sexta-feira, 27 de setembro de 2013

No frigir dos ovos

Dia desses, flagrei-me sem ovos. Horrível isso, de ver-se desprovido de ovos. Abri a geladeira e a crua realidade se descortinava ali dentro: nem um ovinho sequer, nem mesmo um pequeninho de codorna, para salvar a pátria.
Esse tipo de situação é impensável na vida de um homem que se preze: estar sem ovos. Impede que você salve o jantar logo mais à noite, quando a esposa chega do trabalho, produzindo uma omelete (que ela devora faceira, chamando de fortaia), ou surpreendendo-a com panquecas recheadas de delícias, ou ainda, se a inspiração for do tamanho da fome, com um elegante crepe (mas quando você está sem ovos, até mesmo um singelo ovinho frito figura como a salvação da lavoura).
Isso não podia continuar assim, de forma alguma. Onde já se viu, ficar sem ovos! Suspendi a produção do trabalho que estava em curso, peguei o carro e fui até o mercadinho ali perto de casa, onde o casal de proprietários me conhece e a simpatia está na alma do negócio, motivo principal que os faz terem a mim como cliente, especialmente nesses momentos cruciais que exigem solução rápida. “Boa tarde, Seu Fulano, tem ovos?”, já entrei, perguntando. Diferentemente de mim, o dono do mercado tinha, sim, ovos, o que revelou-se um verdadeiro alento.
Fui lá no canto que ele me indicou com o dedo e pus-me a escolher belos ovos brancos de galinha, colocando cuidadosamente um por um no saquinho plástico, pois que ali os ovos são vendidos a granel e você pode comprar até números ímpares de ovos, ao invés das restritivas caixinhas de sempre, com seis ou 12. Eu queria cinco ovos, e fui pondo ali no saquinho, um ovo, dois ovos, três ovos, quatro pletch! O quarto ovo sei lá o que deu nele, mas aproveitou um segundo de distração minha e saltou do gancho de meus dedos com o qual eu o sustentava, rodopiando no ar e indo se estatelar contra seus demais irmãos que tranquilamente se acomodavam no fundo do saquinho.

Quebrei a ovaiada toda e fiquei ali, com cara de tacho vazio. Felizmente, o dono do mercadinho, revelando-se um expert em ovos e em fidelizar clientes, saiu de trás do balcão sorrindo, disse que aquilo não era nada, pegou para mim outros cinco ovos e acomodou-os intactos em outro saquinho, sem nem querer saber de me cobrar pela omelete instantânea que eu me pusera a fazer ali na sua venda. De noite, vocês tinham de ver o dó que me dava de quebrá-los para a fortaia...
(Crônica publicada no jornal Pioneiro em 27 de setembro de 2013)

terça-feira, 24 de setembro de 2013

Ô de baixo!

Sempre me perguntava a razão que faz os trabalhadores da construção civil falarem tão alto uns com os outros ao longo dos dias em que estão envolvidos na tarefa de erguer novos edifícios e residências nessa nossa pujante Caxias do Sul, há anos transformada em um imenso canteiro de obras. Além do ruído intenso proveniente dos afazeres típicos decorrentes da construção (você não martela um tijolo de mansinho e nem corta chapas de aço com o poder silencioso de sua mente), existe a conversação entre os pedreiros e mestres-de-obras, invariavelmente entabulada aos brados retumbantes, a ecoarem por entre os ambientes de cimento ainda vazios de habitantes. Por quê?
Ora, basta pensar um pouco para decifrar o enigma. Eles falam alto para serem ouvidos uns pelos outros, ora. Como fazer Pedro, que está a erguer a parede de um banheiro no quinto andar, para se comunicar com Wellington, que passa massa corrida nas paredes do primeiro pavimento, pedindo a ele que, quando subir, traga junto a espátula dourada, se não for por meio da elevação do tom de voz às alturas? E como comentar dali do terraço os lances bola-murcha e bola-cheia dos jogos do final de semana quando o Robinson atulha o carrinho-de-mão com sacos de cimento lá no térreo, o Anderson descarrega a areia que chegou de caminhão ali na esquina e o Jeferson alinha uma parede no sétimo, senão aos gritos?
A construção inteira é o escritório deles. Estivessem todos ao mesmo tempo realizando tarefas na suíte do casal na cobertura, ninguém gritaria, mas não é assim que a coisa funciona. E querer que não se comuniquem justamente em nossa tão exaltada Era das Comunicações seria um contrassenso repressivo démodé, deixemos disso.

