segunda-feira, 16 de março de 2020

Tempo para ressignificar


O versículo 1 do terceiro capítulo do livro de Eclesiastes, no Velho Testamento, nos ensina que “Há um momento para tudo e um tempo para todo propósito debaixo do céu”. O que se aprende com a máxima é que nada é perene na vida, tudo tem um início e um fim, e que as coisas se reciclam. Quem era, na infância, nosso amigo-para-sempre, depois desaparece nas dobradas da vida de cada um e não raro jamais voltamos a vê-lo, quiçá, esquecemos até seu nome. As carroças não vieram para ficar, foram substituídas pelos automóveis, apesar dos lamentos dos cocheiros. A sabedoria oriental também nos ensina que o germe do novo, que não vê a hora de desabrochar, pulsa latente nas entranhas do velho, que, ao ser superado, prepara o terreno para o contínuo processo de transformação que pauta a saga da vida sobre o planeta.
Assim também se dá, madama, no mundo das crônicas e dos cronistas, inclusive na parcela que toca os cronistas mundanos de segunda, como este que vos escreve. Esta, que hoje a senhora lê, na companhia intangível de tantos outros generosos leitores e dedicadas leitoras, é a última que publico neste espaço que venho ocupando nas páginas do jornal “Pioneiro” desde 24 de dezembro de 2009. De lá para cá, foram, contando com a de hoje, 1.156 crônicas, versando um pouco sobre tudo e um nada sobre muito, às vezes semanalmente, em outros períodos, até de forma diária. Mas, parafraseando o texto bíblico e ampliando seu alcance, reitero que há tempo para ficar e tempo para partir, tempo para permanecer e tempo para ressignificar. Chega agora um desses tempos, e o cronista se despede do espaço e do veículo, mas não dos leitores.
Afinal, escritor é escritor e escrever lhe é atividade vital. Se assim não fosse, escritor não seria, e o mesmo se dá com o cronista, inclusive com os de segunda. Se ao longo desta década meus textos aqui publicados colaboraram para suscitar em alguns o prazer de ler e ajudaram em outros a aguçar o sentido da visão sobre os pequenos detalhes do cotidiano, que, na verdade, representam a complexidade encantadora da vida, então, me dou por satisfeito. Foi um grande prazer exercitar esse gênero literário aqui neste espaço, recebendo o retorno de tantas pessoas, cuja generosidade serviu para retroalimentar e incentivar o prosseguir na labuta escritural, mesmo quando a inspiração decidia passar ao largo. O que inspira, na verdade, é a vida, e essa, segue sempre, independentemente das mudanças, que, via de regra, são excelentes incentivos ao movimento e às reformatações. Abraços e boas leituras a todos.
- Última crônica publicada no jornal Pioneiro, em 16 de março de 2020, após 10 anos como cronista do jornal (iniciado em 24 de dezembro de 2009).

segunda-feira, 9 de março de 2020

O apagadouro da memória


Furungando dia desses em uma caixa de guardados antigos, atrás de alguma velharia qualquer, pois que sou um guardador de memorabília pessoal, especialmente papeis, deparei com uma lista compilada por mim no início da década de 1990, na qual eu elencava o patrimônio adquirido por meio do meu trabalho jornalístico nos primeiros anos de atividade profissional. Constavam ali o televisor 21 polegadas (sensação da época, mesmo que ainda trouxesse o tubo acoplado às costas), o refrigerador com freezer anexo em porta individual (uau!), o aparelho de videocassete (as idas e vindas à locadora de fitas para disputar os melhores títulos no final de semana e devolver a pilha com a metade não assistida na segunda-feira integravam o ritual de tarefas perenes), o Chevette branco 1990 ainda em prestações após a entrega do antigo Chevette 1982 como entrada (a título de informação: Chevettes eram veículos automotores bastante populares naquela era, e cumpriam a função de deslocar seus proprietários de um lugar ao outro, da mesma forma como os automóveis atuais) e... uma enciclopédia!
Sim, a garbosa enciclopédia, composta por 20 volumosos volumes encadernados em capa dura, que ocupavam duas fileiras inteiras da prateleira da sala, integrava a lista do patrimônio significativo adquirido com o suor de minha testa e de meus dedos nas teclas da máquina de escrever ao longo dos anos, produzindo textos que resultavam em salário. Foi uma aquisição longamente planejada, as contas na ponta do lápis para verificar se as prestações caberiam dentro do orçamento doméstico que já se comprometia com o pagamento do Chevette 1990 e o videocassete (este, tão indispensável quanto os demais itens). A chegada dos volumes, via caminhão de transportadora estacionado defronte à porta do prédio, causou a mesma sensação de excitação que se apossava de nós, habitantes daqueles tempos remotos, quando da entrega anual da nova lista telefônica.
Como não guardei nenhum papelzinho a respeito, sequer lembro que fim levou minha tão valorosa enciclopédia de 20 volumosos volumes encadernados em capa dura, que me ensinava tudo sobre o reinado da Rainha Vitória e sobre as principais obras de Machado de Assis. Sumiu-se no apagadouro que engole as coisas e os fatos que vão perdendo relevância ao longo do tempo. Sua memória se mantém recuperada em uma antiga lista guardada em velhas caixas, descoberta ao acaso. Mas onde terá ido parar todo aquele patrimônio, tanto o físico quanto o intangível, que não consta nas listas? Para permanecer, o segredo é manter a relevância.
(Crônica de Marcos Fernando Kirst publicada no jornal "Pioneiro", de Caxias do Sul, em 9 de março de 2020) 

segunda-feira, 2 de março de 2020

Os quatro defeitos sociais


Quatro são os defeitos de personalidade que impedem as pessoas de serem agradáveis no mundo, elenca a escritora britânica Jane Austen (1777 - 1817), na voz de Elinor, a protagonista de seu romance “Razão e Sensibilidade”, levado ao público pela primeira vez em 1811. Na condição de cronista mundano (mesmo que notadamente de segunda), sempre atento aos aspectos aparentemente triviais que sutilmente moldam a delicada tessitura do ato de (con)viver, me é impossível seguir batido pela passagem e evitar de largar momentaneamente o livro de lado para dedicar alguns minutos à reflexão sobre o trecho lido (pois não é exatamente isso o que se espera da confluência astral entre um bom livro e um leitor esforçado, madama minha?).
Pois foi assim, noite dessas, os pés achinelados relaxando sobre o pufe laranja que adorna o centro da sala, o restante do corpo (sou composto por bem mais do que um par de pés relaxados, madama, acredite) em decúbito absoluto sobre a extensão do sofá, o livro aberto equilibrado sem dificuldades (a edição é pocket, porém, com texto integral) entre as mãos e a barriga fazendo a base, que eu afastava a mente das atribulações cotidianas e me deixava enfronhar no mundo fictício erigido pelo gênio da autora, quando deparei com a tal passagem reveladora. “Os quatro defeitos que impedem as pessoas de serem agradáveis”! Quais seriam? Aplicando aqui o poder contundente da síntese, que produz um efeito mais profundo do que a prolixidade descritiva, Jane Austen classifica assim os tais dos quatro maus elementos: a falta de sensatez, a falta de elegância, a falta de inteligência e a falta de caráter. Na mosca, sweet Jane!
Fácil, inclusive, de decorar a tabelinha do mau comportamento e portá-la mentalmente quando transitamos pela vida e deparamos, com uma frequência maior do que gostaríamos, com as desagrabilidades humanas produzidas por um ou outro desses aspectos (ou vários deles combinados, quando não todos juntos): falta de sensatez, de elegância, de inteligência e de caráter. De todos eles, credito como o pior e o mais preocupante o último na ordem da lista: a falta de caráter, porque é deliberada e consciente. De qualquer forma, são todos igualmente deletérios ao ato civilizatório de conviver e de exercitar o respeito mútuo em sociedade, que o processo civilizatório exige e prescinde para se fazer viável. Grato à escritora imortal por nos presentear com essa valiosa chave para, ao menos, podermos tentar compreender o incompreensível que muitas vezes nos cerca nesse ato de existir juntos aos nossos semelhantes.
(Crônica de Marcos Fernando Kirst publicada no jornal "Pioneiro", de Caxias do Sul, em 2 de março de 2020)

