sexta-feira, 28 de dezembro de 2012

A mais pura verdade


Mentir, queiramos ou não, admitamos ou não, é um atributo da natureza humana. Quem afirma que não mente, mente. Mentiu quem disse que jamais mentiu. Mentimos todos os dias, para os outros ou – principalmente – para nós mesmos. Mentimos em voz alta ou no silêncio de nossos ensimesmares. Mentimos no anseio de amenizar o peso da realidade que, via de regra, pesa demais em diversos aspectos. Nos aspectos em que a realidade não pesa, usufruímos da verdade redentora que advém de sua aceitação. Mas sempre que pesa, mentimos. Mentimos, na maioria das vezes, pequenas mentirinhas inócuas que não ferem ninguém e nos auxiliam a conduzir nossas vidas de maneira mais indolor. Mentir mentirinhas é humano, catártico, saudável, até.
Respondemos mecanicamente que “sim” sempre que nos perguntam se tudo vai bem. Nem sempre vai bem tudo, mas quase sempre vai bem a resposta (mentirinha) de que “sim”. A mais frequente mentira entre os casais, por exemplo, se dá nos momentos de introspecção. Você percebe sua parceira pensativa, há vários minutos silenciosa, aparafusada no sofá da sala, o olhar fitando o vazio, a revista aberta repousada no colo sem ter página virada há muito tempo, e você faz a pergunta: “em que está pensando, amor?”. Ao que ela, de imediato, responde: “Em nada”.
Pois, mentira. Ela está pensando é em tudo. Em tudo e em mais um pouco, e esse tudo inclui necessariamente você, seus atos, suas desatenções, suas insensibilidades, suas ausências, suas descortesias. Ela mente para não escancarar o peso da verdade. Ela pensa em tudo, mas diz ser em nada, obrigando-o, assim, a também refletir sobre as verdades de sua própria existência. Tem sido assim desde que Ug retornou à caverna ao pé do vulcão de mãos abanando, culpando-se por não ter caçado o mastodonte, e sentiu o peso do silêncio reprovador de Aga. “Tudo bem, amor?”, inquiriu Ug. “Claro”, disse Aga. Claro que não estava tudo bem, conforme Ug perceberia dali a pouco, gerando um padrão para a humanidade.
Ao chegar ao final deste texto, leitor, eu lhe pergunto: “Em que esta crônica o fez pensar?”. “Em nada, não”, você me dirá, dando a resposta correta, pois nela reside a verdade de nossas mentirinhas.
(Crônica publicada no jornal Pioneiro em 28 de dezembro de 2012)

domingo, 23 de dezembro de 2012

O centenário do mestre Braga




Os apaixonados pela boa literatura escrita em língua portuguesa produzida no Brasil têm uma boa razão para celebrar a data de 12 de janeiro de 2013. Ela marca o centenário de nascimento do maior cronista gerado em solo pátrio, um dos grandes mestres desse gênero literário que, aos poucos, em função dos esforços de seus discípulos, começa a receber a importância literária que lhe é devida. Trata-se do capixaba Rubem Braga, nascido em 12 de janeiro de 1913 na cidade de Cachoeiro de Itapemirim, no Espírito Santo, que legou às letras nacionais uma vasta obra composta quase que totalmente pela produção de crônicas publicadas nos diversos jornais com os quais colaborou, perenizadas sob a forma de antologias em livros que seguem encantando leitores e ensinando os escritores os segredos da produção dessas pequenas grandes obras-primas carregadas de sensibilidade, lirismo, literariedade e gênio.
Cachoeiro de Itapemirim é um município brasileiro que tem o orgulho de poder se ufanar por legar ao país duas celebridades em duas áreas de expressão artística nacionais: Rubem Braga na literatura e outro Braga, Roberto Carlos, na música (apesar de compartilharem sobrenome e cidade natal, não são parentes). Devia haver alguma coisa especial, mágica e inspiradora na água bebida pelas mães cachoeirenses ao longo da primeira metade do século passado para gerar gênios da criação como a dupla Rubem e Roberto. Boa sugestão de homenagem seria ler algumas crônicas do escritor tendo como trilha sonora de fundo algumas das mais belas canções compostas pelo cantor, que tal?
Rubem Braga começou cedo a se dedicar ao ofício da escrita diária, uma vez que, já aos 15 anos de idade, era repórter do jornal “Correio do Sul”, em Cachoeiro de Itapemirim. Aos 19 anos formava-se em Direito em Recife, mas jamais exerceu a profissão. Seu currículo como jornalista, atividade que praticou até a morte em 19 de dezembro de 1990, inclui passagens por jornais em São Paulo, Belo Horizonte, Recife, Porto Alegre e Rio de Janeiro (onde trabalhou na Rede Globo de Televisão como redator). Acompanhou, como correspondente de imprensa, a Revolução de 1930 e a Revolução Constitucionalista (1932), bem como foi correspondente de guerra nos anos de 1944 e 1945 acompanhando a atuação dos pracinhas da FEB nas batalhas na Itália durante a II Guerra Mundial. Seus relatos do front e do cotidiano no campo de batalha mesclam o tino típico do poder de observação do repórter com o lirismo poético narrativo que marca toda a produção literária do cronista.
Rubem Braga, devido à qualidade ímpar do seu estilo, praticamente lança as âncoras que vão definir o estilo literário da crônica no país, ao lado, claro, de outros grandes nomes como João do Rio, Sérgio Porto, Stanislaw Ponte Preta, Paulo Mendes Campos, Fernando Sabino, Millôr Fernandes e outros. Sua fórmula consistia em deitar um olhar romântico e lírico sobre os temas do cotidiano, expressando suas impressões no papel por meio de uma escrita desprovida de rebuscamento e de excessos. A estética da simplicidade é a tradução de seu gênio, como, aliás, o é na obra da maioria dos gênios. Seu legado pode ser saboreado nos livros que permanecem e também nas crônicas produzidas na atualidade por alguns de seus discípulos que beiram os pés de sua qualidade, como Luís Fernando Verissimo, Fabrício Carpinejar, Jimmy Rodrigues e alguns poucos outros.
(Texto publicado na revista Acontece Sul, na seção Planeta Livro, edição de dezembro de 2012)

sexta-feira, 21 de dezembro de 2012

O colo premiado


Súbito, sem prévio aviso, em um jorro curto e certeiro, o vômito do afilhado inunda parte da minha camisa e das calças, impregnando a atmosfera com um aroma oriundo da mescla entre leite materno, suco gástrico e restolhos de papa com feijão e beterrabas, já que ele, aos sete meses de idade, adora beterrabas, cioso que já é de suas preferências gastronômicas. “Acho que ele vomitou”, anuncio, desconcertado, para os adultos que nos circundam, na esperança de que alguém com maior prática (especificamente o pai ou a mãe de João Vitor) adote os procedimentos de praxe nessas ocasiões que, para mim, ainda são novidade.
“Aunhamm ngaaa”, me confirma o pequeno, sorridente, enquanto é retirado de meu colo sob os risos gerais dos demais (todos eles secos), para ser limpo com o paninho cheiroso azul que fico cobiçando naquele instante, porém, a mim, adulto, resta dirigir-me ao banheiro e me limpar com papel higiênico, o que remedia a situação apenas  parcialmente, já que, ao retornar ao meu lugar, mergulho o traseiro na sobra do vômito que havia também encharcado o assento do sofá.
Casa com nenê novinho é assim mesmo, repleta de situações inesperadas, com as quais os pais novatos vão rapidamente se habituando e os dindos inexperientes vão ampliando as cinturas a fim de terem o jogo necessário para corresponder às demandas que o ato de apadrinhar exige, como aprender a não chacoalhar demais a criança no colo logo após ela ter se alimentado, por mais que a achemos encantadoramente linda e fofa por trás daqueles sorrisos largos e generosos aliados aos bracinhos estendidos que requerem colo, frente aos quais não conseguimos resistir, tampouco manter a fleuma.
“Putz, sentei no vômito”, foi minha segunda observação da tarde, e lá voltei eu ao banheiro, agora irremediavelmente cheirando a leite. Até então, andava faltando somente eu para ser premiado com os regurgitos-relâmpago do afilhado, que, ao chegar a minha vez, foi generoso na dose que me reservava. Apadrinhar também é isso: ser vomitado, achar graça e não ver a hora de chacoalhar o afilhado no colo de novo. Quem disse que padrinho velho aprende alguma coisa?
(Crônica publicada no jornal Pioneiro em 21 de dezembro de 2012)

sexta-feira, 14 de dezembro de 2012

As cápsulas do tempo


Uvanova é uma pequena e simpática cidadezinha de colonização italiana encravada no alto da Serra Gaúcha na divisa entre Tapariu e o Rio das Antas, conhecida por seu povo amigável e pelo sagu de polenta cuja receita secreta as nonas não revelam nem no confessionário, apesar de muitos padres já as terem tentado a fazê-lo, infrutiferamente. Os uvanovenses são apaixonados por futebol e, agora em dezembro, coincidentemente, os dois clubes citadinos dedicados à prática do esporte bretão celebram 30 anos de chutes, caneladas, raros gols, rivalidade acalorada e muita alegria.
 Fundados no mesmo dia 3 de dezembro de 1982, tanto o Esporte Clube Que Lance quanto a Associação Atlética Canoa Furada dividem as emoções esportivas de toda a comunidade. Este ano, o prefeito Parreirino Della Merlota resolveu realizar um evento cuja intenção era promover a união entre os correligionários, atletas e diretores dos dois times, oferecendo-lhes um sopão de anholine grátis no domingo passado, no salão de festas da igreja.
Aproveitando a ocasião histórica, o secretário municipal de Cultura, Desportos, Educação, Agricultura e Saneamento Básico sugeriu que fossem abertas as duas cápsulas do tempo (urnas contendo material da época e documentos a serem legadas para as gerações vindouras) que haviam sido enterradas três décadas atrás em cada clube, junto com a pedra fundamental de cada estádio (que nunca saíram da planta). Abertas as urnas, a surpresa e a decepção: em uma delas, um disco em vinil contendo o hino do clube; uma fita cassete trazendo declarações dos dirigentes da época e dos jogadores e uma fita VHS com imagens e depoimentos relevantes. Nada foi aproveitado, pois ninguém em Uvanova encontrou um toca-discos para escutar o vinil, nem um gravador para rodar a fita e tampouco um videocassete para exibir o VHS. Já o outro clube, cuja cápsula do tempo trazia um livro narrando a história de sua criação, um jornal com entrevistas com os dirigentes e jogadores e um álbum de fotografias analógicas reveladas em papel, teve sua história revivida e apreciada por todos de forma imediata.
Ninguém mais em Uvanova discute a questão do fim do livro ou dos veículos impressos.
(Crônica publicada no jornal Pioneiro em 14 de dezembro de 2012)

sexta-feira, 7 de dezembro de 2012

Estamos rindo de quê?


