Mostrando postagens com marcador crianças. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador crianças. Mostrar todas as postagens

sexta-feira, 17 de julho de 2015

O ataque do minion

O ataque de que fui vítima deu-se no final da manhã do último domingo, ali em casa, mesmo. Eu estava sentado na minha poltrona preferida na sala, conversando distraído com as visitas que recebia para o almoço dominical em família, quando fui inesperadamente atingido no peito pelo atacante. Não houve violência, era uma brincadeira protagonizada pelo meu afilhado/sobrinho de pouco mais de três anos de idade, que conduzia pela mãozinha o voo do minion que mirava justamente o meu peito.  Plaf! Que susto!
O objetivo do ataque, logo percebi, fora atingido: pregar um susto no dindo, o que se confirmou por meio das gargalhadas do afilhado e do minion, que alegremente invadiram a sala e paralisaram as conversas e os preparos da mesa. Só que nem tudo fora planejado com perfeição pela dupla, e partes do minion se soltaram após o choque contra a fortaleza que revelou ser meu peito, fazendo desaparecerem momentaneamente os óculos e os pés do boneco amarelo. Tive de me levantar da poltrona e ajudar o afilhado, que dava sinais de que em breve entraria em um leve desespero, a procurar as partes destroçadas de meu algoz, dando assim, eu, uma clara prova de magnanimidade e de postura ética em combate capaz de render medalha de honra junto à Cruz Vermelha.
Encontradas as peças e devidamente restabelecida a integridade física do minion, fomos almoçar. De sobremesa, minha esposa havia comprado, para o afilhado, um desses ovinhos de chocolate com surpresa dentro. Na verdade, dois ovinhos. E adivinhem o que havia dentro deles, para a surpresa minha: mais dois minions, fazendo assim crescer a gangue dentro de minha própria casa! À noite, na sala remergulhada em seu silêncio típico, fui investigar na internet sobre a essência desses tais minions, seres amarelados em formato de dedo, que fazem sucesso nos cinemas com a criançada. E descobri muitas coisas, que compartilho a seguir.

Os minions, se você ainda não sabe, leitor, são criaturas unicelulares milenares, cuja vocação é agirem como capangas de vilões famosos. Atrapalhados e engraçados, são bastante estúpidos e fofos, daí o sucesso dos bichinhos junto às famílias. E eu achando que eles não passavam de fandangos fugidos do saco de salgadinhos. Mas ok, agora posso dormir tranquilo e informado. Nada como um afilhado para me manter atualizado com o mundo.
(Crônica publicada no jornal Pioneiro em 17 de julho de 2015)

quarta-feira, 3 de dezembro de 2014

Compromisso intransferível

O convite estava agendado há mais de mês e não havia a menor possibilidade de ser negligenciado. Chovesse canivetes, morresse o papa, revolução eclodisse, a cobra fumasse, corruptos se arrependessem, o sol congelasse, o sertão virasse mar ou o mar virasse sertão, só havia uma única alternativa: comparecer. Assim, comparecemos, minha esposa e eu, à apresentação de final de ano organizada pela escolinha maternal que nosso afilhado de dois anos e meio frequenta, no domingo que passou. Afinal, não basta ser dindo, tem de participar.
Meu afilhado foi fantasiado de leão, uma vez que esse é um personagem que ele encarna com perfeição no dia-a-dia, especialmente quando me vê e se põe a rugir exibindo a fileira de dentinhos de leite e franze o nariz como se fosse o focinho de um felino bravo e faminto. As mãozinhas em garras completam a performance, valorizada com o meu susto e minhas fugas tresloucadas.
Assistimos, então, à apresentação preparada pelas profes, reunindo a gurizada dos maternais, dos berçários e do jardim no palco, entre leões, homens-aranha, homens-de-ferro, princesas, brancas-de-neve, batmans e outros personagens, uns cantando direitinho a música ensaiada, outros batendo palmas, alguns olhando para trás, vários deles abanando para papais, mamães, dindos e titios na plateia, um que outro estaqueado feito estátua frente a tantos adultos sorridentes olhando para eles, tudo devidamente registrado em aparelhos celulares, máquinas fotográficas e tablets, para a posteridade.
Encerrada a parte oficial, partimos para o que realmente interessava: as crianças rumo aos brinquedos instalados no ginásio e os adultos rumo ao setor dos comes e bebes, onde o cachorro-quente e o algodão-doce estavam divinos. Difícil foi resistir ao convite insistente do afilhado, que queria me puxar para dentro de um cercadinho em que mal cabiam ele e um amiguinho, pulando alegremente sobre uma cama elástica. “Didu, enta!”, foi o convite. Óbvio que eu não cabia ali dentro, apesar da vontade. Mas valeu o presente de ter sido visto pela dupla como um igual, cuja companhia no brinquedo lhes seria bem-vinda. Foi uma honra.

