segunda-feira, 27 de dezembro de 2010

O pastel furado

Eu não diria que sou azarado. Creio que estou mais é para desamigado da sorte, mesmo. É menos cruel ver-me assim. Pelo menos, evita que meu ser seja invadido pela mais completa desesperança sempre que me acontecem coisas que tenho a certeza de que só ocorrem comigo.
Receber um pastel furado, por exemplo. Já aconteceu com você? Ou com alguém de suas relações? Pois ocorreu comigo, dia desses, no café de um shopping, enquanto minha esposa pirilampeava saltitante pelos corredores fazendo compras de Natal. Nosso pacto, para a manutenção da harmonia do matrimônio, é assim: ela efetiva as compras e eu me sento mansinho, sem resmungar, em uma cafeteria nas imediações, municiado de livros e jornais, autorizado a consumir cafés, sucos, pastéis e pães de queijo à vontade.
Pois naquele dia, junto com o capuccino, pedi um pastel de carne gordinho e bem fornido que me espiava sedutor por detrás do vidro do balcão. Dei-lhe a primeira mordida e eis que as bolinhas do guisado começaram a despencar igual cascata por entre meus dedos, pipocando no pratinho e espalhando-se por tudo ao redor. Alguns grãozinhos picavam na mesa, ricocheteavam em meu cotovelo e pululavam ao longe pelo chão, indo parar rente aos pés de outros fregueses alheios ao drama que ali ao lado eu protagonizava.
O pastel havia sido mal selado e, a cada nova mordida, mais rapidamente ele se esvaía em carne. Supus que se eu distribuísse dentadas aceleradas por todos os lados do pastel, eu encurralaria os montículos de guisado restantes e conseguiria saborear um mínimo de recheio, mas minha estratégia revelou-se inócua. O resultado foi a patética cena que minha esposa encontrou ao retornar recheada de compras: eu, com farelos de pastel na boca, na camisa e nas calças, olhando atônito para um guardanapo de papel seguro entre os dedos de uma mão, gordura pingando pelo queixo e muito guisado espalhado ao redor, como se o pastel fosse uma granada de carne que explodira.
“Sorte que estás de camisa velha, hein, amor?”, disse-me ela, otimista, como sempre.
Foi uma mensagem do Universo. Na verdade, sou um sujeito de sorte. Basta olhar as coisas sob outro ponto de vista. Destemido, pedi outro pastel.
(Crônica publicada no jornal Pioneiro em 24/12/2010)

sexta-feira, 17 de dezembro de 2010

Metáfora indigesta


Ando brincando com fogo. Semana passada, mexi aqui nesta coluna com o teor do poema “Vou-me embora pra Pasárgada”, de Manuel Bandeira, e ressuscitei a ira de um grupo de senhoras que costumeiramente me lê com chá e bolachinhas nas tardes de sextas-feiras. Elas já se manifestaram outras vezes, e voltaram a me enviar raivosa carta pelo correio. Elas não disparam e-mails, elas enviam cartas pelo correio, seladas e coladas com goma arábica. Quer conhecê-las? Faça campana no Correio, elas são as únicas que ainda utilizam esse método, especialmente quando desejam expressar sua ira contra mim, com o que já estou me habituando, mas permaneço sempre alerta, que o desavisado morreu na véspera.
“Não vamos longe com você, mocinho”, soube que já me andaram ambiguamente ameaçando, após lerem algumas das diatribes que às vezes publico por aqui.
Na cartinha que me endereçaram, elas vociferam contra a ousadia que tive em esculhambar (elas usam, sim, esse termo, porque julgam que eu não mereço menos) com o poema, acusando-me de não perceber que a obra do Poeta encerra uma metáfora evocativa de um idílio redentor, de um refúgio imaginário estruturado em sonhos para contrabalançar o peso da existência no mundo real. E finalizam, trocando em miúdos, acusando-me de ser muito burro. Depois, me convidam para aparecer num chá com torradinhas em uma sexta-feira qualquer, para que possam externar suas discordâncias em relação a mim de corpo presente.
Provo a elas que, pelo menos, burro não sou, porque eu é que lá não vou. Mas, se eu decidisse ir, explicaria a elas que, sim, sempre compreendi a metáfora residente nos versos do poema famoso do renomado Poeta, e elas é que deveriam fazer um esforço de boa vontade e detectar e compreender que também minha crônica abrigava uma metáfora, ao metaforicamente destruir o paraíso imaginado por Bandeira e reduzi-lo ao cotidiano real em que vivemos. Só que não vou, não; temo que elas cansem de morder as torradinhas e decidam morder a mim, na hora do “deixemos as metáforas de lado e vamos ver o que é bom para a tosse, garoto”.
Pior é que, depois dessa, não posso sequer me refugiar em Pasárgada...
(Crônica publicada no jornal Pioneiro em 17/12/2010)

sábado, 11 de dezembro de 2010

Notícias de Pasárgada


Cheguei ontem de Pasárgada e trago más notícias para quem andava pensando em seguir a dica do Poeta e ir-se embora para lá em busca de um refúgio contra o caos da vida mundana. Primeiro, após tomada a decisão de voltar e comprada a passagem, penei, no Aeroporto Pasargadense Manuel Bandeira, um atraso de doze horas. Mas isso foi apenas o capítulo final de uma experiência que deveria ter sido redentora e se revelou um embuste fruto de propaganda enganosa.
A Pasárgada de hoje não se assemelha em nada ao paraíso cantado nos anos 30 do século passado pelo Poeta. A começar pelos desmandos decorrentes da troca de favores e da prática do apadrinhamento político que regem a administração pública. Todos, em Pasárgada, são amigos do Rei, e o Rei, que sempre quis ter um milhão de amigos, agora precisa acomodar cada um deles em carguinhos públicos a partir dos quais exaurem as riquezas do reino e atravancam o desenvolvimento do Paraíso.
Cheguei lá acreditando piamente que teria a mulher que eu desejasse na cama que escolheria, mas a rede hoteleira e moteleira estava lotada, não dando conta de hospedar tantos peregrinos iludidos que chegam aos borbotões. Sem falar que a Scarlet Johansson nem mesmo estava lá. Para completar, também as mulheres de Pasárgada se libertaram, não são mais objetos nem submissas, trabalham e – surpresa – quem escolhe agora são elas e – surpresa maior ainda – meu perfil não atendeu aos requisitos mínimos das exigências de nenhuma delas.
Resignado, tentei recordar das partes menos conhecidas do poema para ver o que restava de atrativos por ali fora a amizade do Rei e o mulherio à vontade em qualquer cama, e procurei pelas atividades saudáveis como andar de bicicleta, fazer ginástica, montar em burro brabo, subir no pau-de-sebo e tomar banho de mar. Mas qual! As ruas estão tomadas por veículos nervosos e engarrafados (não há espaço para bicicletas e nem burros brabos ou mansos), o mar poluído não está nem para peixe e pau-de-sebo ninguém mais sabe o que é. Não deu nem para reclamar, porque lá não existem Procons. O Rei não deixa.
Vim-me embora de Pasárgada. O jeito é arregaçar as mangas e tentar ajudar a melhorar as coisas por aqui mesmo...
(Crônica publicada no jornal Pioneiro em 10/12/2010)

sexta-feira, 10 de dezembro de 2010

Como dizia o velho deitado

Minha avó tinha um jeito peculiar de metralhar ditos populares. Digo que ela os metralhava para usar o verbo em dois sentidos metafóricos plenamente aplicáveis ao caso de minha avó com os ditos ditos. Ela os “metralhava”, primeiro, porque disparava vários deles durante o dia. Segundo, porque, abusando de uma liberdade de adaptação textual e conjuntural que ela mesma concedia a si própria, ela “metralhava” os ditados populares porque os destruía em seu formato original e os reapresentava renovados, por meio de uma singular e característica readaptação.
Recitando os ditos à sua própria maneira, ela involuntariamente os ressignificava, provendo-os de um alcance ainda maior em termos de uso metafórico do que aquele que o formato original da frase normalmente permitia. Vamos a um exemplo, que é o que o leitor está ansiosamente esperando, depois de tanta verborragia reteórica (uma mescla de retórica e teórica, para não dizer que não aprendi nada com a sabedoria de minha avó). Quando ela se deparava com alguém que não via há muito tempo, exclamava, sem pestanejar: “quem é vivo sempre desaparece”!
Não era exatamente isso o que ela queria dizer, como o leitor sábio e letrado pode de cara perceber. No entanto, a frase ganha novo significado, e tem lógica naquilo que acaba literalmente dizendo. É claro que quem está vivo um dia vai desaparecer. Só nunca foi necessário que minha avó o dissesse para que as pessoas o soubessem, lógico...
Quando retornava do instituto (porque no tempo de minha avó, as mulheres iam se embelezar era no instituto, não na manicure e muito menos na cabeleireira ou no hair stylist), abastecida das mais recentes fofocas cabeludas do bairro, vinha relatando alegremente os “causos” reforçando que, lá no bairro, “só se fala em outra coisa”, quando o que realmente queria dizer era que não se falava em outro assunto.
Na verdade, nunca soube se ela desvirtuava as frases feitas deliberadamente, motivada por algum secreto sarcasmo, ou se de fato se enganava, produzindo acidentalmente as expressões que eu tanto apreciava e que abriram as picadas de minha visão sobre o potencial infinito da linguagem. Também nunca ousei perguntar enquanto ela vivia. “Agora, Inês é torta”, como ela seguramente diria...
(Crônica publicada no jornal Informante, de Farroupilha, em 10/12/2010)

sexta-feira, 3 de dezembro de 2010

A resistência do pinheiro


Perdi uma aposta que fiz comigo mesmo. Mentalmente, não dei dois dias para que fosse depredada a simpática decoração natalina que meu vizinho implementou num pinheirinho que se cria na calçada na divisa entre nossas moradas. A arvorezinha mede pouco mais de dois metros de altura e acompanho seu desenvolver a partir da janela do segundo andar de minha casa, onde fica meu escritório. Paralelamente a ela, cresce também o filho de meu vizinho, para quem ele decidiu decorar o pinheirinho com luzes piscantes, bolas coloridas e até uma estrela no topo.
“Não vai durar duas noites”, sentenciei eu, no silêncio interno de minha consolidada desilusão em relação à humanidade, advinda do acúmulo de anos, de vivências, de observações, de leituras. Não era um vaticínio, tampouco uma praga velada. Pelo contrário, o pensamento configurava-se como uma triste constatação de uma obviedade que, a meu ver, só mesmo uma possível ingenuidade ainda existente na alma de meu vizinho poderia impedir de ver. Torci para que eu estivesse errado, porém, no íntimo, julgava ser uma questão de poucas noites para que os enfeites amanhecessem vítimas da ação dos vândalos.
Pois errei. Redondamente enganei-me. Manhã após manhã, ao acordar e abrir as cortinas da janela, venho me deparando com o pinheirinho ali, impávido, incólume, as luzinhas piscando, a estrela firme encimada na ponta mais alta e os galhos engalanados com as cores das bolinhas. Que fenômeno! Que fato novo! Que pauta para ilustrar as manchetes dos jornais! “Decoração de pinheirinho em via pública resiste ao barbarismo urbano”. Seria algo assim a minha manchete, no meu fictício e impraticável jornal-de-somente-boas-notícias.
O que é que deu nos vândalos que não chutaram as bolinhas, não morderam os fios, não estraçalharam as luzinhas, não despedaçaram a estrela? Por que é que decidiram deixar em paz um trabalho feito para embelezar e compartilhar o espírito natalino? Estão ocupados demais destruindo patrimônios públicos e privados e se esqueceram do pinheirinho, só para impedir que eu decrete de vez minha desilusão e desesperança em relação à humanidade? Perdi a aposta, mas ganhei um sopro de fé que certamente me será vital...
(Crônica publicada no jornal Pioneiro em 03/12/2010)