Que a sociedade humana é uma entidade em constante processo de transformação, isso estamos empanturrados de saber. Detectar as mudanças exercidas no cotidiano a partir da evolução tecnológica, com o surgimento de parafernálias eletrônicas e novas invenções e descobertas em todas as áreas do conhecimento, é a parte fácil de perceber nessa marcha incessável. O mais complicado mesmo é conseguir distinguir as sutis alterações no comportamento das pessoas, que se dão de maneira paulatina, até se consolidarem como novas formas estabelecidas de ser, de pensar e de agir, originando novos conceitos e visões de mundo. Algumas se dão para melhor. Outras, preocupam.
Dentro do quesito das que me preocupam, reside uma transformação que, a meu ver, decorre diretamente do recrudescimento da postura competitiva, narcisista e individualista que parece começar a reger e caracterizar a nova humanidade deste século 21, ainda nascedouro. Trata-se da forma como nós estamos vendo o humor, principalmente o televisivo, nos dias atuais. Para mim, sentado no sofá da sala frente à televisão, a maioria dos novos programas humorísticos nacionais é fonte de preocupação e de horror, muito distantes daquilo que eu assistia com prazer (e rindo desbragadamente) nos anos 1970 e 1980.
Humor, para as novas gerações de humoristas (e, pior, para seu imenso público), é sinônimo de reduzir-se a imitar de forma achincalhada figuras famosas, colocar em saia justa ao vivo e de surpresa essas mesmas personalidades, tirar sarro da cara dos outros, agredir gratuita e irresponsavelmente quem não pode se defender no mesmo momento, enfileirar palavrões, gritar histericamente, reforçar preconceitos e estereótipos, abusar do mau gosto e do riso nervoso e fácil. Foi-se o tempo do humor ingênuo e do humor calcado em textos inteligentes e na atuação competente e criativa de roteiristas e humoristas de primeira linha.  Trocou-se o conceito de “rir junto” pela agressão imatura e prevalecida do “rir às custas de”.
Sinal preocupante (apesar de aparentemente insignificante) das transformações que estamos presenciando na nossa forma de conviver. Nossa passividade, claro, nos torna coniventes, o que é ainda mais preocupante.
(Crônica publicada no jornal Pioneiro em 7 de dezembro de 2012)

sábado, 1 de dezembro de 2012

O motobom e o motomau


Nove e meia da noite de uma terça-feira. Minha mulher está em casa, virada do avesso, acometida por forte gripe de verão. Decido tirar o carro da garagem e ir até uma farmácia no centro, buscar remédio que lhe possa aliviar os sintomas e permitir uma noite de sono menos conturbada. “Vou num pé e volto noutro”, digo, chave na mão, já saindo porta afora. Pois fui de carro e voltei de guincho, isso sim.
Adquirida a panacéia na farmácia que eu sabia aberta àquela hora da noite, retornei ao automóvel e ele decidiu não mais sair dali por algum motivo que ultrapassa meus vãos conhecimentos mecânicos. No alto de minha soberba, ainda tentei fazer aquela coisa “pegar no tranco” e andei duas quadras apagado, dando solavancos que resultaram em nada. Na verdade, piorei um pouco mais minha situação, já que parei em um cruzamento, no meio da via, atrapalhando o tráfego. Liguei o pisca-alerta e telefonei para minha corretora de seguros, que encaminhou a solicitação do guincho que meia hora depois nos despejaria (a mim e ao meu moribundo veículo) em casa.
Restava-me a paciência de esperar. Paciência que, logo vi, inexistia em um motoqueiro, que indignou-se com minha posição dentro do carro morto (com pisca-alerta ligado, repito), ao celular (falava com a corretora), e resolveu me xingar, como se eu estivesse deliberadamente determinado a lhe atazanar a vida, eu, que seguramente tenho como esporte encalacrar meu carro no meio da rua no meio da noite, claro. Abriu o sinal e ele foi-se, equilibrando a moto numa mão e desenhando gestos mal-educados com a outra, dirigidos a mim.
Para minha surpresa, não demorou mais do que dois minutos para que a categoria fosse redimida pela ação solidária espontânea de outro motoqueiro, que parou e me veio oferecer ajuda para manobrar dali o carro, encostando-o no meio-fio, de onde pude aguardar pelo guincho em segurança. Costumo pensar que, normalmente, tenho sorte no azar. Esse foi um desses casos. Ainda por cima, rendeu-me crônica e motivo para refletir sobre as motivações humanas. De qual dos dois motoqueiros meu perfil pessoal mais se aproxima frente aos episódios do cotidiano? Bom tema para pensar dentro de uma cabine de guincho...
(Crônica publicada no jornal Pioneiro em 30 de novembro de 2012)


sexta-feira, 23 de novembro de 2012

Bolhas de sabão


A janela de meu escritório me traz as imagens do mundo exterior por meio de uma tela de dois metros quadrados de vidro. Num desses finais de tarde, um movimento estranho, contínuo, tirou minha atenção da tela do computador e a desviou para o vidro. Do lado de fora, centenas de milhares de bolhas de sabão voejavam ao vento, vindas em sucessivas ondas que variavam de intensidade. As luzes de final de tarde refletiam no interior das pequenas bolas, criando mosaicos coloridos que pareciam fazer com que cada pequena, frágil e fugaz esfera portasse minúsculos arco-íris dentro de si, prontos para carregar poesia e se esfacelarem no ar poucos metros adiante.

De onde vinham? Levantei-me da cadeira, deixei o computador e fui enfiar o nariz no vidro para identificar a origem daquele mistério. Lá estava ele, do outro lado da rua, no pátio da casa situada em frente: o filho dos vizinhos, cerca de dez anos de idade, soprando bolhas. Numa das mãos segurava o potinho contendo a mistura de água e sabão e, na outra, a haste com extremidade elíptica que mergulhava no líquido e soprava, produzindo as aladas bolhinhas. “Mas que faz esse menino que não está encavernado dentro de casa, com o nariz enterrado dentro de uma tela de computador, jogando videogame?”, pensei eu. Pelo que me consta, crianças de hoje preferem fazer bolhas de sabão virtuais pela internet ao invés de ficarem ao ar livre, sobre um gramado, ao sabor do sol e do vento, produzindo bolhas de sabão de verdade.

Tentei identificar em algum lugar em volta a máquina do tempo que talvez tivesse trazido aquele menino de lá da minha antiga Rua dos Viajantes em Ijuí, onde, em minha infância, 30 e tantos anos atrás, a meninada de carne e osso produzia bolhas de sabão com sabão mesmo, igual ao filho dos vizinhos daqui da rua. Mas não havia máquina do tempo. Havia mesmo era um menino de carne e osso, descobrindo a magia das brincadeiras tangíveis ainda existentes fora do mundo virtual. Vai que ele descubra, na sequência, as delícias do ioiô, do bilboquê, do jogo de bolitas, da pandorga... Minha janela também é bem mais interessante do que a tela de meu computador, né, pequeno vizinho?
(Crônica publicada no jornal Pioneiro em 23 de novembro de 2012)

sexta-feira, 16 de novembro de 2012

Qual é a sua Era?


Em que Era você vive? Alguns afirmam estarmos vivendo a Era da Informação; outros, a Era da Tecnologia; ou a Era da Internet; também há a Era dos Transportes; a Era da Aldeia Global. Há ainda os que detectam uma Era do Individualismo, ou uma Era da Ansiedade, também a Era da Intolerância e ainda a Era do Consumismo, do Materialismo. Entre essas Eras todas, que coexistem simultânea e integradamente, há uma delas que me chama a atenção e que parece estender seus tentáculos sobre a maioria dos cidadãos que habitam o planeta, independentemente de idade, classe social, nacionalidade, credo, raça: a Era da Escravização da Agenda.
Os compromissos a serem cumpridos em nossas agendas (de papel, eletrônicas ou mentais) estão a regrar, determinar e ditatorializar nossos dias, desde o momento em que saímos da cama até a hora de retornarmos a ela. Há tarefas a cumprir. Sempre. Algumas novas vêm substituir as já realizadas, ao passo em que outras são cíclicas, sazonais, repetitivas, vitalícias enquanto vivermos. Precisamos monitorar as datas de vencimento das contas do mês (e, se depositadas em conta bancária, controlar o saldo para haver fundos), precisamos comparecer às reuniões, obedecer aos prazos, atingir as metas, cumprir as tarefas, assumir novos desafios, nos atualizarmos, crescermos profissional e pessoalmente, trocar de carro, ampliar a casa, comprar casa na praia, arejar a casa da praia antes da chegada do verão, enfeitar as casas todas já em novembro porque dali a dois meses é Natal, e depois é Páscoa de novo, e Dia das Mães e dos Pais e das Avós e das Crianças e dos Suricatos, e não esqueçamos do Halloween e logo, logo, do Dia de Ação de Graças, né, já que decidimos importar cultura. Ah, e a decisão sobre onde e como passar as férias, e o Carnaval, e os impostos de início de ano a serem pagos com desconto e o estoque de papel higiênico que está acabando outra vez e o material escolar e aquele filme que todos viram menos eu ainda.
Vivemos a Era dos Dias Curtos Demais. Uma Era do Faça Tudo e Mais Um Pouco (verdadeira desfaçatez). Enquanto isso, nas agendas superlotadas, o espaço para a vida interior... esse sim... já era...
(Crônica publicada no jornal Pioneiro em 16 de novembro de 2012)

sexta-feira, 9 de novembro de 2012

Por que pensar em Ingrid?


