sexta-feira, 26 de agosto de 2016

Um freio aos voos de Solo

Hope Solo, a goleira-musa da Seleção Feminina de Futebol dos Estados Unidos, coleciona fãs da mesma forma como enfileira polêmicas. Antes ainda de rumar para as Olimpíadas do Rio de Janeiro, já levou merecidos puxões de orelha por postar fotos, em seus perfis nas redes sociais, comprovando estar paramentada para enfrentar os perigos do vírus da Zika no Brasil, exibindo uma espécie de kit completo repleto de repelentes e até uma máscara especial anti-insetos. “Se alguém na Vila Olímpica esquecer o repelente, pode vir falar comigo”, escreveu a bela goleira de feias atitudes. Acabou levando goleada de críticas na internet devido à brincadeira preconceituosa.
A gracinha de mau gosto obrigou a atleta a pedir desculpas aos brasileiros assim que pisou no país para o início da caça por medalhas. Mesmo assim, o público não perdoou e Hope amargou dezenas de minutos de vaias durante as partidas de sua equipe que, por fim, foi derrotada pela Suécia nos pênaltis, ainda nas quartas de final, e ela teve de voltar para casa sem Zika e sem medalha na bagagem (apenas os tubos de repelente, que sabe-se lá se usou). O incrível é que isso não bastou. Hope, provando que não se contenta em provocar polêmica solo, mas sim em dobradinha, seguiu em frente em sua indomável vocação para armar confusão. Ao final da partida decisiva contra a Suécia, a arqueira deu declarações à imprensa internacional chamando as adversárias de “covardes” por terem adotado uma tática defensiva durante a partida, que resultou empatada em zero a zero no tempo regulamentar e na prorrogação, e foi definida nos pênaltis (a favor da Suécia, que foi à final e levou a medalha de prata).

Mas agora chegou a fatura, uma vez que má-educação e falta de ética têm limite. Ao menos, nos Estados Unidos parece ter. Esta semana, a Confederação Norte-Americana de Futebol decidiu suspender a goleira de participações na Seleção Feminina de seu país por um período de seis meses, devido às suas atitudes. Diz a nota oficial divulgada pela entidade: “Os comentários feitos por Hope Solo após a partida contra a Suécia durante a Olimpíada deste ano são inaceitáveis e vão contra o padrão de conduta que exigimos de nossas jogadoras de seleção. Além da arena atlética, além dos resultados, as Olimpíadas celebram e representam os ideais de jogo limpo e respeito. Nós esperamos que todos os nossos representantes honrem esses princípios, sem exceções”. Os bons exemplos estão aí, para serem seguidos. Refiro-me aos da Confederação Norte-Americana, e não aos da goleira, só para deixar claro.
(Crônica publicada no jornal Pioneiro em 26 de agosto de 2016)

quinta-feira, 25 de agosto de 2016

Nem neve, nem santinhos

Já sou conhecido pela turma de carteiros e carteiras que atendem o bairro em que moro, uma vez que demando deles bastante trabalho na entrega de encomendas que faço via postal, atraindo até minha casa livros, revistas, discos e filmes para completar minhas inextinguíveis coleções. “Encomenda para o senhor Marcos”, avisa pelo interfone o bravo funcionário da Empresa Brasileira de Correios e Telégrafos, e lá despenco eu do décimo-primeiro andar, pantufas nos pés, coração ansiado acompanhando o visor do elevador a me desembarcar logo no térreo para que possa descobrir qual encomenda chegou e pelas mãos de qual de meus já amigos carteiros: o senhorzinho que gosta de ler e que já foi presenteado com livro de minha autoria; a moça da van de Sedex; o rapaz da motocicleta ou a rapariga caminhante.
Dessa vez é a rapariga caminhante, simpática (como todos) e conversadora, que entrega o pacote e pede para assinar na linha marcada. Hoje ela veio cedo e me achou em casa. “Não o tirei da cama, senhor Marcos?”, brinca. “Não, eu sabia que você viria e já estava cedo de guarda”, devolvo, assinando na linha ao lado do xis. Pelo jeito, ela gosta do que faz e compartilha uma sutileza de sua profissão que até então eu sequer desconfiava: “A campanha eleitoral dificulta nossa vida; as caixinhas de correio ficam lotadas de propaganda e santinhos e não sobra espaço para colocarmos a correspondência”. Verdade, não havia percebido isso. É importante que nós, moradores/eleitores, mantenhamos nossas caixas de correspondência regularmente esvaziadas, especialmente em período eleitoral, sob pena de não recebermos nossas encomendas e nossas cartas (cartas, não, que ninguém mais recebe carta, mas as faturas, as contas, os boletos e as multas de trânsito).