segunda-feira, 24 de fevereiro de 2020

Na minha salada, não!


Uma coisa a gente precisa aprender na vida, madama: defender, com unhas, dentes e tamancos, os nossos princípios norteadores de postura e de conduta pessoal. Precisamos saber nos municiar de instrumentos que preservem e protejam as convicções, os conceitos, as concepções, os ideais que vamos formatando ao longo de nossas existências e que traduzem a nossa forma única, pessoal, inequívoca e singular de sermos. Se eu sou eu e a madama é a madama, é porque alguns princípios e posturas minhas obedecem às nuances da vivência obtidas pela minha experiência pessoal. Já as da madama são as da madama e ninguém tem o direito de meter o taco, tampouco dar pitaco, nem mesmo um mundano cronista, menos ainda um de segunda. Respeitemo-nos em nossas convicções, e saibamos, nós mesmos, identificá-las e preservá-las. Mas, para isso, é preciso estarmos sempre alertas. Sempre alerta, madama minha!
Um exemplo, a senhora pede? Um daqueles concretos, que ajudam a ilustrar com fatos e feitos os ditos perfeitos? Sim, tenho um na manga, e bem recente. Lá vai. Tarde dessas, flagrei-me com meia hora de folga entre um compromisso e outro, dos tantos que abarrotavam minha agenda, no centro da cidade, e deparei com o dilema centenário: o que fazer? Municiado de um livro companheiro para todas as horas, tirei-o da pasta e nos dirigimos em comboio (livro, pasta e eu) até uma confeitaria posicionada no meio do caminho. Frente ao colorido e sedutor balcão das delícias, resisti bravamente ao apelo das coxinhas de frango, dos risólis, das empadas saborosas, das quiches quentinhas, das paradisíacas fatias de tortas, dos batalhões de quindins dispostos em ordem unida, dos tijolinhos lambuzantes de massa folhada, dos milk shakes brilhosos, das embarcações de banana split adornadas com tríades de bolotas sorvetais e... subitamente preocupado com minha saúde... peguei um singelo, saudável e leve copinho de salada de frutas!
Orgulhoso de minha postura optante pelo equilíbrio da balança que habita meu banheiro, dirigi-me ao caixa. Antes de o atendente faturar o pedido, possuído que estava pelo demônio da tentação gulodícia, ele me perguntou: “o senhor gostaria de acrescentar chantilly ou sorvete à sua salada de frutas”? Ato reflexo, ao ser golpeado pela proposta, dei um passo atrás, atordoado, sem reação. Felizmente, recuperei rápido o autocontrole e consegui fazer o bom senso seguir predominando. “Não, obrigado”, respondi, e me afastei dali para uma mesinha, ainda chocado. Afinal, não é fácil defender o território sempre pantanoso das nossas convicções.
 (Crônica de Marcos Fernando Kirst publicada no jornal "Pioneiro", de Caxias do Sul, em 24 de fevereiro de 2020)

segunda-feira, 17 de fevereiro de 2020

Quem brinca com fogo...


Olha só madama, que coisa menos linda, que bela desgraça, é essa desdita que vem e não passa, num triste balanço a caminho do mal. Sim, sim, estou me referindo a essa onda que ancorou aqui nesse nosso Brasil nos últimos tempos e que insiste em não ir embora: a de vira e mexe alguns aqui, outros acolá, acharem que têm o direito de ditar censura a obras de arte, julgando que somos criancinhas que devem ser tuteladas em suas capacidades de julgar o que é bom e o que é ruim, o que é estético e o que não é, o que tem bom gosto e o que não tem. Mau gosto, madama, é acharem que podem sequestrar o meu direito de acesso à cultura e às artes, o meu poder de julgar e avaliar por conta própria, de acordo com meus próprios parâmetros.
Hitler, aquele do bigode e das raivas assassinas, mandou queimar livros. E onde se queimam livros, né, madama, logo se passa a queimar pessoas. A História está aí, para ensinar; a memória, para lembrar; e o bom senso, para nos ajudar a evitar que se repitam barbáries. O andar do processo civilizatório não pode ter a opção da marcha-a-ré. Cabe a nós darmos um freio naqueles que miram o retorno às trevas. Mas é preciso estar alerta, porque sempre aparece um novo Torquemada ou um novo Goebbels querendo extinguir os nossos direitos. Mas não passarão! Até porque, já compilei uma listinha de livros que inspiram essa gente, a serem também banidos de nossas prateleiras. Veja se a senhora concorda:
O primeiro a ir para a fogueira é o “Dom Picote”, aquela obra em que um censor anda a cavalo pela região da Mancha Gráfica, de lança em punho, picotando livros de autores consagrados, acompanhado de seu assessor acéfalo, o Sancho Tança. Outro é “A Malvina Tragédia”, em que o autor, Dante Tristieri, percorre Inferno, Purgatório e Paraíso destruindo todos os livros que encontra pela frente. Baniremos o antigo “Maudisseia”, escrito pelo grego Maumero, que traz a saga de Maulisses singrando mares e mundos a caçar escritores e livros. No âmbito da literatura nacional, destruiremos o clássico “Dom Censuro”, de Mauchado de Assaz, que nos lega a eterna dúvida sobre a conduta da personagem Vemcapitu: ela censurou ou não cesurou? “A Censura Mágica”, de Thomas Mau, eliminaremos sem dó nem piedade. Não escapará de nossa sanha piromaníaca o aclamado “Ensaio Sobre a Fogueira”, de Josué Salamargo, e daremos fim ao “Fogueira Arcaica”, do Radão Assar. Assim, madama, faremos uma limpa na biblioteca básica dos censores de plantão. Claro, não sei se vai adiantar muito, porque, afinal... censorzinho ditatorial sabe ler, hein?
(Crônica de Marcos Fernando Kirst publicada no jornal "Pioneiro", de Caxias do Sul, em 17 de fevereiro de 2020)