 (Crônica publicada no jornal Pioneiro em 3 de dezembro de 2014)

domingo, 12 de outubro de 2014

Correrias de outrora

Eu, aos cinco anos de idade, já vendo o mundo por meio de outros prismas

Naqueles dias, todo o dia era dia da criança. Gostávamos de brincar de esconde-esconde, que em Ijuí, naqueles idos, conhecíamos como “siscondê”, uma corruptela de “se esconder”. “Vamos brincar de siscondê”, dizíamos os mais velhos, e sempre dávamos um jeito de, na contagem, forçar para que um dos menores já saísse “fechando”, ou seja, cabia a ele debruçar-se sobre o tronco da timbaúva cravada no centro do quintal de casa, fechar os olhos e contar pausadamente em voz alta até 50, que era o tempo que tínhamos para sair em disparada a nos camuflarmos pelo pátio, a fim de sermos procurados pelo garoto que “fechava”.
Eita correria que, via de regra, rendia alguns joelhos esfolados a serem tratados com Mertiolate ao final do dia. Correria que só se equiparava a quando mudávamos a brincadeira para “lets”. “Vamos brincar de lets”, sentenciávamos, e lá ia um dos menores, encarregado de ter o “lets”, a correr atrás dos outros. Quando encostava a mão em alguém, gritava “lets”, e transferia automaticamente a ele a incumbência de correr atrás dos outros, portando o “lets”. Que diabos significava “lets”? Perdi de descobrir nos tempos da infância, agora passou, morrerei com a dúvida.
Com cinco anos de idade eu já tinha um par de óculos enfiados na cara, mas isso não me impedia de correr muito na hora do “lets” e do “siscondê”. No jardim de infância, brincávamos de lobos (os meninos) e ovelhas (as meninas). Os lobos deviam capturar as ovelhas, que iam sendo “presas” na cancha de areia. Certa vez eu, lobo, trombei feio com uma ovelha, cuja cabeça era mais dura do que a minha. Um galo na testa amansou o lobo que havia em mim.

Aos dois anos de idade, meus pais pediram para eu reunir todos os meus brinquedos na porta da frente de casa, para uma foto. Observo eu ali e me vejo cercado pelo caminhão de madeira, a girafa de plástico, o patinho também de plástico que eu alimentava com comida de verdade por um furo que lhe fiz no bico, uma cadeirinha azul em que eu sentava para comer mingau. E tudo isso olhando apenas duas fotos do álbum. Como a gente esquece quanta criança já coube dentro de nós um dia...
(Crônica publicada no jornal Pioneiro em 11 de outubro de 2014)

