Uma mescla de sensações me toma desde o início da noite de quinta-feira da semana passada, 29 de julho, quando recebi oficialmente o convite (e o aceitei) para ser o Patrono da 26ª edição da Feira do Livro de Caxias do Sul, que ocorre de 1º a 17 de outubro, na Praça Dante Alighieri. Apaixonado pela leitura e pelo universo dos livros desde sempre, tenho meu histórico de quatro décadas mergulhado em literatura coroado pelo surpreendente convite, que traz consigo uma responsabilidade inimaginável. Excitado, nervoso, feliz, lisonjeado, preocupado... todas essas sensações encontram um pouco de amparo na consciência de que estarei trafegando em meio ao aquário em que mais me sinto à vontade desde que me conheço por gente: o planeta composto por livros, autores, livreiros, editores e leitores.
Sou muito grato pela confiança depositada pela Secretaria Municipal da Cultura, pelo Programa Permanente de Estímulo à Leitura (PPEL), pela recém-criada Associação dos Livreiros Caxienses e pela Secretaria Municipal de Educação, entidades que puxam a frente da Feira. Espero desempenhar à altura das expectativas o papel que se almeja de um Patrono de Feira do Livro, a exemplo das brilhantes participações recentes que pude presenciar nas figuras de outros ex-patronos.
Meu inesgotável encantamento com a leitura e com o universo dos livros deve ter nascente em alguma fonte secreta escondida nos subterfúgios de minha psiquê. É nela que buscarei as energias para apadrinhar a Feira, junto com o apoio de familiares, amigos e colegas amantes dos livros. A companhia de Frei Aldo Colombo abrilhanta a empreitada, uma vez que ele compartilha comigo o desafio na condição de justíssimo homenageado desta edição.
O tamanho do desafio aceito é a chave para engrandecer o desafiado, já dizia Herman Melville, ao compartilhar a grandeza da narrativa que ele se punha a escrever em seu “Moby Dick”: “Dai-me uma pena de condor! Dai-me a cratera do Vesúvio por tinteiro! Amigos, firmai meus braços!”. A sorte está lançada, o desafio está aceito. Uma boa Feira do Livro 2010 a todos, repleta de boas leituras.
(Crônica publicada no jornal Pioneiro em 06/08/2010)
Blog destinado à publicação de crônicas e textos assinados pelo jornalista e escritor Marcos Fernando Kirst em jornais e revistas, além de textos aleatórios quando for o caso.
quinta-feira, 29 de julho de 2010
domingo, 25 de julho de 2010
A gangue dos sinceros
O senso comum, as ideias pré-estabelecidas, os jargões, as frases feitas, os preconceitos, as verdades dos outros repetidas mecanicamente, são coisas que sempre me incomodaram e parece que têm o poder de me incomodar com maior intensidade à medida em que avanço calendário adentro. Escolho um representante desse grupo de atitudes para servir de exemplo a ser explorado na crônica de hoje.
Sinto calafrios terríveis que me sobem do dedinho do pé espinha acima até eriçar os pelinhos do meu pescoço quando escuto alguém repetir a malfadada frase “ah, eu sou uma pessoa muito autêntica, eu digo tudo o que penso, sou muito sincera”. Imediatamente meu Radar Tabajara Para Frases Feitas entra em ação e coloca em alerta todas as minhas defesas sociais. “Cuidado”, penso eu, “estamos diante de um grosso em potencial”. Ato contínuo, se comprovada a tese derivada do alerta (e quase sempre a comprovação vem rapidinho), dou um jeito de me afastar do dito-cujo “autêntico”, porque seguramente lá vem bomba. E das grossas.
Essas minhas quatro décadas - e mais o troco - de vida e de convivência com meus semelhantes me ensinaram algumas coisas, e cheguei à conclusão de que existe uma fronteira muito frágil separando a tal “autenticidade” e a tal “sinceridade” da simples permissão autoconferida para ser meramente grosso. Dizer o que pensa nem sempre é uma atitude civilizada, ou elegante, ou mesmo socialmente estratégica. Na maioria das vezes, acaba descambando, além da já citada grossura, para a mais banal burrice mesmo.
