios contra as chuvas e a umidade, ou deleitando-nos em uníssono pelo retorno do sol que volta a brilhar? A volubilidade das condições meteorológicas é um presente dos deuses na pavimentação de nossa evolução.
Semana passada mesmo, ao dividir um táxi com um estranho, encontrei nele uma comunhão incrível de opiniões, suscitadas por nossa mútua habilidade em desenvolver o tema. Foi assim:
- Bom dia!
- Sim, agora, sim, bom dia, né.
- Pois é, esquentou. Parece primavera.
- Prefiro assim.
- Eu também.
- Chega de chuva.
- Chega.
- Nem parece inverno. Hoje em dia, o frio começa mais tarde e se estende até o final do ano.
- O veranico de maio agora é em agosto.
- É. No meu tempo, verão era verão e inverno era inverno.
- E primavera era primavera.
- Está tudo mudado.
- Tudo.
- Que coisa.
- Bota coisa nisso!
- Bem, tchau, hein.
- Tchau, prazer em conhecê-lo.
- Idem.
Um bom sujeito, com certeza. Opiniões fortes, surpreendentes. Esquecemos de trocar cartões, mas, se o tempo ajudar, haveremos de nos encontrar novamente. Ah, como é bom fazer novos amigos! Bons tempos, esses.
(Crônica publicada no jornal Pioneiro em 27/08/2010)