sábado, 27 de novembro de 2010

A coisa não anda


Esqueceram de fabricar mais ruas, esqueceram de plantar mais vagas de estacionamento, não sabemos o que fazer com os automóveis que finalmente realizamos o sonho de adquirir! O trânsito pelas principais vias da cidade não flui mais; ele tosse, sacode a espasmos. Primeira, segunda, debriagem, freio, pausa, espera, espera, espera, primeira, segunda, freio, pausa, espera, espera, espera, primeira, pausa, freio... isso não é fluxo de tráfego, isso é estertor terminal.
A superpopulação de veículos que infesta nossas vias urbanas e também as estradas assemelha-se ao desequilíbrio natural decorrente do descontrole populacional de pragas silvestres como o javali, por exemplo. Com a diferença de que, no caso dos javalis, o Ibama libera sazonalmente a caça como medida para tentar controlar o recrudescimento do problema. Não estou defendendo aqui que o Daer promova a abertura de uma temporada de abate de veículos, cruz-credo, longe disso! Mas que as tripas infindáveis de automóveis, caminhões e ônibus atravancados pela urbe se assemelham a manadas estáticas de búfalos e elefantes disputando uma beiradinha na lagoa para saciar uma necessidade vital, como a gente vê no Discovery Channel, ah, isso se assemelha.
Ponto positivo nisso tudo (tem de haver sempre um ponto positivo, para que não reine a desesperança), que ninguém ainda percebeu, é a economia que se fará com a suspensão do fabrico de placas indicativas de limite de velocidade a 40 km/h. Com a oficialização do caos no trânsito, atingir os 40 km/h em uma via urbana está se transformando no segundo sonho de consumo dos motoristas brasileiros, após a realização do primeiro, que era o de adquirir um carro.
Eu, de minha parte, ando vasculhando as seções de classificados dos jornais em busca de uma alternativa. Desequilibrado como sou, nem cogito a opção das bicicletas, e fico de olho mesmo é nas ofertas de cavalos. Procuro um bem equipado, de baixo consumo e fácil manutenção (de preferência, flex, movido a milho e aveia). A cor pode ser básica mesmo (malhado, baio, branco) e não exijo air-bag, mas sim um pelego de primeira. Sem falar no chicote, que será de serventia para abrir caminho...
(Crônica publicada no jornal Pioneiro em 26/11/2010)

sexta-feira, 26 de novembro de 2010

A palavra que começa com "c"

Há uma tendência sórdida pairando nos ares do país nos últimos tempos, e seria conveniente a gente prestar atenção a isso e dar um pára-te-quieto enquanto ainda é tempo, antes de o caldo entornar e antes que derrame-se o leite. Trata-se das tentativas de resgate da censura, que vêm sendo impetradas de norte a sul no país, em diversas esferas, movidas pelos mais diversos agentes, sempre em nome de uma discutível questão ética.
Só para ficar em exemplos recentes, vale lembrar da tentativa de censura do livro “Caçadas de Pedrinho”, de Monteiro Lobato, que deveria ser banido das salas de aula por “conter conteúdo racista” em suas páginas. Fica mais fácil para os pseudo-guardiães da ética promover o exílio da obra do que aproveitá-la justamente para estimular em sala de aula o debate sobre a intolerância e a evolução dos conceitos morais e éticos, e de como uma ideia equivocada pode influenciar até mesmo os grandes talentos de determinada época. Mas nada de discussão, o que defendem é a censura pura e simples.
Agora andam querendo aplicar censura a filmes como “Tropa de Elite 2”, retirando a recomendação de faixa etária (“não-apropriado para menores de...”) e simplesmente impondo restrição ao acesso mesmo, ou seja, censura. Em nome da preservação dos menores de 16 anos às cenas de violência do filme. Ora, tem graça. Esses mesmos que defendem a censura ao filme devido às cenas de violência, que movam então seus esforços para banir a prática da violência na vida real, que está à solta nas ruas, nas escolas, nos shoppings, na internet, no mundo todo.
Sou contra a violência. Sou contra o racismo. Sou contra a erotização precoce. E sou violentamente contra a censura. As mazelas da sociedade, soluciona-se com debate, com discussão, aclarando as mentes, não tapando sóis com peneiras. A censura é o instrumento dos nazistas, dos fascistas, dos golpistas, dos ditadores, dos intolerantes, da Ku-Klux-Klan e de outros malfeitores históricos.
Vivemos a Era da Informação. Não dá para fazer de conta que não existiu e não existe racismo ou violência. São males que existem. Devemos conhecê-los, identificá-los, nos proteger deles, combatê-los e transformá-los. Com debate, com discussão aberta, com consciência, com informação irrestrita. Censura me causa comichões. Me dá náuseas. Me faz lembrar de José Sarney, que conseguiu censurar o último filme no Brasil, “Je Vous Salue, Marie”, de Goddard, por motivos religiosos, na década de 80. Uma atitude abestalhada e de triste recordação. Mas tem gente com saudades daquela época, como pode-se perceber.
Depois não sabem por que ranjo os dentes à noite...
(Crônica publicada no jornal Informante, de Farroupilha, em 26/11/2010)

segunda-feira, 22 de novembro de 2010

Dica para vender livros

Publicar livros nos dias de hoje ficou relativamente fácil. Pululam concursos literários e leis de incentivo dispostos a bancar os custos de edição de sua obra. As editoras, que antes de qualquer outra coisa são um negócio, abrem subdivisões (novos selos) por meio das quais oportunizam qualquer cidadão que se julgue escritor a editar e publicar seu livro, desde que arque ele mesmo com os custos. Os valores não são exatamente baixos, mas ficaram acessíveis, viáveis, próximos aos de um carro popular usado. Para quem acalenta o sonho de ver seu nome impresso como autor na capa de um livro, é um investimento possível de ser concretizado.
O problema vem na sequência. Livro escrito, obra publicada, sessão de lançamento feita (você conseguiu uma notinha de rodapé em um ou dois jornais da cidade, sua mãe e cônjuge marcaram presença e não o deixaram lá abandonado e com cara de suricato perdido no deserto), uma ou duas livrarias oferecendo o título à venda... só falta uma coisa. O leitor! Quem vai lê-lo? Eu digo, quem, além de sua mãe, seu cônjuge e um ou outro amigo de fé e irmão camarada? Quem? O que fazer com todos os outros 995 exemplares que você pagou para virem à luz (ou os outros 495, se você desde o início é alguém que tem mais do que meio pé fincado na realidade)? Até quando vai ser obrigado a dormir em cima deles, a conviver com a tiragem toda roncando debaixo da sua cama?
Bom, gostaríamos que eles fossem lidos pelas pessoas, não é isso? Pois é, e aí, o que fazer para que isso aconteça? Qual é a fórmula? O que é que motiva, afinal de contas, o leitor comprador de livros a invadir a livraria com dinheiro na carteira e, entre o título de Marcos Fernando Kirst e o mais recente romance espetacular de Dan Brown, optar por este último? Afinal de contas, ele ainda não leu nem um e nem outro. Ambas as leituras são igualmente virgens e repletas de promessas de prazer e satisfação (literários) para ele. Então por que ele opta pelo Dan Brown? Por quê? Por quê? Por quê? Hein?
Pois eis a resposta milagrosa: por causa do marketing. O que vende livros é o marketing feito em cima deles. Aliás, sabão em pó e esfregão de aço também vendem assim. Boas campanhas de marketing. Você compra o Dan Brown porque todo o mundo está comprando o Dan Brown. Porque você ouviu falar na tevê, porque leu na revista e no jornal, porque está nas vitrines das livrarias, porque todo o mundo está lendo, porque foi feito um filme. Então você também lê, e ajuda a engrossar as estatísticas.
És autor desconhecido e queres ser lido? Invista em marketing. Invista pesado. E venda tudo o que mandou imprimir. Faça igual ao Luan Santana, o cantor dos jovens corações apaixonados: surja do nada já bombando como se tivesse uma estrada de décadas nas costas. Só tem uma coisa: cuide da qualidade daquilo que você alardeia ao público, porque marketing de produto meia-boca tende a jogar contra, com o passar do tempo. A maionese desanda rapidinho, se você não apresentar de fato a qualidade que andou alardeando. Só cuide disso.
(Publicado na seção "Planeta Livro", da revista Acontece, edição de novembro de 2010)

sexta-feira, 19 de novembro de 2010

Um paradoxo

Você não pode ter tudo o que deseja na vida. Essa é uma lição que a gente recebe cedo dos pais e dos educadores, o que não significa que seja uma lição que a gente consiga apreender também tão cedo e tão facilmente. Muitas vezes, descobrimos a veracidade absoluta desse vaticínio após duras quebradas de cabeça, já na adultice mesmo. Bom é quando, enfim, aprendemos a verdade contida na sábia sentença e conseguimos nos resignar a essa nuance da existência, redirecionando nossa trajetória pessoal a partir da realização de sonhos possíveis.
“You can’t always get what you want”, diz o refrão de uma canção famosa dos Rolling Stones, e que pode ser interpretada, a partir de uma tradução livre, mais ou menos como “você não pode sempre ter o que quer”. Uma variante do mesmo conceito que abriu o texto, ali em cima. É brabo admitir que Mick Jagger tem razão. Especialmente quando, desde pequenino, você acalentava o desejo de crescer e ser rico e famoso e mandar em todo o mundo e viver sem fazer nada e não ter mais de obedecer aos seus pais e ir pra cama na hora que bem entende e tomar bem mais do que só dois copos de Coca-Cola no almoço. Você vai crescer e, talvez, perceber que, entre tudo isso, só conseguirá mesmo obter é a liberdade de tomar mais do que dois copos de Coca-Cola no almoço. Fazer o que...
Pensava nessas coisas semanas atrás enquanto assistia ao show do Paul McCartney, em Porto Alegre. Teve gente que fez malabarismos para conseguir ir ao espetáculo e teve gente que, apesar dos malabarismos, não conseguiu ir, por um ou outro motivo. Mas alguém já pensou na situação do Paul McCartney? No paradoxo que ele vive? Sim, porque, afinal de contas, ele é o único ser humano do planeta que já compareceu a absolutamente TODOS os shows do Paul McCartney e, ao mesmo tempo, é o único ser humano do planeta que JAMAIS poderá assistir ao vivo a um show do Paul McCartney (cunhei isso como “O Paradoxo Paul McCartney”).
Já pensou nisso? O que será que Paul McCartney não daria para assistir ao vivo a um show do Paul McCartney? Bem, Paul, conforme-se... nem você pode ter tudo o que deseja na vida. O detalhe é que ele faz parte do seleto grupo dos que chegam ao “quase tudo”...
(Crônica publicada no jornal Pioneiro em 19/11/2010)

sábado, 13 de novembro de 2010

Brilhantes amigas


Gostava quando faltava luz à noite nos idos tempos da adolescência porque isso me permitia sair para fora de casa e admirar a estamparia de estrelas que tomava conta do céu. Não que as estrelas só aparecessem nessas ocasiões, mas era só assim, com as luzes apagadas da cidade, dos postes, das casas e dos edifícios, que era possível vislumbrar e admirar o brilho dos astros, que, no mais das vezes, fica ofuscado, como todos bem sabemos, ou não sabemos mais, ou esquecemos ou jamais soubemos. Gostava daquele ritual, pois me proporcionava uma sensação de pertencimento universal a alguma coisa que nunca soube o que era, e sigo não sabendo direito.
A tecnologia da distribuição de energia elétrica parece ter evoluído com o passar das décadas, uma vez que, hoje em dia, tenho a impressão de que a luz falta bem menos do que no passado. Que bom. Assim, temos garantida nossa novela das oito (que não sei por que diabos começa depois das nove), nossa internet navegante, nosso filme locado, nossa vida eletrônica. As estrelas, vai saber, correm o risco de até nunca terem sido vistas em grandes grupos por olhos de gente mais jovem, mas espero mesmo estar errado nesse pensamento triste.
Dia desses estive numa cidadezinha da Serra e faltou luz por volta das onze da noite, enquanto parte da turma assistia ao Fantástico e eu lia livro num canto distante da voz do Zeca Camargo e dos joelhos da Patrícia Poeta. O adolescente que hibernava em mim me arremessou para fora de casa, para o espanto dos outros. “Que faz aí, Marcos?”, quiseram saber. Respondi, esticando pescoço e olhando para o alto, que aproveitava para rever velhas amigas, quase esquecidas. E não é que estavam todas elas lá? Zilhares delas, piscantes, exibidas, belas. Algumas talvez nem estejam mais lá de verdade, mas suas resplandecências permanecem ali, recompondo o céu de minha lembrança.
Resgatei da memória lições astronômicas de um avô apreciador do céu e revisitei as raras constelações que sei reconhecer lá em cima. Estavam lá ainda todas elas, tanto no céu quanto nas profundezas de minhas lembranças. Resgatei alguma coisa naquela noite de pouca luz e muito brilho.
(Crônica publicada no jornal Pioneiro em 12/11/2010)