segunda-feira, 10 de fevereiro de 2020

Venha o pien ao prato meu


          Meus olhos brilharam no momento em que a travessa contendo meia dúzia de rodelinhas de pien atracou na nossa mesa em meio à profusão de delícias que eram arremessadas pelo garçom à nossa frente, ao ritmo da descrição automática que fazia de cada iguaria: “bígoli ao molho de pomodori, frango à passarinho, polenta brustolada, polenta frita, polenta recheada, maionese, radicci com bacon (ahhh, o radicci com bacon!!), tortéi, costelinhas de porco, queijo à milanesa, linguiça frita...”. Tudo isso após a première proporcionada pela panelona de sopa de agnoline al dente (ou será que era capeletti?), guarnecida por fofas fatias de pão colonial (aquela casca queimadinha...) e chuviscada com vigorosos arremessos de queijo ralado.
Esse festival de sabores, aromas, cores e texturas gastronômicas, tão comum nas cantinas tradicionais e típicas da região da Serra Gaúcha, faz o deleite de turistas e de nativos, que não se cansam de, de quando em vez, ou mesmo de vez em quando (que representa uma frequência maior), proporcionarem a si mesmos esses rituais de homenagem à gula, que, quando bem domesticada, pode se transformar em prazer perene e não em perigo iminente. Mas nós, nativos emprestados, oriundos de outras paragens e serranos por adoção e opção, também nos unimos a essa horda de apreciadores da gastronomia regional, caracterizada pelo assemblage sutil que mistura simplicidade com toques secretos especiais herdados de nona a nona. Certo, mas, o pien... Esse, um pouco mais raro de figurar na lista das delícias dos restaurantes, sempre que aterrissa à minha frente, faz meus olhos lacrimejarem. Mas não, madama, não chego a chorar de prazer. É a saliva mesmo que, de tão abundante, procura outros lugares para se manifestar além da boca, já totalmente inundada na antecipação do degustar da iguaria, que só vim a conhecer pela aqui, desde que passei a habitar estas paragens, quase 28 anos atrás. Ah, o pien!
Também foi ao passar a viver na Serra Gaúcha que desenvolvi o gosto pela carne lessa, pelo vinho doce oriundo das vindimas, pelo café preto pingado com graspa (há amigos serranos que tentam me aliciar ao grupo dos que invertem as doses, pingando sutis colherinhas de café preto nas generosas taças de graspa, mas minha finada vesícula me recomenda, do além, a evitar tais excentricidades), o galeto al primo canto e tantas outras atrações. Ainda não fui convertido ao crem e tampouco ao codeguin, mas o pien, madama... Ah, o pien, é pérola em rodelinhas a povoar de estrelas o céu de mina boca! Quem disse que não há poesia na hora de mangiar?
(Crônica de Marcos Fernando Kirst publicada no jornal "Pioneiro", de Caxias do Sul, em 10 de fevereiro de 2020)

segunda-feira, 3 de fevereiro de 2020

Milagres na própria aldeia


Se santo de casa continua não fazendo milagre, prefiro concluir que o problema não reside tanto no santo, mas mais na incapacidade dos fieis de detectar, reconhecer e se beneficiar com os poderes e os talentos do santo local. Santos e artistas são as categorias que mais sofrem com essa reincidente ideia de que tudo o que  vem de fora é melhor do que aquilo que foi gestado dentro dos limites geográficos de nossa aldeia, como se nossa aldeia não fosse capaz de reunir os elementos necessários para a emersão de genialidades muitas vezes até superiores às dos santos e artistas de alhures.
Dia desses, madama, presenciei in loco a repetição do mantra. Estava eu a aguardar algumas pessoas para uma reunião ali no Centro de Cultura Henrique Ordovás Filho e, como havia chegado antes do horário, aproveitei para apreciar as duas exposições de artes plásticas que ocupavam os espaços do ambiente. Uma, em um corredor, abrigava obras de artistas de Vacaria, compostas por telas que me impressionaram pela contundência, pela sensibilidade, pelo inusitado. A outra, ocupando a área da galeria principal, exibia desenhos e telas de um artista carioca, em um trabalho interessante, mas que me causou pouco impacto. Ao encontrar dois amigos no saguão, comentei sobre as mostras e recomendei que visitassem prioritariamente a de Vacaria, por julgá-la superior. Mal terminei de falar e a dupla se dirigiu direto à mostra do artista carioca. Afinal, era “de fora”. Não sei se de fato a qualidade dos artistas vacarianos era superior à do carioca, conforme eu defendia, mas uma coisa é certa: minha credibilidade enquanto crítico de arte está abaixo das polainas do cachorro.
De minha parte, sigo convicto de que, em se tratando de arte, a Serra faz milagres, sim, com a sucessão de talentos e genialidades que gesta em todas as áreas. Só para embasar, lembremos de Antonio Giacomin com suas aquarelas; de Vasco Machado e suas telas campeiras; de Rafa Schüler e sua guitarra falante; de Cibele Tedesco e Alcides Verza com sua maestria na condução de corais; de Zica Stockmans, Magali Quadros, Cleri Pelizza, João Tonus, Aline Zilli e Jonas Piccoli abrilhantando nossos palcos teatrais; da música de Selestino Oliveira; dos quadrinhos de Eduardo Cardoso; do olhar fotográfico de Mauro J. Bettiol e Liliane Giordano; da escrita de José Clemente Pozenato. E tantos, tantos outros, que chego a me empanturrar com os milagres que os talentos regionais são capazes de produzir na minha alma. Tenho o privilégio de residir em uma região cujos artistas me conectam com o mundo.
(Crônica de Marcos Fernando Kirst publicada no jornal "Pioneiro", de Caxias do Sul, em 3 de fevereiro de 2020) 

segunda-feira, 27 de janeiro de 2020

O que não vem por download

Incorporar uma nova tecnologia à nossa vida, que encontre seu lugar entre nossos sempre enraizados hábitos, não é algo assim tão simples. Por mais que prometam revoluções e mil vantagens, nem sempre nos deixamos seduzir por um botãozinho e não são poucas as vezes em que retornamos resignada, acolhedora e pacientemente aos nossos velhos e bons chinelinhos de pano, só para usar uma imagem amigável e de fácil entendimento, né, madama, porque nenhum de nós dois pensa em trocar as chinelas por um par de patins...
Lembro, milênios atrás, quando ainda morava com meus pais na sempre saudosa Rua dos Viajantes, na Ijuí de minha infância, do presente esquisito que a família ganhou certa feita: uma faca elétrica de cortar pão! Ora, bastava enfiar na tomada o plugue, posicionar o aparelho (que se assemelhava a um aspirador de pó portátil) com as lâminas sobre o pão d´água já devidamente imobilizado e apertar o botão. As lâminas iam e vinham como um serrote, exigindo apenas que o hábil provedor do café da manhã tratasse de ir aprofundando o encravamento sobre a casca e depois o miolo, produzindo uma a uma as fatias que devoraríamos com o mel, a manteiga, o schmier (que pronunciávamos “ximia”) de uva... Mas, ao fim e ao cabo, não rolou. Muito mais fácil, rápido, ágil e eficaz meter a mão na velha faca de cortar pão retirada da gaveta dos talheres e proceder aos cortes, sem cabo elétrico, sem busca por tomada. Teve vida curta a faca elétrica, jazendo esquecida para sempre em alguma das prateleiras da cozinha.
Da mesma forma as escovas de dentes elétricas. Comigo, não vingaram. Descobri, dia desses, via contatos internacionais, que fenômeno semelhante se deu nos Estados Unidos, onde a promessa de uma vida doméstica melhor por meio da aquisição de abridores de latas elétricos também foi por água abaixo. Claro que, nessa esteira, a saga dos avanços tecnológicos apresenta, no geral, um “case” de sucesso: migramos alegremente das charretes para os automóveis de câmbio automático; aposentamos as máquinas de escrever pelos teclados de computador; as máquinas fotográficas pelos fones celulares; a pena de pavão pela esferográfica; os telefonemas pelas mensagens de whats; o estrogonofe pelo risoto de alho-poró com ervas finas; a Divina Comédia pela nova edição do BBB.
Mas o que jamais será substituído por tecnologia alguma, madama, é o olho no olho em uma conversa a dois; um aperto de mão caloroso; um bom livro no colo antes de dormir; um churrasco em família e com os amigos... Ainda tem coisa na vida que não se pode medir via megabites.
(Crônica de Marcos Fernando Kirst publicada no jornal "Pioneiro", de Caxias do Sul, em 27 de janeiro de 2020)