Eu sou do tempo em que as redações de jornais, repletas de máquinas de escrever, aparelhos de fax e de telex e telefones barulhentos, faziam com que a jornalistada passasse falando alto entre si, com os editores, com os revisores, com os diagramadores e repórteres, e estes com suas fontes, e mesmo assim escrevíamos e nos concentrávamos. A informatização e o advento dos fones de ouvido transformaram as redações em ambientes sisudos, silenciosos e insípidos, iguais a salas de espera. Espero que jamais o mesmo aconteça nos canteiros de obras, nos quais a vida humana ainda se faz notar por meio da palavra. Em alto e bom som.
(Crônica publicada no jornal Pioneiro em 20 de setembro de 2013)

domingo, 15 de setembro de 2013

Sinuca tecnológica

Tá, e agora? O leitor de textos de meu computador desconfigurou, não consigo abrir os arquivos já escritos e tampouco produzir textos novos. E não são poucos os textos antigos que preciso abrir para pesquisar ou para dar sequência ao trabalho, e também não são poucos aqueles que preciso escrever hoje para atender às demandas de meu ofício, como esta crônica aqui do Pioneiro. O que se faz numa hora dessas?
Primeiro, grita-se. Pode ser mentalmente, mesmo, afinal, não vale a pena passar recibo de louco a toda a vizinhança e atormentar a esposa que lê tranquila o jornal no andar de baixo. Grita-se contra a tecnologia moderna, contra a invasão da informática no nosso cotidiano, contra a ditadura dos computadores, contra os políticos corruptos (que sempre é saudável aproveitar para, já que se está gritando mesmo, incluir os políticos corruptos na jogada), contra a alta do preço do tomate e os buracos nas estradas.
Desferidos os devidos gritos mentais, pode-se passar para a fase dois, que é a postura da vítima. “Por que isso acontece comigo? Por que eu? Por que justo hoje? Eu não mereço. Tenho tanta coisa para fazer”. Depois, recomenda-se entrar logo na etapa da nostalgia pelos velhos tempos, para aplacar um pouco o espírito. Lembrar das velhas e boas máquinas de escrever (alternativa disponível apenas para quem tem mais de 35 anos de idade), que, quando davam xabu, bastava trocar o rolo de fita e seguir esmurrando as teclas e parindo textos e mais textos.

Como nada disso resolve coisa alguma, passadas todas essas etapas, o melhor é chamar um técnico (recomendável), ou fuçar no computador para tentar resolver a coisa por conta (alto risco) ou escrever tudo a mão e enviar por pombo-correio para a redação do Pioneiro (funcionou, não?). Porém, desesperar, jamais.
(Crônica publicada no jornal Pioneiro em 14 de setembro de 2013)

sexta-feira, 13 de setembro de 2013

Beijo nas Alturas


Entro no elevador no subsolo das garagens, preparado para um longo trajeto até o décimo-primeiro andar. Não durará mais do que 40 segundos, eu sei, mas sabe como são esses elevadores: cubículos estreitos, lacrados, desagradáveis, parece que concebidos justamente para que não despertem em ninguém a mais remota intenção de permanecer ali dentro uma fração de segundo sequer além do necessário. Por isso, a vontade, sempre, de que a viagem seja curta, sem paradas no meio do caminho.
Mas pronto. É só pensar nisso que o danado estaciona já no térreo, para receber vizinhos rumo a seus aposentos. As portas então se abrem e revelam as identidades de quem me fará companhia ao longo dos próximos instantes: trata-se daquele jovem casal do sexto andar, acompanhado pelo filhinho de cerca de dois anos de idade, que entra alegremente acavalado sobre o pescoço do pai. “Oi, como vão” daqui; “olá, tudo bem” de lá e eles vão entrando, ela com as sacolas de compras, ele fazendo malabarismos com o garoto, que lhe escala o corpo a ponto de ficar de cabeça para baixo um instante, a dar gargalhadas, eu segurando a porta aberta enquanto eles se acomodam, e vamos em frente.
O elevador retoma seu movimento metálico para cima, a suavidade intercalada com alguns estalos sempre perturbadores, e o silêncio entre os adultos se instala como de praxe nesses ambientes, apenas quebrado pela festa que o menino faz com o pai. Recebe mordidinhas na barriga e gargalha, olhando para mim em busca de um sorriso conivente que sua inocência induz a almejar. Sorrio-lhe de volta, embalado pela sua alegria infantil e desmedida. Desnecessário haver medidas para a alegria quando se é criança feliz em família, voltando para casa à noite com os pais, brincando dentro de um elevador na presença de um estranho.
A caixa semovente estaciona no sexto andar e abrem-se automaticamente as automáticas portas, convidando-os a saírem. Ela sai primeiro, com as sacolas, seguida pelo marido, que se despede de mim com um “boa noite” e diz ao filho: “dá tchau para o titio”. Ato contínuo, o menino leva a mãozinha à boca, tasca um beijo e o atira para mim, acertando em cheio minha alma, que não resiste e se debulha em uma gargalhada infantil como há tempos eu não dava. Espontaneidade de criança é coisa altamente contagiosa.
 (Crônica publicada no jornal Pioneiro em 13 de setembro de 2013)