Exemplo prático que ajuda a ilustrar aquilo que até agora só se está falando em tese: um amigo convida você e sua esposa para jantar na casa dele, sábado. Você não sabe (já se pensasse um pouquinho, poderia pelo menos imaginar), mas seu amigo ficou a semana inteira elaborando o cardápio, foi ao mercado, escolheu ingredientes frescos, não economizou na compra do melhor vinho para acompanhar, deixou de lado o descanso do final de semana e passou a tarde inteira na cozinha se esmerando para oferecer-lhe um manjar inesquecível. E você, autentiquinho como gosta de dizer que é, não poupa “sinceridades” à mesa: “o arroz deveria ter ficado mais tempo cozinhando”, dispara você, com sinceridade. “Os filés fritaram demais”, emenda, autêntico. Resultado: se tivesse usado a boca para simplesmente mastigar o rango e de vez em quando grunhir um “hummm” de satisfação, certamente voltaria a ser convidado. Já faz uns dois anos e nunca mais foi chamado, não é mesmo? Pois é: viva a sua sinceridade.
O que aprendi (bem cedo, aliás), é que o exercício da elegância requer saber relevar os eventuais erros dos outros e valorizar as boas intenções. Para nosso próprio bem, sugiro usarmos mais a elegância ao invés dessa duvidosa “sinceridade” que anda pautando as posturas das gentes. Sinceramente...
(Crônica publicada no jornal Pioneiro, de Caxias do Sul, em 23/07/2010)
Sinto calafrios terríveis que me sobem do dedinho do pé espinha acima até eriçar os pelinhos do meu pescoço quando escuto alguém repetir a malfadada frase “ah, eu sou uma pessoa muito autêntica, eu digo tudo o que penso, sou muito sincera”. Imediatamente meu Radar Tabajara Para Frases Feitas entra em ação e coloca em alerta todas as minhas defesas sociais. “Cuidado”, penso eu, “estamos diante de um grosso em potencial”. Ato contínuo, se comprovada a tese derivada do alerta (e quase sempre a comprovação vem rapidinho), dou um jeito de me afastar do dito-cujo “autêntico”, porque seguramente lá vem bomba. E das grossas.
Essas minhas quatro décadas - e mais o troco - de vida e de convivência com meus semelhantes me ensinaram algumas coisas, e cheguei à conclusão de que existe uma fronteira muito frágil separando a tal “autenticidade” e a tal “sinceridade” da simples permissão autoconferida para ser meramente grosso. Dizer o que pensa nem sempre é uma atitude civilizada, ou elegante, ou mesmo socialmente estratégica. Na maioria das vezes, acaba descambando, além da já citada grossura, para a mais banal burrice mesmo.
Exemplo prático que ajuda a ilustrar aquilo que até agora só se está falando em tese: um amigo convida você e sua esposa para jantar na casa dele, sábado. Você não sabe (já se pensasse um pouquinho, poderia pelo menos imaginar), mas seu amigo ficou a semana inteira elaborando o cardápio, foi ao mercado, escolheu ingredientes frescos, não economizou na compra do melhor vinho para acompanhar, deixou de lado o descanso do final de semana e passou a tarde inteira na cozinha se esmerando para oferecer-lhe um manjar inesquecível. E você, autentiquinho como gosta de dizer que é, não poupa “sinceridades” à mesa: “o arroz deveria ter ficado mais tempo cozinhando”, dispara você, com sinceridade. “Os filés fritaram demais”, emenda, autêntico. Resultado: se tivesse usado a boca para simplesmente mastigar o rango e de vez em quando grunhir um “hummm” de satisfação, certamente voltaria a ser convidado. Já faz uns dois anos e nunca mais foi chamado, não é mesmo? Pois é: viva a sua sinceridade.
O que aprendi (bem cedo, aliás), é que o exercício da elegância requer saber relevar os eventuais erros dos outros e valorizar as boas intenções. Para nosso próprio bem, sugiro usarmos mais a elegância ao invés dessa duvidosa “sinceridade” que anda pautando as posturas das gentes. Sinceramente...
(Crônica publicada no jornal Pioneiro, de Caxias do Sul, em 23/07/2010)
sexta-feira, 23 de julho de 2010
O Brasil aos 44 do segundo tempo
Agora, então, terminada a Copa do Mundo da África do Sul, baixou uma sensação de ansiedade geral em relação à necessidade de prepararmos o Brasil para a próxima edição do torneio, previsto para acontecer em plagas verde-amarelas em 2014. O Coelho Branco de Alice saiu da toca e anda correndo para lá e para cá, metendo-se pelo meio dos pés de todos, relógio-despertador na mão (na pata, né), vaticinando “É tarde, é tarde, é tarde, é muito tarde”... Pois é, na minha opinião de velho ranzinza e rabugento, é tarde mesmo, mas fazer o quê...