terça-feira, 7 de outubro de 2014

Convite mágico

Entreouvidos em um salão de beleza, onde quem presenciou a cena pintava as unhas (não, não era eu, ainda não aderi à onda capitaneada pelo escritor Fabrício Carpinejar, de homens de unhas pintadas, por pura preguiça ou, talvez, por falta de coragem). Mas eu dizia...? Ah, sim, sobre uma cena ocorrida nos domínios infinitos de um salão de beleza, enquanto minha fonte secreta deixava que lhe pintassem as unhas de que mesmo...? Vermelho amor-perfeito? Vermelho Gabriela? Vermelho deixa beijar? Bom, algum vermelho desses de nome criativo, mas era vermelho, né, amor? Adiante.
A minha fonte essa lá, mãozinha estendida, o esmalte lhe sendo pincelado delicada e concentradamente pela manicure (que quando lhe faz os pés se transforma em pedicure e suponho que, ao cortar-lhe os cabelos, vire cabelocure) e o filhote dela, da manipedicabelocure, de oito anos, circulando pelo salão, interagindo com as freguesas. Ele gosta de fazer mágicas, o garoto. Estaciona defronte às clientes que folheiam revistas enquanto aguardam a vez e se bota a encantá-las com seus truques ainda não bem treinados, o que tem o poder de encantar ainda mais e enternecer o coração de mãe que bate dentro de qualquer cliente de salão de beleza, seja ela já mãe ou não, seja ele já pai ou não. Sim, porque dentro de homem também pode bater coração de mãe, acredite. Já vi. Existe e não é mágica.
Pois o garoto ali, magicando para a cliente e falando com ela, até que lhe faz a pergunta sobre se ela iria sábado ao aniversário da Júlia. “Não, não vou”, respondeu a cliente, surpresa. “Eu não conheço essa Júlia”, emendou ela. “Ué, mas se você for, você vai conhecê-la”, respondeu o mágico garoto, imerso em sua irretrucável lógica de oito anos de idade. Na visão dele, o fato de a cliente não conhecer Júlia não é argumento válido para ela se fazer ausente da festa de Júlia no sábado. Pelo contrário, trata-se mesmo é de um bom motivo para ir à festa, a fim de lá, então, conhecer Júlia. Mágica, pura mágica. Eu, fosse ela, iria, e a Júlia que perdoasse o penetra.

 (Crônica publicada no jornal Pioneiro em 7 de outubro de 2014)

quarta-feira, 5 de fevereiro de 2014

Divirtam-se, já!

Não sou pai, mas posso imaginar que, quando as férias de verão se aproximam, surge sempre o mesmo dilema: o que fazer para entreter as crianças? Hoje em dia, sei que alguns optam pela saída mais fácil (e menos recomendável), que é a de renovar o estoque de joguinhos eletrônicos e de dvds, sem esquecer de reforçar o forro do sofá da sala, onde a galerinha acampará ao longo dos meses que lhes cabem longe dos cadernos (ainda se usa caderno em sala de aula?). Outros, no entanto (e felizmente), se esforçam um pouco mais e buscam alternativas criativas.
Meus pais, nos idos dos anos 1970, quando eu era criança, buscavam essas alternativas criativas, até porque ninguém sonhava, na época, com a existência de joguinhos eletrônicos e muito menos com a possibilidade de assistir a filmes em casa que não fosse sintonizando a televisão na Sessão da Tarde. Pois eis que, então, deu de surgir lá em Ijuí a febre das colônias de férias. “Ah, que boa ideia, arrebanhar a gurizada e jogá-los juntos, o dia inteiro, ao longo de algumas semanas, numa colônia de férias, de onde só saem para virem dormir em casa”, alegravam-se os meus pais e os de outras dezenas de coleguinhas. “Ó vida, ó céus”, pensava eu, arrumando a mochilinha, vestindo o calção e a camiseta, calçando o tênis Bamba (Kichute não, porque entortava os pés) e indo para a frente do portão, aguardar a chegada da Kombi do Quartel que me tiraria de meu quarto, de meus livros, de meus gibis, das histórias em quadrinhos que eu tinha de produzir, para me levar a mais um looooongo e penoso dia de... colônia de férias!
Pois tinha mais essa: a colônia de férias, lá naquela Ijuí de minha infância, era promovida pelo Quartel. Éramos entregues às mãos de sargentos, cabos e soldados que se punham, com aquela didática e pedagogia infantis que se pode muito bem imaginar, a nos enfileirar em ordem unida, a marcharmos à cadência da corneta e do tambor, a dizermos “sim, senhor!”, a rirmos obrigatoriamente da piadinha incompreensível gritada pelo instrutor, a fazermos flexões e polichinelo, a jogarmos futebol (minha tática era sempre correr para o lado oposto da bola), a suarmos feito doidos.