quinta-feira, 12 de setembro de 2013

Marte é logo ali

Pois é, o pessoal agora quer ir morar em Marte. Uma empresa espacial holandesa abriu cadastro para elencar interessados do mundo inteiro em se transformarem em colonizadores de nosso vizinho planeta rubro. A ideia é organizarem expedições interplanetárias que levarão os cosmonautas até lá em uma viagem de sete meses de duração. E só de ida. Ou seja, vão e nunca mais voltam a pisar na Terra natal.
Mais ou menos parecido com a situação que viveram, mais de um século atrás, os imigrantes europeus que largaram suas vidas no Velho Continente, se enfiaram em navios por alto-mar em longas viagens e vieram colonizar a América, jamais voltando a contatar seus lugares de origem, em uma época em que não existiam facilidades como telefone, internet, celular, ipad, facebook, Skype, essas tralhas. De qualquer forma, aqueles imigrantes permaneceram na superfície de nosso planeta, por mais que tenham se deslocado. Já esses neo-migrantes almejam se tornar extraterrestres de carteirinha, os primeiros que teremos certeza de que existem. Ousados, não?
Se forem mesmo para lá, se tornarão ETs por adoção e finalmente passaremos a ter certeza de que haverá vida em outro planeta. Se inteligente, não sei, mas vida. E os filhos deles se transformarão nos primeiros marcianos de verdade. Quando a gente pensa que Marte (a julgar pelos dados enviados de lá pelas sondas lançadas por nós de cá) é uma terra inóspita, quente pra chuchu, desértica, sem água (há controvérsias), sem vegetação, sem vida animal, sem shopping centers, sem rede wi-fi, sem estádios de futebol, sem chuva e nem neve, sem novela das nove, sem Carol Portaluppi, sem farmácias... é de impressionar o fato de mais de 200 mil pessoas terem se inscrito como voluntárias (brasileiros, inclusive).

Bom, mas pensando bem, também vão escapar do trânsito engarrafento, dos buracos nas estradas (lá, crateras não são eufemismos), da corrupção generalizada, dos alarmes que disparam de madrugada, das narrações do Galvão Bueno, das filas nos supermercados... Fora uma que outra chuvinha de meteoros e a possibilidade de crescerem antenas e de se ficar verde (marcianices, sabes?), começo a achar que poderá mesmo haver mais ganhos do que perdas. Não fosse esse meu medo de alturas, até que me habilitava...
(Crônica publicada no jornal Pioneiro em 12 de setembro de 2013)

quarta-feira, 11 de setembro de 2013

Tá, e a neve?