Ingrid que faça o que bem entender com o cotovelo dela ou com o que quer que seja...

Ditados populares são sábios. Tem aquele que diz assim: “diga-me com quem andas e eu te direi quem és”. Gosto desse. Diz profunda verdade. Tão profunda que permite criar versões dele mesmo e aplicá-las às mais variadas situações da vida, que ele segue valendo. Por exemplo: “diga-me o que te interessa e eu te direi quem és”. Quais são os assuntos que chamam a sua atenção nesse mundo moderno em que as mídias todas competem para atrair os preciosos minutos de nosso tempo pingado a conta-gotas? Quais programas de televisão recebem a benesse de seu olhar contemplativo de lá do fundo do fofo sofá de sua sala? Quais as notícias dos jornais merecem o debruçar de seus olhos para além dos títulos?
Pois é. As respostas a todas essas questões, meus amigos, ajudarão a dizer quem somos. Só para ilustrar, vejamos. Nas últimas semanas, detectei um tema que figurou entre os dez mais comentados por onde quer que se estivesse: nas mesas do café literário, na internet, nos jornais, nos programas de debate na televisão, nos táxis, nas salas de espera, enfim, por tudo. Não houve quem não dedicasse alguns minutos de sua vida para expressar sua opinião a respeito do caso da jovem catarinense Ingrid Migliorini (a Catarina), que aos 20 anos de idade resolveu leiloar a virgindade, obtendo R$ 1,6 milhão para ofertá-la em um voo transatlântico ao comprador japonês que deu o maior lance. De minha parte, nada contra, nem a favor, cada um faz com seu cotovelo o que bem entender. O interessante é que, independentemente do julgamento de cada um, o assunto foi notícia e ganhou repercussão porque as pessoas se interessaram por ele. Quem determina o tamanho da relevância de uma notícia é o interesse que as pessoas depositam nela. E ponto.
Mais do que questionar os motivos que levaram a jovem a decidir fazer o que fez, julgo que seria bem mais significativo para cada um de nós se dedicássemos uma parcela desse tempo para questionar as razões que nos levam a julgar esse tema tão relevante. Da mesma forma como a todas as demais questões às quais damos, às vezes, valor sem nem mesmo perceber. É um bom exercício para conhecermos melhor a nós mesmos, já que temos de andar conosco nossas vidas inteiras.
(Crônica publicada no jornal Pioneiro em 9 de novembro de 2012)

quarta-feira, 7 de novembro de 2012

O bom cigarro do Argentino


Tem por apelido Argentino um velho amigo meu, cujas manias esquisitas lhe são o atributo mais saliente. Na última carta que me enviou (Argentino mora longe e ainda escreve e remete cartas por Correio), se diz preocupado com essa onda antitabagista que discrimina os fumantes e relega o hábito do fumo à categoria de práticas execráveis a serem alvo do desprezo e da condenação sociais. Mas Argentino, que apesar de ser mesmo um argentino, jamais fumou e sempre protagonizou campanhas pessoais relativas à conscientização dos malefícios do tabaco. Que lhe teria havido?
A solução do mistério foi chegando junto às linhas traçadas das cartas subsequentes. Meu amigo confidenciou-me que, meses atrás, vivenciou pela primeira vez em sua vida a experiência de adquirir um maço de cigarros. Mas não os fumou nenhum, tampouco acalenta a intenção de fumá-los. O que passou a fazer a partir disso foi adotar o hábito, que sempre invejou aos fumantes, de finalmente ter uma boa desculpa para retirar-se do ambiente em que se encontra, ou deixar de fazer o que está fazendo, para obter um pouco de paz e sossego a sós, com a desculpa de “sair para dar uma fumadinha”.
“Na repartição, ó caro amigo Marcos, agora posso me ausentar uns 15 minutos sob o pretexto de ir fumar, e vou-me para a rua, caminhar em volta da quadra, olhar as pessoas, respirar o dia, sentir a pulsação da existência. Isso renova meu ânimo, recarrega as energias vitais de que preciso para seguir adiante no trabalho. Dissesse eu ao chefe que vou dar uma saída para respirar ar fresco durante 15 minutos, seria visto como preguiçoso e desleixado com o trabalho. Com a desculpa do fumo, vou saindo e tirando do bolso a carteira – que permanece intacta –, e ninguém me incomoda”, rabisca ele na carta.
Respondo-lhe também em carta que louvo a decisão tomada. Primeiro, porque faz bem à sua saúde; depois, porque, assim, não fumando os cigarros da sua inesgotável carteira, Argentino evita emporcalhar as ruas, praças, gramados e calçadas com as nojentas baganas de cigarro que denunciam a passada dos fumantes de verdade. Ele é o único caso que conheço em que o cigarro faz bem à saúde física, mental e ambiental.
 (Crônica publicada no jornal Pioneiro em 2 de novembro de 2012)

sábado, 27 de outubro de 2012

A lucidez de Lucélia


(Isso aí, Lucélia, a gente não quer só comida...)

A atriz Lucélia Santos deu uma aula de lucidez durante entrevista concedida aos jornalistas que integravam a bancada do programa “Roda Viva”, na Tevê Brasil, na noite da última segunda-feira. Intensa, corajosa e sincera, fez jus, com suas declarações, à visão que o escritor e dramaturgo Nelson Rodrigues tinha dela, ao conceituá-la como não sendo apenas uma pessoa, mas, sim, “uma força da natureza”. E que força!
Sim, Lucélia, no surpreendente viço e frescor de seus 55 anos (parece ter não mais de 35), é um redemoinho de ideias e opiniões sobre a vida e a sociedade que merecem atenção e convidam a refletir sobre os rumos que estamos tomando enquanto humanidade. A certa altura da entrevista, a atriz (uma verdadeira livre pensadora que, de “escrava”, só tem relação mesmo é com o papel que a consagrou na televisão, 36 anos atrás) discorreu sobre a pretensa conquista social obtida pelos últimos governos federais pós-regime militar, que se converteu na criação de uma classe média com poder de consumo capaz hoje de realizar sonhos materiais como a aquisição de automóveis, de casa própria e de parafernália eletrônica como televisores, notebooks, tablets, câmeras fotográficas digitais etc. Mas ao mesmo tempo em que gastam e consomem, os integrantes dessa estrondosa maioria de cidadãos (acompanhados pelas demais classes sociais brasileiras) se afastam dos processos de edificação pessoal só possíveis de serem conquistados por meio da educação, da cultura e da arte.
“Que espécie de sociedade de consumo desejamos, afinal? Os brasileiros, travestidos de consumidores, estão virando cidadãos acéfalos, burros, aculturados, superficiais, ocos. Deveríamos estimular e incentivar o surgimento de uma classe consumidora de cultura. O que eu desejo para as pessoas é isso: mais cultura, mais arte, mais leitura, mais natureza”, metralhou, certeira, a atriz. Lucélia Santos sonha em ver os brasileiros lendo livros, frequentando o teatro, apreciando exposições de arte, refletindo sobre a existência, gerando e debatendo ideias, refinando seus espíritos, transformando-se em cidadãos transformadores. Ela é uma lúcida voz solitária a semear em um deserto cada vez mais amplo.
(Crônica publicada no jornal Pioneiro em 26 de outubro de 2012)

sexta-feira, 19 de outubro de 2012

Mania de suricato



Não tenho remédio mesmo. Até quando descubro algo novo em mim, trata-se de novidade inserida em atitude fora de moda. Percebi, por exemplo, que sou fissurado em suricatos. Acho-os engraçados, mas é fora de moda ser fissurado por um bicho esquisito. Na minha adolescência, era maneiro curtir bichos estranhos. Hoje, “curtir” é ação virtual que se faz no feicibúqui. Mas quanto aos suricatos, alguma coisa neles desperta em mim o sentido do riso. Gosto de vê-los em documentários televisivos sobre o reino animal. Fico afundado no sofá da sala, observando os suricatos com suas poses de estátua, e me rio. Eles me passam um perfil de bichos gente-boa. Deve ser legal ter um amigo suricato, sair com ele para um bar, tomar umas cervejas e dar boas risadas. Suricatos, a meu ver, devem ser seres bem humorados, inteligentes, espirituosos, surpreendentes.
Engraçado é que só recentemente descobri a existência dos suricatos. Logo eu, que sempre fui interessado por animais. Quando criança, possuía uma coleção de fascículos intitulada “Os Bichos”, que eu passava as tardes folheando até saber todas as centenas de animais de cor. Talvez eu sofra de Fissura de Arca de Noé, vai saber.
Mas o mais estranho de tudo é que, na obra “Os Bichos”, não consta o suricato. Guardo até hoje os volumes encadernados da coleção e, dia desses, folheei tudo à procura do suricato perdido, mas ele não estava lá. Como pode? Reencontrei o ornitorrinco, a équidna, a beluga, até o extinto gliptodonte, mas nada do suricato. Será que foi necessário produzirem o desenho animado do “Rei Leão” para que os suricatos viessem brilhar à luz dos holofotes, a partir do sucesso do carismático personagem Suricato Timão? Pensando bem, acho que tem tudo a ver, pois “Rei Leão” foi lançado em 1994 e, antes disso, eu jamais havia sequer imaginado a existência dos suricatos.
Agora que sei que os suricatos existem, não consigo conceber um mundo sem suricatos. Que triste seria a vida sem os suricatos para me fazerem rir. Os suricatos me são vitais hoje em dia, assim como são os telefones celulares, a internet, o feicibúqui, o tuíter e o Fresno para as novas gerações. Cada um com suas fixações...
(Crônica publicada no jornal Pioneiro em 19 de outubro de 2012)