Vejo-a trotar rua abaixo com a pesada sacola às costas e me invadem a mente as belas palavras do lema dos carteiros norte-americanos, que diz mais ou menos assim: “Nem a neve, nem o frio, nem a chuva, nem o calor e nem a escuridão da noite impedirão estes carteiros de cumprir com agilidade as missões que lhes foram designadas”. O belo lema deriva da descrição que o historiador grego Heródoto (484 a.C. – 425 a.C.) fez do Angarium, o incrível sistema de mensageiros que existia na antiga Pérsia no século cinco antes de Cristo e que garantia o fluxo de informações naquela região. Se tanto na Pérsia quanto nos Estados Unidos nem a chuva nem a neve impossibilitam o trabalho dos carteiros, aqui no Brasil tampouco os santinhos eleitorais os impedirão de cumprir suas missões. Façamos votos.
(Crônica publicada no jornal Pioneiro em 25 de agosto de 2016)

quarta-feira, 24 de agosto de 2016

A resposta está na cara

Ela repousa logo ali, separada do presente pelo tênue fio intangível da sucessão dos dias que se transformam em anos e estabelecem a compreensão do passar do tempo. Observo meu rosto no espelho e tento encontrar nele a permanência de traços que me remetam a ela ou que pelo menos insinuem a existência de um elo concreto com uma época distante no calendário e, ao mesmo tempo, tão presente nas manifestações da memória. Talvez os sinais dela se escondam em meio às dobras das rugas que já raiam as esquinas dos olhos; talvez seja possível seguir seu rastro contando os fios brancos de cabelo que já se fazem incontáveis e irredutíveis em seu movimento de avanço; talvez a pista de seu paradeiro repouse nos sulcos da testa ou no relaxamento das pálpebras. Não sei.
Olho, olho e nada descubro. Algo me diz que a chave está ali, em algum lugar, e devo continuar perscrutando. Talvez a resposta não se encontre na mudança dos traços físicos e, sim, em algum aspecto que se mantém imutável apesar da marcha das horas. Para encontrá-lo, devo reorientar o foco do olhar. Percebo que o redirecionamento da linha de investigação me aproxima da resposta. O segredo não está na transformação dos traços, mas na essência intangível que os molda, cuja fonte reside na força vital e única que molda cada ser.
Sim, acho que descobri. O segredo de seu esconderijo talvez esteja exatamente na forma de olhar para si mesmo. Repousa no olhar, na intensidade do brilho que toma os olhos quando se olha o mundo com o mesmo entusiasmo de quando se veio há pouco a ele. Eis a chave. Redescobrir os traços da infância, distanciado cronologicamente dela por décadas, requer prestar atenção a alguns aspectos da capacidade infantil de seguir observando o mundo. É aí que se esconde a infância que às vezes dizemos “perdida”, mas que, na verdade, segue acompanhando nossa jornada diária de amadurecimento e de enfrentamento da vida, sempre presente no moldar da história pessoal que a cada um de nós é dado construir. Ela está no olhar e não nas rugas que envolvem e adornam os olhos.