segunda-feira, 20 de janeiro de 2020

O príncipe e o menino


Enfrentando com um sorriso as expressões de espanto exclamadas em todas as línguas do planeta, o príncipe Harry não pestanejou, dias atrás, ao decidir chutar o balde, digo, a coroa da realeza britânica e largar de mão sua participação no elenco capitaneado por sua avó, a rainha Elizabeth II, para ir reinventar a vida de forma plebeia ao lado da esposa, a atriz norte-americana Meghan Markle, no Canadá. Harry e Meghan manifestaram o desejo de viver uma vida normal, ganhando seu próprio sustento, desvencilhados do aparato advindo da ostentação (e dos impostos) da coroa britânica, claro que entendendo-se por “normal” aquilo que se pode antever de uma dupla que passa a enfrentar seus novos desafios já confortavelmente ancorada em fortunas que nossas vãs filosofias e finanças sequer sonham.
Mas vá lá: o (ex?) príncipe Harry surpreende pela ousadia de quebrar uma tradição, enfrentar as adversidades e a repercussão internacional de seu ato e mergulhar no sonho de ir em busca da felicidade pessoal. Tudo fica mais fácil, repito, quando se tem uma conta bancária capaz de ancorar qualquer loucura, mas pelo jeito a questão não era só essa. Buscar a felicidade é uma prerrogativa lícita e um direito universal, válida inclusive para príncipes e atrizes hollywoodianas, eu, você e a madama. Que sejam felizes, então, longe da rainha e sua coroa encravada.
Comungava com Harry o desejo de buscar uma vida melhor também o menino africano Laurent Barthélémy Ani Guibahi, de 14 anos, que na semana passada decidiu concretizar o desejo de abandonar seu país natal, a Costa do Marfim, e reconstruir a vida na França, país que em seu imaginário de garoto estudioso e bom filho, representava o paraíso na Terra, sabedor que era da discrepância na qualidade de vida entre as duas nações. Determinado, pôs seu plano em ação na primeira semana deste ano: fez a pé os 30 quilômetros que separam sua casa do aeroporto de Abidjan e embarcou como clandestino em um Boeing da Air France, escondendo-se perigosamente no trem de pouso. Laurent foi encontrado após a aterrissagem, no Aeroporto Charles de Gaulle, na França, porém, chegou morto ao destino de seu sonho. Os mundos internos de Harry e Laurent convergiam no anseio genuinamente humano que pauta a busca pelos sonhos. Porém, seus mundos concretos divergiam nas condições de que dispunham para viabilizar esses sonhos. A busca da felicidade tem seu preço, cabe a cada um pesar a relação entre custos e riscos. Para o pequeno africano, custou a vida. Para Harry, pouco mais que sustentar o olhar torto da rainha.
 (Crônica de Marcos Fernando Kirst publicada no jornal "Pioneiro", de Caxias do Sul, em 20 de janeiro de 2020)

segunda-feira, 13 de janeiro de 2020

O perigo da falsa autoria


Venha cá, madama, vamos falar sobre algo sério, senta aqui do lado. Pois é, precisamos conversar sobre essa coisa do “diz que me diz que”. Isso! Hein? Não, que é isso, não estou dizendo que a senhora disse que! Nada disso! Não disse isso, e é exatamente sobre isso que desejo falar: sobre quem disse o que! Pois é, a senhora veja, existe hoje muito dessa coisa de dizerem que Fulano disse tal coisa, sendo que a coisa tal jamais foi sequer aventada pela mente de Fulano, por mais imaginosa e criativa que ela seja, cabendo, na verdade, a Sicrano a autoria do dito, que acaba passando batido. Precisamos atentar a essas coisas, para evitar dizermos que disse o dito quem não o disse. Para fins de abertura séria da crônica de segunda, direi que precisamos abordar a questão das falsas atribuições de autoria.
A senhora veja, madama, como são as coisas. São de tal porte e envergadura que sequer um cronista de segunda como eu se vê livre de incorrer no erro. Vida inteira, por exemplo, atribuí a Borges (o escritor argentino, aquele), a bela reflexão que segue: “Sonhei pelo menos algumas vezes que, no dia em que chegar o Juízo Final e os grandes conquistadores, juristas e estadistas forem receber suas recompensas – coroas, lauréis, nomes gravados indelevelmente no mármore imperecível -, o Todo-Poderoso há de se virar para Pedro e dirá, não sem uma ponta de inveja ao nos ver chegando com nossos livros debaixo do braço: ‘Veja, estes não precisam de recompensa. Aqui não temos nada para lhes dar. Gostavam de ler’”. Lindo, né? Só que a sensibilidade pertence à escritora Virgínia Woolf, não a Borges. Da mesma forma, as frases erroneamente atribuídas a Bertold Brecht, referindo-se à perseguição nazista na Alemanha: “Primeiro eles vieram buscar os socialistas, e eu não disse nada, pois não era socialista. Então vieram buscar os sindicalistas, e eu não disse nada, pois não era sindicalista. Depois vieram buscar os judeus, e eu não disse nada, pois não era judeu. Quando eles vieram me buscar, já não havia ninguém que pudesse protestar”. Quem disse foi o pastor alemão Martin Niemöller, uma das raras vozes a se levantar contra a psicopatia assassina hitlerista na Alemanha, na época. Sabia? Nem eu!
Precisamos cuidar com as pegadinhas das falsas atribuições de autoria, para não incorrermos em injustiças e erros. Shakespeare nunca disse “Postar ou não postar, eis a questão!”. Fernando Pessoa jamais poetou que “o amor é a coisa mais linda do mundo”, apesar de ser, sim. Cuidado com as pegadinhas, madama! Essa, a senhora pode atribuir a mim mesmo!
(Crônica de Marcos Fernando Kirst publicada no jornal "Pioneiro", de Caxias do Sul, em 13 de janeiro de 2020)

