A recorrência é o ingrediente
responsável pela degradação do fascínio. Sim, porque tudo aquilo que vira
recorrente, ou seja, que se transforma em banal devido à repetição, acaba
lançando sobre os sentidos o véu da rotina, deixando esmaecer a excitação natural
que antes essa mesma fonte de prazeres exercia. O conhecido fica dominado, o
repetitivo se transforma em previsível e o previsível não encanta. A não ser
que saibamos renovar dentro de nós mesmos nossa própria capacidade de espanto e
de encantamento com aquilo que já passou a fazer parte de nossa rotina. Mas aí
é com a gente mesmo, depende de nós. E a experiência nos mostra que nem sempre
temos disposição para fazer acontecer aquilo que depende de nós, somente de
nós.
É por isso que agradeço todos os
dias pelo fato de eu não ter nascido e não morar em Paris, por exemplo. Porque
quem nasce e mora em Paris jamais poderá usufruir da sensação arrebatadora que
é viajar pela primeira vez na vida a Paris e caminhar por aquelas avenidas
repletas de História, detectar ao vivo o charme que até então só conhecia por
meio de livros e filmes, deslumbrar-se com a majestade das construções, sentar
a um café e pedir uma taça de vinho nacional, essas coisas. Ao nativo de Paris
é negada a graça de ser turista em Paris. Ah, que bom ter nascido bem longe de
Paris! E que dizer da maldição de Bob Dylan? Bob Dylan encerra em si uma
contradição insolúvel: ele é, ao mesmo tempo, a única pessoa do mundo que
compareceu a todos os shows de Bob Dylan, mas também é a única pessoa do mundo
que não pode ir assistir a um show de Bob Dylan. Ah, que bom não ser Bob Dylan!
Que bom também não ser Ítalo
Calvino, nem Machado de Assis e nem Juan Rulfo, pois só assim posso me deleitar
com a leitura de livros escritos por eles, desfrutando na plenitude o sabor da
novidade expressa pela arte dos gênios. E que bom, mas que bom mesmo, não morar
pertinho de nenhuma padaria ou confeitaria. Porque eu detestaria ter meu
sentido do olfato anestesiado para o prazer de detectar, de repente, o aroma
irresistível de um pão quentinho recém saindo do forno, que é um dos melhores
cheiros que podem existir no mundo. Não sei se isso acontece com os vizinhos
das padarias, mas aposto que ocorre com os padeiros. Ou não, caso eles saibam
exercitar o poder de redespertar e renovar constantemente o encanto por aquilo
que amam. Eis aí um grande segredo para muitas coisas...
(Crônica publicada no jornal Pioneiro em 22 de janeiro de 2016)
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