Circulei pelo centro da cidade
na segunda-feira, a primeira segunda-feira do ano que se inicia, logo após o
acúmulo de feriados proporcionado por Natal e Ano- Novo, e o que mais vi foram
filas. Filas nos caixas eletrônicos dos bancos, filas nos postos bancários,
filas nas agências lotéricas, filas em lojas. Filas. Filas e filas. Poderia
enfileirar o número de filas que detectei, e detectei somente uma pontinha do
iceberg das filas que se formavam por todos os cantos da cidade.
Fazer fila é uma habilidade nata
do povo brasileiro. Somos bons nisso. Somos profissionais das filas. Grande
parte das pessoas que integravam as filas que presenciei no abrir do primeiro
dia útil da primeira semana do primeiro mês do ano estava de volta à cidade
após passar os feriados no Litoral ou nas casas de parentes em cidades diversas.
Essa gente toda enfrentou filas quilométricas (e aqui não se trata de figura de
linguagem) nas estradas no domingo anterior para chegar de volta ao lar. Quem esteve
na praia enfrentou filas nos restaurantes para almoçar, filas na tenda do
picolé, na tenda da caipirinha, na tenda do pastel de camarão, na padaria para
comprar o cacetinho do café da manhã, no açougue para a carne e o carvão do
churrasco, no caixa do supermercado.
Quem vive nas cidades depara com
filas para entrar no cinema dos shoppings, filas para pagar o tíquete de
estacionamento dos shoppings, filas para capturar comida nas praças de
alimentação, filas para obter uma paleta mexicana (dessa fila não abro mão), fila
para entrar na fila. Somos o povo das filas. Já é quase automático. Dia desses,
cheguei cedo demais para uma consulta médica e tive de aguardar a abertura do
consultório defronte ao portão do prédio, na calçada. Não demorou para chegarem
outros pacientes que, automatica e pacientemente, logo se posicionaram atrás de
mim, em fila. Ninguém ordenou nada; a fila se formou de maneira natural e,
quando o portão foi aberto, subimos em fila as escadas e entramos em fila na sala
de espera. Somos seres de filas. Ninguém no mundo constrói filas como nós,
brasileiros.
Fazemos filas reais e filas
imaginárias. Há filas para transplantes, fazemos a fila andar quando terminamos
um relacionamento, enfileiramos feitos, desejos, temores, projetos, deveres,
fracassos e sucessos. A fila é uma forma de expressão de civilidade. Uma
instituição nacional. Enquanto seguirmos fazendo filas, nem tudo estará
perdido.
(Crônica publicada no jornal Pioneiro em 6 de janeiro de 2016)
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