segunda-feira, 7 de fevereiro de 2011

Uma efêmera abstração

- Deixe-me explicar uma coisa, querida, para que você entenda: passado, presente e futuro são meras abstrações de nossa mente racional que insiste em tentar enquadrar o tempo dentro de um esquema funcional teórico que se adeque à necessidade que temos de compreender o incompreensível de nossa existência, sacou?
Espere, deixe-me continuar, ainda não terminei, baixe esse braço com o balde e tire a outra mãozinha da cintura. Esse cenho franzido é porque não entendeste nada do que eu disse, não é, amor? Pois deixa que eu explico como se você tivesse cinco anos. Senta aqui um pouquinho. É assim, ó: passado, presente e futuro não existem. O que há é um fluxo continuo da existência dos seres e das coisas. Existe o ser, e ao mesmo tempo existe o nada. O ser e o nada, pescou? Portanto, o passado não existe e nunca existiu, porque, quando o passado estava ativo, ele era o presente naquele momento, entende? Tampouco existe o futuro, porque quando aquilo que denominamos como futuro chega, ele se transforma automaticamente em presente. E o presente é outra abstração, porque ele flui continuamente, escorrega pelos nossos dedos no exato momento em que nossa mente se fixa nele, e imediatamente ele já é um passado transformando-se no futuro que se presentifica. Sem beliscar, sem beliscar, meu bem, para e escuta mais um pouquinho!
Olha só: seguindo a lógica do meu raciocínio, pois você sabe que os homens têm pensamento mais racional e as mulheres mais emocional (por isso que estás bravinha, meu amor, tudo é científico, vês?), seguindo essa lógica, fica claro que é injusta a acusação que você faz de que eu fico o tempo todo sentado no sofá comendo porcaria e olhando televisão enquanto você faxina a casa, porque você disse isso no passado, que não existe, e o presente não é este que você julga estar vendo. Quando eu digo que farei a faxina, você deve contabilizar essa promessa como algo já realizado, uma vez que acabo de te provar que... ei... benzinho... largue o chinelo... que é isso... tá bom, tá bom eu vou, eu vou, eu limpo. Me dá aqui esse balde e esse pano. Contra o chinelo, não há argumento científico que se imponha mesmo...
(Crônica publicada no jornal Pioneiro em 4 de fevereiro de 2011)

sexta-feira, 4 de fevereiro de 2011

Pudicos ou libidinosos?


Estou estarrecido com os mais recentes dados a respeito do desenfreado crescimento populacional que nos conduzirá, até 2012, à marca dos 7 bilhões de seres humanos no planeta. Pipocam novas pessoinhas no mundo ao ritmo de cinco nascimentos por segundo, conforme números divulgados por institutos internacionais de pesquisa demográfica. Como o índice de mortes é de duas pessoas por segundo, é esse saldo positivo de três que vai nos empurrando para um nível de superpopulação que me faz concluir uma só coisa: somos uma espécie vidrada em sexo.
Ora, cinco pessoas nascendo por segundo é a consequência de cinco atos sexuais que resultaram em óvulos fecundados com sucesso. Em um minuto, são 300 atos sexuais iguais a esses. Em uma hora, 18 mil. Em um dia, 432 mil atos sexuais que resultaram (ou resultarão, daqui a nove meses) em óvulos fecundados que proporcionarão gestações sem percalços e darão à luz novos seres humanos. Mas esse número não abarca a quantidade de atos sexuais realizados no mundo nesse mesmo período, pois, como bem sabemos, nem todo (na verdade, pequena parte) ato sexual resulta numa gravidez. O que leva à óbvia conclusão de que nós, seres humanos, praticamos muito mais do que apenas cinco atos sexuais por segundo ao redor do planeta. Façamos uma projeção empírica para ver onde nossa especulação é capaz de nos levar.
Digamos que o número de atos sexuais que resultam na fertilização de óvulos que, mais tarde, não se concretizarão em nascimentos devido a problemas de gestação, seja, pelo menos, o dobro do que o número inicial. Isso nos levaria a dez atos sexuais por segundo. Já é o suficiente para dobrar toda a conta e chegar a 864 mil atos sexuais por dia. Mas vamos além: acrescente aí o número de relações praticadas entre homens e mulheres sem preservativos, que derivem em ejaculações que simplesmente não fertilizem os óvulos. Dupliquemos, empiricamente, o número anterior, e vamos a 20 atos sexuais por segundo. O que nos dá 1.728.000 atos sexuais por dia. Junte agora, em um mesmo índice, todos os atos sexuais praticados utilizando-se algum tipo de método anticoncepcional, mais todos os atos sexuais em suas variadas formas que não contemplam como consequência a possibilidade de concepção e duplique o índice mais uma vez.
Pronto. Em minha pesquisa empírica e chutométrica, chego ao estarrecedor índice de 3.456.000 atos sexuais praticados ao redor do planeta por dia. Arredondemos o número para três milhões e meio de intercursos sexuais realizados por dia, na Terra. Levando-se em conta a convicção de que quase a totalidade desses atos é praticada entre dois indivíduos (rarissimamente mais do que isso), temos 7 milhões de pessoas dedicadas ao sexo em um dia no planeta. Somos uma raça libidinosa. Ou não? Espere um pouco.
Se somos quase 7 bilhões de seres humanos, 10% de nossa população representa 700 milhões de pessoas. E 1% significa 70 milhões. Logo, os tais dos 7 milhões de indivíduos copulantes a cada 24 horas não representam mais do que 0,1% da população planetária divertindo-se por dia nas delícias das alcovas. Os demais dormem, leem ou assistem ao BBB. Somos, a bem da verdade, portanto, uma espécie extremamente pudica. Viram como os números enganam?
(Crônica publicada no jornal Informante, de Farroupilha, em 4 de fevereiro de 2011)

