O cantor inglês David Bowie, que
morreu domingo aos 69 anos, vítima de câncer, era um incansável camaleão que
transitava com ousadia pelo imensurável espectro da expressão artística
universal. Não limitava a quebra de limites à atuação nos domínios da arte que
o consagrou - a música -, mas operava com destemor e desenvoltura também por
outras searas da expressão artística humana, em especial, o cinema, onde intercalou
momentos gloriosos, com atuações marcantes em filmes inesquecíveis, com outros
nem tanto que, pelo simples fato de terem sido protagonizados por ele e seus
olhos bicolores, se tornaram, também, referenciais.
Talvez poucos se lembrem que
Bowie integrou o elenco de “Twin Peaks: Os Últimos Dias de Laura Palmer”, o
filme de 1992 que o diretor David Lynch levou às telonas depois do sucesso
mundial estrondoso de seu seriado televisivo. Na trama, o cantor faz o papel de
Phillip Jeffries, um agente do FBI cheio dos mistérios, como, por sinal, tudo e
todos envolvidos naquela fictícia e imprevisível cidadezinha do interior dos
Estados Unidos. Antes disso, Bowie viveu a figura bíblica de Pôncio Pilatos em
“A Última Tentação de Cristo”, de Martin Scorsese, em 1988. Duas grandes
películas, duas ótimas atuações para soterrar as discutíveis obras em que
também emprestou sua imagem anteriormente, como a fantasia “Labirinto: A Magia
do Tempo” (1986), de Jim Henson; e “Furyo: Em Nome da Honra” (1983), dirigido
por Nagisa Oshima.
Mas o que me empurrou mesmo de
encontro ao sofá da sala à noite, defronte à televisão e ao aparelho de DVD,
após vasculhar minha “filmoteca pessoal de coisas boas”, foi a urgência de homenagear
o artista reassistindo a um filmaço, um cult, protagonizado por ele juntamente
a duas lendas do cinema moderno: Catherine Deneuve e Susan Sarandon. Falo de
“Fome de Viver”, ou “The Hunger”, no original, filme de 1983 dirigido por Tony
Scott, em que Bowie interpreta um idoso à beira da morte que luta para manter
não só os últimos fiapos de vida que lhe restam como também os derradeiros
fiapos do amor que outrora inspirara em sua musa (Deneuve), uma vampira centenária
que sofre (talvez menos do que seus amados imaginavam) ciclicamente a perda de
seus amores mortais enquanto segue vivendo e usando-os como caçadores a
alimentarem sua fome, essa, sim, imortal.
David Bowie, ele-mesmo,
representava como poucos essa ânsia imorredoura de que padecem (ou se
regozijam) aqueles que têm fome pelo Belo, que só as Artes conseguem suprir, na
forma de alimento para a alma. O camaleão parte, mas sua Arte segue e seguirá
suprindo a sede de muitos.
(Crônica publicada no jornal Pioneiro em 12 de janeiro de 2016)
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