sexta-feira, 12 de novembro de 2010

Um show de elegância


O eterno beatle Paul McCartney protagonizou show histórico em Porto Alegre domingo passado e encantou a todos os que tiveram qualquer tipo de contato com ele (próximo ou de longe mesmo, na plateia) devido à gentileza com a qual ele trata as pessoas, os seres humanos, gente em geral. A imprensa não cansa de se espantar a respeito de como pode ser tão gente boa, tão simpático, tão agradável e gentil uma celebridade como ele, que, segundo consta, teria tudo para exibir a maior empáfia do mundo, afinal, ele é exatamente quem ele é: ninguém menos do que Paul McCartney.
Concordo com tudo, até porque fui ao show e presenciei o cavalheirismo dele, expressado no palco pelo esforço bacana de procurar se comunicar com o público, na maior parte do tempo (e que tempo: o show durou quase três horas), falando em português. Uma grande gentileza, sem dúvida. Mas vamos dar um passinho adiante nessa questão: por que é que a extrema simpatia e despretensão de um astro encanta tanto, marca tanto, impressiona tanto? Isso não deveria ser a atitude mais óbvia das mais óbvias das atitudes em se tratando de relações humanas? Bom, a resposta é não, não é, né. Aí é que está.
A soberba, a empáfia, a deselegância, a grossura, a falta de bons modos, a antipatia são os aspectos que regem a maioria das relações sociais entre os seres humanos. E o engraçado é que é muito mais fácil encontrar essas características no comportamento dos Joões e das Marias Ninguéns que desfilam por aí, se achando grande coisa. Em grande parte das vezes, quanto mais pequena coisa um qualquer é, mais grande coisa se acha, e pior se comporta. Não é assim? Pois é, é assim. É por isso que quando surge entre nós um verdadeiro João Alguém, como Paul McCartney, a gente se impressiona com a aula de boas maneiras e de civilização que dele emana naturalmente. Que coisa, né?
Detectei isso in loco também durante a Feira do Livro de Caxias do Sul, realizada entre 1º e 17 de outubro, da qual tive a honra de ser patrono. Entre minhas tarefas, estive envolvido na recepção e no contato direto com diversos escritores. E que interessante perceber que os verdadeiros bambambans da literatura nacional são gente finíssima, tranquilos, acessíveis, aconchegantes e acolhedores. E como são insuportáveis, na proporção diretamente inversa, os coiozinhos que não são ninguém e se acham.
Paul McCartney trouxe bem mais do que o melhor rock and roll do mundo a Porto Alegre no histórico dia 7 de novembro de 2010. Com suas atitudes, escancarou para todos como é que se faz para ser realmente gente de primeira classe. “Muntcho oubrigadiu”, sir Paul. Tua linguagem realmente é universal. Espero que te entendam pelos mais variados rincões...
(Crônica publicada no jornal Informante, de Farroupilha, em 12/11/2010)

segunda-feira, 8 de novembro de 2010

História de pescador

Brincar é fundamental para que as crianças treinem situações que vão pautar suas vidas adultas. Conforme os pedagogos, os jogos infantis preparam o caráter e instrumentalizam os pequenos a atuarem mais tarde como adultos aptos a enfrentar as dificuldades que vão aparecendo feito pedras no meio dos caminhos de suas existências. Assim, correr loucamente junto com os amiguinhos em torno da mesa dos doces da festa de aniversário da Aninha, que deveria ser mantida intacta até o momento de cantar os parabéns, é uma atividade que engendra de alguma forma a capacidade de futuros CEOs de multinacionais a tomarem as mais abrangentes decisões estratégicas um par de décadas mais tarde.
Muito cuidado, portanto, ao reprimir seus filhos (sobrinhos, afilhados, alunos) quando eles escalam os galhos mais finos do pinheirinho da esquina e balançam perigosamente lá em cima. Você pode estar represando o perfil arrojado de um futuro Eike Batista. Nunca se sabe até onde pode ir a importância de uma brincadeira de cabra-cega (ainda se brinca de cabra-cega?).
Eu, por exemplo... Quando é que iria imaginar que a habilidade que desenvolvi até os dez anos de idade, de conquistar pequenos prêmios nas “pescarias” de peixinhos de madeira enterrados na areia, em parques de diversões e festas comunitárias, iria me ser útil aos 44 anos de idade? Pois estávamos em família tomando chimarrão na sacada do apartamento de meu avô em Ijuí quando o chinelo do pé esquerdo de minha esposa, entontecido de tanto ser chacoalhado pelas pernas que ela cruzava enquanto impacientemente aguardava sua vez na roda do mate, despregou uma pirueta no ar e foi estatelar-se na laje do primeiro andar lá embaixo, aos olhos estupefatos de todos e longe do alcance dos braços de qualquer um. Destemido e criativo, não tive dúvidas: peguei um barbante, amarrei na ponta um gancho e pesquei o chinelo, para o aplauso dos familiares e os olhares renovadamente encantados de minha esposa.
Ponto para mim, para minha infância de pescador de quermesse e para todos aqueles que não reprimiram essa habilidade nata na criança que fui. Tudo é aprendizado, viu, Pedri... desça já daí, menino!
(Crônica publicada no jornal Pioneiro em 5/11/2010)

quinta-feira, 4 de novembro de 2010

Cadê a graça?

Percebo que o ser humano, assim como os veículos automotores, é composto por peças que possuem durações de vida diferentes entre si e algumas vão deixando de funcionar antes do que as outras, exigindo manutenção, substituição ou pura e simples conformidade por parte de seu proprietário. Acontece comigo, naturalmente. Dia desses percebemos, minha esposa e eu, que encerrou-se o prazo de validade do dispositivo que me permitia sentir cócegas e rir arrepiadamente, contorcendo-me em incontroláveis espasmos, ao toque suave de dedos doidos na planta dos pés, nas pernas ou embaixo dos braços. Constatamos, consternados, que estou desacocegado.
Assim como as zonas erógenas, o ser humano é composto por vastas áreas epidérmicas nas quais está suscetível às cócegas, aqui chamadas de zonas cocegógenas. Sempre as tive, em abundância, até porque minhas pernas são compridas e minhas patas tamanho 41 oferecem amplo latifúndio para a prática do coceguismo. Mas agora, de uma hora para outra, fiquei imune ao estímulo. Por mais que se tente, o toque que antes resultava em risos agora produz em mim a mais absoluta indiferença.
Preocupados com a possibilidade de que o furo fosse mais embaixo, e de que houvesse, na verdade, se extraviado a minha capacidade de rir, decidimos submeter-me a alguns testes. Minha esposa vasculhou na programação de tevê os horários dos principais programas de humor e me impôs uma rígida dieta de uma semana de doses cavalares frente ao aparelho, com a missão de anotar e contabilizar a frequência e a intensidade de meu riso. Foi pior. O histrionismo, o exagero e o mau gosto dos textos de todos os programas não só pouco estimularam meus músculos risais como, em efeito colateral, amplificaram minha dolorosa saudade de programas realmente criativos e bem-humorados de décadas passadas.
Para nosso consolo, atribuímos o segundo problema à incompetência da televisão, e não a meu suposto defeito recém-adquirido, uma vez que voltei a rir à larga relendo trechos do Dom Quixote, de livros do Ítalo Calvino, da coleção do Asterix e outras boas leituras. Alívio total, pois já andava achando que eu tinha perdido a graça.
(Crônica publicada no jornal Pioneiro em 29/10/2010)

sexta-feira, 29 de outubro de 2010

A era do barato virtual

Dia desses fui acometido por um “momento Rubem Barrichelo” e fiquei parado, imóvel, vendo tudo passar por mim e pensando “aonde é que isso tudo vai parar”? O que me causou tamanho estranhamento foi uma reportagem que vi num noticioso televisivo sobre algo que até então eu sequer supunha poder existir: os chamados “entorpecentes virtuais”. Fiquei estupefato (não confundir com estupefaciado).
Pois a coisa funciona assim, e é de deixar os cabelos em pé: inventaram “drogas” virtuais que simulam os efeitos de drogas, entorpecentes e remédios reais, por meio de ondas sonoras especialmente criadas para recriar no cérebro as condições neurológicas que produzem estes efeitos. Ou seja: você compra uma “dose” de bebida alcoólica virtual (só para ficar num exemplo mais levinho), baixa o programinha, coloca fones de ouvidos e fica escutando os sons estranhos durante um período que varia de acordo com o produto adquirido (pode ir de 15 minutos a até uma hora). Depois, é tirar os fones e “curtir” o efeito. Doideira, não?
Preocupante, na verdade. Primeiro, pelo conceito em si, que é o de disponibilizar estupefacientes pela internet a quem quer que seja e que esteja disposto a pagar pelo “produto”. Depois, pelas consequências do negócio, ainda totalmente desconhecidas e imprevisíveis. E vai que os tais sons causem danos ao cérebro? Seria lógico, afinal, é exatamente isso o que causam todos os tipos de drogas existentes no mundo real. Quem vai controlar? Quem vai coibir? Quem vai fiscalizar e combater? Preocupante... bem preocupante.
Como o troço ainda é muito recente, existem controvérsias a respeito da real eficácia das tais i-doses. Há quem diga que tudo não passa de placebos, ou seja, são sons inócuos e que só fazem efeito devido à auto-sugestão de quem se dispõe a absorver a i-dose e embarcar na viagem. Tipo igual à hipnose: só fica hipnotizado quem se dispõe a ficar. Mesmo assim, são sons que mexem com os neurônios, e pode-se, sim, estar brincando com coisa séria. Só o futuro dirá. E mais uma coisa para pais e educadores em geral ficarem atentos e vigilantes no vasto mundo da internet, onde todos navegam a seu bel-prazer.
Eu, de minha parte, agradeço e passo longe. Prefiro continuar com minha cervejinha de final de semana e com o chá de boldo, cada vez mais em alta aqui em casa...
(Crônica publicada no jornal Informante, de Farroupilha, em 29/10/2010)

domingo, 24 de outubro de 2010

Velho, quem?