Está na pauta do dia dos jornais, dos debates e dos programas dos candidatos às eleições as questões referentes à infraestrutura necessária para que sejamos capazes de sediar, sem vergonhas (ah, o bom uso das vírgulas e dos hífens, perceberam, seus sem-vergonha?), o portentoso evento que promete trazer hordas de turistas, muitos dólares, holofotes internacionais e astros da bola. E o que vemos são jornalistas e candidatos e atuais administradores e empresários e palpiteiros de todas as castas rezando em coro que precisamos correr não só para preparar (leia-se reconstruir) os estádios para que atendam às exigências da Fifa, mas também cumprir as demais demandas da Federação Internacional de Futebol.
Que demandas são essas? Ora, a Fifa quer que o país-sede da Copa do Mundo (de QUALQUER Copa do Mundo) disponha de uma rede de transportes em perfeitas condições (tradução simultânea: estradas em ótimo estado de conservação, transporte urbano positivo e operante, sinalização abundante e compreensível etc); aeroportos operacionais; sistema de segurança ativo e competente; opções de lazer e turismo; gente afável, hospitaleira e capaz e se comunicar em inglês (quatro anos para aprender a diferenciar “thank you” de.... bem..... deixapralá) e por aí afora.
Em resumo bem resumido, ficamos assim: temos quatro anos para construir um país apresentável para os padrões da Fifa. Oito semestres para fazermos tudo aquilo que não conseguimos fazer desde que nossos índios avistaram caravelas poluindo as nossas até então imaculadas praias, quinhentos e tantos anos atrás. Duzentas e poucas semanas para maquiarmos o país. Sim, porque, pelo jeito, os padrões da Fifa são bem diferentes dos nossos níveis nacionais de exigência, afinal, quem é que precisa de segurança, saúde, educação, lazer, estradas, metrô, ônibus no horário para ser brasileiro? A gente vem dando um jeitinho e vai levando desde sempre, oras bolas.
E vem cá, as cláusulas de exigências da Fifa incluem também a necessidade de um povo cumpridor de leis, observador de regras civilizadas de convivência, pagador de tributos, respeitador de regras de trânsito, observador de lei do silêncio e por aí afora? Ou podemos continuar sendo os bárbaros mal-educados e incivilizados que somos desde sempre, jogadores de casca de banana na calçada, que não tem problema, desde que os estádios estejam bonitinhos e confortáveis? Ah, bom, então tudo bem, ufa! Achei que eu também teria de mudar!!!!!!!!!!!
(Crônica publicada no jornal Informante, de Farroupilha, em 23/07/2010)
Está na pauta do dia dos jornais, dos debates e dos programas dos candidatos às eleições as questões referentes à infraestrutura necessária para que sejamos capazes de sediar, sem vergonhas (ah, o bom uso das vírgulas e dos hífens, perceberam, seus sem-vergonha?), o portentoso evento que promete trazer hordas de turistas, muitos dólares, holofotes internacionais e astros da bola. E o que vemos são jornalistas e candidatos e atuais administradores e empresários e palpiteiros de todas as castas rezando em coro que precisamos correr não só para preparar (leia-se reconstruir) os estádios para que atendam às exigências da Fifa, mas também cumprir as demais demandas da Federação Internacional de Futebol.
Que demandas são essas? Ora, a Fifa quer que o país-sede da Copa do Mundo (de QUALQUER Copa do Mundo) disponha de uma rede de transportes em perfeitas condições (tradução simultânea: estradas em ótimo estado de conservação, transporte urbano positivo e operante, sinalização abundante e compreensível etc); aeroportos operacionais; sistema de segurança ativo e competente; opções de lazer e turismo; gente afável, hospitaleira e capaz e se comunicar em inglês (quatro anos para aprender a diferenciar “thank you” de.... bem..... deixapralá) e por aí afora.
Em resumo bem resumido, ficamos assim: temos quatro anos para construir um país apresentável para os padrões da Fifa. Oito semestres para fazermos tudo aquilo que não conseguimos fazer desde que nossos índios avistaram caravelas poluindo as nossas até então imaculadas praias, quinhentos e tantos anos atrás. Duzentas e poucas semanas para maquiarmos o país. Sim, porque, pelo jeito, os padrões da Fifa são bem diferentes dos nossos níveis nacionais de exigência, afinal, quem é que precisa de segurança, saúde, educação, lazer, estradas, metrô, ônibus no horário para ser brasileiro? A gente vem dando um jeitinho e vai levando desde sempre, oras bolas.
E vem cá, as cláusulas de exigências da Fifa incluem também a necessidade de um povo cumpridor de leis, observador de regras civilizadas de convivência, pagador de tributos, respeitador de regras de trânsito, observador de lei do silêncio e por aí afora? Ou podemos continuar sendo os bárbaros mal-educados e incivilizados que somos desde sempre, jogadores de casca de banana na calçada, que não tem problema, desde que os estádios estejam bonitinhos e confortáveis? Ah, bom, então tudo bem, ufa! Achei que eu também teria de mudar!!!!!!!!!!!