sexta-feira, 28 de janeiro de 2011

Raízes enfermas

Uma das lições que o episódio do soterramento dos mineiros chilenos nos deixou é a compreensão de que o furo pode ser sempre bem mais embaixo. Nas duas últimas semanas, escrevi aqui sobre minha constante preocupação com alguns fenômenos sociais cada vez mais presentes em nosso cotidiano: os maus motoristas, os maus pedestres, as pessoas que só pensam em si próprias, integrantes de um movimento que batizei de “eucomiguismo” (pessoas que só pensam e agem de acordo com o “eu comigo”).
Mas a partir das manifestações dos leitores a respeito do assunto, refleti um pouco mais e percebi que, na verdade, tanto os maus motoristas quanto os maus pedestres, e outras criaturas congêneres, são todos frutos podres de uma mesma raiz adoentada, denominada mau cidadão. A partir do momento em que o sujeito (ou a sujeita, porque elas, tanto quanto eles, engrossam as fileiras dessa categoria humana, infelizmente) tem, em sua essência pessoal, o vírus da má cidadania a conduzir suas atitudes, todas as manifestações sociais que decorrerem de seus atos irão se enquadrar no amplo espectro do “eucomiguismo”. Nossa sociedade está cada vez mais engarrafada de maus cidadãos, transformando a convivência social em um suplício diário.
É o mau cidadão quem produz o mau motorista e o mau pedestre. Assim como é o mau cidadão quem produz o mau vizinho, o mau aluno, o mau professor. O mau cidadão são os maus pais, as más mães, os maus filhos. Vêm das raízes enfermas da má cidadania os frutos azedos dos maus chefes, dos maus patrões, dos maus funcionários, dos maus colegas. Mas não “maus” sob o aspecto da pouca competência para tais atribuições, e sim “maus” pelo quesito ético mesmo. É a condição de mau cidadão a nascente dos rios de maus políticos e de maus eleitores, de maus profissionais e de maus clientes, e ainda de maus comerciantes e de maus empresários, de maus servidores públicos e de maus profissionais privados.
Basta olhar ao redor. Os maus cidadãos estão a dois passos, muito perto. Às vezes, dentro de sua própria casa. Pior de tudo é quando ele aparece todas as vezes em que você acessa um espelho. Reconhecê-lo, talvez, seja o primeiro passo para exorcizá-lo.
(Crônica publicada no jornal Pioneiro em 25 de janeiro de 2011)