Tenho comigo a impressão de que o legado deixado pelo rock and roll à humanidade tem um alcance muito mais profundo do que apenas uma revolução de costumes e de atitudes ligada a conceitos como rebeldia, liberdade, contestação e outros. Quando vejo na ativa, em plena forma física e criativa, figuras como Bob Dylan, Mick Jagger, Paul McCartney, Eric Clapton, Ringo Starr, Neil Young e outros dinossauros, todos quase septuagenários, concluo que essa turma tem grande parcela de responsabilidade pela revolução do conceito de velhice que a espécie humana está vivenciando nos tempos modernos.
É interessante constatar que esses próprios artistas, no início de suas carreiras, lá pelos idos dos anos 60, com 20 e poucos anos, não concebiam vislumbrar a si mesmos ainda na ativa no cenário rock quando ultrapassassem as idades de seus pais, aos 40 e poucos anos de idade. Para eles, o lema era desconfiar de quem passasse da casa dos 30. Para a surpresa deles e do mundo todo, as feras do rock viraram quarentões tão ativos e criativos (alguns deles ficando ainda melhores com a chegada da maturidade) quanto o eram na juventude, e perceberam que não havia razão alguma para que pendurassem as guitarras e fossem jogar dominó.
E como quando se começa a descer uma ladeira a velocidade só tende a aumentar, logo acordaram cinquentões e, dois pulinhos mais tarde, estavam sessentões e compondo e cantando e tocando e gravando e arrastando multidões para seus shows, apesar dos cabelos brancos, das rugas nas faces, dos filhos adultos e do crescente séquito de netinhos que os fazem corujas e orgulhosos. Nem mesmo o Jethro Tull defende mais a sentença que pretendia enterrar o rock sob a palheta da juventude. “Too young to die, too old to rock and roll” (“jovem demais para morrer, velho demais para o rock and roll”) virou uma frase preconceituosa, sem sentido e anacrônica, já que os próprios velhos roqueiros provam que não existe idade limite para o rock.
Junto a isso, provam e demonstram que também não existe idade para conquistar e realizar sonhos, para viver, para fazer rock, para amar, para ser, enfim, feliz. Yeah, yeah, yeah!
(Crônica publicada no jornal Pioneiro em 22/10/2010)

domingo, 17 de outubro de 2010

A medida de nossos umbigos

Uma vez que todos nós somos seres autocentrados, egocêntricos e autorreferentes, não é de se estranhar que passemos nossas existências alimentando preconceitos e maus julgamentos sobre os outros embasados no fato de que os analisamos e os medimos a partir das qualidades que pressupomos existir em nós mesmos. Nós próprios somos a medida para o que há de melhor na humanidade, de mais correto, mais bonito, elegante, charmoso, inteligente, espirituoso, politicamente correto, engraçado, esperto e fofo. Ou vai me dizer que você não acha tudo isso de você mesmo?
O problema é que ninguém está se dando ao trabalho, nestes dias de recenseamento e de preocupações com a superpopulação do planeta, de também aferir as consequências por certo danosas da proliferação desenfreada de egos humanos a inflarem e exigirem mais e mais espaço por sobre a superfície da Terra. Porque a coisa, como podemos ver analisando friamente o entorno social que nos cerca, funciona normalmente assim: você é o centro do universo, e tudo gira em torno de seu umbigo, seja ele do tipo fechadinho, ou puxado para fora igual a laranja-de-umbigo ou avaletado para dentro. Nossos umbigos atraem tudo para o seu próprio centro, reproduzindo a imagem dos buracos negros, que absorvem, dizem, até mesmo a luz. Umbigos iluminados, portanto, esses nossos.
As pessoas à nossa volta são ou mais feias ou mais bonitas do que a gente; ou mais magras ou mais gordas; ou mais espertas ou mais burras; ou mais felizes ou mais estropiadas; ou mais abonadas ou mais miseráveis; ou mais sortudas ou mais azaradas. Mas sempre a régua para medi-las somos nós mesmos. Compomos, nós, seres humanos, um agrupamento de seis bilhões de centros do universo se entrechocando por sobre a Terra. “Fulano é um gordão mesmo”, dizemos nós de Fulano, que pesa 130 quilos, para a alegria de nossos magérrimos 120. “Beltrana é uma es-can-da-loooooooo-saaaaaaaaaa”, berramos para as amigas no salão de beleza contra Beltrana (que está obviamente ausente), fazendo nosso singelo escandalozinho.
Nossa sorte é que não somos iguais uns aos outros. Apenas semelhantes em nosso cultivo ao narcisismo.
(Crônica publicada no jornal Informante, de Farroupilha, em 15/10/10)

quinta-feira, 14 de outubro de 2010

To be or not to beatle?


(Em homenagem à vinda de Paul McCartney a Porto Alegre em 7 de novembro, reproduzo a segunda de três crônicas-Beatle que publiquei no site www.thebeatles.com.br)


Eu, na verdade, sou um beatlemaníaco tardio. Fruto, digamos, da “segunda safra” de contagiados pela doença Beatle, aquela que faz você despertar um dia para aquilo que descobre ser um conjunto genial de canções e nunca mais conseguir deixar de escutá-las mais uma vez, e mais outra, e uma vez mais, e de novo, e... Bom, mas é isto: quando fui me dar por conta de alguma coisa na vida, os Beatles já haviam se separado há muito tempo e John Lennon já tinha ido para o céu. Mas também não surgi de um ovo e tampouco fui expelido aqui para baixo de repente pela descarga de um disco voador... O fato é que foi assim, ó:
Eu vim ao mundo ainda na Era Beatle, ou seja, em 8 de julho de 1966, pouco depois do lançamento do álbum “Revolver”, enquanto provavelmente John, Paul, George e Ringo se recuperavam da traumática estada nas Filipinas (quero crer que não foi por causa de Imelda que ganhei o nome “Marcos”) e se preparavam para aquela que viria a ser a última turnê da banda, que aconteceria em agosto, nos Estados Unidos. Ou seja: enquanto meus pais escutavam meus choros e gritos que destranqüilizavam a até então pacata Rua dos Viajantes, a parte civilizada do mundo já começava a se deleitar com pérolas musicais que viriam a permanecer para sempre como “Eleanor Rigby”, “Taxman”, “Tomorrow never knows”, “Yellow submarine”, “I want to tell you” e outras. Lá em casa, enquanto isto, tentava-se combater a faixa número um do Top Ten da Família (“Marquinhos´screams”) contrapondo as faixas de “Rubber Soul”, conforme já explicitado na crônica anterior (“Gu-gu dá-dá be-beatles”).
Mas eu mal caminhava ou articulava frases quando o mundo maravilhou-se com “Sgt Pepper´s”, em 1967. Depois, passou-me completamente despercebido o lançamento de um álbum duplo com capa branca e, além disto, a única turnê mágica e misteriosa que eu fazia era em meio aos meus carrinhos de chumbo Matchbox e junto ao porquinho de pano que levava comigo para receber vacina no posto de saúde. Primeiro ele, depois eu, naturalmente. Devia ser “Piggies” já ecoando subliminarmente em meu cérebro, vai saber...
Quando cantaram “Let it Be” eu não estava nem aí e, quando o sonho acabou, no início de 1970, eu tinha três anos e meio e recém começava a ter capacidade para moldar os meus próprios sonhos. Fui crescendo e “Rubber Soul”, o único disco (disco mesmo, de vinil, bolacha preta a ser beijada pela agulha) que eu tinha do quarteto, se acotovelava entre outros na prateleira, jazendo ali, inócuo, incólume, insípido e inodoro. Cresci, alfabetizei-me, e assisti pelo Jornal Nacional a comoção mundial pelo assassinato de John Lennon, quando já não me eram estranhas composições como “Give Peace a Chance” e “Imagine”, mas não me uni ao pranto pela morte estúpida de um ex-Beatle. Não naquela ocasião, pelo menos. Eu já andava pelos 14 anos e me preparava para começar a formatar meu próprio gosto musical. Ganhava mesada e descarregava tudo em livros de Monteiro Lobato e de Agatha Christie, além de gibis dos super-heróis Marvel lançados aqui na época pelas editoras Bloch e Ebal. Mas, um belo dia, minha avó me deu de Natal um disco dos Secos & Molhados.
Ops! Minha avó me deu um disco dos Secos & Molhados?????!!!!!!?????!!!!!!!!!!!!!
Sim, mas péraí, isso foi bem antes, em 1974, quando eu tinha sete anos. Ela me deu o disco (minha avó! Me deu um disco dos Secos & Molhados!!! Os caminhos de Deus são inescrutáveis, todos sabemos disto, mas... putz... minha avó me dar um... bom, deixapralá...), aquele que tem na capa as quatro cabeças pintadas e servidas em bandejas. A imagem me assustava e deixei o disco guardado, meio que escondido, por um bom tempo, para evitar pesadelos. Daí, então, lá no final de 1980, vasculhando a prateleira dos discos depois da morte de John Lennon, encontrei este dos Secos & Molhados que minha avó havia me dado anos antes e coloquei-o na vitrola Telefunken para escutar. E gostei do que ouvi. Comecei a prestar atenção no arranjo de abertura de “Sangue Latino” (o baixo e o chocalho abrindo a música, as cordas que vêm do fundo e vão crescendo, preparando a entrada da voz andrógina de Ney Matogrosso...). Putz, aquilo era muito louco! Será que havia mais discos assim enfiados ali no meio, além dos disquinhos de historietas de Walt Disney, que já haviam sido abandonados junto ao babeiro e à mamadeira?
Será que existiam por ali músicas como “Imagine” e “Give Peace a Chance”, do John Lennon que havia morrido? Vasculhei todos os discos e não encontrei nada mais que me agradasse. O “Rubber Soul” estava lá, mas passou batido a estas primeiras audições ansiosas e desinformadas. Precisava, então, dar uma destinação mais ampla aos cruzeiros que compunham a mesada, além dos gibis do Homem-Aranha, das Caçadas de Pedrinho e de O Caso dos Dez Negrinhos. Resolvi comprar discos.
E lá vieram eles: Abba, Boney M., Gengis Khan, trilha internacional da novela Dancin´ Days... Uau! Mas, calma, não se desesperem, o final da história é feliz... Fui resgatado a tempo por um tio apenas sete anos mais velho do que eu que, em 1982, veio morar com a gente e trouxe consigo uma verdadeira parafernália musical: um aparelho de som modulado (até então eu só conhecia três-em-um), com equalizador, um par de caixas monstruosas e discos, muitos discos. Entre eles, “Let it Be”... As músicas misteriosas apreciadas por aquele tio invadiam o corredor e todos os aposentos da casa nas tardes quentúmidas em Ijuí, escapando por debaixo das frestas da porta do quarto que estava agora destinado a ele. E não é que as faixas daquele disco de capa preta com fotos de quatro cabeludos pareciam ter a mesma complexidade de composição que eu identificara pouco antes no Secos & Molhados presenteado pela minha avó (aliás, mãe deste tio)? Que coisa diferente aquela “I´ve Got a Feeling”... e “Get Back”, e “Two of Us”... Decidi que gostava daquele álbum, e passei a desejar conhecer mais sobre a banda. Que se chamava... The Beatles! Mas… como? Então eram os mesmos caras de “Rubber Soul”, que a vida inteira estivera esquecido ali em casa, na prateleira dos discos?
Ver com outros olhos, escutar com outros ouvidos... A psicologia chama de “insight” o momento em que você percebe algo por conta própria, o instante mágico e inesquecível em que alguma coisa se elucida... Como podiam os mesmos caras produzirem sons tão diferentes como os verificados em “Rubber Soul” e em “Let it Be?” E não é que aquele disco que era meu há anos continha músicas tão interessantes quanto as de “Let it Be” e as dos Secos & Molhados? “Michelle”... “Norwegian Wood”… “I´m Looking Through You”… Hummm… Havia um universo a ser descoberto ali....
O que mais existia entre aqueles dois álbuns, o que viera antes deles e o que acontecera e ainda aconteceria depois... bem, foram estas as motivações que me levaram a começar minha trilha por uma estrada mágica e misteriosa, em uma jornada repleta de sabores novos pelo inesgotável universo Beatle, que persiste e se renova até hoje.
“Follow Me”. Não é isso, Paul?
* Marcos Fernando Kirst é jornalista, gaúcho, e tem dois tios que o resgataram a tempo do lado escuro da era “disco”.

sexta-feira, 8 de outubro de 2010

Velozes feirantes

(Crédito do fotógrafo: Chimia)
Circulo por entre os estandes da Feira do Livro com um cuidado redobrado nas manhãs e tardes dos dias de semana, quando o movimento, durante os horários tradicionais de expediente, permite o surgimento de espaço para transitar com certa dose de desenvoltura. Mas é preciso estar alerta. Minhas décadas de presença em ambientes de feiras de livros me permitem saber que não devo me iludir, e que é justamente aí que mora o perigo. Engana-se quem pensa que, por ser dia de semana e horário de trabalho, fica mais fácil perambular despreocupadamente de um lado para o outro entre as barraquinhas, ziguezagueando o olhar pelas sedutoras capas e títulos de todos aqueles livros que estamos doidaços para levar para casa. Nananinanina!
É nesses momentos que nosso trote livresco costuma ser interceptado por pequenos bólidos de cerca de um metro e pouquinho mais de altura que surgem zunindo a gente nunca sabe de onde e cruzam perigosamente quase por entre as nossas pernas, quando não metem um “chega-prá-lá” com os cotovelinhos afundando nossas frágeis barrigas passeadeiras e feirantes, alertando-nos para a presença de um dos elementos que mais fascinam e justificam a realização de feiras de livros: as crianças. Fique então sabendo e vai o alerta, você aí que se julga esperto e deseja passear pela Feira de segunda a sexta, em horário comercial: os corredores estão mais livres, é verdade, mas pertencem às crianças, e o limite de velocidade costuma estar flexibilizado.
Elas passam zunindo para lá e para cá, os cabelinhos esvoaçantes, a gargalhada solta sublinhando o prazeroso encontro das pequenas mãozinhas com o volume dos livros recém capturados. O deleite do contato com o livro encantador costuma ser compartilhado à larga e anunciado sem autocensuras, verdadeiramente esparramado por entre os estandes e as pernas de adultos desavisados. Que felicidade deve ser essa, a de ser livro infantil e cair nas graças de um pequeno grande leitor, que sai correndo com ele pela praça, espalhafatando satisfação literária!
Abram alas! Numa boa Feira do Livro, como essa nossa, criança está sempre na preferencial.
(Crônica publicada no jornal Pioneiro em 08-10-10)

domingo, 3 de outubro de 2010

Agora então é "bullying"