(Crônica publicada no jornal Informante, de Farroupilha, em 23/07/2010)
quinta-feira, 22 de julho de 2010
Cuidado: você tem o direito de ser mal atendido
Eeeeeita paisinho (diminutivo desabonador da palavra “país” mesmo) esse nosso, hein, tchê?! Olha só a notícia que a imprensa veiculou esta semana: governo federal e empresas pertencentes a três setores (bancos, telefonia e grandes redes de varejo) firmaram um acordo público no qual as ditas empresas se comprometem a cumprir metas de diminuição do número de reclamações a que são submetidas por intermédio dos Procons existentes em todo o país.
Os três segmentos foram escolhidos por serem justamente aqueles que mais acumulam queixas e reclamações dos usuários e clientes. Quem, afinal de contas, não teve problemas absurdos decorrentes de mau atendimento, desleixo ou mesmo má-fé por parte de instituições financeiras, grandes lojas ou telefonia? Dia desses, ficamos sabendo que um senhor de idade morreu de ataque cardíaco por não conseguir (simplesmente NÃO CONSEGUIR) cancelar via 0800 uma linha de internet. Absurdos desse porte andam acontecendo em nossa pátria amada, salve, salve.
Então, o negócio ficou acertado assim: banco X, que em 2009 teve 63.489 processos movidos via Procons, compromete-se em reduzir esse pavoroso índice de mau-atendimento em 13,8% em 2010, baixando o número para “apenas” 54.689 casos. Ou seja, se você é cliente do tal banco, e como ainda estamos recém no primeiro semestre, cuidado: a meta deles ainda não foi atingida, pois admite-se que, em 2010, mais de 54 mil clientes ainda sejam lesados com mau-atendimento. Viu só como é a coisa? Lindo, né? Que prova de civilização, não é mesmo?
Uma primeira leitura superficial do fato pode, aparentemente, indicar a existência de uma BOA notícia. Mas não é bem assim. O acordo, no final das contas, chancela, ou abona, ou avaliza, a permanência de números exorbitantes de casos de mau-atendimento, como aceitáveis. Pois não são aceitáveis. Banco, loja, telefonia atendendo mal é inaceitável em qualquer caso. O índice aceitável de mau atendimento é zero. Somente zero. E nada mais além de zero. Sou cliente. Quero (exijo, tenho o direito de) ser bem atendido SEMPRE em TODOS os bancos, em TODAS as lojas, por TODAS as empresas de telefonia, e de esgoto, e de prestação de serviços, e restaurantes, e butecos sujos e encardidos, e no serviço público, e pelo vendedor de espetinho de gato na saída do estádio de futebol. SEMPRE. Quero e tenho o direito de ser SEMPRE muito bem atendido.
Não admito ser um dos 54 mil e tantos que serão mal atendidos pelo banco X em 2010. Ainda estou à espera da verdadeira boa notícia... Tipo: “Procons fecham as portas em todo o país por inexistência de queixas de mau-atendimento”. Aí sim, né.
(Crônica publicada no jornal Informante, de Farroupilha, em 23/04/2010)
Os três segmentos foram escolhidos por serem justamente aqueles que mais acumulam queixas e reclamações dos usuários e clientes. Quem, afinal de contas, não teve problemas absurdos decorrentes de mau atendimento, desleixo ou mesmo má-fé por parte de instituições financeiras, grandes lojas ou telefonia? Dia desses, ficamos sabendo que um senhor de idade morreu de ataque cardíaco por não conseguir (simplesmente NÃO CONSEGUIR) cancelar via 0800 uma linha de internet. Absurdos desse porte andam acontecendo em nossa pátria amada, salve, salve.
Então, o negócio ficou acertado assim: banco X, que em 2009 teve 63.489 processos movidos via Procons, compromete-se em reduzir esse pavoroso índice de mau-atendimento em 13,8% em 2010, baixando o número para “apenas” 54.689 casos. Ou seja, se você é cliente do tal banco, e como ainda estamos recém no primeiro semestre, cuidado: a meta deles ainda não foi atingida, pois admite-se que, em 2010, mais de 54 mil clientes ainda sejam lesados com mau-atendimento. Viu só como é a coisa? Lindo, né? Que prova de civilização, não é mesmo?