segunda-feira, 6 de janeiro de 2020

O papa deu mais que palmadas


Confessa, madama, que a senhora também ficou escandalizada com a cena protagonizada pelo papa Francisco na última noite de 2019, semana passada, às vésperas da virada do ano, quando ele precisou dar dois tapinhas nas mãos de uma peregrina impertinente que o agarrava pelo braço exigindo bênção, na Praça São Pedro, no Vaticano. Primeiro lugar, né, madama, bênção não se exige, bênção se recebe (no máximo, se pede com educação, o que faltou à peregrina, é verdade, porém, facilmente desculpada devido à emoção que a possuía ao ver-se cara-a-cara com o sumo pontífice, de quem acabou obtendo foi o privilégio único de receber sumas e santas palmadas). Todos viram a cena, que rapidamente viralizou mundo afora, via redes sociais e, depois, mídia tradicional (a senhora mesma já assistia ao episódio papal na tela de seu smartphone poucas horas depois, em arquivo compartilhado pelas suas amigas da hora do chá, confessa), gerando espanto devido à perda da paciência por parte do papa, que, ali, descortinava seu lado humano e, ipso facto, falível (“ipso facto” significa “por isso mesmo”, madama, a senhora sabe que não resisto a um latinismo ao abordar temas papais).
Mas o espanto generalizado frente a um súbito arroubo de perda da paciência não se justifica em se tratando da ação dos protagonistas do cenário do universo cristão, onde os episódios se acumulam. A meu ver, todas as vezes em que isso aconteceu, a justificativa era válida. Jesus Cristo, ele mesmo, perdeu a paciência bonito ao entrar em Jerusalém e deparar com o templo sagrado tomado por vendilhões, aos quais tratou de expulsar a chicotadas, viradas de mesa e xingamentos. Bem que fez. Deus, no Antigo Testamento, perdeu a paciência várias vezes com a humanidade pecadora que ele mesmo havia criado, com consequências trágicas, bastando lembrar do Dilúvio e da destruição de Sodoma e Gomorra. Não há dúvidas de que o mau comportamento dos seres humanos é capaz de tirar do sério até mesmo seu Criador. Quem tinha paciência mesmo era Jó, mas daí já é querer demais de nós todos, simples mortais, pecadores e papas.
Mas se ao perder a paciência o infalível papa demonstrou ser moldado pela mesma essência que rege todo o restante da humanidade, foi ao reconhecer seu erro e vir a público pedir desculpas, já no dia seguinte, que ele revelou o aspecto que o diferencia de todos nós, madama: a senhora, eu e todos os bilhões de etceteras que nos cercam. Ele humanamente errou, sim. Mas, depois, reconheceu o erro, mostrando o caminho, que é o que esperamos de um papa. Quem de nós segue o exemplo?
(Crônica de Marcos Fernando Kirst publicada no jornal "Pioneiro", de Caxias do Sul, em 6 de janeiro de 2020) 

segunda-feira, 30 de dezembro de 2019

A rica lição do pobre poeta


“Os poetas são pobres porque assim o querem, afinal, está em suas próprias mãos serem ricos”. A sentença foi colocada na boca de Tomás Rodaja, personagem de um conto concebido pelo gênio do escritor espanhol Miguel de Cervantes Saavedra (1547-1616), estabelecido em eterna fama mundial pelo seu “Dom Quixote”, obra que encanta gerações de leitores desde que veio pela primeira vez à luz, no início do século 17. Entre a primeira e a segunda parte de seu livro sobre as aventuras do Cavaleiro da Triste Figura, Cervantes levou a público uma coleção de 12 contos intitulada “Novelas Exemplares” (lançada em 1613), e é daquela conhecida como “O Licenciado Vidreiro” que emerge a frase aqui pinçada para servir de mote para esta derradeira crônica de segunda do ano de 2019.
Tomás Rodaja, o dito personagem, é um estudante de Salamanca que, devido a uma poção mágica, se transforma em um andarilho que se imagina feito de vidro e perambula a esmo pelas paragens espanholas, distribuindo frases de efeito e conselhos. É nessa condição que profere aquele dito a respeito da pobreza característica da maioria dos poetas de seu tempo, indo além: “É só eles saberem aproveitar a ocasião, uma vez que a fortuna se encontra nas mãos de suas namoradas, pois são todas riquíssimas”. Afinal, as namoradas dos poetas não possuíam, conforme eles cantam em seus versos, “cabelos de ouro, rosto de prata polida, olhos de verde esmeralda, dentes de marfim, lábios de coral, colo de cristal transparente”, e suas lágrimas não eram “pérolas líquidas”, dando mostras de sobra de sua “imensa riqueza”? Ora, possuindo namoradas dotadas de tamanha formosura e fortuna, permaneciam pobres os poetas porque assim o desejavam, conclui o envidraçado filósofo criado por Cervantes, quatrocentos e tanto anos atrás.
O que o escritor pretendia, com a passagem, evidentemente, era criticar a pobreza de estilo e a sucessão de imagens literárias batidas usadas pelos maus poetas de seu tempo, e talvez não só os de seu tempo. Mas o que atravessa incólume as brumas dos séculos e permanece é a nova metáfora, criada por Cervantes com esta passagem, que nos leva a refletir sobre nossas próprias visões distorcidas da realidade, que muitas vezes nos impedem de alcançar nossos objetivos. Que “cabelos de ouro” não caiam sobre nossos “rostos de prata polida”, impedindo nossos “olhos de verde esmeralda” de ver a realidade como ela é, e que possamos, neste 2020, moldar nossas jornadas de vida de forma lúcida, criativa, colaborativa, cidadã, harmoniosa e tolerante. Bom Ano-Novo a todos!
(Crônica de Marcos Fernando Kirst publicada no jornal "Pioneiro", de Caxias do Sul, em 30 de dezembro de 2019)

