sexta-feira, 12 de outubro de 2012

Um mundo a encolher


Tive o privilégio, dias atrás, de presenciar boa parte do bate-papo protagonizado pela jornalista e escritora Eliane Brum em um dos estimulantes encontros entre autores e leitores promovidos pela Feira do Livro de Caxias, que encerra sua 28ª edição neste domingo. Permeada por uma lucidez cativante e por uma sensibilidade profunda, a palestra rendeu-me anotações em um bloquinho, efetuadas com o intuito de me servirem de alimento para reflexões posteriores.
Em dado momento, Eliane ponderou assim: “à medida que envelhecemos, o mundo da gente vai morrendo antes de nós”. A frase foi um gancho disparado direto contra o queixo de minha essência, moldada por uma natureza nostálgica e memorialista. Tem razão a Eliane ao conseguir sintetizar e traduzir, de forma quase tangível, uma sensação que norteia silenciosa e anonimamente a minha relação com o mundo desde há muito tempo. É exatamente isso o que percebo ocorrer no entorno de mim mesmo à medida que os anos se vão empilhando na canastra de minha memória. Agora, essa sensação tem nome, ou, ao menos, conta com uma frase muito bem composta, capaz de defini-la em meus devaneios.
Morrem, sim, partes do meu mundo quando deixam a vida pessoas queridas de meu círculo, personagens reais que se vão para nunca mais voltar. Morrem também pedaços de meu universo quando se vão meus ídolos, mas, principalmente, vejo meu mundo se apequenar quando percebo o processo acelerado de extinção de valores que me eram e são caros, e que parecem não significar mais nada para a maioria daqueles que povoam o mundo físico que compartilho. Morre meu mundo com o desinteresse pela leitura e pela cultura; morre meu mundo com o individualismo exacerbado das pessoas; morre meu mundo com a caça faminta ao dinheiro e ao status; morre meu mundo sempre que a má-educação e a violência passam a dar o tom do convívio social; morre meu mundo quando o virtual fala mais alto do que o real; morre meu mundo quando o aperto de mão e o sorriso são substituídos pelo “curtir” do feicibúki.
A lucidez humana e sensível de uma Eliane Brum, pelo menos, me ajuda a seguir morrendo aos poucos sem a sensação de estar assim tão só em um mundo que gigantemente se apequena.
(Crônica publicada no jornal Pioneiro em 12 de outubro de 2012)

3 comentários:

Página Virada disse...

Marcos,

Grande texto!
"...vejo meu mundo se apequenar quando percebo o processo acelerado de extinção de valores que me eram e são caros, e que parecem não significar mais nada para a maioria daqueles que povoam o mundo físico que compartilho. Morre meu mundo com o desinteresse pela leitura e pela cultura; morre meu mundo com o individualismo exacerbado das pessoas; morre meu mundo com a caça faminta ao dinheiro e ao status; morre meu mundo sempre que a má-educação e a violência passam a dar o tom do convívio social; morre meu mundo quando o virtual fala mais alto do que o real; morre meu mundo quando o aperto de mão e o sorriso são substituídos pelo “curtir” do feicibúki"
Assino embaixo! É bom saber que não estou sozinho nisso.

Um abraço
Guilherme

Le Vin au Blog disse...

Adoro a Eline Abrum.
E gostei muito deste teu texto.
O virtual tem falado mais alto que o real no nosso caso, mas, ainda assim, sou grata por existir o virtual.

Bjs
Rafaela

marcos fernando kirst disse...

Concordo, Rafaela. Tambem rendo minhas loas ao mundo digital e virtual... Mas como tudo, a moderaçcao e o bom senso no uso seguem sendo as bases...