Sou a expressão viva e semovente
daquela máxima que diz assim: “quem não me conhece, pensa que eu sou burro;
quem me conhece, tem certeza de que o sou”. Sendo assim, o que resta para mim
mesmo, que me conheço de perto e intimamente como ninguém outro? Ora, a mim
resta resignar-me com a consequência de minhas tolices e administrar, da melhor
forma possível, as lacunas deixadas pela amplitude de minhas deficiências
sapienciais, que parecem aumentar na justa medida e proporção em que procuro
saná-las. Injusto isso, pois não?
Mas é assim que é, e os
exemplos, ao passo em que vou vivenciando a vida, se vão acumulando e formando uma
seleta de episódios exemplares dessa asnice minha, um dos quais debruço-me a
citar na sequência, para que o amigo leitor e a estimada leitora não pensem
que, além da autopropalada burrice, envergo de lambuja o defeito da falsa
modéstia, ao pretender ficar escamoteando a divulgação das provas no intuito de
obter o beneplácito e o afago gerais, o que, aliás, um período extenso e
despudoradamente intercalado como este concorre para a obtenção imediata do
efeito contrário, como sei que já ocorre com o distinto leitor que empalidece
ao perder o fôlego e também com a frágil leitora, que já desabou sobre o sofá e
pede pelo ponto. Respiremos e, a seguir,
o dito exemplo.
Pois bem: burro que sou, achava
eu que a obra “Cyrano de Bergerac”, de autoria do francês Edmond Rostand (1868
– 1918), era um romance, uma novela em prosa. Pois errei. Não é. Trata-se de
uma peça teatral. Que, aliás, fez estrondoso sucesso no mundo todo desde sua
estreia em 1898, tendo nos papéis principais o ator Constant Coquelin (1841 –
1909), que atuou mais de 400 vezes interpretando Cyrano; e Sarah Bernhardt
(1844 – 1923) na pele da bela Roxane (personagem que, quase um século mais
tarde, inspirou Sting, do The Police, a criar uma de suas mais famosas
músicas).
E do alto de minha estultice,
julgava eu, por puro desconhecimento, que a obra era chata, enfadonha, datada,
água-com-açúcar, mimimi. Porém, seguindo uma indicação de leitura, procurei o
livro, adquiri-o na sexta-feira passada e devorei-o no final de semana,
transformando-se ele, ao final da leitura, em uma das melhores obras que já li
em toda a minha longa vida de asno leitor. Ignorei-o por décadas, exatamente
como o fazemos nós, os burros: afastamo-nos do que não conhecemos e, por
preconceito, privamo-nos de maravilhas. Como, felizmente, não é possível ser
burro o tempo todo, às vezes ocorrem essas escorregadelas que nos permitem sermos,
de vez em quando, antas felizes.
(Crônica publicada no jornal Pioneiro em 11 de janeiro de 2016)
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