segunda-feira, 23 de dezembro de 2019

Zelar pelo bem maior


Meu sobrinho/afilhado, de nome João, encarnou (com maestria, obrigo-me a dizer, descontada a corujisse irremediável que se apossa do mundano cronista) o papel de José, esposo de Maria, na apresentação de final de ano ofertada aos pais (e dindos infiltrados) pelos aluninhos da escola em que ele estuda, erradicando de vez o analfabetismo que até então o afligia, no alto de seus sete anos de (intensa, criativa e encantadora) vida. No fim das contas, José era João, durante alguns minutos da emocionante performance, pontuando o final do ano letivo em uma confraternização entre escola, professores (alguns deles afogados em beijos e abraços desferidos pela espontaneidade das crianças que com eles convivem todos os dias), pais e penetras (que não se constrangeram em, depois, participar do ataque à mesa de gulodices destinada à comunidade escolar, mas justificamos nossa famélica atuação imaginando ocupar a lacuna deixada pelas crianças, que, nessas horas, ignoram os comes e bebes para mergulhar nas brincadeiras e correrias). 
As crianças emocionaram a todos, oferecendo um espetáculo repleto de surpresas ensaiadas (acrobacias, truques de mágica, danças, cantos, encenações natalinas) capazes de ombrear as mais profissionais montagens realizadas pela aí, nos quesitos dedicação, empenho, verdade e entrega. Acompanhadas pelo violão do professor, uniram as vinte vozes infantis em duas canções com letras complexas e intermináveis, surpreendendo (ao menos, a mim) pela capacidade de segurar a atenção de um público adulto (composto por corujas de várias idades, admito, mas corujas também têm coração, atesta a biologia animal e os veterinários, permitindo até vislumbrar a existência de alma em algumas delas). Em um canto do salão onde as encenações tinham lugar, um estandarte exibia uma frase significativa, que, acredito, explicitava a essência absoluta da experiência que ali vivenciávamos: “Família, nosso bem maior”.
Essa é a chave de tudo. Precisamos saber zelar pelos nossos bens, a começar pela família, que, sim, é o maior de todos. Nossa profissão, nossos relacionamentos, nossa saúde, nossa comunidade, nossos projetos, nossa imagem, nossas vidas, são outros bens tão importantes quanto, e precisam ser tratados com o mesmo zelo, 365 dias por ano, a fim de que essa sensação sublime que nos invade nos natais seja repleta de significado verdadeiro. Que era (e segue sendo), ao fim e ao cabo, a mensagem proposta pelo filho da família formada pelo José bíblico interpretado por meu afilhado naquela noite memorável. Feliz Natal a todos.
(Crônica de Marcos Fernando Kirst publicada no jornal "Pioneiro", de Caxias do Sul, em 23 de dezembro de 2019)

quarta-feira, 18 de dezembro de 2019

Tudo começou após o térreo


Levava como título “Embaraço após o térreo” e, como data, o hoje longínquo 10 de novembro de 1985, que se perde nas brumas do tempo, arremessando-nos de volta ao século passado, nos estertores de um milênio ainda analógico. O texto versava, de modo bem humorado (o que se tornaria uma espécie de marca registrada dali em diante, mas na época as madamas, o Argentino, a Dona Esmeraldina, as senhorinhas da hora do chá, ainda não circulavam pela aí nestes sempre mal-digitados, intermináveis e asfixiantes períodos, tecidos impunemente por um autointitulado cronista mundano de segunda), sobre a sempre constrangedora situação que se estabelece entre os desconhecidos que, ao longo de alguns curtos e intermináveis segundos, se veem obrigados a compartilhar o exíguo espaço de um elevador, submetendo-se a uma intimidade física indesejada e constrangedora, apesar de breve. Dava-se, ali, a minha estreia pública enquanto cronista, na edição daquela data do hoje extinto jornal “A Razão”, de Santa Maria.
O responsável por aquela situação foi o professor de Língua Portuguesa do curso de Comunicação Social da Universidade Federal de Santa Maria (que eu cursava, na época), Orlando Fonseca (escritor consagrado e cronista fixo daquele jornal), que havia proposto a nós, alunos, como exercício de aula, a produção de crônicas. Fi-la, entreguei-a e, dias depois, ao receber de volta o trabalho com nota máxima (quem diria, após anos com 5 em matemática e 6,5 em biologia!), o generoso professor me perguntou se eu lhe permitia publicar meu texto na coluna semanal assinada por ele no jornal. Estupefato, meu subconsciente gritou “sim”, antes que meu consciente, anestesiado e boquiaberto, deixasse passar o cavalo encilhado. Publicado o texto, comecei a achar que poderia ser cronista. Dali em diante, passei a estudar os cronistas de verdade, o que se tornou um hábito cultivado até hoje, na esperança de descobrir a fórmula da boa escrita e de um dia aprender o que os mestres ensinam (entre eles, Luis Fernando Verissimo, Rubem Braga, Sérgio Porto, Leon Eliachar, João Bergmann, Jimmy Rodrigues, Machado de Assis, Fernando Sabino...).
Agora, neste vindouro 20 de dezembro, completo dez anos ininterruptos na condição de cronista do jornal “Pioneiro”, período ao longo do qual publiquei, com esta de segunda, 1143 textos, o que muito me honra. Espelhar o espetáculo da vida cotidiana, procurando refletir sobre ela a essência do viver, é o desafio que se impõe a cada semana. Grato aos leitores pela generosidade da atenção e ao “Pioneiro”, pelo espaço. Sigamos.
(Crônica de Marcos Fernando Kirst publicada no jornal "Pioneiro", de Caxias do Sul, em 16 de dezembro de 2019)


segunda-feira, 9 de dezembro de 2019

O segredo é a harmonia


Em um de seus romances mais significativos, “Cécile” (1811), o político, pensador e escritor franco-suíço Benjamin Constant (1767 – 1830) – que não deve ser confundido com o militar e político brasileiro homônimo (1836 – 1891), até porque o brasileiro recebeu o nome em homenagem ao seu predecessor europeu –, induz um de seus personagens, o senhor de Langallerie (que existiu na vida real), a refletir sobre um aspecto crucial das questões filosóficas que afligem a humanidade desde que, oriundos das cavernas, fomos iluminados magicamente pela consciência de nossa própria existência. Diz assim, o senhor de Langallerie: “Não se poderá negar que existe um poder, exterior a você, mais forte que você. Pois bem, a única maneira de encontrar a felicidade neste mundo é estar em harmonia com esse poder”.
A compreensão e aceitação dessa verdade universal está na base das religiões, cuja missão é promover uma estreita ligação entre os seres humanos e esse poder superior. As religiões antigas desmembravam os aspectos divinos em uma miríade de deuses antropomorfos – as mitologias –, e caíram em desuso frente ao surgimento de um pensamento mais moderno e poderoso, representado pelas religiões monoteístas, nas quais o poder superior é imanente a um deus único. Agnósticos e ateus podem identificar a manifestação dessa força naquilo que classificam como a própria Vida ou a maravilha inexplicável do Universo e suas inter-relações entre tudo o que existe. Cientistas de laboratório podem detectar vestígios desse poder nas profundezas das galáxias e nas miudezas da atividade subatômica. Cientistas dos divãs conseguem vislumbrar essa força nos conceitos com que trabalham, como o self, o inconsciente, o subconsciente e outros. Independentemente da forma como esse poder é decifrado, a verdade detectada pelo escritor francês parece criar um elo entre todos esses conceitos: a felicidade só pode ser alcançada a partir do momento em que entramos em harmonia com esse poder, seja lá como cada um o conceba.
De minha parte, vejo nas manifestações culturais e artísticas, de todas as espécies, um dos caminhos que possibilitam esse encontro, por meio da promoção do êxtase obtido da fruição do sublime. Literatura, música, dança, cinema, teatro, fotografia, canto, escultura, pintura, desenho e outros são instrumentos também válidos para gerar essa epifania, daí a importância da defesa constante do valor da manifestação das artes e da cultura, livres e amplas, em uma sociedade que queira permitir a busca individual e democrática pela felicidade.
(Crônica de Marcos Fernando Kirst publicada no jornal "Pioneiro", de Caxias do Sul, em 9 de dezembro de 2019)