sábado, 22 de janeiro de 2011

Fora de circuito


Já faz anos que abandonei o saudável e saudoso hábito de ir ao cinema. Larguei de mão. Eliminei de minhas opções de lazer o prazeroso ritual de escolher um filme pelo qual aguardava, encontrar agenda na semana para dedicar ao espetáculo, combinar o evento com a boa companhia (sempre a esposa, cinéfila como eu), reservar os trocos para a indispensável pipoca e, dependendo do horário, também para o jantar temperado a comentários e impressões derivados da película. Não mais. Desisti. E explico as razões.
Primeiro, não é porque eu seja uma das “viúvas dos cinemas de rua”, como aqueles que derramam lágrimas hollywoodianas até hoje pelo fato de o andar da modernidade ter decretado o falecimento das tradicionais casas de cinema, que se transformaram em templos religiosos ou salas de bingo, e direcionou o público para dentro dos shopping centers. Quem chora por isso são aqueles que não conseguem se converter aos ganhos inequívocos da evolução das coisas, pois as modernas salas são mais confortáveis, mais organizadas, o som é melhor, a projeção normalmente eficiente, o climatizador costuma funcionar. A questão não é essa.
Também não é devido ao fato de eu residir em uma cidade na qual não existam mais salas de cinema disponíveis, nem as antigas de rua, tampouco as de shopping centers, como Farroupilha. Eu resido em Caxias do Sul, na qual há salas em número suficiente para atender às demandas nessa área, tanto em shopping quanto em locais culturais que exibem programação alternativa (na Universidade de Caxias do Sul e no Centro de Cultura Ordovás, por exemplo). E mesmo que morasse em alguma cidade da região próxima, bastaria, para suprir a eventual necessidade cinéfila, fazer um prazeroso passeio até Caxias ou Bento e incrementá-lo com a ida ao cinema. Também não é isso.
Tampouco, leitores, minha decisão deriva do fato de eu ter subitamente empobrecido e andar pelas sinaleiras das nossas ruas com um cartaz nas mãos mendigando esmolas, igual ao ex-radialista norte-americano com o vozeirão tonitruante, que todos vimos nos noticiários. Cessem as doações, tudo vai bem, o salário milionário que recebo escrevendo aqui supre todas as minhas necessidades.
O que me afastou para sempre das salas dos cinemas são as pessoas que vão às salas dos cinemas. Que vão para lá lotá-las com o objetivo não de assistir aos filmes, mas de papagaiarem sem parar durante toda a projeção, de sacudirem as poltronas de quem está na frente (e eu sempre estava na frente de algum joelho incivilizado), para disparar e receber torpedos, para falar ao celular. Não dá. E pior é que essas pessoas podem fazer tudo isso em outros lugares, de graça, sem pagar a entrada da sessão. Não entendo, não compreendo, não aceito, não suporto, não tolero. Transformei a sala de minha casa num cinema particular. Até a pipoca é boa. Abandonei os cinemas, mas não o hábito de cultivar minha cultura e minha tranquilidade, mesmo que ao preço do auto-segregacionismo.
(Crônica publicada no jornal Informante, de Farroupilha, em 21/01/2011)

sexta-feira, 21 de janeiro de 2011

A era do eu comigo

Movido pela mais vil e inconfessável egolatria, decidi tomar uma atitude que vai me assentar definitivamente em um lugar de destaque na história daqueles que colaboraram para enriquecer a Língua Portuguesa e, por que não, o estudo dos (maus) costumes de nossa civilização. Para tanto, farei um ato aparentemente simples: vou cunhar (eu preferiria dizer “fundar”) um neologismo. Como todos sabem, “neologismo”, conforme o Aurélio, é “uma palavra ou expressão nova numa língua”. Eu estou, neste exato momento, fundando (e, portanto, me apropriando de todos os royalties) a expressão e a palavra “eucomiguismo”, e já trato de ir explicando.
O eucomiguismo (já está fundada, não precisa mais de aspas) é uma palavra que deriva do conceito de “eu comigo”, expressão usada para designar uma atitude decorrente de egocentrismo, de egoísmo, de individualismo exacerbado, cada vez mais comum neste nosso mundo civilizado. Toda a vez que uma pessoa pratica um ato por meio do qual pretende tirar vantagens para si própria, sem pensar nos demais que a cercam, ou mesmo, na maioria das vezes, até prejudicando os seus próximos, ela está exercendo o eucomiguismo, porque estará pensando única e exclusivamente nela mesma, agindo “eu comigo”, desconsiderando a existência dos demais, atropelando os direitos dos outros, desejando que todos se explodam etc.
É o eucomiguismo, por exemplo, que faz as pessoas circularem pelo centro da cidade em dias de chuva e, ao andarem pelas calçadas, optarem pelo lado de dentro com seus guarda-chuvas abertos, exatamente sob as marquises dos prédios, empurrando para o lado de fora, em plena chuva, todos os demais que, por azar, esqueceram seus aparelhos em casa. Ora, rezaria o bom-senso que quem está com guarda-chuva que vá para o lado da chuva, deixando as marquises a proteger as cabeças dos mais desprevenidos. Mas não, é cada um por si, mesmo.
Os exemplos seriam vários para ilustrar os casos de eucomiguismo que enfeiam nossa vida em sociedade. Cada um que faça a sua lista. E que procurem banir a necessidade de vigorar um neologismo como este que acabo de, infelizmente, precisar criar.
(Crônica publicada no jornal Pioneiro em 21 de janeiro de 2011)

sexta-feira, 14 de janeiro de 2011

Ás no volante ou asno volante?