No meu tempo (aiaiai... quando o cara começa oito entre dez textos com “no meu tempo”, é mesmo um sinal dos tempos)... Bom, mas, quando eu era criança, lá nos idos dos anos 60 e 70, não existia esse negócio de bullying. Existia, sim, era a simples e clara opressão dos meninos mais fortes e malvados sobre os mais tímidos e raquíticos, e das meninas mais ferinas e desenvoltas sobre as meiguinhas e retraídas. Isso daí que agora recebeu denominação estrangeira para tentar glamourizar aquilo que não tem glamour nenhum não foi inventado hoje, e move – infelizmente – as relações de poder entre os seres humanos desde que desabamos dos galhos das árvores e começamos a tentar nos diferenciar dos macacos (cada vez mais ingrata tarefa, aliás).
Independentemente de como se denomine o ato, com expressão em língua pátria ou importada, sua essência não muda, e não passa da simples exteriorização de uma das características mais nocivas que existem latentes dentro da alma humana: a perversidade. Oprimir e humilhar por qualquer meio que seja (e, muitas vezes, a partir de todos os meios disponíveis) outra pessoa é uma tendência que nasce junto com a condição humana, bem como diversos outros traços que remontam ao primitivismo de nossas almas. Domar essas características, superá-las e transformá-las é o desafio que se impõe a todo o ser humano que nasce em sociedade e pretende viver nela de maneira construtiva e civilizada. Trata-se de uma meta a ser perseguida diuturnamente por cada um de nós, do início ao fim de nossas jornadas.
O problema surge quando essas noções básicas e fundamentais de civilidade não são apresentadas cedo às criaturas humanas. E, quanto mais tarde o forem, mais tarde demais será para que nossos semelhantes possam superar suas características incivilizadas e domar os selvagens que teimam em vir à tona e preponderar na (de)formação de seus caráteres. Se não queremos mais o bullying nas escolas ou onde quer que seja, precisamos nos preocupar mais com a formação de nossos filhos, primeiramente, em nossas próprias casas. Com os nossos próprios exemplos. A questão é quando nos olhamos no espelho e nos deparamos, nós mesmos, com o reflexo dos macacos que teimamos em continuar sendo...
(Crônica publicada no jornal Informante, de Farroupilha, em 1/10/2010)

sexta-feira, 1 de outubro de 2010

Livros iluminam a praça


A partir do meio-dia desta sexta-feira, os livros voltam a assentar-se na Praça Dante Alighieri para a realização de mais uma Feira do Livro de Caxias do Sul. Na nossa cidade, a praça da Feira tem nome de escritor clássico. Pode-se desejar mais? Sob o lema “Ler é iluminar-se”, tenho a honra, o orgulho e o desafio de desempenhar o papel de patrono desta 26ª edição do evento literário de maior porte de todo o interior do Estado. Irmanado a mim nessa jornada, conto com o apoio, a presença e a fé do Frei Aldo Colombo, o justo homenageado da Feira deste ano, que também tem uma biografia profissional e pessoal ligada à defesa e propagação da leitura e dos livros.
A Feira do Livro representa o ponto culminante anual de todo um trabalho permanente e incansável em favor da promoção da leitura em nossa cidade, por parte dos esforços conjugados de vários setores do poder público, de livreiros, de educadores, de escolas, da imprensa, de empresas privadas, de editores, de escritores, de promotores culturais, de incentivadores da leitura em geral. É durante os dias de Feira que essa gente toda se encontra na praça para celebrar a alegria que é fazer parte desse verdadeiro Planeta Livro que toma forma e existe nos corações e nas mentes de todos os seres que amam a literatura.
Basta circular pelo ambiente da Feira para ser contagiado pelo clima de alegria, aconchego e compartilhamento da sensação positiva e saudável que emana do contato com a leitura. A presença cada vez maior das crianças em meio aos livros é algo que emociona, contagia e desanuvia as visões apocalípticas de futuro que às vezes teimamos em manter. Sempre haverá esperança enquanto uma criança deleitar-se no gesto de abrir um livro. Tenho fé genuína nisso.
Sob a batuta abnegada e incansável da Luiza Darsie da Motta, diretora do Programa Permanente de Estímulo à Leitura (PPEL), órgão ligado à Secretaria da Cultura e responsável pela organização e realização do evento, juntamente com toda a sua batalhadora equipe, tenho certeza de que teremos 17 dias de aconchego literário em nossa praça. Bem-vindos à Feira do Livro, e boas leituras a todos!
(Crônica publicada no jornal Pioneiro em 1 de outubro de 1910)

quinta-feira, 30 de setembro de 2010

Gu-gu dá-dá be-beatles!

(Em homenagem à vinda de Paul McCartney a Porto Alegre em 7 de novembro, reproduzo a primeira de três crônicas-Beatle que publiquei no site www.thebeatles.com.br)

A primeira música dos Beatles que eu escutei na minha vida, tenho certeza, foi “Drive My Car”, e não foi por causa dela que eu me tornei um beatlemaníaco, mas foi justamente por causa dela que eu me tornei um beatlemaníaco, se é que dá para entender. Não, acho não dá para entender, então por isso é que eu explico, para quem porventura quiser saber.
Aconteceu lá nos idos de 1966 na Rua dos Viajantes, na casa que meus jovens pais haviam adquirido nas cercanias do centro da simpática cidade de Ijuí, interior do Rio Grande do Sul. Região de terra vermelha, conhecida como tabatinga, e de calores escaldantes no verão e de frios arrepiantes no inverno, temperadíssima, moldando espíritos que se acostumavam a não se acostumar com nada, a começar pela falta de constância do tempo. Andava eu, naqueles dias, a chorar à larga e a espernear bastante, careca, banguela e pelado, fazendo jus e usufruindo de todos os direitos que reconhecia serem meus pelo fato de ser um bebê recém-nascido, e também por restar-me apenas isto a fazer frente às óbvias negativas de meu pai em me emprestar a chave do carro nas condições em que eu ainda me encontrava naquela fase da vida. Que fazer para acalmar a criança?
Simples: ligar a vitrola Telefunken puxando para trás o braço da agulha e fazendo assim rodar automaticamente o prato, pronto para receber bolachas de discos de vinil, cujo som se faria projetar pela sala a partir da única caixa mono instalada no canto ao lado da lareira. E dê-lhe Beatles a ecoar entre as quatro paredes, eu no colo sendo acalentado ora pelo pai, ora pela mãe, e acalmando-me junto à sucessão das faixas de Rubber Soul, disco lançado um ano antes e recém-chegado nas prateleiras das lojas Discolândia e Cifosom em Ijuí, para deleite dos jovens de vinte-e-poucos-anos daquela época, meus pais incluídos, e também meu padrinho que me deu este e outros bolachões de presente de batismo.
Duvido muito que eu pegasse no sono já na abertura do disco, com a guitarra fazendo o inconfundível solo que antecede os versos “Asked a girl what she wanted to be/ She said baby, can´t you see?”... Mas talvez eu já me acalmasse um pouco quando George empunhava a cítara na segunda faixa, para permitir John revelar que “I once had a girl, or should I say, she once had me”... Acho que abria os olhos e resmungava um pouco quando os vocais de John Paul e George começavam a se alternar em “You won`t see me”, e seguiam fazendo composições harmônicas inigualáveis já na abertura da quarta faixa, com “He´s a real nowhere man...”. O fato é que eu me acalmava, dormia, era acalentado ao som de Beatles com seu Rubber Soul e suas 14 faixas altamente recomendáveis para acalmar bebês, entre outras setecentas mil indicações.
O que aconteceu depois é outra história, cheia de idas e vindas, mas um autêntico beatlemaníaco nasceu ali, escutando, mesmo sem o saber, “Drive my car”, que não é, nem de longe, a minha preferida deles hoje. Mas tenho certeza de que era a de meus pais, 44 anos atrás, em noites quentes ou geladas em Ijuí, quando uma criança chorona tinha de ser acalentada antes que o refrão “cry, baby, cry” se tornasse indigesto.

domingo, 26 de setembro de 2010

Lance de mestre


Por volta dos 10 anos de idade, tomei a decisão de que deveria fazer algo para ficar inteligente. Burro como era, não tinha a menor ideia de que caminho trilhar para atingir meu objetivo. Compungido, meu avô prontificou-se a me ensinar a jogar xadrez, passatempo revestido por uma aura de intelectualidade profunda, conhecido como “o rei dos jogos e o jogo dos reis”, praticado por gente inteligente. Topei, aliciado pela promessa de poder saborear um refrigerante ao final de cada partida semanal, na casa do avô. Espertinho, ao menos, eu já era.
Após ensinar-me os movimentos das pedras (que era como chamávamos as peças, objetos palpáveis torneados em madeira, as bases revestidas com feltro, dispostas sobre um tabuleiro pesado, diferentemente das versões virtuais que hoje habitam as entranhas dos computadores), meu avô deu início a um torneio particular comigo que durou uns dois anos. De saída, prometeu-me que, quando eu conquistasse a minha primeira vitória sobre ele, eu receberia de presente um conjunto de peças e tabuleiro igual ao dele. Nham! Aquilo, sim, me motivou. Inteligente, meu avô.
Mas não éramos grandes jogadores. Mexíamos as peças, porém, nossa criatividade estratégica era limitada. Logo um aprendeu o estilo e as manhas do outro, e jogávamos sobre o eventual erro do adversário. Minhas notas em química e matemática não melhoraram muito a partir daquilo. Não me parecia que estivesse ficando mais inteligente.
Certa terça-feira, venci pela primeira vez. Já no final de semana seguinte, ganhei meu prometido conjunto composto por tabuleiro e caixa com elegantes peças de madeira. Havia esquecido da promessa do avô, mas ele não. Desde o início, ele jogara comigo sem me dar chances: “Já sabes as regras. Jogue por si”, dizia. No final das contas, a inteligência extrapolava o cenário da batalha no tabuleiro e habitava a essência dos nossos encontros, pois foi por meio de um ato inteligente mútuo que um avô estabeleceu um elo perene com um neto. Não melhorei minhas notas em matemática, mas aprendi que atos singelos têm potencial para gestar metáforas de vida que vão muito além de um xeque-mate.