Uma primeira leitura superficial do fato pode, aparentemente, indicar a existência de uma BOA notícia. Mas não é bem assim. O acordo, no final das contas, chancela, ou abona, ou avaliza, a permanência de números exorbitantes de casos de mau-atendimento, como aceitáveis. Pois não são aceitáveis. Banco, loja, telefonia atendendo mal é inaceitável em qualquer caso. O índice aceitável de mau atendimento é zero. Somente zero. E nada mais além de zero. Sou cliente. Quero (exijo, tenho o direito de) ser bem atendido SEMPRE em TODOS os bancos, em TODAS as lojas, por TODAS as empresas de telefonia, e de esgoto, e de prestação de serviços, e restaurantes, e butecos sujos e encardidos, e no serviço público, e pelo vendedor de espetinho de gato na saída do estádio de futebol. SEMPRE. Quero e tenho o direito de ser SEMPRE muito bem atendido.
Não admito ser um dos 54 mil e tantos que serão mal atendidos pelo banco X em 2010. Ainda estou à espera da verdadeira boa notícia... Tipo: “Procons fecham as portas em todo o país por inexistência de queixas de mau-atendimento”. Aí sim, né.
(Crônica publicada no jornal Informante, de Farroupilha, em 23/04/2010)
domingo, 18 de julho de 2010
Para quem ainda sabe onde encontrar o tempo perdido
Vivemos uma era de overdose de informações, em que um leque crescente de mídias disputa diariamente a nossa atenção, dando-nos aquela sensação incômoda de que já não temos mais tempo para nada, e de que a vida passa cada vez mais rápido. Tanto durante os turnos de trabalho quanto nas horas de lazer, somos alvos dos chamariscos constantes feitos pela internet, pela televisão, pelas tevês a cabo, pelos filmes nas locadoras e nos cinemas, pelo acesso fácil à música, pelas revistas especializadas em todos os tipos de assuntos, pelos jornais, pelas rádios, pela multifuncionalidade crescente de engenhocas como telefones celulares, aparelhos de MP3, MP4, MP5, notebooks, laptops, pagers, palms e assim por diante.
O acesso à cultura e à informação está tão facilitado que já não é mais possível viver uma única vida para dar conta daquilo que a tecnologia nos serve de bandeja. Podemos assistir a qualquer filme (lançamento ou clássico), podemos obter qualquer disco ou música específica, podemos ler nossas revistas preferidas pela internet, podemos assistir a fatos históricos em tempo real, podemos cada vez mais tudo e, se nos deixarmos engolfar por essa onda de possibilidades, perceberemos rapidamente que não temos condições de dar conta de tudo o que gostaríamos de consumir e de fazer, pois não haverá tempo hábil.
Frente a esse quadro, temos duas opções: frustrarmo-nos à medida em que tentamos equilibrar consumo com tempo (e retroalimentarmos assim indefinidamente nossa frustração) ou resignarmo-nos a adotar uma postura lúcida frente à situação, resgatando para nós mesmos o controle e o comando sobre o que fazermos com o tempo que temos, criando prioridades, separando joio de trigo, voltando a respirar. É para esse segundo grupo, penso eu, que os livros continuam e continuarão a ser objetos que apresentam significado e valor, permanecerão estabelecendo diálogo e prosseguirão mantendo o status de mídia cobiçável. Só não sei por quanto tempo ainda.
O gênio literário francês Marcel Proust protagonizou um resgate milimétrico da memória ao empreender a compilação de sua obra-prima “Em Busca do Tempo Perdido”, no nascer do século XX, texto que atravessa as gerações encantando os cada vez mais raros leitores que se aventuram pelas saborosas páginas dos sete volumes da saga psicológica ali retratada. Creio que o desafio que nossa raça de leitores (ameaçada pelo risco iminente de extinção) enfrenta nesse alvorecer do século XXI é justamente encontrarmos meios de resgatar o tempo não ainda perdido, mas esse que parece passar voando por entre nossas próprias biografias, domesticando-o, domando-o, desacelerando-o em favor da retomada da sensação de sabor de viver. Quero crer que um aliado crucial para esse processo é o livro.
Bibliotecas e livrarias transformam-se, ao meu ver, nessa era da velocidade absoluta, em templos dedicados ao resgate de um ritual que nos reconecta com um ritmo mais manso e ameno de vida. O ritual da leitura, em suas exigências de silêncio, concentração, introspecção e entrega é, creio, o único bálsamo possível e viável para a reconquista de um ritmo mais humano de existir. Vou morrer acreditando nisso. Quem viver lerá.
(Publicado na seção Planeta Livro da revista Acontece Sul, edição de abril de 2010)
O acesso à cultura e à informação está tão facilitado que já não é mais possível viver uma única vida para dar conta daquilo que a tecnologia nos serve de bandeja. Podemos assistir a qualquer filme (lançamento ou clássico), podemos obter qualquer disco ou música específica, podemos ler nossas revistas preferidas pela internet, podemos assistir a fatos históricos em tempo real, podemos cada vez mais tudo e, se nos deixarmos engolfar por essa onda de possibilidades, perceberemos rapidamente que não temos condições de dar conta de tudo o que gostaríamos de consumir e de fazer, pois não haverá tempo hábil.