Dia desses, neste janeiro que nos revisita a cada início de ano, tive um novo insight atrás do volante do meu automóvel, transitando pelas ruas dessa Pérola das Colônias. Meses atrás escrevi uma crônica em que expressava minha indignação com a situação caótica do trânsito na cidade, engarrafada por um volume crescente de veículos enquanto vê-se impotente com uma infraestrutura incapaz de dar vazão ao fluxo necessário para que a coisa, em resumo, ande. Vituperei contra a lei da Física que impede a ocupação de um mesmo espaço por mais de um corpo ao mesmo tempo e estive a ponto de propor uma emenda que a revogasse, mas resignei-me a imaginar que conseguiria abrir alas em meio à estagnação transital por meio do uso de um chicotinho.
Pois, tudo errado! Esqueçam o que eu escrevi, porque constatei que o furo é bem mais em cima, ali no banco do motorista mesmo. Motivado a trafegar mais amiúde pelas ruas centrais de Caxias neste período veranil em que as férias escolares e as férias coletivas de parte das empresas locais resultam na diminuição da população circulante pela urbe, tirei o carro da garagem e fui-me faceiro às ruas, imaginando que, pelo menos durante algumas semanas, transitaria com paz. Ledíssimo engano, esse meu!
Apesar da óbvia redução do número de veículos em trânsito, fui fechado por bólidos costurantes, freei abruptamente devido a veículos que param em fila dupla, quase fui alvejado por carros que queimam o sinal vermelho, escapei de colidir contra imprudentes que saem do meio-fio onde estavam estacionados e lançam-se sem olhar à pista de rodagem, enfim, a selvageria em nada mudou.
Qual a conclusão óbvia disso tudo? Ora, uma só: o motorista caxiense é um troglodita. O problema não é o volume crescente de veículos em circulação. O problema é a incivilidade, a deseducação, o egocentrismo, o bestialismo, o terceiro-mundismo cultural de nossos (pseudo) motoristas. Não se trata de leis de trânsito ou de investimento em infraestrutura. Trata-se de mudança pessoal de atitude mesmo. E aí, não há buzina capaz de solucionar a situação. Por mais que o pisca-alerta esteja dado...
(Crônica publicada no jornal Pioneiro em 14 de janeiro de 2010)

terça-feira, 11 de janeiro de 2011

Livros na tomada


A evolução tecnológica, que tantos bons frutos proporciona, traz consigo seus poréns, como bem sabemos todos que eventualmente temos de trocar um pneu furado (mas que maravilha os automóveis!), substituir a resistência do chuveiro (mas que conforto uma ducha quentinha!) ou mesmo aguentar os debates sobre o assassinato do Totó (mas que espetáculo a televisão!). Semana passada, enquanto vituperava contra o azar de ver-me um turno inteiro desprovido ao mesmo tempo dos serviços de telefonia fixa, internet e tevê a cabo devido a um problema técnico, fui brindado pela súbita compreensão de que os temores que alguns intelectuais sofrem frente ao pesadelo do possível desaparecimento dos livros impressos são completamente infundados. Pelo menos, enquanto dependermos de energia elétrica e de provedores externos para animar a grande maioria dos brinquedinhos que a tecnologia nos oferece.
Cheio de serviço como eu estava naquela fatídica manhã em que não podia acessar a internet, nem telefonar para minhas fontes e tampouco relaxar assistindo ao Multishow, o que foi que eu me vi fazendo? Lendo um livro. Não que eu somente pegue um livro para ler nas raras ocasiões em que a minha aparelhagem tecnológica dá xabú, longe disso. O que estou querendo dizer é que o objeto livro, como defende Umberto Eco na obra “Não Contem Com o Fim do Livro”, é uma invenção acabada, pronta, tão genial quanto a colher e a roda, e não tem mais para onde avançar; não existem “melhorias tecnológicas” a serem efetuadas sobre ele.
Os Kindles e os iPads, aparelhinhos ultramodernos que permitem baixar livros (e-books) pela internet, acumular uma biblioteca inteira na memória e transportá-la com facilidade, não representam nem a evolução e tampouco a morte dos livros impressos. Representam outra coisa, outra invenção, outra plataforma de comunicação, que vai encontrar o seu lugar no mundo. Os livros da minha estante não precisam de bateria e nem de energia elétrica para serem acessados. Posso lê-los longe de uma tomada, e, se faltar luz, ligo uma lanterna ou acendo uma vela e sigo a leitura, da mesma forma como meu bisavô fazia. Mesmo assim, não vejo a hora de adquirir meu iPad...
(Crônica publicada no jornal Pioneiro em 7 de janeiro de 2011)