(Crônica publicada no jornal Pioneiro em 24/09/2010)

quinta-feira, 23 de setembro de 2010

Admiráveis seres de um novo mundo


“Oh, maravilha! Que esplêndidas criaturas! Como é bela a espécie humana! Oh, admirável mundo novo, onde vive essa gente!”. A mais famosa sucessão de frases de espanto da literatura universal provém da pena de William Shakespeare, que as atribui à jovem Miranda, filha de Próspero, o duque de Milão, que 12 anos antes fora desterrado para uma ilha pelo irmão usurpador, na peça “Tempestade”. Miranda, aos 15 anos de idade, fica extasiada ao se deparar, pela primeira vez em sua jovem vida, com seres humanos diferentes das figuras de seu velho pai, Próspero, e do deformado escravo Caliban, até então os únicos habitantes humanos da ilha. Seus olhos brilham ao enxergar não apenas a tripulação de um barco, mas especialmente o belo e jovem príncipe Fernando. Um admirável mundo novo então se descortina a ela ao vislumbrar aquelas “esplêndidas criaturas”.
Na época em que a peça foi escrita, no início do século XVII, ou seja, exatamente 400 anos atrás (veio a público em 1611), a personagem Miranda era uma digna representante da figura submissa e alienada da mulher, tal qual a sociedade machista ocidental a formatou até meados do século passado (há bem pouco tempo, portanto). Não era necessário chegar ao extremo de viver em uma ilha perdida para que as mulheres da época de Shakespeare (e também a maioria daquelas dos tempos de nossos avós) se sentissem alienadas e coadjuvantes de um mundo eminentemente masculino, pautado pelas demandas decorrentes da visão machista de conduzir sobre o planeta a existência da espécie humana.
Como não há mesmo mal que dure para sempre (apesar de alguns deles delongarem-se mais do que às vezes estamos dispostos a tolerar), essa situação mudou bastante nas últimas décadas, especialmente a partir da segunda metade do século passado, com o início do movimento de libertação feminina. O paraíso ainda está longe de poder ser encontrado aqui na Terra, eu sei, mas é alentador perceber que muitas coisas evoluíram.
Hoje, sim, podemos afirmar que vivemos, finalmente, o limiar de um admirável mundo novo, e as esplêndidas criaturas que nele circulam, que o habitam e o fazem espantosamente dinâmico, interessante, pulsante, criativo e revitalizado são justamente as mulheres modernas, esses novíssimos seres que surgiram e vêm tomando forma desde que conquistaram o desejo e o direito de também protagonizarem a História, deixando para o passado o papel de submissas coadjuvantes. Tenho o privilégio e o orgulho de ser casado com uma mulher do nosso tempo, dessas que colaboram para construir e consolidar este admirável novo mundo: inteligente, sensível, profissional reconhecida, competente, batalhadora, leitora, proativa, bela e feminina. Não acho que ela me provoque sombra, pelo contrário: a atuação dela no mercado de trabalho, na sociedade, em família, na vida pública e particular, complementa e enriquece a minha própria existência. Não a temo: amo-a, admiro-a, incentivo-a e tenho orgulho de ser seu marido.
Nós, homens, não estamos totalmente perdidos. Se bem treinadinhos, somos capazes de reconhecer em nossas mulheres as parceiras igualitárias e complementares de nossas vidas, relegando para o passado as relações de poder discriminatórias e opressoras que sempre regeram a convivência entre os sexos. A ilha de Miranda começa a ficar mais enriquecida com a atuação harmônica entre os seres que a habitam, apesar das tempestades que certamente ainda moldam partes do cenário. Enredo que nem o gênio de Shakespeare foi capaz de tecer, mas, sim, a Vida.
(Texto publicado como colaboração especial no primeiro número da revista caxiense Afrodite, lançada em setembro de 2010)

quarta-feira, 22 de setembro de 2010

"D" de Pesa"D"elo mesmo!


Série D? Sério? Vem cá, mas, existe isso, sempre existiu ou criaram agora? Quantos times participam? Como funciona? Então a série C não é o fundo do poço? Existe o alfabeto inteiro? Corre-se, agora, o risco de despencar para séries E, F, K, Y, Z? Como é possível instalar-se tanta escassez de futebol dentro de uma agremiação que já ostentou, merecidamente, o orgulho de figurar durante uma década inteira entre os integrantes da classe A do futebol nacional?
Pior é constatar a vertiginosidade da queda. Não bastou dar uma escorregadela, perder o equilíbrio e penar um aninho na série B, como ocorre anualmente com times repletos de tradição, orgulho e títulos. Acontece nas melhores famílias, dá-se a volta por cima, conjugam-se esforços e pronto, retorna-se ao topo já no ano seguinte ou, no pior das hipóteses, amargam-se dois ou mais alguns aninhos gramando por ali, até o retorno “para o local de onde nunca se deveria ter saído”. Mas isso de transformar a compreensível queda num tombo morro abaixo sem freio é feio. A continuar assim, corre-se o risco de o Alviverde ir fazer companhia aos mineiros chilenos ilhados no fundo do poço que eles próprios cavaram, a quase um quilômetro de baixitude.
É impossível, numa hora dessas, não evocar Alice no País das Maravilhas, que persegue o Coelho Branco, enfia-se numa toca e, quando vê, está dentro de um longo poço sem fundo e vai caindo, caindo, caindo... “Essa queda nunca teria fim?”, pergunta Alice. Quem lê a história percebe que o fim do poço é o mundo sem fronteiras da fantasia e da imaginação. Justamente o que parece estar faltando há anos para que o Juventude inverta o sentido do elevador que o conduz cada vez mais para baixo.
O que queremos, todos nós, caxienses de nascimento ou por adoção, é ver os símbolos da terra em que vivemos crescendo e representando com orgulho as nossas melhores qualidades. Não sei se abaixo da série D existe ainda alguma outra e espero não ser conduzido pelo Juventude a descobrir isso. Alice sabe que o País das Maravilhas tem o poder de rapidamente se transformar em pesadelo, mas sempre é tempo para despertar dele e retornar à superfície. Queremos ver você, Alviverde, subindo, subindo, subindo. De volta à luz. Essa fantasia precisa logo se transformar em realidade.
(Crônica especial publicada no Pioneiro em 20/09/2010)

terça-feira, 21 de setembro de 2010

Nênia a um poeta e a um contista

Descobri tardiamente a poesia do padre Oscar Bertholdo, assim como tardiamente descubro muito do que há de bom na vida. Hipnotizaram-me os versos soprados à mão dele pela alma que lhe cabia, e comunguei com ele as sensibilidades que deitou pousar no volume batizado “Matrícula”, junto com outros então mancebos poetas que, com o tempo, tiveram chancelado o talento, igual ele.
De quebra, sem esperar, além do doce da poesia, ganhei de presente-surpresa a redescoberta de um pedaço de meu pai.
No ano que antecedeu à morte de meu pai, ele veio à Serra, ansioso por descobrir o resultado de um concurso literário do qual participara na condição de contista, em Farroupilha, o Concurso Regional de Poesias, Contos e Crônicas Oscar Bertholdo, então em sua primeira edição. Havia sido convidado pela comissão organizadora do evento para participar da solenidade de revelação dos vencedores e entrega dos prêmios, e estava confiante e exultante. Na “hora H”, coube-lhe o segundo lugar, um troféu e a frustração por não ter angariado os louros maiores e o prêmio em dinheiro.
Morreu meu pai alguns meses mais tarde e herdei eu o troféu, que ele esquecera a um canto entre seus pertences.
Hoje, ao palmilhar a delicada e profunda imersão que o poeta que empresta nome ao concurso faz na alma por meio de sua poesia, resgato e redimensiono o valor do segundo lugar que a obra de meu pai conquistou. Talvez, se ele tivesse, à época, conhecido o tamanho da arte de Bertholdo, poderia ter deitado um olhar mais carinhoso ao prêmio recebido e à própria arte de sua autoria que o troféu valorizava.
Um valor enobrece o outro e eu, em meio a isso tudo, valorizo minhas lembranças e alimento-as com poesia. Graças a almas como as que moveram homens como eles dois, cujos caminhos só se cruzam agora, nas encruzilhadas póstumas das recordações que trafegam pelos labirintos de minha memória.
PS 1 = Oscar Bertholdo nasceu em Nova Roma em 1935, então pertencente a Antônio Prado, e morreu assassinado, sem poesia, em Farroupilha em 1991. Era padre e poeta.
PS 2 = Meu pai nasceu em Ijuí em 1942 e morreu atropelado, sem poesia, em Ijuí em 2004. Era terapeuta naturista e contista.
PS 3 = Nênia, para facilitar a vida do leitor, é um canto fúnebre em homenagem a pessoas que partiram.
(Crônica publicada no jornal Informante, de Farroupilha, em 17/09/2010)

sexta-feira, 17 de setembro de 2010

O Adão dá bom-dia

Você já deu “bom-dia” hoje? Ou está guardando para alguém que valha a pena, ou para algum momento solene? Se sim, você tem lá sua razão, pois um “bom-dia” vale ouro. Adão também pensa assim, mas é por isso mesmo que não os economiza.
Ele os distribui à larga, a todos os que chegam, a todos os que saem. É um esbanjador de bons augúrios. É um perdulário de civilidade. Gasta seu cumprimento sem parcimônia, como se o estoque lhe fosse inesgotável e em constante processo de reposição. E o é, de fato. Para a felicidade dele e de todos os que frequentam seu estabelecimento.
Adão tem um sorriso estampado nos lábios, uma genuína paixão por encontrar gente. Doa a todos as energias positivas que seu espírito parece gerar. Adão dá “bom-dia” em alto e bom som, transformando o cumprimento na principal música-ambiente do restaurante que pilota. Um “bom-dia” recebido assim na entrada se transfigura em brinde ofertado a cada cliente que vai ali comer a quilo, a maioria com tempo curto e fome larga.
Eles vêm e retornam porque a comida é boa, porque o atendimento da equipe é acolhedor, porque o ambiente é agradável. Muito disso, senão tudo, decorre diretamente do “bom-dia” do Adão. Para ele, não custa nada. Para quem recebe, vale muito. Mesmo que alguns ouvidos não escutem com a devida atenção, não há como a mais cimentada alma não ser tocada pela sonoridade do dito e pela verdade do desejo de que se tenha, pelo menos a partir dali, um dia que valha a pena ser vivido.
Descobri, após conversas ao pé do ouvido, que o fornecedor de “bons-dias” desobrigou Adão de qualquer espécie de pagamento pelo produto, desde que ele faça uso amplo da mercadoria. E ele cumpre à risca o contrato, diária e constantemente:
- Bom dia!
- Booooom diaaaaa!
- Bom diiiia!
E sempre junto um sorriso largo e sincero, e uma olhada nos olhos do interlocutor, para consolidar e personalizar a entrega.
Precisamos universalizar esse fornecedor de “bons-dias” que atende ao Adão, e com certa urgência, porque, do jeito como a coisa vai aí pelo mundo, tenho a impressão de que já tem gente querendo cobrar pela gentileza. Com o Adão, o produto ainda é de graça, abundante e sincero.
(Crônica publicada no jornal Pioneiro em 17/09/10)

quinta-feira, 16 de setembro de 2010

Uma reflexão trigueira

Publica-se em Caxias do Sul. Escreve-se e publica-se. Caxias do Sul possui uma feira de livros anual portentosa, repleta de (óbvio) livros, autores, debates e sessões de autógrafos. Há livrarias grandes em Caxias do Sul, e editoras de livros florescem aqui. Também existe há décadas um concurso anual literário que revela novos talentos e a prefeitura dispõe de dispositivos como a Lei de Incentivo à Cultura e o Financiarte para prover, com verbas públicas, a publicação de obras literárias aprovadas pelos critérios de seleção.
Espaço, portanto, para a prática da literatura, em Caxias do Sul, há. Não sei se há leitores em igual proporção, mas isso já é outra história. O fato é que nunca antes foi tão fácil levar ao conhecimento público aquilo que se forja em termos literários em Caxias do Sul como nos dias atuais. Isso é, em essência, e por princípio, bom, muito bom.
Já dizia Honoré de Balzac (escritor francês do século dezenove) que, para conseguir escrever bem, é preciso escrever muito. Pode-se interpretar essa frase de efeito sob duas óticas válidas e não-excludentes. Uma, é a de que só o exercício constante e contínuo da escrita é que conduz o escritor ao domínio da técnica narrativa e à conquista de um estilo admirável. Outra, é a de que, produzindo bastante e constantemente, acabaremos, em meio a todo o joio que geramos, inevitavelmente parindo aquelas exceções (os trigos) que de fato vão se configurar como literatura de qualidade. Os dois vieses, a meu ver, estão corretos.
O trigo que vai sobrar entre todo esse joio é a posteridade quem vai decidir, naturalmente. A grande promessa literária de hoje pode cair no esquecimento absoluto dentro de um par de anos, e aquele livro que passou batido por nossos olhos pode vir a ser o representante de nossa geração dentro de algumas décadas. Quem vai saber?
Mas sempre me inclino a pensar que as condições propícias para que o trigo surja e se manifeste decorrem da abundância do joio jorrando ao redor. Que haja joio! Recebamos o joio todo de braços abertos e sorrisos largos, para que em meio a ele tenhamos sazonalmente a surpresa agradável de vermos, uma ou outra vez, pousar em nossos colos um delicado e valioso raminho de trigo.
Ah, e que sejamos, ó Senhor das Letras, sempre capazes de identificar a identidade desses tão valiosos raminhos e não deixá-los secar solitários abandonados ao fundo das prateleiras das livrarias. Além dessa lucidez, dai-nos também, Senhor das Letras, a humildade e a sabedoria necessárias para acolhermos melhor os eventuais ramos que afobadamente arremessamos para o monte dos joios. Sempre pode haver pérolas inesperadas escondidas entre eles e, pior do que arremessar pérolas aos porcos é não sermos nós mesmos capazes de detectar pérolas em meio ao joio.