sexta-feira, 12 de outubro de 2012

Um mundo a encolher


Tive o privilégio, dias atrás, de presenciar boa parte do bate-papo protagonizado pela jornalista e escritora Eliane Brum em um dos estimulantes encontros entre autores e leitores promovidos pela Feira do Livro de Caxias, que encerra sua 28ª edição neste domingo. Permeada por uma lucidez cativante e por uma sensibilidade profunda, a palestra rendeu-me anotações em um bloquinho, efetuadas com o intuito de me servirem de alimento para reflexões posteriores.
Em dado momento, Eliane ponderou assim: “à medida que envelhecemos, o mundo da gente vai morrendo antes de nós”. A frase foi um gancho disparado direto contra o queixo de minha essência, moldada por uma natureza nostálgica e memorialista. Tem razão a Eliane ao conseguir sintetizar e traduzir, de forma quase tangível, uma sensação que norteia silenciosa e anonimamente a minha relação com o mundo desde há muito tempo. É exatamente isso o que percebo ocorrer no entorno de mim mesmo à medida que os anos se vão empilhando na canastra de minha memória. Agora, essa sensação tem nome, ou, ao menos, conta com uma frase muito bem composta, capaz de defini-la em meus devaneios.
Morrem, sim, partes do meu mundo quando deixam a vida pessoas queridas de meu círculo, personagens reais que se vão para nunca mais voltar. Morrem também pedaços de meu universo quando se vão meus ídolos, mas, principalmente, vejo meu mundo se apequenar quando percebo o processo acelerado de extinção de valores que me eram e são caros, e que parecem não significar mais nada para a maioria daqueles que povoam o mundo físico que compartilho. Morre meu mundo com o desinteresse pela leitura e pela cultura; morre meu mundo com o individualismo exacerbado das pessoas; morre meu mundo com a caça faminta ao dinheiro e ao status; morre meu mundo sempre que a má-educação e a violência passam a dar o tom do convívio social; morre meu mundo quando o virtual fala mais alto do que o real; morre meu mundo quando o aperto de mão e o sorriso são substituídos pelo “curtir” do feicibúki.
A lucidez humana e sensível de uma Eliane Brum, pelo menos, me ajuda a seguir morrendo aos poucos sem a sensação de estar assim tão só em um mundo que gigantemente se apequena.
(Crônica publicada no jornal Pioneiro em 12 de outubro de 2012)

sexta-feira, 5 de outubro de 2012

Feijoada noturna



O adormecer aqui em casa não tem nada de muito criativo, porém, às vezes (na maioria das vezes, a bem da verdade), é na simplicidade e na repetição dos padrões que reside a essência de nossa humanidade. Ao apagar das luzes após a leitura noturna das derradeiras páginas dos jornais e dos livros que se equilibram na cabeceira da cama, as palavras rotineiramente trocadas entre minha esposa e eu, após o beijinho de boa-noite, pouco variam de “dorme bem, amor, até amanhã” e plof!... desce o véu da restauradora inconsciência. Isso, via de regra. No entanto (não houvesse os “no entanto”, haveria crônica?)...
Noite dessas, no entanto, logo após o ritual acima descrito, minha mulher virou-se para seu lado e, de lá do meio do travesseiro, escutei-a dizer: “estou com saudades de comer aquele feijão que você faz”. E plof... adormeceu. De nada adiantou eu ter me sentado na cama, perplexo, em meio à escuridão, perguntando a meia-voz “o que foi que você disse?”, pois imediatamente estava ela entregue a um profundíssimo sono, naquele nível que só alguns gatos conseguem atingir. A dúvida que passou a me corroer foi se ela dissera a frase antes de adormecer (o que significaria a manifestação clara de um desejo consciente, plenamente justificado devido à inegável qualidade do feijão que sei elaborar em dias em que estou culinariamente inspirado) ou logo após cair no sono (o que então representaria apenas o estágio inicial verbalizado de um suculento sonho gastronômico, daqueles de babar toda a fronha do travesseiro).
E quem é que dormia após uma frase daquelas? Eu é que não, lógico. O insone, a partir daquele momento, era eu, somente eu, eu apenas; provavelmente o único ser em vigília na quadra inteira, fora um ou outro cachorro ladrador. Por via das dúvidas, já ao raiar do sol, indormido que estava, botei a panela de pressão a funcionar, exalando aroma de feijoada por todo o condomínio já às nove horas da manhã. A frase dela, ao abrir os olhos, ouvir o apito da panela e sentir o cheiro que invadia o quarto, foi: “que deu em você de fazer feijão a essa hora, está maluco?”. Nunca se pode prever o que pode advir de uma simples quebra de rotina...
 (Crônica publicada no jornal Pioneiro em 5 de outubro de 2012)

sexta-feira, 28 de setembro de 2012

Vida no vídeo


Noite dessas assisti a um programa interessante e inteligente na tevê a cabo (ei, leitor, volte aqui, não estou sacaneando). Foi no Canal Futura (ahá, começou a acreditar, né?), no qual não há novelas, nem programas de auditório, tampouco (i)reality shows. O que há lá então? Há justamente isso: programas inteligentes e interessantes, que lhe proporcionam alguma coisa útil em troca do precioso tempo vital que você mansamente oferta ao tubo (hoje nem há mais tubo) durante as horas de lazer nas quais opta por ficar anestesiado no sofá da sala.
Tratava-se de um programa britânico em que a produção retirava durante alguns dias uma família (composta pelos pais e quatro filhos) de sua casa e transformava a habitação em um típico lar do início dos anos 1970. O ambiente foi remodelado para receber de volta os moradores, que seriam monitorados durante um mês vivendo ali restritos apenas às facilidades propiciadas pela tecnologia existente na época. Que tortura, especialmente para as crianças, viver 30 longos dias sem internet, sem computador, sem Playstation, sem telefone celular, sem mp4 e toda a parafernália eletrônica que ocupa o espaço vital dos seres humanos desse milênio. A cada três dias, o “relógio do túnel do tempo” avançava um ano, permitindo a família acompanhar a evolução da tecnologia da época por meio de “presentes” vindos da produção, como um freezer, um televisor preto e branco, uma máquina calculadora, um toca-fitas.
Mas, muito além da questão tecnológica, a família é colocada em contato com um estilo de vida diferente, que se esvaiu com o passar dos anos e ficou plasmado em uma época que, a bem da verdade, nem está tão distante assim. O que fazer quando falta energia elétrica na casa (bem, convenhamos, temos disso até hoje), por exemplo? E como conviver em família sem se trancar no quarto para atualizar a página do Facebook? Algumas reflexões ficaram para os protagonistas da aventura e também para os telespectadores, em termos da necessidade urgente de resgate de valores de convivência, que, se permanecerem relegados aos tempos da calça boca-de-sino, seguirão nos conduzindo aceleradamente rumo ao precipício da nossa própria desumanização.
(Crônica publicada no jornal Pioneiro em 28 de setembro de 2012)

sexta-feira, 21 de setembro de 2012

O lado ocre da vida


(Ocre, bem ocre, igual ao ocre pintado na lareira da Rua dos Viajantes)

Vamos direto ao assunto, sem meios-tons. Você conhece o ocre? Pois o ocre surgiu em minha vida no longínquo ano de 1975, quando meus pais resolveram reformar a casa em que morávamos na Rua dos Viajantes, em Ijuí, e pintaram a parte externa da lareira da sala com uma cor estranha, que identifiquei como sendo marrom. “Por que pintaram de marrom?”, perguntei, engarupado na curiosidade insaciável que definia a essência de meus nove anos de idade (a julgar por isso, jamais saí dos nove anos de idade). “Não é marrom, guri, é ocre”, responderam meus pais, causando-me espécie, porque respostas surpreendentes sempre me causaram espécie (essa indecifrável expressão, aliás, também me causa uma certa espécie).
Assim, com o surgimento do ocre no meio do caminho, deu-se uma ampliação na paleta das cores que até então figuravam em meu restrito universo cromático, delimitado pelos 12 matizes existentes na minha caixinha de lápis-de-cor (que traiçoeiramente incluía os lápis preto e branco, o que eu julgava uma sacanagem do fabricante). Extasiado com a descoberta daquela insuspeitada cor cravada ali na nossa casa, não perdia a oportunidade de aproveitar a visita de parentes e adultos em geral para apresentar-lhes a estrutura da lareira apontando com o dedo e perguntando: “Ó, sabe que cor é aquela? É ocre”, pelo que me olhavam de canto de olho e, mudos, consolidavam suas suspeitas de que eu não era mesmo desse mundo.
Porém, nem tudo era cinza. No amplo quintal da casa (houve um tempo na história da humanidade em que as crianças interagiam juntas e ao ar livre nos quintais das casas), às vezes brincávamos de uma variação do “pegador” (ou “pega-pega”), que consistia em formar um círculo ao redor do líder, cuja incumbência era gritar aleatoriamente o nome de uma cor, ao que os demais saíam em disparada tentando encostar-se em algo colorido naquele tom, a fim de ficarem imunes à pegada. Na minha vez de ser líder, gritava “ocre”, deixando todos paralisados e pasmos, tontos como baratas, sem saber para onde correr, o que me propiciava abater um a um com minha inclemente pegada. Desde pequeno aprende-se a usar o conhecimento a nosso favor, mesmo que seja o ocre.
(Crônica publicada no jornal Pioneiro em 21 de setembro de 2012)

