Ao longo da vida, com o acumular
das experiências e das reflexões sobre elas, vamos moldando as bases
fundamentais de nossa essência e constituindo um conjunto estrutural de
conceitos, visões e comportamentos que passam a reger o nosso modo de ser, a
forma como vemos a nós mesmos. Nem sempre temos clareza de onde vêm
determinadas convicções, onde reside a fonte original na qual sorvemos, em
tempos passados, a inspiração para estruturarmos alguns traços de nosso
caráter. No entanto, possuímos enraizadas, dentro de nós, certas cláusulas
pétreas imexíveis que nos dão a certeza, todos os dias, ao acordamos, de que
continuamos sendo nós mesmos, ao menos, aos nossos próprios olhos.
O escritor argentino Jorge Luis Borges
(1899 - 1986) acreditava em Deus e essa sua convicção lhe passou a ser
inegociável quando já aprofundado em sua terceira idade. Não havia mais
sentido, para ele, perder tempo discutindo a questão com algum interlocutor que
desejasse convencê-lo do contrário. O assunto era para ele uma cláusula pétrea
vital já resolvida. Mas Borges era Borges e é óbvio que devemos estar sempre
abertos ao diálogo e acolhermos com atenção os pontos de vista diferentes dos
nossos, justamente porque assim podemos enriquecer nossas visões de mundo,
eventualmente alterá-las ou mesmo consolidarmos nossas próprias convicções.
Dia desses, deparei na estante
de livros em casa com uma obra que li quando tinha uns 16 anos de idade. Trata-se
de “Como Vejo o Mundo”, uma confissão de convicções escrita pelo físico Albert
Einstein (1879 - 1955), com as páginas repletas de frases sublinhadas por mim
mesmo. Uma delas me chamou a atenção em particular, com Einstein dizendo: “Minha
condição humana me fascina. Conheço o limite de minha existência e ignoro por
que estou nesta terra... deixo de me levar, a mim e aos outros, a sério demais.
Vejo então o mundo com bom humor”. Ao reler essas frases, reconheci-me nelas em
essência. Fiz coro às palavras e aos conceitos de Einstein, a partir de uma
leitura que moldou em mim, décadas atrás, algumas cláusulas pétreas sem que eu lembrasse
da fonte. Ou será que já estavam consolidadas àquela época e, por isso, o ato
de sublinhá-las, como a encontrar eco nas palavras do autor para o que já era
vivo dentro de mim? Vai saber. De qualquer forma, é interessante descobrir as
fontes de algumas de nossas melhores convicções. Afinal, refletir sempre pode
gerar emoções similares às aventuras radicais dos melhores parques de
diversões.
(Crônica publicada no jornal Pioneiro em 23 de janeiro de 2016)
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