Saudades? Sim, da hora do lanche. Pães com margarina e mortadela, tirados por um soldado boa praça de um enorme e profundo latão, acompanhados por um copão de Toddy bem gelado. E que alegria quando voltavam as aulas!
(Crônica publicada no jornal Pioneiro em 5 de fevereiro de 2014)

terça-feira, 4 de fevereiro de 2014

Bom trabalho, garotos!

Não tem como não se emocionar com a matéria de capa de ontem do jornal Pioneiro. O ato heroico da dupla de irmãos Daniel (cinco anos) e João Pedro Michelin (três anos), ao salvarem do afogamento na piscina o síndico do prédio em que moram, Armindo Gargioni, 65 anos, em Caxias do Sul, alcançou alta repercussão, e não é para menos.
Trajando os uniformes de alguns de seus super-heróis preferidos dos quadrinhos e da TV, Batman (Daniel) e The Flash (João Pedro), os heróis-mirins estavam à vontade entre os braços agradecidos do amigo que pescaram da morte ao perceberem que se afogava na piscina em que havia entrado para dar um mergulho. O reencontro do trio, ocorrido domingo no quarto do hospital em que o salvado se recupera, foi temperado de emoção e alegria e registrado para a história pelo Pioneiro. Os heróis de carne e osso, sorridentes e orgulhosos, faziam poses dos super-heróis da ficção trajando os uniformes dos personagens, para a câmera do fotógrafo.
 Mas eles não enganam ninguém: todos nós já conhecemos suas identidades nada secretas e admiramos seus feitos, sua índole, sua determinação, seu destemor, sua preocupação para com o próximo, sua empatia, sua consciência cidadã, sua certeza de saber o que é o certo a ser feito. No curso natural da vida, o mais comum é as crianças projetarem nas figuras de seus pais e dos demais adultos que os cercam (professores, parentes, ou mesmo ídolos da mídia) o perfil de heróis em cujos exemplos se espelham. Mas Daniel e João Pedro inverteram essa lógica.
Passamos todos a admirar a duplinha como exemplo de bons cidadãos. Ou melhor, de bons seres humanos. Ou, melhor ainda: de boas pessoas. Aquelas boas pessoas que todos nós já fomos um dia e que esquecemos de continuar sendo quando transformamos o trânsito em um inferno incivilizado, quando adotamos a postura do “eu-por-mim-e-o-resto-que-se-dane”, quando furamos fila, quando nos achamos os mais espertos, quando agimos daquelas maneiras horrorosas que nos fazem cair dentro do enorme grupo dos “folgados” que o colunista do Pioneiro Gilberto Blume tanto (e tão bem) identifica.

A atitude dos nossos pequenos Batman e The Flash nos enche de esperanças em relação a um futuro melhor a ser construído por quem nos sucederá no palco da vida. E esses protagonistas já estão em ação. Tomara que sejam maioria.
(Crônica publicada no jornal Pioneiro em 4 de fevereiro de 2014)