Encontrei parentes e amigos no final de semana passado em minha terra natal, Ijuí, distante 400 quilômetros de Caxias do Sul. A sensação do encontro eram as fotos e filminhos que fizemos aqui, pouco mais de duas semanas atrás, quando a Serra foi brindada com uma das mais significativas nevadas de sua história recente.
Os telhados branquinhos, as calçadas congeladas, as copas das árvores nas ruas parecendo um desfile de pinheiros de natal que só se vê em filmes europeus e norte-americanos. As pessoas encasacadas, enluvadas, entoucadas e enrodilhadas em cachecóis a construir bonecos de neve na frente de suas casas e a brincar no alvo presente da natureza, esquecendo o frio que nos encarangava as almas.
Pois é, isso tudo há tão pouco tempo, e já aparentemente tão distante em nossas memórias, especialmente nesses primeiros dias de setembro que agora nos empurram para o extremo oposto e nos fazem pensar em camelos cruzando o deserto do Saara debaixo de um sol esturricante. Olho para fora da janela e vejo um céu límpido, azul, pontilhado de raras nuvens. O termômetro da sala bate na casa dos 24 graus centígrados (positivos, né), e parece desconfortável ao lado da grossa jaqueta que ainda pende esquecida no encosto da poltrona, pronta para ser vestida a qualquer momento a fim de enfrentar o frio, a chuva, o vento, o inverno, que até ontem ainda nos fazia reclamar e escrever crônicas evocando a visita do sol. Eis ele aí, pois, a pedidos.
Saltamos de um frio de fazer gemer urso polar em uma semana para esses calores de derreter dromedário poucos dias depois, sem que haja tempo para uma transição paulatina que nos permita irmos saindo dumas e entrado noutras com mais vagar. Até o clima parece ter decidido entrar em sintonia com esses tempos modernos criados pela sociedade, nos quais a correria, a transição ultrarrápida, a impermanência das coisas se transforma em regra geral. Neve de madrugada, eclipse de lua com Vênus de noite, calores desertificantes logo ali adiante, chuva e mais chuva daqui a pouco... Todas as opções de clima, temperatura e pressão disponíveis no menu, a fim de satisfazer a todos os gostos. Até a meteorologia parece estar ingressando na era da customização de serviços.

Depois estranham quando uns tomam chimarrão em trajes de praia em plena neve. Por pouco, não fui um deles...
(Crônica publicada no jornal Pioneiro em 11 de setembro de 2013)

terça-feira, 10 de setembro de 2013

Reflexão eclipsada

Existem dois tipos de finais de semana: aqueles em que você só descansa e aqueles nos quais você se cansa. Em sendo finais de semana, claro que, em essência, são sempre prazerosos, mas o último enquadrou-se, para mim, na segunda categoria, uma vez que foi composto por uma agenda intensa de atividades que incluíam duas longas viagens de automóvel pelas nossas selvagens estradas, pouco sono, uma festa de aniversário, o revisitar de parentes, almoços e jantares compartilhados e assim por diante.
Fui conseguir baixar a bola, relaxar e descansar mesmo somente a partir do entardecer de domingo, quando enfim pude calçar as chinelas, lançar-me ao sofá da sala, esticar as pernas para cima do pufe e começar a folhear os jornais sabatinos e dominicais. Lá pelas tantas deparei com uma notinha que me chamou a atenção. Dali a poucos minutos, por volta das 19h, seria possível visualizar no céu, na altura do poente, um raro fenômeno astronômico: a lua eclipsaria, durante alguns minutos, o planeta Vênus, oferecendo um espetáculo bonito e único caso a noite estivesse bela e clara.
Larguei o jornal, ejetei-me do sofá e dirigi-me à janela da sala para constatar se a noite estava bela e clara. Pois estava, e arrebanhei a família para descermos do prédio e irmos para a calçada a fim de observar o eclipse diferente. Dito e feito, lá estava a lua, no formato crescente, uma unha de luz rasgando o escuro do céu, sendo tocada de leve em uma das pontas pelo brilho arredondado e intenso de Vênus, como um diamante a reluzir na superfície de uma aliança.
Em silêncio, ficamos contemplando aquilo, cada um imerso em seus próprios pensamentos e divagando seus conceitos de poesia, quando alguém me perguntou quantos planetas existiam no nosso sistema solar, além daquele Vênus que ali observávamos a distâncias astronômicas e da Terra, na qual pisávamos. Falei então dos oito planetas e da tristeza de os astrônomos terem, poucos anos atrás, demitido Plutão, o último da fila, da lista oficial de planetas, reclassificando-o como um reles planeta-anão.

Terminei o domingo entristecido pela sina de Plutão, que, para mim, segue integrando minha listagem clássica dos planetas de nosso sistema. Afinal, Mercúrio, Vênus, Terra, Marte, Júpiter, Saturno, Urano e Netuno já estavam acostumados com a vizinhança dele. A gente não deve se desfazer assim tão fácil de um amigo.
(Crônica publicada no jornal Pioneiro em 10 de setembro de 2013)