segunda-feira, 2 de dezembro de 2019

Combustível da vida na sola


Neste 2019 completei três décadas de dedicação profissional ao jornalismo. A saga teve início em 1989, em fevereiro, quando fui admitido no jornal “A Razão” (hoje extinto), em Santa Maria. Eram outros tempos. Outro século, outro milênio, outras tecnologias, outros hábitos. E eu, claro, era outro eu. Recém-egresso da universidade, cumpria o papel de um “foca” típico: o tanque interno completado com o puro combustível da vontade de fazer, disputando espaço com a inexperiência, que me levava a encarar qualquer desafio como um universo a ser desbravado, repleto de oportunidades para aprender. O que era, mesmo.
A barba espessa fazia um conjunto desgrenhadamente harmônico com a cabeleira castanha e farta, fruto da abundância capilar de quando se está nos vinte e tantos. O peso na balança também era outro, o que permitia a agilidade do entusiasmado repórter iniciante ao abraçar a missão de produzir os cadernos de bairros que o jornal encartava mensalmente, cada vez uma região específica, com seus problemas, seus anseios, suas gentes e sua voz. O motorista me largava no início da tarde na entrada do bairro e combinava de me resgatar no mesmo ponto horas depois. Lá ia eu, prancheta em punho repleta de laudas em branco, duas canetas Bic e uma pauta a ser cumprida. De volta ao jornal, após alguns dias, era meter mãos às teclas da máquina de escrever, após lambuzar os dedos trocando a fita, e produzir os textos em meio a uma típica redação da época, engarrafada de jornalistas gritando ao telefone (celular, nem se concebia), datilografando matérias freneticamente (computador, só na Nasa), aparelhos de fax e telex vomitando notícias vindas de todas as partes do planeta (internet, nem nos sonhos mais bizarros) e colegas fumando no ambiente (coisa mais natural do mundo, no mundo de então).
O primeiro caderno de bairros sob minha assinatura circulou um mês após minha admissão (“por Marcos Fernando Kirst, da Equipe de A Razão”), indo às bancas na mesma semana em que na minha conta pingava o primeiro salário via carteira assinada. Com a grana no bolso, na manhã de sábado fui às Casas Eny, tradicional loja de calçados da região, e comprei dois pares de sapatos de camurça, pois o meu havia furado (meu primeiro “furo”?!) palmilhando as ruas esburacadas do bairro reportado. Precisava de combustível para seguir percorrendo os recantos da vida em busca de informação, o que faço até hoje. Os calçados, claro, vão mudando, mas a vocação que orienta meus pés, segue firme. Afinal, ainda há ruas da vida a serem palmilhadas e reportadas pela aí.
(Crônica de Marcos Fernando Kirst publicada no jornal "Pioneiro", de Caxias do Sul, em 2 de dezembro de 2019)

segunda-feira, 25 de novembro de 2019

Havia butiás naquele bolso!


Quem foi que disse que bolso é o lugar mais apropriado para o sujeito guardar butiás? Na verdade, até pode ser, uma vez que, ali dentro devidamente empilhados, é difícil eles saltarem para fora e virem a se espraiar pelas calçadas da urbe. A não ser que o solavanco seja de grande monta. Só assim, para que os butiás pulem do bolso do vivente. Pois semanas atrás fui alvo de um solavanco dessa natureza, que fez se espraiarem longe os butiás que nem sabia vir portando no bolso, ao ser convocado para uma reunião com colegas jornalistas representantes da ARI Serra Gaúcha, a seccional local da Associação Riograndense de Imprensa, que representa os comunicadores da região.
Os sorrisos largos e os apertos efusivos de mãos provenientes dos colegas comunicadores e integrantes da diretoria da entidade, Andreia Fontana (presidente da ARI Serra Gaúcha e Gerente de Jornalismo da RBS Caxias) e os jornalistas Juliano Flores e Viviane Somacal, anteviam a boa e inesperada surpresa, anunciada no momento em que eu procurava equilibrar nas mãos uma recém-servida xícara de café preto: meu nome havia sido escolhido para receber, na edição deste ano, o Troféu ARI na categoria Jornalismo Digital e Impresso! Quanto butiá havia naqueles bolsos! E que problema equilibrar aquela pequena xícara, frente ao tremor causado pela emoção advinda da inesperada honraria! Fiquei e sigo emocionado. Juntamente com os demais oito colegas comunicadores agraciados nas diversas categorias (Juares Franco: Jornalismo Audiovisual; Celso Sgorla: Radiojornalismo; Lucinara Masiero: Assessoria de Imprensa; Gilmar Gomes: Imagem; Jomba Salim: Propaganda e Marketing; Neide Tomazzoni Michelon: Relações Públicas; Luís Antônio Giron: Destaque Nacional e Guiomar Chies: Contribuição à Comunicação), flagrei-me comovido com o reconhecimento advindo dos colegas de profissão e também da comunidade, que, neste ano, foi instada a participar da escolha, por meio de votação.
Dedicar a vida profissional à atividade de ampliar as ferramentas de comunicação e de informação entre a comunidade em que se atua é uma vocação que traz, junto aos desafios diários, a plena convicção de se estar contribuindo para os processos de crescimento e desenvolvimento regionais, bem como na formação vital da cidadania. Grato pela homenagem e pelo reconhecimento, que se concretizam na entrega dos prêmios na reunião-almoço da CIC (copatrocinadora do Prêmio) desta segunda-feira.  E se alguém topar com butiás à solta por aí... eram meus, mas que sigam livres, representando a realização de uma escolha certa de vida!
(Crônica de Marcos Fernando Kirst publicada no jornal "Pioneiro", de Caxias do Sul, em 25 de novembro de 2019)

segunda-feira, 18 de novembro de 2019

O luto por um vaso partido


A situação que vou relatar se assemelha à que acontece, às vezes, com aquele vaso antigo que está na família há gerações e vem sendo herdado de forma compulsória por membros menos atentos, no ritual de distribuir os pertences dos ancestrais que vão se retirando de cena. O vaso é sem graça, ninguém sabe de onde veio, se possuía algum significado sentimental para os bisavós, mantido em cena como um coadjuvante silencioso ao longo das décadas, passível de ser identificado ao fundo de alguma velha fotografia, refugado a um canto na prateleira. Por hábito, respeito ou inércia, nunca foi jogado fora, acabou ficando, até o dia em que, pelo manejo desastrado de algum cabo de vassoura, espatifa-se no chão e, daí sim, finalmente, obtém a atenção que jamais conquistara em “vida”: lamentamos sua perda, choramos sua saída de cena, mesmo que, antes, nunca tenhamos prestado atenção à relevância de sua atuação silenciosa. Sentimos luto pela perda do vaso insosso e discreto, pois é inerente à nossa  índole humana a necessidade de sofrer com o processo de desapego.
Da mesma forma se dá, no momento, com o desaparecimento de minha vesícula, órgão discreto, de papel importante mas coadjuvante no funcionamento de meu organismo, que resolveu inflamar de súbito, me lançar ao chão de casa miando de dor no início de uma madrugada e me empurrar ao pronto-socorro, onde, após uma série de exames (eco, tomo e afins...), obrigou-me a me ver baixado em um leito, aos cuidados zelosos de enfermeiras e médicos, obedecendo a rituais de trocas de soro, aplicações de medicamentos via intravenosa, aferições periódicas de sinais vitais, dietas líquidas, até a apoteose final da saga, representada pelo ato sacrificial de retirada física de sua presença no conjunto dos órgãos que compõem a orquestra das minhas entranhas. Foi-se minha vesícula, já era, não nos reveremos jamais! Coração, pulmões, rins, fígado, pâncreas, baço, bexiga e intestinos juram, de pés juntos (com os meus pés, claro, que se solidarizam nesse momento delicado), que serão capazes de seguir dando conta do recado apesar da deserção vesicular. Serve de consolo, mas, além da dor dos pontos, sinto outra pontinha de dor pela perda de uma parte de mim, mesmo que, até então, jamais tivesse me dado por conta de sua sutil existência.
Minha vesícula acabou se revelando tão dispensável quanto o velho vaso da tataravó. Porém, para a garantia de uma sequência de vida saudável, é aconselhável não abandonar a memória de nenhum deles, da dor que foi perdê-los e das razões que culminaram nas dolorosas separações...
(Crônica de Marcos Fernando Kirst publicada no jornal "Pioneiro", de Caxias do Sul, em 18 de novembro de 2019)