Frente a esse quadro, temos duas opções: frustrarmo-nos à medida em que tentamos equilibrar consumo com tempo (e retroalimentarmos assim indefinidamente nossa frustração) ou resignarmo-nos a adotar uma postura lúcida frente à situação, resgatando para nós mesmos o controle e o comando sobre o que fazermos com o tempo que temos, criando prioridades, separando joio de trigo, voltando a respirar. É para esse segundo grupo, penso eu, que os livros continuam e continuarão a ser objetos que apresentam significado e valor, permanecerão estabelecendo diálogo e prosseguirão mantendo o status de mídia cobiçável. Só não sei por quanto tempo ainda.
O gênio literário francês Marcel Proust protagonizou um resgate milimétrico da memória ao empreender a compilação de sua obra-prima “Em Busca do Tempo Perdido”, no nascer do século XX, texto que atravessa as gerações encantando os cada vez mais raros leitores que se aventuram pelas saborosas páginas dos sete volumes da saga psicológica ali retratada. Creio que o desafio que nossa raça de leitores (ameaçada pelo risco iminente de extinção) enfrenta nesse alvorecer do século XXI é justamente encontrarmos meios de resgatar o tempo não ainda perdido, mas esse que parece passar voando por entre nossas próprias biografias, domesticando-o, domando-o, desacelerando-o em favor da retomada da sensação de sabor de viver. Quero crer que um aliado crucial para esse processo é o livro.
Bibliotecas e livrarias transformam-se, ao meu ver, nessa era da velocidade absoluta, em templos dedicados ao resgate de um ritual que nos reconecta com um ritmo mais manso e ameno de vida. O ritual da leitura, em suas exigências de silêncio, concentração, introspecção e entrega é, creio, o único bálsamo possível e viável para a reconquista de um ritmo mais humano de existir. Vou morrer acreditando nisso. Quem viver lerá.
(Publicado na seção Planeta Livro da revista Acontece Sul, edição de abril de 2010)
Passagem de graça ao País das Maravilhas
Se é verdade que a Arte imita a Vida, verdadeiro é também que a Arte retroalimenta indefinidamente a própria Arte. Cinema e literatura, por exemplo, são duas expressões artísticas que parecem ter sido criadas uma para a outra, tamanha a capacidade que uma tem de inspirar e insuflar novos ventos na outra. Vem sendo assim desde o nascimento da chamada Sétima Arte, que tem nas obras impressas uma de suas maiores fontes de inspiração para recriar nas telas a magia pela qual o cinema se caracteriza.
Transformar em roteiros cinematográficos os enredos, as situações e os personagens gerados nos livros por escritores no transcorrer dos séculos é meio caminho andado (dependendo da competência de produtores, diretores, roteiristas e atores) para alcançar sucesso nas salas de cinema. A recíproca se dá de forma direta: não poucas são as obras e mesmo os autores que têm suas famas redespertadas ou finalmente descobertas devido ao sucesso alcançado por suas transposições cinematográficas.
Recentemente, as atenções dos novos leitores foram direcionadas para a obra clássica do escocês Arthur Conan Doyle (1859 – 1930), criador do detetive londrino Sherlock Holmes, devido à renovação que o personagem ganhou nas telas de cinema com o filme estrelado por Robert Downey Jr no papel-título. Apesar do desempenho mais do que convincente do ator, a narrativa e o andamento do filme foram enfadonhos, situando-se aquém do eu se esperava em se tratando de um dos ícones da literatura universal. O que não impediu, no entanto, que o interesse pelas aventuras do cerebral detetive fosse reavivado e os títulos, durante alguns meses, voltaram às vitrines das livrarias em boa parte do mundo.
O mesmo acontece agora com as aventuras de Alice, a menina que frequenta o País das Maravilhas em sonhos, criada pelo escritor inglês Lewis Carroll (1832 – 1898) e revisitada agora nas telas pelas lentes do diretor Tim Burton. Mais do que apenas uma adaptação do livro, o enredo do filme parte do pressuposto de uma Alice um pouco mais velha, agora com 19 anos, distante 10 anos das aventuras que vivenciou junto ao Chapeleiro Maluco, à Rainha de Copas e ao Coelho Branco. O show de efeitos especiais e a presença de atores como Johnny Depp, Helena Bonham Carter e Anne Hathaway no elenco vêm garantindo o sucesso nas telas e também a revitalização das obras originais (“Alice no País das Maravilhas” e “Através do Espelho e o Que Alice Encontrou Lá”) nas prateleiras das livrarias.