Impossível não pensar nos tempos de criança neste 24 de agosto, definido nos calendários oficiais como Dia da Infância, e evitar ser invadido pela nostalgia inerente a uma época da vida em que o mundo ao redor descortinava oceanos infinitos de possibilidades. Ao longo da vida vamos escolhendo caminhos. Mas saber detectar a presença ainda em nós da criança que fomos e que ainda podemos ser se configura em amparo crucial para seguir em frente na companhia das rugas e das cãs.
(Crônica publicada no jornal Pioneiro em 24 de agosto de 2016)

terça-feira, 23 de agosto de 2016

O cardápio da mesa do Rei

“É preciso saber viver”, já dizia (cantava) Roberto Carlos. Mas não só isso. Também é preciso saber viver de acordo com o que se propõe a fazer na vida, digo eu, observando as atitudes do próprio Roberto Carlos. É preciso conhecer seu próprio lugar no mundo, ter consciência de suas metas e de como chegar a elas. Tendo a elas chegado, é preciso também saber mantê-las e isso requer um exercício constante, sempre alerta, de autoconhecimento e de atitudes coerentes. Viu só, madama, como é possível aprender lições importantes somente observando atos de Roberto Carlos? É uma brasa, mesmo, mora?
Como foi que eu cheguei a essas conclusões? Sim, a senhora tem o direito de perguntar. E sempre é um prazer preenchê-la, madama, de informações. Então, vamos aos fatos. Manhã dessas flagrei Roberto Carlos e seu sorriso participando como convidado especial do programa de Ana Maria Braga na televisão. Estavam em torno de uma farta mesa de café da manhã, o que aguçou as atenções de minhas papilas gustativas e, atendendo a seu pedido (das papilas),estacionei o controle-remoto por ali mesmo, para ver o que acontecia. Ana Maria oferecia bolinhos e pãezinhos a Roberto, que gentilmente agradecia, justificando que, de boca cheia, não poderia responder às perguntas dela e nem cantar. Esperto, esse Roberto Carlos, pensei. Ligeiramente frustrada, Ana Maria deixou no prato o bolinho que acabara de arrebanhar e chamou logo a entrada das perguntas que a produção gravara com populares, direcionadas ao cantor.
E lá veio a primeira: “Roberto, qual a sua comida favorita”? Opa! Também queria saber. Qual o rango favorito do Rei? O mistério seria revelado ao vivo. Depois da risadinha tradicional, o artista, sem pestanejar, respondeu: “Feijão, arroz e ovo frito”. Bingo, Roberto! Muito esperto! Ao invés de vir com masterchefices esdrúxulas como paleta de cordeiro ao molho de hortelã ou suflê de palmito com amoras, ele veio logo com um dos mais típicos pratos da preferência nacional. Todos se identificaram de cara com sua resposta. Roberto Carlos sabe que é um ídolo das massas (“Como, não era feijão e arroz?”; não, madama, “massas”, aqui, usado no sentido de “povo”) e, para se manter no posto, é preciso renovar constantemente a identificação com seu público.

Até eu, que também sou massa, me identifiquei. Apenas acrescentaria um bife como acompanhamento, mas aí já estaria elitizando o cardápio, eu sei, e o Rei cuidou para não fazer isso. Roberto Carlos sabe estar em sintonia com seu público. Prova é que nunca o vi ser olimpicamente vaiado em estádios.
(Crônica publicada no jornal Pioneiro, de Caxias do Sul, em 23 de agosto de 2016)

