Janus é um antigo deus romano
caracterizado por ter duas faces: uma que olha para frente (o futuro) e outra
que olha para trás (o passado). É o deus dos portões, das entradas e das
saídas. Ele simboliza a transição entre o findar de um processo e o início de
outro. É dele, portanto, que deriva o nome do primeiro mês do calendário, o mês
dedicado a Janus, já que a passagem de 31 de dezembro para 1º de janeiro é um
momento simbolicamente de dupla face, quando celebramos o findar do ciclo que
se encerra e renovamos as expectativas para o novo período que se inicia. Mesmo
que não percebamos conscientemente, nossos brindes, nessa noite, são ambíguos.
Se formos pensar a fundo, o que
é exatamente que celebramos na passagem do ano, senão o fato de estarmos vivos,
nós que vivos estamos, para testemunhar a chegada de um novo ano no calendário?
Celebramos (os que estamos aptos a fazê-lo), em uma data carregada de
significados, uma nova vitória sobre a morte, uma vez que conseguimos chegar
até aqui para trocar abraços e brindes com nossos entes-queridos, mais uma vez.
Não sabemos se poderemos fazê-lo daqui a novos 365 dias (366, em se tratado de
ano bissexto, como este 2016), pois nada garante nossa presença no palco no
próximo 31 de dezembro, tampouco as dos que amamos. Infelizmente, é assim, mas
é exatamente a consciência disso que procuramos sublimar nesse momento de
festa, e o fazemos bem, pois é vital para a manutenção de nossa sanidade mental
e para termos forças de seguir em frente.
O fato é que não sabemos o que o
futuro nos reserva. O que nos cabe, a cada um de nós, é nos esforçarmos ao
máximo para fazer o que está ao nosso alcance pessoal para que as trajetórias
de nossas vidas possam rimar da melhor forma possível com nossos sonhos e
nossas expectativas em relação a nós mesmos. Só assim estaremos aptos a
enfrentar o imponderável da melhor maneira possível, quando o imponderável se
apresentar. E ele, quase sempre, se apresenta sem avisar, já que faz parte da
essência do imponderável se comportar assim, de modo meio... imponderável.
Ao vivermos o hoje, estamos
construindo o passado de nosso futuro. Fundamental é nos esforçarmos agora para
que tenhamos, no futuro, orgulho de nosso passado, e que possamos ser hoje
pessoas humanamente admiráveis aos olhos de quem viermos a ser amanhã. Eis aí o
grande desafio para o iniciar de cada novo ciclo.
(Crônica publicada no jornal Pioneiro em 3 de janeiro de 2016)
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