Para quem pretende aproveitar a onda e mergulhar na leitura dos textos originais (e eu reforço a intenção, pois trata-se de ótima leitura), vão aqui algumas informações que julgo interessantes em relação à obra e ao autor. Em primeiro lugar, “Alice” é muito mais do que apenas uma pretensa obra para crianças. Até pode ser lida dessa maneira, uma vez que Carroll as escreveu (são dois livros, já citados acima) tendo como público-alvo primeiro sua amiga Alice Liddell, então com 10 anos de idade. Ao contrário do que o sensacionalismo gosta de pregar, Carroll não era pedófilo (jamais comprovou-se nada nesse sentido contra ele); apenas apreciava produzir fotos artísticas (técnica novíssima à época) de meninas, e encantava-se com o mágico mundo da lógica infantil.
Lewis Carroll é, na verdade, um anagrama (palavra formada por transposição de letras), um pseudônimo criado a partir do nome verdadeiro do autor: Charles Lutwidge Dodgson. Ele trocou a ordem das iniciais de seu nome verdadeiro (C.L. para L.C.), e criou um novo nome a partir daí: Lewis Carroll. Além disso (e obviamente não por coincidência), as novas iniciais, quando pronunciadas em inglês, produzem um som muito parecido com o nome de sua musa inspiradora da personagem: Alice. Experimente dizer L.C. em voz alta, em pronúncia inglesa...
Jogos mentais dessa natureza são o insumo fundamental para a criação da obra literária imortal de Carroll, que agora temos uma oportunidade sazonal interessante para conhecer e/ou redescobrir. Basta seguir as pegadas do Coelho Branco, porque, afinal de contas, para a boa leitura, jamais “é tarde, é tarde, é tarde, é muito tarde”...
(Publicado na seção Planeta Livro da revista Acontece Sul, edição de maio de 2010)
Quem morre antes: o livro ou o leitor?
Aos poucos, começo a achar que o advento da internet e da vida online não configuram Cavaleiros do Apocalipse cuja missão secreta e maquiavélica é acabar com a raça dos livros impressos. Ao que tudo indica, a estimativa de vida dos códices como nós os conhecemos ainda é longa, não há motivo para mais choro, desespero e ranger de dentes. Aliás, o tempo e as energias gastos se martirizando frente a um discutível ocaso dos livros feitos em papel palpável deveriam ser melhor empregados lendo livros e/ou estimulando a leitura e a aquisição de obras interessantes. Só assim estaremos concretamente fazendo frente à temerária extinção dos livros, impedindo que, antes deles, desapareçam mesmo é os leitores.
Apesar de toda a histeria que surge quando se fala em livros cibernéticos e textos digitalizados, os números relativos ao tradicional mercado livreiro ao redor do planeta desmentem os prognósticos catastrofistas direcionados ao produto livro-de-verdade-impresso-em-papel-e-encadernado-com-capa. Editoras surgem como negócios viáveis e rentáveis a torto e a direito e lança-se e edita-se livros como nunca antes na história da humanidade. E as estatísticas falam por si: segundo pesquisas internacionais, 700 mil novos títulos foram publicados ao redor do mundo em 1998. Em 2003, foram 859 mil novos títulos. Em 2007, o número de novas obras chegou a 976 mil. Seguramente a Terra já está colocando no mercado um milhão de novos títulos de livros à venda por ano. Sem falar nos relançamentos de obras consagradas e de reedições de títulos que caem no gosto do público.
Isso tudo, reforce-se bem, refere-se aos livros “livros-mesmo”, aqueles objetos sólidos que a gente pega com as mãos e lê na cama, no quarto, leva junto na pasta ou na bolsa, carrega no ônibus ou na fila do banco. Não me parecem, na verdade, serem seres que pertençam a uma espécie em extinção. Repito que temo mesmo é pelo sumiço da raça dos leitores muito antes do desaparecimento dos livros. Minha visão de final dos tempos é um mundo em que os livros de repente se vejam órfãos de leitores, e não o contrário. Convenhamos que meu pesadelo é bem mais assustador e, por isso mesmo, mais próximo da realidade do que um inverossímil fim dos livros. Infelizmente.