PÉROLAS NA PRAÇA
Falando em pérolas literárias, a Feira do Livro de Caxias do Sul já tem data: acontece de 1º a 17 de outubro, na Praça Dante Alighieri. Em sua 26ª edição, a Feira leva ao centro da cidade livreiros, livrarias, escritores e leitores, que comungam sua paixão pelos livros e pela leitura em debates, bate-papos, mesas-redondas, sessões de autógrafos, encontros e conversas informais, rodas de leitura e muito mais. Entre as barracas de livros e as bandejas de saldos, é possível encontrar muitas pérolas literárias ansiosas para serem levadas para a sua casa e lidas por você. Fique atento, organize-se e vá à praça fazer a feira... de livros. Este ano, tenho a honra de ser o patrono do evento, ao lado do homenageado Frei Aldo Colombo. Espero-os lá!
(Publicado na seção "Planeta Livro" da revista Acontece Sul, edição de setembro de 2010)

terça-feira, 14 de setembro de 2010

As Azedinhas II

Recebi da leitora Ana Araldi o seguinte relato, inspirado em minha crônica publicada no jornal Pioneiro em 10/09/10, intitulada "As Azedinhas". Ana revela possuir talento de cronista, e aqui vai seu texto, que ela gentilmente me permitiu reproduzir no blog:

"No dia 28 de agosto deste ano, estávamos indo a um velório em Veranópolis, eu, meu marido e minha irmã. Logo após atravessar a ponte do Rio das Antas, à direita, há um restaurante panorâmico. Paramos, mas não pudemos apreciar aquela exuberante paisagem, pois já estava escuro. Nos limitamos a entrar, tomar um café e, na saída, ao chegar no caixa, inesperadamente fui surpreendida por um vidro transparente cheio de balinhas açucaradas por fora e azedinhas por dentro, em forma de peixinhos.
Subitamente, me transportei para a minha infância. Que delícia aqueles peixinhos doces e azedinhos ao mesmo tempo, dando-nos uma sensação de prazer completo. As lembranças daqueles dias espiavam pelas frestas do momento presente. E riam, muito. Foi delicioso lembrar e reencontrar os peixinhos.
Em meio a estas sensações, não pude conter a surpresa acompanhada de uma exclamação sonora:
- Olhem só o que estou vendo, aquelas balinhas de quando éramos crianças, há quanto tempo eu não as via, ah!!!!! Os peixinhos!!
Foi quando, golpeado por um impulso de extrema infelicidade e inadequação, o homem do caixa retrucou:
- Pois é Dona, estas balinhas são do seu tempo.
Instintivamente, cravei nele um par de olhos, como flechas, velozes e certeiras.
- Alto lá, cara! Do NOSSO tempo.
E ele, completamente descomposto, fez a tréplica:
- Ah! sim, não, quer dizer, desculpa Dona, quer dizer, Senhora, desculpa de novo, digo, sim, do NOSSO tempo.
Fez-se um silêncio constrangedor, muito breve, porém demasiado longo para aquelas circunstâncias, principalmente para ele. Claro que eu estava brincando, mas ele não percebeu isso. Tratei logo de desfazer a cena. Ri.
Peguei as balinhas, quer dizer, os peixinhos, o troco e lhe desejei um sonoro “Boa Noite, Senhor”. Os peixinhos nadavam de um lado para outro da minha boca e nunca pareceram tão azedinhos quanto naquela noite. Seriam de fato as mesmas balinhas? O que realmente havia se modificado, as balinhas azedinhas ou eu? Ou ambas?
No dia seguinte, retornamos. Impossível não conectar-se com a natureza diante de tamanha exuberância que ladeia aquela estrada. Tudo era maravilhoso e eu estava maravilhada. Passamos em frente àquele restaurante e nem foi preciso parar, pois eu nem estava mesmo com vontade de balinhas, nem de peixinhos. Pacientemente, o rio percorria seu destino e os peixinhos do rio, nada açucarados, nem azedinhos passeavam pelas águas turvas e semoventes."

sexta-feira, 10 de setembro de 2010

As azedinhas

(Balinhas são o objeto do desejo de dez entre dez velhinhos iguais a mim)


Tudo é relativo. Quer ver? Leia-me.
Passeava eu, despreocupado, por um empório que comercializa produtos gastronômicos atraentes, quando topei com um artigo que me teletransportou para a minha infância. Manuseei embevecido o potinho transparente que continha as saborosas balinhas de açúcar, azedinhas e coloridas, cortadas como se fossem minitubinhos com as laterais ornamentadas com desenhos das frutas às quais seus artificiais sabores remetem, e me vi criança.
A lembrança dessas balinhas tipo pedregulhos havia se evaporado de minha memória junto com as nuvens que devem guardar inesgotáveis registros de objetos, fatos e sensações que povoaram e moldaram os primeiros anos de minha existência. Não tive dúvidas: capturei uma embalagem daqueles artiguinhos que me catapultavam de volta ao passado e dirigi-me ao caixa, ali pilotado por uma moça de seus vinte e poucos anos de idade, sorridente e simpática.
Tão sorridente e tão simpática que entabulou conversa comigo enquanto o scanner lia a tarja com o código de barras, perguntando-me se aquelas balinhas eram de fato gostosas. “São, sim. Ao menos, pelo que eu me recorde, são. Elas me lembram a minha infância”, respondi, também todo simpático e sorridente. Ao que ela emendou: “Pois é, vários idosos vêm aqui e compram essas balinhas, dizendo a mesma coisa”. E assim foi-se balcão abaixo o sorriso simpático de meus lábios, e pesaram-me as cãs no exato instante em que meu cérebro traduziu as entrelinhas do que a simpática moçoila me dizia, a mim, o idoso a adquirir balinhas pré-históricas.
Cheguei em casa, abri a embalagem e contei todas as balinhas (típica atitude de velhinho): 32 cubinhos recheados de sabores da infância, a serem degustados um a um enquanto recordo os tempos passados e procuro me habituar ao fato de que esse passado já é bem passadinho mesmo. Para mim, foi ontem que o garotinho míope chupava essas balas com o nariz enfiado em livros de Monteiro Lobato. Para a rapariga do empório, esses velhinhos como eu parecem tão simpatiquinhos comprando as balinhas de sua dinossáurica infância... Simpatia e velhice são, de fato, conceitos relativos...


(Crônica publicada no jornal Pioneiro, em 10/09/10)

terça-feira, 7 de setembro de 2010

Quem quer e quem não quer o seu dinheiro

Nossos repórteres acompanharam a ida às compras de três diferentes consumidores em um shopping center na Bobolândia (o Babashopping), porque os bobolandeses também têm dinheiro para gastar; eles são uma nação emergente e adoram torrar o rico dinheirinho que ganham suado. Só tem um porém: não é fácil ser consumidor na Bobolândia. Acompanhem e saberão o porquê.
O Consumidor Bobolandês 1 entra numa loja de discos (dessas que estão em vias de extinção devido à internet e ao dáunloude de músicas) e é abordado pelo vendedor, que faz a pergunta “o senhor precisa de alguma ajuda?”. O Consumidor Bobolandês 1 (chamaremos ele de CB1 daqui por diante, por uma questão de economia de espaço, tempo e dinheiro, claro) responde “sim, estou procurando o último disco do John Lennon”. “Ah”, responde o vendedor, com indisfarçável cara de quem gostaria de estar dizendo “quemmmmm???”, e emenda: “Ele lançou recentemente? Não recebemos ainda, mas deve estar para chegar”. Detalhe que só o CB1, eu e você sabemos: John Lennon morreu há trinta anos, e o tal “último disco” a que o consumidor se referia trata-se do derradeiro álbum da carreira dele, lançado no mesmo ano em que ele morreu.
É claro que o disco consta no catálogo e, se procurar um pouco, corre-se até o risco de encontrá-lo à disposição para venda ali mesmo, na prateleira. Mas quem é que de sã consciência na Bobolândia vai querer exigir conhecimento musical básico dos vendedores de discos em lojas de discos?
Já o CB2 entra faceiro na livraria grande e portentosa do shopping. Dribla as seções de discos, de DVDs, de eletrônicos, de computadores e de detergentes e chega, enfim, às prateleiras de livros, onde é abordado pela sorridente atendente: “o senhor precisa de alguma ajuda?”. “Sim”, responde, esperançoso, o CB2: “Você tem livros de Osman Lins, de Guy de Maupassant e de Pearl S. Buck?”. “São lançamentos?”, pergunta a atônita menininha de rabinho-de-cabelo, pronta para digitar qualquer coisa no terminal de consulta que a ajude a sair do limbo. Nosso CB2 nem espera para responder, vira as costas e sai, desiludido, rumo à área de patinação no gelo artificial que vai ficar por ali só mais dois dias.
Agora, vejamos como se sai o bravo CB3, que adentra uma concessionária de veículos localizada a duas quadras do Babashopping. Ele entra em meio aos veículos e logo é abordado por um solícito vendedor, que pergunta: “o senhor precisa de alguma ajuda”? “Sim”, diz nosso consumidor, “gostaria de um Upalalá modelo novo”. Ao que nosso surpreendente vendedor responde: “sim, claro, venha comigo. Os novos Upalalás estão vindo em três modelos diferentes, cada um com acessórios específicos para o seu conforto. Se o senhor possui família grande, vou lhe mostrar o modelo ABCD3, que vem com quatro air bags, direção hidráulica, freios ABS...” e assim segue, informado e informando, detalhe por detalhe, as características do produto para o qual foi contratado para vender.
Realmente, adquirir livros, discos e cultura em geral é bastante custoso na Bobolândia. Mais fácil comprar um carro mesmo...
(Crônica publicada no jornal Informante, de Farroupilha, em 03/09/2010)

sexta-feira, 3 de setembro de 2010

Eu sou bárbaro


Minha mulher se impôs uma missão árdua desde que leu a crônica em que eu discorria sobre a questão da gentileza. Convencida de que ando usando este espaço para dar moral de ceroulas, agora quer me ensinar alguns conceitos básicos de etiqueta que norteiam a atuação em sociedade de um casal. Ela crê que eu tenho conserto, que aprenderei, e está empenhada nas lições. Coitada. E de mim também, que tento decorar as regras e comprometi-me a colocá-las em prática sempre que saímos juntos. Sou um veículo em treinamento, portanto.
Primeira lição: lembrar de sempre entrar na frente dela em lugares públicos, como restaurantes, recepções, vernissages, ambientes lotados em geral. Sim, porque cabe ao homem dar a primeira pisada na área, farejar possíveis perigos, eliminar obstáculos, detectar o melhor lugar para sentar ou identificar o grupo formado pelo menor número de chatos. O homem educado, o cavalheiro gentil e atencioso, não faz igual a mim (ou igual ao meu antigo eu, o bárbaro), que empurra a mulher porta adentro como se a estivesse rifando aos olhares da turba presente. Isso é errado. Feio. Grotesco. Aprendi, pelo menos, já na teoria.
Lição dois: lembrar de sempre deixar a companheira sair na frente do mesmo ambiente. Cabe a você resguardá-la. Todos os olhares devem ferir as suas costas, e não as dela. É você quem deve receber as punhaladas psíquicas na hora da retirada. Ela, não; ela deve ser protegida por você como um escudo na entrada e outro na retirada. Seja um escudo. O mesmo vale na hora de subir e descer escadas, ensina-me ela: ao subir, fique atrás, para apará-la caso ela se desequilibre no salto e role escada abaixo, seja a escada rolante ou não. Ao descer, fique na frente dela, pela mesmíssima razão, seu ogro.
Aliás, depois da retirada bem feita, obedecendo a todas as regras, cuide para não colocar tudo por terra disparando na frente dela rumo ao carro, entrando, ligando o motor e já arrancando quando ela recém chegou e ainda tem um pé apoiado na calçada. Domestique o viking que habita o seu ser e aprenda a cuidar melhor delas. Elas saberão valorizar. Juro que estou tentando. Grof...
(Crônica publicada no jornal Pioneiro, em 03/09/2010)