sexta-feira, 14 de setembro de 2012

Protagonistas e coautores


Por que o escritor escreve? Por que o músico compõe? Por que o pintor pinta e o escultor esculpe? Por que, enfim, os artistas colocam em ação a imaginação para criar elementos que originalmente não existem no mundo que os cerca? Questões como essas costumam vir à tona quando se debate a origem do impulso que move o artista a produzir arte. A resposta, a meu ver, é simples: porque o mundo real não basta para conferir plenitude à nossa existência.
 O escritor catarinense radicado no Paraná, Cristóvão Tezza revela, em seu recente livro “O Espírito da Prosa”, que, quando criança, ficava tão encantado com a leitura das obras de Monteiro Lobato que, logo após fechados os livros, desenhava os personagens do Sítio do Picapau Amarelo em um papel, recortava as figuras e representava histórias com elas em um teatrinho confeccionado em caixa de sapatos. A arte que ele lia nos livros não lhe bastava. Então, criava novas aventuras que não constavam nas páginas de Lobato e as encenava para si mesmo, na solidão de seu quarto, em Curitiba.
Em Ijuí, na Rua dos Viajantes em que morei toda a infância e adolescência, a solidão de meu quarto servia de palco para algo semelhante. Com uma tesourinha de ponta arredondada, eu recortava dos gibis as figuras dos super-heróis de minha preferência e brincava com eles em cima da colcha da cama, criando também novas aventuras que iam além das tramas publicadas nos quadrinhos. Para mim também a arte que vinha impressa não me bastava, eu precisava ir além, criar os meus próprios enredos, as minhas tramas.
Recentemente uma leitora me escreveu relatando suas sensações após visitar uma mostra de fotografias. Ela percebeu “que o mais lindo de cada foto era exatamente aquilo que não constava nela, mas o que era apenas sugerido por ela”. Assim, concluiu que “as obras de arte sempre estão inacabadas e nós, os apreciadores, tornamo-nos coautores delas”. Justamente por termos essa capacidade inerentemente humana de ampliar o mundo artístico que nos cerca é que somos também dotados do poder de transformar nossas próprias vidas em obras de arte. Na vida, no entanto, não somos coautores, mas, sim, os protagonistas. É preciso dar pinceladas certeiras.
(Crônica publicada no jornal Pioneiro em 14 de setembro de 2012)

sexta-feira, 7 de setembro de 2012

Um pouco mais de luz


Somos, por natureza, seres insaciáveis. Queremos sempre mais, especialmente mais daquilo que nos dá satisfação. A começar pelo tempo de vida. Queremos viver muito e, de preferência, para sempre. Se possível, gostaríamos também de, dentro de nossas próprias existências, desfrutar de tudo aquilo que detectamos haver de bom também na vida dos outros. Avançando mais um pouco, gostaríamos até de poder vivenciar as sensações que outros experimentam ou experimentaram, sejam elas boas ou más, sem que isso nos afete diretamente. E é aí que entra em cena o papel das artes.
Exatamente isso é o que nos propicia a arte: a chance de vivenciarmos experiências que não são as nossas, de vivermos vidas diferentes dessa que protagonizamos desde que levantamos da cama para mais um dia. Ao folhearmos as páginas de um livro, podemos estar durante algumas horas montados sobre um cavalo chamado Rocinante e atacar doidivanasmente alguns moinhos de vento. Ao assistirmos a um filme de Woody Allen, podemos perambular por Paris e, num passe de mágica, retornar ao passado para reencontrar personalidades históricas que admiramos. E paralelamente a isso, podemos inserir nos enredos pedaços de nossa própria fantasia e imaginar situações que não estão impressas no livro ou explícitas na tela do cinema, nem encenadas no palco do teatro, ou pintadas no quadro ou flagradas pelas lentes do fotógrafo. Sobre o que pensa “O Pensador”, de Rodin? Ora, isso decido eu, quando me ponho a observar a escultura, pois esse é um poder que o desfrutar de uma obra de arte me proporciona.
A poetisa Vivita Cartier, antes de morrer de tuberculose em Criúva, costurava de volta nos galhos das árvores as folhas que o outono derrubava ao chão, em uma poética e metafórica tentativa de prolongar a vida que se lhe esvaía pela tosse ingrata. “Mais luz!”, pedia Goethe em seu leito de morte. Na entrelinha de sua frase, clamava mesmo era por um pouco mais de vida. Assim como nos ensinou o escritor alemão com seu ato derradeiro, também nós podemos obter essa “luz a mais” no transcurso de nossas existências por meio das transposições de vidas que o saborear das artes nos proporciona.
(Crônica publicada no jornal Pioneiro em 7 de setembro de 2012)

segunda-feira, 3 de setembro de 2012

O futuro possível no folhear das páginas



Esteve em debate dia desses, como tema dos encontros literários intitulados “Máquina de Escrever”, promovidos pelo escritor Marco de Menezes, pelo jornalista Carlinhos Santos e por este cronista, a questão da ficção-científica enquanto gênero maltratado como um dos patinhos feios da literatura. Junto com o participativo público presente ao agradável debate realizado nos domínios da livraria e cafeteria Do Arco da Velha, em Caxias do Sul, ocupamo-nos em demonstrar que o gênero merece um olhar mais cuidadoso e desprovido do preconceito típico que gosta de rapidamente classificar como “subliteratura” tudo aquilo que não se enquadra em classificações tidas por “nobres” como romance, conto, crônica e poesia.
Ao refletirmos sobre as origens da ficção-científica por meio da análise das obras de alguns autores como Mary Shelley e sua novela gótica “Frankenstein”, Edgar Allan Poe e seu conto fantástico intitulado “A Aventura Sem Paralelo de Um Tal Hans Pfaal”, Robert Louis Stevenson e a história de horror científico-psicológica “O Médico e o Monstro” e outras, percebemos que, desde os primórdios, um elo parece ser comum a todas essas obras e se faz presente nos demais títulos posteriormente exercitados pelos autores fundadores do gênero, mantendo-se presente nas criações dos modernos que se dedicam a esse campo literário. Esse ponto comum poderia ser resumido como a tentativa de resposta ao anseio do ser humano em antecipar o futuro em busca de conforto psíquico para sua existência no presente. Por meio do exercício livre da imaginação transposto às artes, no caso, as literárias, buscaríamos a sensação tranquilizadora de antever o que o futuro nos trará, por mais sombrio que seja, para aplacar assim nosso visceral temor pelo desconhecido. Nisso reside talvez, em boa parte, o interesse despertado por essas obras, no transcurso dos últimos séculos.
Refutando a pecha de “má-literatura” e mesmo a de “subliteratura”, preocupamo-nos em mostrar, durante o referido debate, a qualidade de várias obras cujas temáticas e abordagens se encaixam dentro do gênero ficção-científica, várias delas assinadas por irrefutáveis grandes lumes da literatura universal. Entre esses, citamos, por exemplo, gente como H.G.Wells (“A Máquina do Tempo”, “A Guerra dos Mundos”, “O Homem Invisível”), Jules Verne (“Vinte Mil Léguas Submarinas’, “Viagem à Lua”), Adolfo Bioy Casares (“A Invenção de Morel”, “A Trama Celeste”), Jorge Luis Borges (”O Aleph”), Ray Bradbury (“Farenheit 451”, “As Crônicas Marcianas”), Isaac Asimov (“Eu, Robô”), Arthur C. Clarke (“2001: Uma Odisseia no Espaço”), George Orwell (“1984”), Aldous Huxley (“Admirável Mundo Novo”), Ignácio de Loyolla Brandão (“Não Verás País Nenhum”), Ítalo Calvino (“As Cosmicômicas”). Todos são literatura de primeira qualidade, sem exceções.
Claro que, nesse ponto, cabe o questionamento relativo ao que é “boa literatura”, conceito abstrato e essencialmente personalizado, decorrente do senso estético e das vivências de cada um. No entanto, geralmente somos unânimes em classificar como “boa” toda a literatura (e também toda a expressão artística da natureza que for) que consegue estabelecer alguma espécie de comunicação conosco, que consegue falar à nossa alma, representar nossas angústias, anseios, temores. Assim sendo, a “boa” ficção-científica é aquela que, em última análise, por trás de robôs cibernéticos, naves espaciais, sistemas totalitaristas, drogas anestesiantes etc, proporciona alguma espécie de reflexão sobre a condição humana. E todas as obras e autores citados nesse texto possuem esse atributo, valendo a pena serem lidas. Um mundo despido de preconceitos, inclusive os literários, é talvez uma das maiores utopias de ficção-científica que já se pôde imaginar.
(Texto publicado na seção "Planeta Livro" da revista "Acontece Sul", edição de agosto de 2012)

sábado, 1 de setembro de 2012

Meu super-herói preferido


Peter Parker é o nome da pessoa comum que se esconde sob a máscara do Homem-Aranha. Tony Stark é o Homem-de-Ferro. Bruce Wayne é o milionário que se transforma em Batman e Clark Kent é a identidade terráquea do Super-Homem. Essas são informações de domínio comum a quem passou a infância lendo gibis, como eu, ou acompanha avidamente as recentes produções cinematográficas de Hollywood, como os adolescentes contemporâneos. O fascínio que esses personagens exercem no imaginário juvenil é o fato de, por trás das máscaras de super-heróis, serem todos eles cidadãos triviais, inseridos na vida diária sem chamar a atenção para os poderosos feitos que protagonizam quando vestem seus uniformes, em nome do bem comum.
Minha vida de leitor me colocou em contato imaginário com esses seres fantasiosos durante muitas vezes ao longo dos anos. Ultimamente, no entanto, minha atual carreira de escritor tem me proporcionado um contato próximo com heróis em carne e osso, que atuam em nome do bem comum e da proteção dos cidadãos na vida real: os professores de ensino fundamental e médio. Desprovidos de superpoderes, sem uniformes coloridos e sem identidades secretas, usam seus nomes verdadeiros e todos os poderes que a criatividade e a vontade de ensinar lhes oferecem, em nome da luta contra o maior de todos os vilões: a ignorância e o distanciamento do saber.
Independentemente do valor dos salários que recebem, a despeito da eventual falta de condições estruturais e mesmo emocionais, conseguem superar os maiores obstáculos e fazem a diferença, despertando o encantamento pela leitura em crianças e jovens estudantes que, de forma lúdica e sensível, recebem as dicas relativas a um caminho a ser trilhado rumo à transformação pessoal e à conquista da cidadania. O brilho que ilumina os olhos de crianças e adolescentes ao travarem contato com o autor dos livros e crônicas que trabalharam em sala de aula encontra eco no brilho da alma dos professores que, naquele mágico momento, têm a certeza de que alguma semente vital foi plantada.
São meus heróis de hoje, esses educadores de carne e osso. E sequer precisam invocar os poderes de Greyskull.
(Crônica publicada no jornal Pioneiro em 31 de agosto de 2012)