segunda-feira, 11 de novembro de 2019

Por mais vida, por mais arte!


Cem anos atrás, em março de 1919, morria, em Criúva (hoje distrito de Caxias do Sul), uma bela e jovem moça de 26 anos de idade incompletos, que decidira fazer de sua vida (abreviada devido à tuberculose, doença incurável e fatal em sua época) uma opção preferencial pela cultura e pela arte. Proativa, vanguardista e criativa, temperava seu cotidiano em Porto Alegre e na Serra Gaúcha dedicando-se ao cultivo do espírito, consumindo e produzindo arte. Era poeta, de brilho e talento reconhecidos nos meios intelectuais e literários da Capital e da Serra, mesmo não tendo tido tempo de publicar livro contendo a obra que vinha lapidando com esmero e dedicação. Chamava-se Vivita Cartier, e seu corpo segue sepultado no Cemitério do Pontão, em Criúva, inspirando artistas de várias esferas de atuação, ao longo das décadas, driblando o sempre ameaçador manto do esquecimento.
Vivita Cartier é lembrada e a essência de sua alma artística é mantida viva porque sua vida e sua obra seguem falando e inspirando aqueles que reconhecem a relevância vital do cultivo do espírito humano (por meio das artes e da cultura) na formação da cidadania, na consolidação de sociedades civilizadas e desenvolvidas e na transformação dos seres humanos em plenamente humanos. Sua memória vem sendo cultivada por historiadores, pesquisadores e entusiastas (conhecidos e anônimos, alguns já falecidos, outros ainda ativos), como João Spadari Adami, Honeyde e Adelar Bertussi, Mario Gardelin, Mario Vanin, Juventino Dal Bó e Rodrigo Lopes, entre outros.
A biografia de sua breve vida, escrita por mim e lançada este ano, suscitou vários artistas a revisitarem sua história, ampliando as formas de se relacionar com sua essência, como os músicos da banda Rota Lunar, conduzidos por Selestino Oliveira, que arranjaram e musicaram alguns de seus poemas, gravando um CD especial; as alunas da Escola Estadual de Ensino Médio João Pilati, de Criúva, que levaram aos palcos a vida de Vivita por meio de alguns de seus poemas mais significativos; a fotógrafa Liliane Giordano, que produziu um ensaio fotográfico e uma mostra abordando vislumbres da Noiva do Sol (como Vivita era chamada) e o Grupo Teatral Ueba Produtos Notáveis, que encenou a vida da poeta em um trabalho magistral protagonizado por Jonas Piccoli e Anile Zilli. A luta empreendida por Vivita há mais de um século, por mais vida, se transforma em bandeira e símbolo nos dias de hoje por quem batalha pela manutenção da essência da vida a partir do cultivo das artes e do espírito, na guerra contra as névoas do obscurantismo.
(Crônica de Marcos Fernando Kirst publicada no jornal "Pioneiro", de Caxias do Sul, em 11 de novembro de 2019)

quinta-feira, 7 de novembro de 2019

Alguém ajuste o despertador!


Ser acordado em meio ao sono pelo barulho de um despertador deveria ser proibido por lei. Algo a se pensar, nesses tempos esquisitos em que o ato de proibir vem conquistando um ibope só igualado ao que desfrutam as censuras nas ditaduras, mas deixemos os obscurantismos de lado, por favor, que de pesadelos bastam os dos sonhos. Pois é, exatamente isso: despertadores, mesmo que agora municiados com a possibilidade de baixar aplicativos com musiquinhas suaves que nos encantam, sempre acabam nos extirpando a fórceps das doces pradarias oníricas para a aridez da realidade desperta em um piscar de olhos (a essas alturas, semicerrados e ainda remelentos, confessemos). A mim, não faz bem, e, sempre que sou acordado desse jeito, demoro alguns instantes para encaixar a alma ao corpo, que se ergue de susto da cama e adentra o roupeiro em busca da tampa do vaso a ser erguida com urgência matinal.
Ser trazido dessa maneira à realidade deixa sonhos órfãos, inconclusos e a meio caminho, o que pode vir a ser um problema. Manhã dessas, ao despertar de forma suave e natural, sem o auxílio (e a imposição) de nenhum despertador, vi-me emergindo de dentro de um jipe, chapéu australiano na cabeça, exclamando ao sujeito sentado ao volante: “Adis Abeba fica para o outro lado!”. E puf! Saí do sonho! Adis Abeba? Onde fica Adis Abeba? Teria de verificar no google maps, durante o café da manhã. Ao saltar da cama rumo à porta correta do banheiro, recordava ainda do chapéu australiano que também encimava a cabeça de meu parceiro de jipe, cuja identidade não soube definir. Seria meu guia? Se fosse, era um incompetente, afinal, Adis Abeba ficava definitivamente para o outro lado. Jamais contrate guias em sonhos, fica a dica. Areia cercava o jipe por todos os lados, e seguramente não era a de Torres. Em que deserto estávamos? No do Saara? No de Gobi? Indecifrável!
Mas senti alívio por ter acordado de forma natural no justo instante em que percebi que Adis Abeba ficava para o outro lado. Caso um despertador me tivesse arrancado do jipe minutos antes, eu corria o risco de ficar eternamente perdido naquele sonho, em um deserto inominável, desorientado em relação à posição real de Adis Abeba. Seria terrível, pois não sei quanta água ainda tínhamos conosco nos cantis e tampouco conhecia as intenções do chapeludo ao meu lado. Ver-se perdido e desorientado no mundo desperto é uma coisa... Já, em sonhos, é excruciante. Mas, espera um pouquinho... O que você disse? Onde fica Adis Abeba? Ora, é para o outro lado! Não é?... Ei, alguém ajuste o despertador!
(Crônica de Marcos Fernando Kirst publicada no jornal "Pioneiro", de Caxias do Sul, em 4 de novembro de 2019)