sexta-feira, 27 de agosto de 2010

Entrando no clima


A constância da instabilidade climática é um dos mais importantes fatores de estímulo à agregação social existentes no mundo. Ter sempre à mão a opção de ingressar pelas veredas do clima em situações de iminente embaraço social é um poderoso instrumento a serviço da sociabilidade humana, sem o qual certamente estaríamos ainda relegados a condições bem mais bárbaras de convivência. Quantos amigos já não fizemos na vida simplesmente mergulhando de mãos dadas em vitupérios contra as chuvas e a umidade, ou deleitando-nos em uníssono pelo retorno do sol que volta a brilhar? A volubilidade das condições meteorológicas é um presente dos deuses na pavimentação de nossa evolução.
Semana passada mesmo, ao dividir um táxi com um estranho, encontrei nele uma comunhão incrível de opiniões, suscitadas por nossa mútua habilidade em desenvolver o tema. Foi assim:
- Bom dia!
- Sim, agora, sim, bom dia, né.
- Pois é, esquentou. Parece primavera.
- Prefiro assim.
- Eu também.
- Chega de chuva.
- Chega.
- Nem parece inverno. Hoje em dia, o frio começa mais tarde e se estende até o final do ano.
- O veranico de maio agora é em agosto.
- É. No meu tempo, verão era verão e inverno era inverno.
- E primavera era primavera.
- Está tudo mudado.
- Tudo.
- Que coisa.
- Bota coisa nisso!
- Bem, tchau, hein.
- Tchau, prazer em conhecê-lo.
- Idem.
Um bom sujeito, com certeza. Opiniões fortes, surpreendentes. Esquecemos de trocar cartões, mas, se o tempo ajudar, haveremos de nos encontrar novamente. Ah, como é bom fazer novos amigos! Bons tempos, esses.
(Crônica publicada no jornal Pioneiro em 27/08/2010)

quarta-feira, 25 de agosto de 2010

Capítulo contra o mau-humor

Entre as mil e uma utilidades que proporcionam, livros também servem como
bálsamos para alegrar o espírito e invocar as propriedades terapêuticas do riso

Livros, como bem sabemos, são objetos versáteis aptos a proporcionar mil e duas utilidades a seus felizes proprietários. Os ingleses, por exemplo, aproveitam os de autoria de Paulo Coelho para servirem de calço a portas insistentemente empurradas por seus tradicionais fantasmas. Alguns livros podem ser muito úteis como instrumentos sempre ao alcance da mão para aniquilarmos insetos xeretas (em especial os de capa dura – os livros, não os insetos) ou como suportes para suarentos copos de cerveja a fim de não mancharmos a mesa da sala enquanto assistimos ao televisionamento das partidas de futebol de nosso time do coração. Quem nunca empilhou todos os sete volumes de “Em Busca do Tempo Perdido” para subir e trocar uma lâmpada queimada na cozinha? Com mais um “Ulisses” de Joyce e “Os Sertões” do Euclides acrescidos ao topo da pilha, pode-se até pensar em alcançar o alçapão do sótão e ir lá em cima substituir a telha quebrada que produz a irritante goteira que molha o quarto justamente nos dias de chuva.
Mas eu, particularmente, titular desta coluna, coincidentemente prefiro utilizá-los para tão-somente um propósito: leio-os desavergonhadamente e depois guardo-os na estante e revisito-os com uma freqüência escandalosa. Com o passar dos anos e o acúmulo de experiência que naturalmente decorre do ato repetitivo desta prática, descobri também outro proveito que se pode extrair de alguns livros, a concorrerem com uma música dos Beatles, um lauto jantar, um inebriante vinho marsellan ou um desenho animado do Shrek: a melhora imediata do humor e do astral.
De uns tempos para cá, separei em um cantinho especial da estante um espaço onde guardo, sempre ao alcance da mão, as obras nas quais sei existirem passagens que, mesmo em eu as lendo pela trocentésima vez, me farão voltar a gargalhar, não só melhorando automaticamente meu estado de espírito como também me fazendo economizar o dinheiro que teria de dedicar às terapias num futuro próximo e sombrio. Assim, por exemplo, está lá a primeira parte do “Dom Quixote” (capa dura, edição do extinto Círculo do Livro, jamais utilizada para formar pilhas em substituição a escadas), com um marcador estrategicamente cravado à página 161, justamente no início do capítulo XX, quando o fiel escudeiro Sancho Pança decide animar seu amo narrando-lhe o que considera ser “a rainha das histórias”. A “habilidade” do personagem em narrar diverte o leitor na mesma medida em que exaspera o Quixote, transformado em personagem-ouvinte. Releio a passagem há anos, como que obedecendo a uma prescrição médica contra a instalação do mau-humor. Recomendo.
Seguindo na mesma esteira, guardo ali ao lado meu exemplar de “Sobre Heróis e Tumbas”, do argentino Ernesto Sábato, para revisitar com assiduidade o capítulo 11, em que o personagem principal, inebriado por um espírito irônico, trava uma hilariante discussão em um bar com uma dupla de amigas feministas. A mesma ironia e o humor refinadíssimo, que subitamente provocam incontroláveis acessos de riso, podem ser facilmente detectados nas linhas do italiano Ítalo Calvino em seu “Se Um Viajante Numa Noite de Inverno”, no capítulo “No Tapete de Folhas Iluminadas Pela Lua”. Desaconselho a ler estas passagens em lugares públicos, sob o risco de ser visto como um alienígena em plena Praça Dante.
Mas se quiser mesmo correr o risco, seguem ainda outras indicações: o conto “O Homem que Chamava Teresa”, também de Calvino, incluído na obra “Um General na Biblioteca”; e os contos do russo Anton Tchekhov “Sobrenome Cavalar” e “A Morte do Funcionário”. Leia, e não ria, se for capaz...
(Texto publicado na seção Planeta Livro, da revista Acontece, em junho de 2007)

sábado, 21 de agosto de 2010

Juro que vi um vampiro

Engana-se quem pensa que a sedução gerada pelo mito do vampiro é um fenômeno característico do século 21, iniciado com a série de livros e filmes conhecida como “Crepúsculo”, que leva milhões de jovens às salas de cinema e (incrível) às prateleiras das livrarias. O interesse pelo universo dos dentuços remonta a culturas humanas ancestrais e ganha doses de revitalização em épocas distintas, por meios e motivações também distintas, sintonizando-se com a psiquê coletiva da humanidade. Senão, vejamos:
As antigas culturas grega, chinesa, arábica e caucasiana já conheciam as lendas girando em torno de seres que retornavam do mundo dos mortos para atormentar o mundo dos vivos, atacando e sugando suas almas. O conceito de vampiros especificamente sugadores de sangue criou forma mais evidente na Europa cristã a partir do século 12, e, a partir daí, é aquela coisa: quem conta um conto, aumenta um ponto. O conceito dos vampiros e o universo que os cerca vem sendo recriado a cada renovação da onda de interesse pelo assunto. Mas é importante prestar atenção, isso sim, para a mudança dos motivos do encantamento de cada geração pelo tema. Senão, vejamos mais uma vez:
Lá no início, nossos remotos ancestrais perdiam o sono por acreditarem realmente na existência dos mortos-vivos, e o interesse era despertado por um horror e medo genuínos. O advento das eras racionais relegou os chupadores de sangue ao mundo dos mitos retrabalhados pela ficção. Nessa fase, a sedução das massas pelos vampiros decorria do pretenso charme e poder de sedução que os monstrengos emanavam por trás de seus comportamentos duvidosos e egocentrados.
Durante o transcorrer do século 20, a ficção foi retrabalhando o tema, jamais esquecendo os componentes anteriores, mas enfatizando um ponto cada vez mais crucial: o aspecto da imortalidade. Existir durante cinco ou mais séculos, mantendo a juventude e a vitalidade, representa tudo o que nosso inconsciente coletivo deseja nesses tempos modernos de cirurgias plásticas, alimentação saudável e técnicas rejuvenescedoras.
A questão é que, nos dias de hoje, a retomada do interesse pelo vampiro se dá entre a juventude a partir de uma motivação no mínimo preocupante. Mais do que a apologia à imortalidade e aos superpoderes, o que desperta agora a curiosidade pelos mortos-vivos parece ser a liberdade total de ação de que eles desfrutam. Os vampiros retratados pela ficção moderna não vivem meramente à margem da sociedade, mas agem especialmente acima dela, além do bem e do mal.
Eles são seres que fazem o que querem na hora que querem, sem dar satisfações para ninguém, e possuem poderes para escapar ilesos das consequências de seus mais hediondos atos. Vampiros não pagam por seus crimes, seduzem quem bem entendem, eliminam seus desafetos, impõem suas vontades à força de seus poderes, furam as filas, jogam cascas de banana e bitocas de cigarro no chão, desrespeitam as leis de trânsito, bebem e dirigem, passeiam com pittbulls sem focinheira pelos parques, escutam música alto de madrugada, usam os outros para se dar bem etc.
Cuidado, olhe bem à sua volta. O mundo real está cada vez mais povoado por vampiros. Todos eles sugadores da convivência e da civilidade humanas. Até que uma estaca ou que raios de sol os detenham, sempre é bom lembrar...
(Crônica publicada no jornal farroupilhense Informante, em 20/08/2010)

sexta-feira, 20 de agosto de 2010

A traição de Hermenilda

(Trio de senhoras na hora do chá, enquanto degustam torradinhas e criticam minhas crônicas)


Tirei do sério mais uma vez aquele grupo de distintas senhoras que me lê com assiduidade e que, tempos atrás, oficializou reclamação referente a meu estilo de escrita de tirar o fôlego devido à extensão impiedosa de alguns dos períodos que componho quando escrevo estas crônicas, nos quais acabo sendo irritantemente parcimonioso com o uso das pausas advindas das benfazejas vírgulas. A exemplo desta última frase, como podem ver, elas estavam cobertas de razão, pelo que, aliás, procuro não mais me estender tanto, o que nem sempre consigo, como também esta segunda e interminável construção frasal se esforça em comprovar, sem falar que esta, bem mais rica em vírgulas do que a anterior, em nada ajudou na intenção de proporcionar uma leitura menos asfixiante.
Desta vez, a reclamação dessas minhas fiéis leitoras aponta contra o hábito nem sempre explícito que tenho de tascar nos meus textos termos, expressões e vocábulos de difícil compreensão, dando não só a impressão de que possuo a ignóbil intenção de pavonear meus supostos dotes literários como, pior do que isso, obrigo-as a abandonar as confortáveis poltronas nas quais se abancam para degustar minhas crônicas com chás e torradas para dirigirem-se às estantes em busca dos pesados dicionários que lhes auxiliarão a desvendar as minhas más intenções literais. (Pausa para retomarmos as forças após este último maratonístico período).
Recompostos, sigamos, com as sobreviventes que houver. O que indignou agora esse grupo de fiéis leitoras foi a minha crônica de semanas atrás, que, segundo elas, já começava mal, com o despudorado uso da palavra “desagravo” logo no título. “Acho que devemos dar outro puxão de orelhas nesse rapaz”, disse uma delas, entornando a xícara de chá. “Vamos escrever para ele, reclamando”, propôs a que se chamava Hermenilda, mastigando uma torradinha. “Usaremos palavras difíceis e num estilo asfixiante, para ele ver o que é bom para a tosse”, ameaçou a terceira, tossindo. “Ele não encontrará ninguém que o desagrave”, emendou Hermenilda. Quero crer que ela foi vista pelas outras como traidora ao usar o hermético termo. Ela não sabe, mas desagravou-me.


(Crônica publicada no jornal Pioneiro em 20/08/2010)