sexta-feira, 24 de agosto de 2012

O que os olhos veem


CENA 1: Estou em um supermercado da cidade, concentrado na seção de hortaliças tentando diferenciar maços de espinafre de feixes de rúcula, quando sinto um leve toque nos ombros, acompanhado por uma vozinha infantil: “Nonnoooo”... Viro-me e me deparo com um menininho de pouco mais de um ano de idade empoleirado no carrinho de supermercado dirigido por sua jovem mãe. Minha surpresa é acompanhada instantaneamente pela decepção do garoto ao perceber que eu não era o avô ao qual ele carinhosamente se referia, e pelo rubor das faces da mamãe que pede desculpas pelo engano do filhote. A ramificação dos grisalhos por todos os lados de minha cabeça certamente confundiu o menino que me viu com cara de nonno, mesmo eu estando de costas.
CENA 2: Desço do carro rumo a uma entrevista napPrefeitura e cruzo apressado a área do estacionamento comum à Câmara de Vereadores e à sede do Executivo Municipal. Está frio, visto blazer e sapato social e carrego uma pasta recheada com material de trabalho. No meio do trajeto, vejo-me infiltrado, sem querer, em uma fileira de dezenas de alunos do ensino fundamental, conduzidos pelas professoras rumo à Câmara. Excitados, fazem comentários sobre os prédios dos poderes públicos, observando tudo o que se passa ao redor. Ao me avistar entre eles, um garoto, mochila às costas, puxa o braço do coleguinha à frente, aponta para mim e exclama: “Olha, Mateus, olha ali: um vereador!”.
O que acontece é que nós, seres humanos, julgamos pelas aparências. E isso, desde muito cedo, pois aprendemos a criar padrões cerebrais a partir da observação do mundo e vamos compartimentando tudo de acordo com nossas vivências pessoais, o que nos faz supor reconhecer mais tarde um avô a partir de uma cabeleira branca e um vereador no sujeito que anda apressado no pátio da Câmara. Somos assim. Precisamos diariamente domesticar o mundo e vergá-lo aos conceitos próprios que moldamos para ele. Isso nos dá uma segurança relativa, porém, facilmente nos induz ao erro.
Ou isso, ou os meninos vaticinaram meu futuro. Votem no Nonno Kirst em 2036...
(Crônica publicada no jornal Pioneiro em 24 de agosto de 2012)

sexta-feira, 17 de agosto de 2012

Risco quilométrico


Zapeando pela tevê, descubro em uma reportagem que a carga de tinta existente dentro de uma caneta esferográfica é suficiente para traçar uma linha reta de três quilômetros de extensão. Puxa! Três quilômetros! Quanto caberá de escrita dentro de três quilômetros de tinta? O “Cem Anos de Solidão” do Gabriel García Márquez será que exigiria a carga de mais do que uma caneta de ponta-porosa para ser escrito? Quantos contos de Tchekhov? Quantos versos de Quintana? Quantos suspiros e rimas em cartas de amor para a amada distante, nos tempos em que se escreviam cartas de amor à mão em folhas sedosas e pautadas? Quantas assinaturas de cheque cabem em três quilômetros de tinta, ou quais cifras podem ser somadas em folhas de cheque preenchidas? Bilhões de dólares? Zilhões deles?
Será que em três quilômetros de tinta é possível reunir todas as desculpas que elencamos por escrito e em pensamento ao longo de nossas vidas, para justificar nossos atos e nossas esquivas? Três quilômetros de texto, afinal, é muito ou é pouco? Pode ser muito e sobrar tinta se formos enfileirar as vezes em que esquecemos os umbigos e praticamos a generosa arte de elogiar quem nos cerca e de externar-lhes, gratuitamente até, palavras de carinho, incentivo, conforto. Mas pode ser pouco para abarcar a extensão de nossas críticas, de nossas maledicências. Para essas, talvez sejam necessários três quilômetros de canetas carregadas de tinta, e os bons na matemática que calculem o quanto com elas seria possível grafar em jorros de fel.
Fico aqui pensando que talvez seriam necessários três ou até mais quilômetros de tinta para defender a humanidade perante as sazonais iras dos deuses, quando ficam eles lá no Olimpo pensando em acabar com a nossa existência, tamanhas as bobagens que aprontamos aqui por baixo. Porém, sabendo que as artes costumam aplacar a cólera dos titãs a ponto de postergarem o Armagedom por mais algum tempo, creio que até menos de uma carga de tinta baste para que alguém em algum canto do planeta crie mais um poema para louvar o Belo, mantendo firme o traçado de nossas existências. Pelo menos, enquanto não secarem todas as canetas...
 (Crônica publicada no jornal Pioneiro em 17 de agosto de 2012)

sexta-feira, 10 de agosto de 2012

Civilidade felina


Bioy e Iggy, exercitando a arte da amizade felina

O décimo-segundo degrau da escada, o pufe alaranjado, a caixa repleta de exemplares de meu livro “Dois Passos Antes da Esquina”, o alto do roupeiro, o tampo da máquina de lavar roupas e o meu colo sempre que está dando sopa são os lugares da casa que, por usucapião, pertencem a Bioy, o gato que vive conosco. À medida que avançam as horas do dia, ele vai revezando o leito para seu insaciável sono entre esses diferentes locais, sem maiores variações, uma vez que, a exemplo do dono (se é que gatos admitem donos), transformou-se em um verdadeiro “homem de hábitos fixos”.
Dia desses, no entanto, sua mansa rotina foi súbita e profundamente alterada com a chegada de Iggy, um majestoso gato da raça chartreaux, pertencente (se é que gatos admitem pertencer) a um amigo que precisava viajar ao exterior durante um mês e meio. “Uma pata lava a outra”, havíamos anteriormente acertado entre nós (eu, o pseudo-dono de Bioy e ele, o pseudo-proprietário de Iggy), julgando ser apropriado deixarmos nossos felinos a serem cuidados por também apreciadores de gatos quando da necessidade de ausências prolongadas. Nem Iggy nem Bioy foram consultados a respeito dessa decisão e tiveram de se adequar à situação
Mas a desconfiança mútua inicial logo se transformou em amizade, especialmente devido à inesperada atitude de Bioy no quesito “capacidade de compartilhar”. Em nome da arte de bem anfitrionar, Bioy cedeu a Iggy a primazia na hora das refeições, bem como a preferência na ocupação de todos os lugares acima citados e tão caros a ele (em especial meu colo que, felizmente, não se transformou em campo de batalha). Ele foi um verdadeiro “gentlecat”, protagonista de uma pungente lição.
 Claro que os mais céticos supervalorizariam o fato de Iggy possuir quase o dobro do tamanho de Bioy, o que, crê-se, representa muito na escala de valores no mundo felino. Preferimos acreditar, minha esposa e eu, que Bioy na verdade optou por ser gentil com o novo amigo, transformando o limão em limonada. Adotando essa postura, manteve a harmonia no lar, ganhou um novo amigo e ampliou a admiração que nutrimos por ele. Usou de inteligência emocional. Sempre há o que aprender na convivência com os diferentes.
(Crônica publicada no jornal Pioneiro em 10 de agosto de 2012)

sexta-feira, 3 de agosto de 2012

Mistérios à vista


Quem não aprecia um mistério? Eu aprecio. Os mistérios conferem um tempero picante ao comum de nossas existências, quebra a monotonia da rotinização do cotidiano, instiga a curiosidade, excita a imaginação, desentorpece os sentidos, açula a inteligência, abre as cancelas para o livre fluir da adrenalina do espírito. Os mistérios produzem a saudável expectativa que move nossa ação no sentido de desvendá-los ou, na impossibilidade de fazê-lo, de passar a vida deliciando-se com a construção de teorias que os expliquem.
A repetitiva transmutação do dia em noite já foi mistério para os primevos seres humanos que rachavam os pés sobre os pedregulhos da Terra jovem e, para amansar o terror da incompreensão que aquela magia gerava no íntimo de suas nascentes almas, criaram os ritos, dos quais surgiram as religiões e a compreensão do divino. Os mistérios da natureza inspiraram mentes que gestaram as alquimias e depois as ciências, e os do espírito seguem gerando buscas que dão à luz as humanidades e as artes. Pobres dos que não cultivam mistérios, pois, repletos de certezas, colocam cadeados nas portas que lhes dariam acesso ao mundo infinito do maravilhamento.
De minha parte, ando há alguns anos duelando com um mistério que me alvoroça o espírito sempre que paro o carro em um dos semáforos que regulam o tráfego no acesso principal ao município de Veranópolis, no entroncamento da RST-470. Enquanto o sinal não abre, minha atenção invariavelmente é atraída pela placa que indica o nome de uma loja, situada à direita de quem segue rumo a Nova Prata, vindo de Bento Gonçalves, prometendo o ingresso em um universo inacreditável. Afinal, o que será que me espera quando eu finalmente tomar a coragem de mudar o rumo e adentrar as portas de “O Fantástico Mundo das Variedades”? Encontrarei ali tudo o que sempre busquei na vida e até hoje não encontrei? Objetos raros e perdidos? Lembranças apagadas pelo tempo? Amigos esfumaçados pelo desencontro? Ou isso e ainda mais tudo aquilo que o nome da loja permitir imaginar? Ainda não ousei desviar a rota e ingressar ali. Tenho achado mais prudente manter viva a chama de pelo menos esse mistério...
(Crônica publicada no jornal Pioneiro em 3 de agosto de 2012)