quinta-feira, 12 de dezembro de 2013

A galinha a postos

Foi combinado que meu afilhado de um ano e meio passaria um dia inteiro conosco no sábado passado, enquanto seus pais aproveitariam a “folga” para cumprir algumas demandas no centro da cidade. Nós, por nosso lado, aproveitaríamos para nos encantarmos com as surpresas que o seu ininterrupto processo de descobertas do mundo proporciona.
Coube a mim, na véspera, providenciar a lista organizada por minha esposa, a título de “preparativos para a visita do João Vitor”. No supermercado, fui à caça de caixas de suco, já que João Vitor curte suco. Depois, fui à cata de banana, maçã e frutas em geral, uma vez que João Vitor já come de tudo com seus quatro dentinhos sorridentes. O iogurte veio em quantidade pensada para sobrar para os dindos, essa dupla de gulosos. O pacotinho de balões coloridos foi encontrado, após quilômetros de gôndolas rodados, na seção de festas, Marcos, seu asno. E uma caixa de cerveja bock. Para mim e minha esposa, claro, celebrarmos à noite o sucesso da empreitada.
Ao chegar em casa, mais lista de tarefas. A principal delas: deixar engatilhado o DVD com os filminhos da Galinha Pintadinha (aquela que usa saia e tem um monte de pintinha, sabe?), remédio eficaz para acalmá-lo em caso de início de choro inexplicável (depois descobrimos que a tal galinha e seu Galo Carijó andam perdendo popularidade para desenhos do Scooby-Doo e outros em que figurem “au-aus” diversos). Os choros não aconteceram, mas a Galinha até que ajudou na hora da naninha depois do almoço, pois que também ninguém é de ferro, muito menos um dindo quase cinquentão (eu, ao menos, dispensei a mamadeira).

Por fim, devia arregimentar os brinquedos. João Vitor, quando vem nos visitar, costuma trazer junto vários deles, e assim o fez. Mesmo assim, reuni os bichinhos de pelúcia que habitam nossa casa e que vêm à luz nessas ocasiões. Porém, tudo se mostrou desnecessário. João Vitor passou horas se entretendo mesmo foi com os balões e com um cestinho de prendedores de roupas. O cestinho, emborcado, era empurrado pela casa toda à guisa de caminhão desenfreado. Os prendedores ornamentaram, um a um, a cerca do terraço, a título de enfeite natalino. Na sua inocência infantil, João Vitor não depende de marcas, de moda ou de status para obter satisfação e alegria. Já a minha cerveja noturna não podia ser outra senão aquela da marca especial que eu mais aprecio, claro.
(Crônica publicada no jornal Pioneiro em  12 de dezembro de 2013)

quarta-feira, 20 de novembro de 2013

Beijo na testa

A certa altura na tarde daquele domingo, Mariana cansou de correr defronte às vitrines das lojas situadas naquele lado do shopping e resolveu assentar-se em uma das cadeirinhas de plástico dispostas por ali, do tamanho dela. Havia cinco ou seis mesinhas enfileiradas, cada qual com seu jogo de quatro cadeirinhas de cores alternadas, e Mariana escolheu uma verde para recostar o corpinho exausto de tanto gastar energias.
Sentou-se direitinho, cruzou as mãozinhas e retribuiu largamente o sorriso que lhe endereçavam os pais sentados poucos metros adiante, a uma das mesas da praça da alimentação, nas cadeiras grandonas do tamanho deles. Depois de intercalar durante mais de meia hora atividades como corridas aceleradas para tirar os pais da inércia, gritos alegres inesperados para enchê-los de satisfação e distribuir beijinhos com as mãos a todos os passantes para provar aprendia o que lhe era ensinado, agora Mariana requeria alguns minutos de descanso, enquanto planejava o que fazer assim que resolvesse saltar da cadeirinha, dali a pouco.
Mas sua atenção foi desviada para a mesinha ao lado, na qual se colocava um garoto cerca de um ano mais velho do que ela, que logo descobriu chamar-se Gael. O rapazote encaixou-se em uma das cadeirinhas, uma azul, e nitidamente tentava chamar a atenção de Mariana, apesar de quase derretendo de vergonha. Quando supôs que ninguém, exceto ela, estava vendo, Gael ousou fazer um gesto com a mão para que Mariana viesse sentar-se à sua mesa, o que ela compreendeu imediatamente e não hesitou em ababdonar sua cadeira verde para ir se posicionar ao lado de Gael, em uma branca.