segunda-feira, 22 de agosto de 2016

Muito além dos 90 minutos

Coisas estranhas acontecem em Uvanova, aquela pequena cidadezinha de colonização italiana encravada no seio da Serra Gaúcha, às margens do Rio das Antas, que faz divisa ao sul com a cidade de Tapariu; ao norte com a localidade de Vila Faconda; a leste com Nova Brócola do Sul e, a oeste, todos dão uma paradinha no final da tarde para apreciar o pôr-do-sol, porque, também, ninguém é de ferro e não dá para preencher a vida só com trabalho, trabalho, trabalho. Mantenho-me informado a respeito dos acontecimentos que movimentam a cidade por meio das notícias impressas no “O Uvanoveiro”, jornal semanal local que fielmente assino e recebo pelo correio com um atraso médio de quatro semanas porque, para economizar selo, são enviadas juntas as quatro edições do mês.
A grande novidade que mexe com o cotidiano dos uvanovenses (“uvanovense” ou “uvanoveiro”, uma das celeumas que chacoalham a comunidade há décadas) provém da área esportiva, mais especificamente do setor futebolístico, uma vez que o futebol é o esporte mais popular entre os nativos, seguido de perto pela esgrima de mêscola e pela bola na sporta. Aliás, a transmissão dos Jogos Olímpicos do Rio de Janeiro provocou uma renovação geral do interesse dos uvanovenses pelas mais variadas práticas esportivas e campeonatos os mais diversos surgem em todas as partes pelo município, aquecendo o setor da venda de apitos e o do comércio de pão com salame, porque é preciso alimentar bem os atletas de todas as categorias.
Mas a grande novidade vem do tradicional ramo do futebol, mesmo. Por meio de um decreto prefeitural, a partir de agora, partidas de futebol que definem campeonato não podem terminar empatadas. Em Uvanova, não tem mais isso de levar a decisão para a prorrogação e depois para os pênaltis. “Futebol tem de ser ganho com a bola no pé, correndo dentro das quatro linhas e chacoalhando as redes; nada de cobrança de pênaltis”, declarou o prefeito em cadeia municipal de imprensa falada, escrita e fofocada.

Assim, em Uvanova, uma partida decisiva de futebol que resulte empatada após os 90 minutos regulamentares, entra em ritmo de prorrogação eterna até o instante em que um dos times marcar um gol e sagrar-se campeão. Não importa quanto tempo leve (minutos, horas, dias, semanas, meses). A partida-teste está em andamento já há cinco semanas. Sei que há ainda cinco jogadores em campo (dois de um time e três de outro); os demais, foram vencidos pelas cãibras. Na arquibancada, resta o prefeito, monitorando o certame. Aguardo a próxima remessa de periódicos para saber o desfecho.
(Crônica de Marcos Fernando Kirst publicada no jornal "Pioneiro" em 22 de agosto de 2016)

sexta-feira, 19 de agosto de 2016

Livros, CDs e filmes neles!

Olha, madama, vou lhe segredar uma coisa: se seu neto anda voltando desolado de passeios súbitos por diversos logradouros da cidade, infeliz por não estar conseguindo encontrar algum Pokémon pela aí, pode ter certeza de que ele se escondeu aqui em casa. Quem? Seu neto? Não, madama, o tal do Pokémon que ele caça. A Pokemonada toda parece que cansou de ser facilmente encontrada pelos celulares alheios e andam fugindo para cá, deixando a ver navios os caçadores de Pokémon na Praça Dante, nos pátios da UCS, na Avenida Júlio de Castilhos. Se é para brincar de esconde-esconde, eles decidiram radicalizar e vieram todos se esconder aqui.
Aqui tem Pokémon no banheiro, tem Pokémon embaixo da cama, tem Pokémon em cima da televisão, tem Pokémon enfiado na lata de biscoitos, tem Pokémon dormindo nas minhas pantufas, tem Pokémon congelado no freezer, tem Pokémon por tudo, madama. Tenho certeza de que o Pokémon perdido de seu neto está aqui entre eles. Pode mandar vir buscar, que é um favor que a senhora me faz. Entrego-o banhado e penteadinho.
Não é que eu me incomode com a casa atopetada de Pokémons espraiados por todos os cantos, longe disso. Até gosto da companhia que fazem, tiram aquele ar de solidão que costuma invadir uma casa quando não se tem gato, cachorro, periquito, tartaruga ou calopsita de estimação. Eles são minúsculos, silenciosos e amarelos. Um tanto agitados, sim, mas basta cuidar para não esmagar nenhum deles ao andar pela casa que tudo segue com certa tranquilidade. Não me importo que oito deles estejam sentados sobre a tevê quando, à noite, me ponho a acompanhar o salto com vara nas Olimpíadas. Eles torcem junto comigo e já andamos até ensaiando, com relativo sucesso, umas “olas” no sofá da sala.
O que incomoda, mesmo, madama, são os caçadores de Pokémons. E se descobrirem que aqueles mais difíceis de encontrar estão se escondendo aqui em casa? Com os Pokémons até ando aprendendo a lidar, mas os obstinados, fissurados e obcecados caçadores de Pokémons, o que se faz com eles, madama? A senhora veja seu neto! Não tira o nariz do aparelho celular, caçando Pokémons o dia todo, do café da manhã à janta, não é mesmo? Ele caça Pokémon no banho, caça na xícara do café, caça no prato de mingau, caça dentro do ônibus, é um inferno! Como lidar com ele?

