Desde o momento em que nascemos
até o findar de nossos dias, passamos a vida nos esforçando, das mais diversas
maneiras possíveis, para tentar comunicar aos outros aquilo que se passa em
nossas almas. Precisamos dar a entender a nossos pais, enquanto bebês, que
estamos com fome, que temos dor de barriga, que queremos colo. Para isso,
metemos a boca no mundo e funciona, nossos pais entendem e nos dão de mamar,
aquecem nossas barrigas com colo e nos acalentam. Aos poucos, vamos aprimorando
nossas formas de comunicação utilizando a fala, os gestos, a escrita, o grito,
o memorando, o beliscão, o riso, o bocejo, o whatsapp e por aí afora, sempre
buscando expressar externamente as emoções, os pensamentos, os desejos, as
elaborações que pulsam em nosso íntimo. Nem sempre funciona.
Nem sempre funciona porque não
somos todos iguais e não temos a capacidade de habitar, perscrutar e invadir a
consciência dos outros (felizmente) para bisbilhotar o que vai por elas (excetuando-se
os telepatas). Precisamos, portanto, lançar mão aos inumeráveis meios de
comunicação para darmos a entender aos demais aquilo que dentro de nós já está
claro, claríssimo, ora pois. Você está em Kuala Lumpur e quer comer. O que faz?
Ora, utiliza-se de um gesto simples com as mãos e a boca e pronto, logo é
encaminhado a um restaurante de comidas típicas próximo ao hotel. Comunicou-se
e solucionou o problema. Está com sede em Timbuktu? Ora, você sabe o gesto, não
é preciso ser muito esperto. Uma conhecida minha fez compras, locomoveu-se,
encontrou cyber café, pegou táxi, pediu suco de laranja e fez amizades na China
somente dizendo “yes” e sorrindo.
Mas nem sempre funciona. Anos
atrás, em visita a Buenos Aires, senti vontade de comer uma porção de arroz
para acompanhar um suculento bife de chorizo. Chamei o garçom e, ao invés de
falar meu português sulista carregado de “erres” fortemente pronunciados,
decidi florear e pedi arroz de forma carioca, os “erres” sibilados com o som de
“agás” sussurrantes: “ahhoz”. O garçom me olhou estranho mas, afinal de contas,
cliente é cliente, mesmo sendo brasileiro, e sumiu-se para a cozinha, voltando
de lá pouco depois me trazendo um potinho repleto de dentes de alho. Meu
“ahhoz” se transformou, em seus ouvidos, em “ajos”, ou seja, alho. Cada louco
com sua mania. Especialmente, brasileiros... Comunicar-se, enfim, é uma arte.
Imperfeita, ampla e imprevisível, como todas as artes. Que o digam os cronistas
mundanos...
(Crônica publicada no jornal Pioneiro em 27 de janeiro de 2016)
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