Gael observava-a de canto de olho sem dizer nada, ao passo em que Mariana estendeu-lhe o bracinho esquerdo, exibindo a pulseirinha que, com muito orgulho, mostrava a todos os que se aproximavam dela desde manhã cedo, quando a mãe lhe colocara o adereço. Gael enrubesceu e encolheu-se todo, enfiando o pescoço para dentro da gola da camisa, sem saber como reagir agora que o convite para a aproximação fora surpreendentemente aceito. Para se livrar da situação de maneira honrosa, tascou de repente um beijo na testa da menina e saiu correndo ao encontro de seus próprios pais, derrubando a cadeirinha em que se sentava e deixando Mariana com cara de susto, sozinha, na mesa. Meia hora depois, ambos já haviam esquecido o episódio, prontos para seguirem, cada um, palmilhando atentos os desafios propostos por suas vidas em início de jornada.
(Crônica publicada no jornal Pioneiro em 15 de novembro de 2013)

sexta-feira, 13 de setembro de 2013

Beijo nas Alturas


Entro no elevador no subsolo das garagens, preparado para um longo trajeto até o décimo-primeiro andar. Não durará mais do que 40 segundos, eu sei, mas sabe como são esses elevadores: cubículos estreitos, lacrados, desagradáveis, parece que concebidos justamente para que não despertem em ninguém a mais remota intenção de permanecer ali dentro uma fração de segundo sequer além do necessário. Por isso, a vontade, sempre, de que a viagem seja curta, sem paradas no meio do caminho.
Mas pronto. É só pensar nisso que o danado estaciona já no térreo, para receber vizinhos rumo a seus aposentos. As portas então se abrem e revelam as identidades de quem me fará companhia ao longo dos próximos instantes: trata-se daquele jovem casal do sexto andar, acompanhado pelo filhinho de cerca de dois anos de idade, que entra alegremente acavalado sobre o pescoço do pai. “Oi, como vão” daqui; “olá, tudo bem” de lá e eles vão entrando, ela com as sacolas de compras, ele fazendo malabarismos com o garoto, que lhe escala o corpo a ponto de ficar de cabeça para baixo um instante, a dar gargalhadas, eu segurando a porta aberta enquanto eles se acomodam, e vamos em frente.
O elevador retoma seu movimento metálico para cima, a suavidade intercalada com alguns estalos sempre perturbadores, e o silêncio entre os adultos se instala como de praxe nesses ambientes, apenas quebrado pela festa que o menino faz com o pai. Recebe mordidinhas na barriga e gargalha, olhando para mim em busca de um sorriso conivente que sua inocência induz a almejar. Sorrio-lhe de volta, embalado pela sua alegria infantil e desmedida. Desnecessário haver medidas para a alegria quando se é criança feliz em família, voltando para casa à noite com os pais, brincando dentro de um elevador na presença de um estranho.
A caixa semovente estaciona no sexto andar e abrem-se automaticamente as automáticas portas, convidando-os a saírem. Ela sai primeiro, com as sacolas, seguida pelo marido, que se despede de mim com um “boa noite” e diz ao filho: “dá tchau para o titio”. Ato contínuo, o menino leva a mãozinha à boca, tasca um beijo e o atira para mim, acertando em cheio minha alma, que não resiste e se debulha em uma gargalhada infantil como há tempos eu não dava. Espontaneidade de criança é coisa altamente contagiosa.
 (Crônica publicada no jornal Pioneiro em 13 de setembro de 2013)