sexta-feira, 27 de julho de 2012

Além das uvas


Não estou preocupado com a possível extinção do objeto livro enquanto plataforma de leitura ainda presente na vida dos cidadãos do futuro. Conforme lucidamente resume um colega amigo meu, poeta e cronista, “essa não é uma discussão válida”. Preocupa-me, isso, sim, é a possível extinção do bicho-leitor enquanto ser habituado a exercitar a leitura como prática essencial para sua formação pessoal e instrumento de transformação interior. E vou além. Leitor não é somente aquele bicho que lê, mas, sim, é aquele que compreende o que está lendo.
Um leitor que pretenda se dizer leitor precisa ser capaz de compreender o que está escrito, e isso nem sempre é tarefa fácil (para ser leitor, já vou avisando, caro leitor, é preciso deixar a preguiça de lado). Por mais simples que possa parecer, uma sentença pode não estar dizendo exatamente aquilo que aparenta dizer, e/ou pode estar informando muito mais do que se imagina. Vejamos o que acontece com a conhecida frase “Vovô viu a uva”. Bastante simples, não? Mas o que exatamente o autor quer dizer quando escreve essas três palavras nessa ordem? Primeiro: o que é um “vovô”? A princípio, é um ser humano do sexo masculino que possui netos. Pode ser. Mas pode também ser uma metáfora para uma pessoa mais velha que, devido à sua aparência, evoca a figura de um avô. Supomos, a partir disso, que o personagem da ação é uma pessoa idosa a observar uma uva. Mas espere. O que é exatamente uma pessoa idosa, que possa ser metaforicamente chamada de “vovô”? Quantos anos a pessoa precisa ter, no mínimo, para parecer idosa? Bem, depende dos olhos de quem a vê. Sou idoso aos olhos de meu sobrinho que mal completou 60 dias de vida. Mas me vejo jovem se comparado à idade octogenária de meu próprio avô.
Portanto, “vovô viu a uva”, meus caros leitores, encerra mistérios que vão muito além daquilo que está aparentemente grafado, e isso que ainda nem avançamos além da primeira palavra da sentença. Ele viu um gomo de uva ou um cacho inteiro? Uma foto, um desenho ou uma fruta na parreira? Depois disso, me pergunto... quantos ainda ousarão permanecer na trincheira da leitura?
 (Crônica publicada no jornal Pioneiro em 27 de julho de 2012)

sexta-feira, 20 de julho de 2012

Questão de crédito


Refletindo sobre o assunto em um de meus filosóficos banhos embaixo do chuveiro, nesses gélidos dias em que o lugar mais aconchegante é justamente sob os pingos que descem quentinhos enquanto o box do banheiro se transforma em réplica de uma esquina londrina sob denso fog e o contador de luz lá fora gira feito carrossel desgovernado, cheguei a uma conclusão. Pelo menos, não gastei água e luz à toa. Percebi que o elemento que prioritariamente deve pautar as relações comerciais entre as pessoas é a credibilidade, em todos os seus desdobramentos possíveis dentro desse setor.
Por parte do cliente, é preciso haver credibilidade no que tange ao cumprimento fundamental de sua parte, que é honrar o compromisso financeiro que ele assume ao adquirir um produto ou um serviço. Da parte do fornecedor de produtos ou serviços, o espectro das obrigações que lhe cabem, pelas quais precisa prover credibilidade, é bem mais amplo, passando pela qualidade daquilo que oferece, pelo cumprimento de tudo o que prometeu na hora da venda, pelo atendimento cortês e por aí afora. Não se admite vender gato por lebre.
Se o estabelecimento afirma ser uma galeteria, os garçons devem lotar o seu prato com unidades fumegantes e cheirosas de galetos prontos para o consumo. Se vem polenta junto, é outra história, mas, convenhamos, é preciso haver galeto. Se sobre a porta de entrada do estabelecimento está escrito “Livraria”, espera-se encontrar lá dentro obras literárias prontas para serem adquiridas e lidas, e não apenas lápis, borracha, apontador e mochila com rodinhas. Se a placa diz “Tudo por R$ 1,99”, devo entrar e supor que aquele cobiçado Playstation ali na prateleira custa isso e pode ir baixando dez que vou presentear até a Tia Carolina, que sequer sabe manusear um joystick.
Se a moça no pavilhão me chama dizendo que a revista é brinde, pego o exemplar e saio andando. Não adianta vir atrás querendo condicionar o “brinde” à assinatura de um dos títulos da editora. E gosto de pagar no caixa exatamente o valor que a mercadoria apresentava na prateleira. Ah... e de receber o troco bem certinho, para depois possuir todos os centavos que me permitem cruzar o pedágio, né.
(Crônica publicada no jornal Pioneiro em 20 de julho de 2012)

segunda-feira, 16 de julho de 2012

Escrever para não ser lido


Toda aquela criatura que se dedica à estranha tarefa de escrever obras literárias, sejam elas do gênero que forem, possui a não menos estranha e nada secreta vontade de ser lida pelas demais pessoas existentes. Quando esse fenômeno se concretiza, ou seja, quando sua obra se transforma em livro publicado e se empoleira nas prateleiras das livrarias, sendo adquirida pelos seres humanos que se põem a lê-la (categoria que conhecemos pela denominação de “leitores”), o ciclo se fecha e aquelas tais criaturas começam finalmente a se sentir e a se ver no espelho como “escritores”. Escritor, portanto, é esse ser que escreve, publica suas obras e chega aos leitores por meio delas, sendo lida. Quando isso não acontece, ocorre frustração, e muitas são as pedras que rolam para o meio dessa senda, esburacando-a e tornando as jornadas dos escritores bastante trabalhosas. Ainda mais quando eles são brasileiros, e vou mostrar a razão.
O problema, então, é conseguir chamar a atenção dos leitores e ser lido. Tarefa cada vez mais difícil, se atentarmos ao fato de que é cada vez maior o número de obras editadas no país e que disputam espaço e principalmente a atenção dos tais leitores. É uma competição bastante cruel especialmente para os autores que escrevem em língua portuguesa e que, pior ainda, nascem e residem e produzem no Brasil. Além de terem de disputar entre eles mesmos a boa vontade dos tão cobiçados leitores, os escritores brasileiros precisam primeiro derrotar a atenção despertada pelas obras dos escritores estrangeiros e, depois, conseguir vencer a barreira do preconceito contra a literatura nacional, que infelizmente pauta boa parte das escolhas dos leitores nacionais.
O famoso lugar-comum que reza que tudo o que vem de fora é melhor do que seus similares locais se alia ao adágio popular de que santo de casa não faz milagre para, juntos, infernizarem a vida dos escritores verdamarelos. Tenho amigos bibliotecários e amigos livreiros que várias vezes já me relataram episódios ocorridos nas bibliotecas e livrarias locais, de leitores que se interessam demais por determinada obra, mas imediatamente a refutam quando descobrem que seu autor é caxiense ou mesmo brasileiro. Preferem, obviamente, levar para casa um escritor estrangeiro. Que seria da “Montanha Mágica” ou de “Cem Anos de Solidão” se tivessem sido escritos por mim? Ego à parte e comparações colocadas em seus devidos lugares, a queixa é válida.
Mais um dado. Os livros traduzidos representam 30% do mercado editorial brasileiro, em termos de literatura de ficção. Ou seja: aqui no Brasil, 30% das obras publicadas são de autores de fora. Índice alto se comparado com os Estados Unidos, o maior e mais cobiçado mercado livreiro do mundo, onde apenas 3% dos livros editados são de autores que não escrevem em inglês e precisam ser traduzidos. Na Inglaterra, o índice é de apenas 5%. Ou seja, não somos lidos nem aqui e nem lá fora. A França tem um público leitor menos centrado e mais curioso, consumindo 50% de traduções, mas trata-se de uma exceção.
Como disse recentemente o escritor paranaense Cristovão Tezza em seminário literário promovido pela Biblioteca Pública Municipal em Caxias do Sul, “a literatura não é algo exigido socialmente”, ou seja, não é uma necessidade requisitada pela população. As casas dos escritores não são acossadas por famintas turbas de leitores ávidos por ler seu próximo romance, que o acordam aos gritos de “escreve, escreve, escreve!”. A gente segue escrevendo é de teimoso mesmo. E talvez pelo prazer de semear pérolas para raras estrelas, que é quando se dá enfim a magia.
(Texto publicado na seção "Planeta Livro" da revista Acontece Sul, edição de julho de 2012)

sexta-feira, 13 de julho de 2012

(Re)Aprender a ler


Nesses nossos tempos de internet, em que se julga possível transmitir uma ideia, uma filosofia, um conceito, um argumento, um ponto de vista, dentro de um limite de apenas 140 caracteres (essa frase inicial, portanto, já estaria fora), me parece ser necessário rever alguns fundamentos que até bem pouco tempo atrás ainda regiam os atos da leitura e compreensão de textos um pouquinho mais longos. E quando escrevo “um pouquinho mais longos” não estou pedantemente a invocar mágicas montanhas de Thomas Mann nem demandas proustianas atrás do tempo que se perdeu, e sim, tão-somente, pequenas croniquinhas como as que exercito neste espaço e que, via de regra, exigem do leitor não mais do que cinco minutos de sua atenção.
O primeiro problema, me parece, reside justamente aí: na falta de atenção. O leitor de hoje lê desatenta e distraidamente. Acostumou-se à linguagem pobre, direta, descomprometida, superficial e aviltante usada em chats, twitters, msns, torpedos, feicibúkis etc e, quando se depara com um texto tradicional, que lhe exige um mínimo de esforço de concentração para dele sorver a essência, bate a preguiça mental e já se perde no meio da maionese. E quando escrevo “leitor de hoje” não estou me referindo somente aos jovens que já nascem conectados, mas, sim, à grande gama de leitores de todas as idades que, por necessidade de conexão com o mundo informático moderno, também se inserem no grupo e acabam sofrendo do mesmo problema.
Para compreender um texto de 141 caracteres ou mais, é preciso um mínimo de atenção, de esforço, de entrega, de sensibilidade, de inteligência, de silêncio e até de um pouco de humor, para extrair dele a sua verdadeira essência, o seu sentido, bem como detectar o que se esconde por suas entrelinhas. Sem isso, sinto muito. Nem sempre a comunicação se estabelecerá. O autor, ao escrever, faz a sua parte. Mas para o interlocutor realmente se habilitar a ostentar o título de leitor, ele terá de fazer a sua. E a parte do leitor vai mais além e mais ao fundo do que simplesmente passar pelo texto os olhos e afirmar que o leu. É preciso envolver nesse processo também a alma. E a minha, por sinal, não cabe em 140 caracteres.
 (Crônica publicada no jornal Pioneiro em 13 de julho de 2012)