De acordo com outra recente pesquisa feita entre estudantes franceses, 43% deles (tirei esses dados todos da leitura do livro “A Questão dos Livros”, do autor norte-americano Robert Darnton) consideram o cheiro como uma das características mais importantes dos livros impressos. Importante a tal ponto que eles evitam adquirir livros eletrônicos, desprovidos de características odoríferas (e de literatura e de cheiros, convenhamos, os franceses entendem). Ou seja: o ato de ler a partir do suporte livro impresso é uma atividade que envolve não só a questão intelectual dos seres leitores, mas também estimula todos os seus demais sentidos, como o tato (o prazer de pegar e folhear um livro), a visão (namorar visualmente a capa e o trabalho gráfico de um livro), o olfato (os odores característicos de livros velhos e novos), a audição (o som do silêncio reinante em um ambiente propício para a leitura, ou o barulho do vento nas árvores, dos pássaros, de uma cachoeira ou da rebentação do mar, próximo aos quais lemos) e o gosto, pois quem nunca teve as papilas gustativas acionadas ao degustar o prazer de uma boa leitura é porque ou não sabe ler ou jamais se deparou com uma leitura saborosa.
Em suma, proponho que fiquemos assim: enquanto houver leitores que os apreciem, os livros impressos continuarão a existir. São como os deuses gregos e romanos, que viveram enquanto tiveram quem acreditasse neles. Depois, tornaram-se mitos e lendas e, nessa condição, permanecem vivos em nossa cultura. Espero estar longe ainda de minha descendência a época em que os livros impressos se reduzirão a mitos e lendas. Cabe a cada um de nós afastar para longe a chegada desse dia.
(Publicado na seção Planeta Livro da revista Acontece Sul, ediçao de julho/2010)
Apesar de toda a histeria que surge quando se fala em livros cibernéticos e textos digitalizados, os números relativos ao tradicional mercado livreiro ao redor do planeta desmentem os prognósticos catastrofistas direcionados ao produto livro-de-verdade-impresso-em-papel-e-encadernado-com-capa. Editoras surgem como negócios viáveis e rentáveis a torto e a direito e lança-se e edita-se livros como nunca antes na história da humanidade. E as estatísticas falam por si: segundo pesquisas internacionais, 700 mil novos títulos foram publicados ao redor do mundo em 1998. Em 2003, foram 859 mil novos títulos. Em 2007, o número de novas obras chegou a 976 mil. Seguramente a Terra já está colocando no mercado um milhão de novos títulos de livros à venda por ano. Sem falar nos relançamentos de obras consagradas e de reedições de títulos que caem no gosto do público.
Isso tudo, reforce-se bem, refere-se aos livros “livros-mesmo”, aqueles objetos sólidos que a gente pega com as mãos e lê na cama, no quarto, leva junto na pasta ou na bolsa, carrega no ônibus ou na fila do banco. Não me parecem, na verdade, serem seres que pertençam a uma espécie em extinção. Repito que temo mesmo é pelo sumiço da raça dos leitores muito antes do desaparecimento dos livros. Minha visão de final dos tempos é um mundo em que os livros de repente se vejam órfãos de leitores, e não o contrário. Convenhamos que meu pesadelo é bem mais assustador e, por isso mesmo, mais próximo da realidade do que um inverossímil fim dos livros. Infelizmente.
De acordo com outra recente pesquisa feita entre estudantes franceses, 43% deles (tirei esses dados todos da leitura do livro “A Questão dos Livros”, do autor norte-americano Robert Darnton) consideram o cheiro como uma das características mais importantes dos livros impressos. Importante a tal ponto que eles evitam adquirir livros eletrônicos, desprovidos de características odoríferas (e de literatura e de cheiros, convenhamos, os franceses entendem). Ou seja: o ato de ler a partir do suporte livro impresso é uma atividade que envolve não só a questão intelectual dos seres leitores, mas também estimula todos os seus demais sentidos, como o tato (o prazer de pegar e folhear um livro), a visão (namorar visualmente a capa e o trabalho gráfico de um livro), o olfato (os odores característicos de livros velhos e novos), a audição (o som do silêncio reinante em um ambiente propício para a leitura, ou o barulho do vento nas árvores, dos pássaros, de uma cachoeira ou da rebentação do mar, próximo aos quais lemos) e o gosto, pois quem nunca teve as papilas gustativas acionadas ao degustar o prazer de uma boa leitura é porque ou não sabe ler ou jamais se deparou com uma leitura saborosa.
Em suma, proponho que fiquemos assim: enquanto houver leitores que os apreciem, os livros impressos continuarão a existir. São como os deuses gregos e romanos, que viveram enquanto tiveram quem acreditasse neles. Depois, tornaram-se mitos e lendas e, nessa condição, permanecem vivos em nossa cultura. Espero estar longe ainda de minha descendência a época em que os livros impressos se reduzirão a mitos e lendas. Cabe a cada um de nós afastar para longe a chegada desse dia.
(Publicado na seção Planeta Livro da revista Acontece Sul, ediçao de julho/2010)
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