Eu, aqui, tenho adestrado os Pokémons que se enfiam dentro de minha casa. Meto bons filmes no DVD, toco música de qualidade no aparelho de som e promovo rodas de leitura. Os seus, eu não sei, mas os meus Pokémons não vão gastar tempo caçando Pokémons pela aí, não.
(Crônica publicada no jornal Pioneiro em 19 de agosto de 2016) 

quinta-feira, 18 de agosto de 2016

Pokémon, don´t go!

É surreal, admito. Mas, me diga você, madama: existe algo mais surreal do que a vida real? Pois é. Então: aquilo que narrei aqui ontem, do Pokémon a invadir meu quarto de madrugada, foi só o começo do pesadelo. Teve (e tem) mais. Narrar e compartilhar o drama é minha forma de purgar o problema, a senhora me desculpe, mas tenha paciência. E com Pokémons, madama, há de se ter muita paciência.
Engraçado é que essas coisas só acontecem quando estou sozinho em casa. À noite, minha esposa chega e não acredita em nada do que eu digo. Mas a senhora, madama, eu sei que sempre me dá um voto de confiança. Tudo começou no meio da tarde, dia desses. Estava eu no meu escritório caseiro (isso, “home office”, a senhora já sabe) quando escutei uns barulhos estranhos vindos de lá dos lados da cozinha. Levantei e fui ver. Pra quê! Deparei com três Pokémons saltitando em volta da mesa do jantar. Pronto, era o que eu temia: meu apartamento invadido por Pokémons! Dentro do armário da louça, mais barulhinhos. Abri e saltaram de lá mais quatro. Pelo corredor, adentraram outros tantos. Quando vi, a sala estava tomada por duas dezenas deles. Que fazer?
Não sei me comunicar com Pokémons, nada conheço de seus hábitos. Mas sei que eles têm algum tipo de relação com aparelhos celulares. Empunhei o meu e apontei para o bando. Funcionou. Ficaram como que hipnotizados olhando para o aparelho. Arrebanhei assim a turba e conduzi-a até o sofá da sala. “Sit down there”, falei em inglês, apontando para o sofá. Não sei se foram as palavras ou o meu tom imperativo seguido pelo gesto, mas funcionou. A Pokemonada toda se acotovelou no sofá, juntinhos e quietinhos. De repente, outro ruído dentro da máquina de lavar roupa. Abri o tampo e de lá saltou outro. “Go there, with your friends”, ordenei, e funcionou de novo (meu inglês básico parece servir, pelo menos, para me comunicar com Pokémons).
Agora, o que fazer com eles? Liguei a tevê, tentando encontrar os canais infantis (bastava lembrar daqueles que sintonizo quando recebo a visita do afilhado). Encontrei um que transmitia “A Casa do Mickey Mouse”. “Iiiikk!”, guincharam, em protesto. Claro: Mickey é vetado, eles não gostam de concorrência. Que fazer? Desliguei a tevê e passei a mão em um livro de Monteiro Lobato: “O Picapau Amarelo”. Comecei a ler em voz alta: “O Sítio de Dona Benta foi-se tornando famoso tanto no mundo de verdade quanto no chamado mundo de mentira”. Funcionou. Ficaram quietinhos, escutando. Oba, eu tinha plateia! “Pokémon, don´t go”! Agora, quero-os todos aqui. Vou botá-los a ler!
(Crônica publicada ano jornal Pioneiro em 18 de agosto de 2016)