sexta-feira, 18 de maio de 2012

Além dos 140 caracteres


Fui alçado à categoria oficial de tio na última segunda-feira, dia 14, com a chegada de João Vitor, primogênito da irmã de minha esposa. A julgar pelo ritmo acelerado de desenvolvimento das crianças neste século 21, creio que não demorará mais do que alguns meses para que João Vitor esteja me chamando de tio. Será o máximo, especialmente porque ele se transformará na primeira pessoa do mundo que atribuirá a mim tal alcunha sem que nela esteja implícita uma metáfora para “e aí, seu velhinho?”, que é como a coisa me soa quando crianças e jovens se referem assim a mim pelas quebradas da existência desde que as cãs passaram a adornar o cimo de minhas orelhas há alguns pares de anos.
João Vitor, bem como seus companheiros de viagem Júlia, Théo e Alice, que desembarcaram na maternidade do Hospital Saúde vindos no mesmo voo de cegonha naquela manhã, já nasce plugado na internet. Com pouco mais de 24 horas de vida, já estava com sua foto (junto aos pais orgulhosos, felizes e acabados) postada no blog da maternidade e recebia as primeiras mensagens de boas-vindas com 140 caracteres via e-mail, de parentes e amigos cujas existências ele sequer desconfia. Um twitteiro nato, esse meu sobrinho. Nem sabe falar e já há coisas que terei de pedir para que ele me ensine, uma vez que o velho tio aqui demorou mais de 30 anos para receber e despachar seus primeiros e-mails.
Quando tiver a minha idade e assumir a sua vez no revezamento do encantar-se com a chegada das novas gerações na família, e se eu ainda estiver ocupando o lugar que me cabe ao sol, João Vitor contará com um tio ancião de 90 anos de idade. Não sei se nesse futuro distante (2057) ainda estaremos navegando em internet da maneira como hoje concebemos essa forma de comunicação, mas tenho certeza de que o maravilhamento com o inexplicável milagre da vida seguirá inabalado. Nem os meteorologistas são capazes de prever com exatidão se o João Vitor adulto viverá em uma sociedade que ainda manipulará livros físicos e se o sertanejo universitário ainda emplacará sucessos no rádio (“rádio, tio?”). O certo é que, desde que o mundo é mundo, existem coisas que não se reduzem e nem se explicam em 140 caracteres, e a mágica da geração da vida é uma delas. 
(Crônica publicada no jornal Pioneiro em 18 de maio de 2012)

sexta-feira, 8 de outubro de 2010

Velozes feirantes

(Crédito do fotógrafo: Chimia)
Circulo por entre os estandes da Feira do Livro com um cuidado redobrado nas manhãs e tardes dos dias de semana, quando o movimento, durante os horários tradicionais de expediente, permite o surgimento de espaço para transitar com certa dose de desenvoltura. Mas é preciso estar alerta. Minhas décadas de presença em ambientes de feiras de livros me permitem saber que não devo me iludir, e que é justamente aí que mora o perigo. Engana-se quem pensa que, por ser dia de semana e horário de trabalho, fica mais fácil perambular despreocupadamente de um lado para o outro entre as barraquinhas, ziguezagueando o olhar pelas sedutoras capas e títulos de todos aqueles livros que estamos doidaços para levar para casa. Nananinanina!
É nesses momentos que nosso trote livresco costuma ser interceptado por pequenos bólidos de cerca de um metro e pouquinho mais de altura que surgem zunindo a gente nunca sabe de onde e cruzam perigosamente quase por entre as nossas pernas, quando não metem um “chega-prá-lá” com os cotovelinhos afundando nossas frágeis barrigas passeadeiras e feirantes, alertando-nos para a presença de um dos elementos que mais fascinam e justificam a realização de feiras de livros: as crianças. Fique então sabendo e vai o alerta, você aí que se julga esperto e deseja passear pela Feira de segunda a sexta, em horário comercial: os corredores estão mais livres, é verdade, mas pertencem às crianças, e o limite de velocidade costuma estar flexibilizado.
Elas passam zunindo para lá e para cá, os cabelinhos esvoaçantes, a gargalhada solta sublinhando o prazeroso encontro das pequenas mãozinhas com o volume dos livros recém capturados. O deleite do contato com o livro encantador costuma ser compartilhado à larga e anunciado sem autocensuras, verdadeiramente esparramado por entre os estandes e as pernas de adultos desavisados. Que felicidade deve ser essa, a de ser livro infantil e cair nas graças de um pequeno grande leitor, que sai correndo com ele pela praça, espalhafatando satisfação literária!
Abram alas! Numa boa Feira do Livro, como essa nossa, criança está sempre na preferencial.
(Crônica publicada no jornal Pioneiro em 08-10-10)