Assim que o ano realmente
começar, isso lá para depois do Carnaval, ou melhor, depois de encerrada a
edição anual do Big Brother Brasil, ou ainda, no caso específico deste 2016,
depois de concluídas as Olimpíadas do Rio de Janeiro ou, no pior das hipóteses,
após as eleições ou quando a crise terminar, mas enfim, assim que 2016
realmente começar, o amigo leitor e a estimada leitora irão ouvir falar
bastante de dois grandes gênios fundadores da literatura universal: Miguel de
Cervantes e William Shakespeare. Contemporâneos apesar de jamais terem cruzado seus
caminhos, os dois escritores, além de legarem para a humanidade algumas das
obras mais significativas e basilares da literatura, deram de morrer no mesmo
ano, o que reveste 2016 de uma aura especial para sublinhar os quatro séculos
de morte tanto de um quanto de outro.
Os países natais de ambos os
próceres já estão preparando batalhões de programações especiais para celebrar
a data, tanto na Inglaterra quanto na Espanha. Quem tiver a felicidade de estar
por lá em abril, haverá de ser brindado com ótimas opções culturais específicas.
Mas como costuma acontecer quando se fala sobre essa coincidência interessante
do ano da morte dos dois autores, vale ficar atento para um equívoco histórico
que costuma ser repetido à exaustão por conta do desconhecimento de causa, e é
preciso estar alerta para não engrossar o caldo dos equivocados. Tanto o inglês
Shakespeare quanto o espanhol Cervantes não só morreram no mesmo ano, como
também morreram na mesma data: 23 de abril de 1616. Até aí, tudo bem. Só que
tem uma coisa: apesar de terem morrido na mesma data, eles não morreram no
mesmo dia.
Acontece que a Europa, naquela
época, vivia um processo gradativo e lento de transição do antigo Calendário
Juliano (criado ainda na época do Império Romano por Júlio César e repleto de
imperfeições) para o Calendário Gregoriano (imposto por ordem do papa Gregório
XIII, mais acurado e em vigor até os dias de hoje). Porém, para migrar de um
calendário ao outro, era preciso fazer um “salto à frente” de dez dias, o que
na Espanha aconteceu em 5 de outubro de 1582. O dia seguinte já era 15 de
outubro. A Inglaterra só veio a adotar o Calendário Gregoriano em 1752, ou
seja, na época de Shakespeare, os ingleses andavam atrasados 10 dias em relação
à Espanha. Cervantes, portanto, morreu mais de uma semana antes de Shakespeare.
Ambos no dia 23 de abril de 1616. Ou seja: nem tudo é como parece ser.
(Crônica publicada no jornal Pioneiro em 29 de janeiro de 2016)
Nenhum comentário:
Postar um comentário