sexta-feira, 6 de julho de 2012

Desagravo às amigas


Urge que eu protagonize aqui um desagravo a algumas senhoras amigas minhas, integrantes da Academia Caxiense de Letras, que vêm reiteradamente sofrendo caladas uma injúria provocada involuntariamente por este escriba neste espaço, sempre que ponho a verve a discorrer sobre as atitudes incivilizadas que protagonizam contra mim outras senhoras integrantes de grupo diverso, notadamente esse último destinado a bebericar bules de chá, devorar biscoitinhos nas tardes de sexta-feira e, via de regra, desancar meus escritos, os quais amiúde consideram pernósticos devido ao uso de termos empolados e à construção de períodos quilométricos que lhes exigem um fôlego de leitura não indicado para menores de sete anos. Retroalimentam elas esse asco contra minha pessoa literária a cada nova semana, ao lerem sofregamente meus textos enquanto sorvem literalmente seus chás, e não se furtam de expressar todo esse rancor endereçando-me missivas via correio, escritas à mão, em sedosos papéis pautados nos quais despejam uma elegante caligrafia destinada a compor deselegâncias que me descompõem linha a linha (as delas desancando as minhas, claro fique).
Temeroso de suas atitudes, venho sazonalmente publicando aqui alguns desenrolares desse desgostoso fato com o intuito de conscientizar os leitores da existência desse grupo hostil à minha pessoa, que deve ser minuciosamente investigado no dia em que eu aparecer combalido por algum bule de chá rachado em minha cachola ou outro atentado semelhante. Porém, já foram várias as vezes em que fui abordado nas quebradas da urbe por leitores simpáticos à minha verve desbragada que se apressam em me prestar solidariedade contra as más intenções das integrantes da Academia Caxiense de Letras, julgando serem elas as senhoras do chá às quais me refiro quando aqui refiro-me é às outras, às más. O que é um grave erro e um preocupante mal-entendido. As senhoras da Academia são minhas amigas fraternas e afáveis, é preciso que isso fique bem claro. As do chá, que me leem e se indigestam, são Fulana, Beltrana, Cicrana e Laureana, e externo os nomes dos bois para que se desfaça a celeuma e possa beber chá e me ler em paz quem assim o preferir.
(Crônica publicada no jornal Pioneiro em 6 de julho de 2012)


segunda-feira, 2 de julho de 2012

TETRAEDRO reúne quatro cronistas caxienses



(FOTO: DANIEL HERRERA)

Quatro cronistas caxienses unem seus diferentes estilos de abordar o gênero literário crônica em um livro que reúne 48 textos (12 de cada autor), intitulado “Tetraedro”, em uma iniciativa literária diferente em Caxias do Sul. Lúcio Humberto Saretta, Marcos Fernando Kirst, Tiago Sozo Marcon e Uili Bergamin assinam em parceria a antologia que sai sob o selo da Editora do Maneco, em sessão de lançamento e autógrafos marcada para o dia 5 de julho, uma quinta-feira, a partir das 19h30min no Aristos London House, situado no térreo do Clube Juvenil, na Avenida Júlio de Castilhos, 1.677, esquina com a Marquês do Herval.
Com apresentação assinada pelo escritor porto-alegrense Luís Augusto Fischer, a obra oferece ao leitor quatro estilos distintos de exercitar a crônica, um dos gêneros mais apreciados pelos leitores brasileiros, presente na maioria dos jornais e revistas de norte a sul do Brasil. A crônica do cotidiano, a crônica filosófica e de discussão, a crônica de personagens e de costumes e a crônica esportiva ganham as páginas de “Tetraedro”, cujo título evoca a figura geométrica de quatro lados como uma metáfora para a união literária do quarteto de autores.
Além de publicarem crônicas em órgãos de imprensa de Caxias e região, os quatro escritores apresentam também em comum, em seus currículos, o fato de já haverem sido premiados, em diferentes ocasiões e em várias categorias, no Concurso Anual Literário promovido pela Biblioteca Pública Municipal de Caxias do Sul Dr. Demetrio Niederauer. Além de proporcionar prazer de leitura na fruição dos variados estilos, a obra fornece também um panorama geral sobre o gênero, que pode servir de ilustração didática nos momentos em que o tema é colocado em debate, especialmente em sala de aula. A obra estará sendo comercializada a R$ 25,00.

OS AUTORES

- Lúcio Humberto Saretta é formado em Comunicação Social pela PUC-RS. Autor dos livros “Alicate Contra Diamante” (2007) e “Crônicas Douradas” (2010), colaborou com diversos sites, entre eles, Final Sports, Campeões do Futebol, Papo de Bola e Olá! Serra Gaúcha. Já venceu duas vezes o Concurso Anual Literário de Caxias do Sul, na categoria Crônicas. Sua obra retrata o lado humano dos ídolos que fizeram história dentro e fora das arenas esportivas ao redor do mundo.
Fone para contato: 9115-0296

- Marcos Fernando Kirst é jornalista e escritor, autor de sete livros de não-ficção, entre eles “A História nas Estantes” (2007), “Geremia, Um Olhar de Pai Para Filho” (2010) e “Miseri Coloni: 30 Anos de Palco” (2011). Lançou em 2008 o livro infanto-juvenil “O Gato Que Não Sabia de Nada” e, em 2009, o romance “Dois Passos Antes da Esquina”. Venceu em 2010 o Concurso Anual Literário de Caxias do Sul com a Obra Literária “Em Silêncios”, de poesia. É cronista no jornal Pioneiro e escreve na revista Acontece Sul.
Fone para contato: 9156-8228

- Tiago Sozo Marcon é fotógrafo, escritor e arquiteto, formado pela UFRGS em 1999. Em 2009 e 2011, venceu o Concurso Anual Literário de Caxias do Sul, na categoria Crônicas. Publica crônicas no jornal A Gazeta de Caxias. A imagem da capa do livro é de sua autoria e foi premiada na Bienal Brasileira de Arte Fotográfica em 2008. Tetraedro é a estreia oficial do autor em livro.
Fone para contato: 9633-6546

- Uili Bergamin é autor de cinco livros, entre narrativas curtas e poesias.  Seu primeiro título, “O Sino do Campanário”, foi adaptado para o cinema e é um dos livros de contos mais vendidos do interior do RS. Também escreve para a revista Acontece Sul e trabalha na Biblioteca Pública Municipal de Caxias do Sul, onde coordena ações como as “Rodas de Leitura” e “Livros para Ouvir”, esta última finalista do Prêmio Viva Leitura 2011, um dos mais prestigiosos do Brasil.
Fone para contato: 9167-8970






sexta-feira, 29 de junho de 2012

Larga o Toddynho


Mais essa agora... açúcar demais emburrece! Não, não estou brincando. Eu li a notícia nos jornais e a estou analisando. A matéria que eu li dizia assim, ó: “Comer açúcar demais pode consumir toda a energia cerebral, revelaram cientistas americanos”. Sabe aqueles torrões de açúcar que a gente vê nos filmes os fazendeiros dando para os burros, perto do celeiro? Pois é... então... eu sempre achei que os paquidermes comem açúcar porque são burros, mas, na verdade, é pelo fato de comerem açúcar que os burros são burros, e não é por serem burros que inerentemente devoram açúcar, entendeu? Não? Largue já esse Chokito e leia tudo de novo!
Após muitas pesquisas feitas com ratos (sempre eles), os tais cientistas perceberam diferenças entre a qualidade da memória dos que consumiam muita frutose e a daqueles que se abstinham de devorar doces. Fico a supor que os ratos que não comiam doce são da estirpe do Mickey Mouse, do Jerry e de outros exemplares que sabidamente falam, usam o cérebro e fazem sucesso no cinema. Já os ratos burros, aqueles que se lambuzam de doçuras, apenas engordam e jamais saem do anonimato, restringindo suas biografias às paredes assépticas dos laboratórios e à espera ansiosa pela sobremesa.
Os ratos corujas, ou seja, os espertos, ficavam só no salgadinho e conseguiam se safar mais rápido dos labirintos do que os ratos burros roedores de mandolate. O que os espertos não contam é que, para isso, faziam uso ilegal de aparelhos de GPS contrabandeados para dentro do laboratório por ratazanas devoradoras de sal grosso, espertíssimas. Dizem os cientistas que o organismo consome muita energia tentando debelar os açúcares ingeridos, o que roubaria o combustível necessário para manter o cérebro ativo, embotando as faculdades cerebrais do indivíduo devorador de doces. Sabe aquela salada de frutas com sorvete, mãe, que eu comia para ganhar energia antes das provas de química, matemática e física no segundo grau? Pois era isso! O que me fazia levar bomba era justamente a bomba de calorias açucaradas que eu devorava para ficar mais ligado! Burro, eu! Sorte que os vestibulares jamais são aplicados logo após a Páscoa!
(Crônica publicada no jornal Pioneiro em 29 de junho de 2012)