sexta-feira, 30 de dezembro de 2011

Como encarar 2012

Vou logo avisando: este é um texto de autoajuda. De autoajuda econômica, para ser mais específico. É que decidi auxiliar você, caro leitor, a organizar suas finanças no vindouro ano de 2012. Estou exercitando minha generosidade como uma das metas pessoais que deveria cumprir em 2011, e nunca é tarde para começar, nem que seja no dia 30 de dezembro. Vamos lá.
Partamos do princípio de que você é um cidadão plenamente inserido no sistema em que vive, ajustado e obediente às demandas impostas pela mídia e pela sociedade de consumo. Concordemos que você é, caro leitor, antes e acima de tudo, um CONSUMIDOR, muito mais do que um cidadão, um pai (mãe) de família, um ser humano pleno, um estudante, um profissional etc. O que importa mesmo é que você está sempre pronto a atender aos apelos de consumo que invadem a sua vida por todos os lados, por todos os meios.
Você não está em busca de qualidade de vida. Você está, sim, em busca de acúmulo de bens de consumo, imaginando que é por meio desse expediente que obterá qualidade de vida, correto? Você PRECISA de um novo modelo de automóvel, de mais de um automóvel, trocar seu aparelho celular, trocar os aparelhos celulares de sua família, comprar uma televisão maior, comprar mais televisões, comprar um tablet, comprar outro tablet mais moderno, comprar, comprar, comprar... Para isso, claro, precisa aumentar os turnos de trabalho, fazer hora extra, adotar dupla jornada, fazer entrar mais dinheiro para que seja possível deixar sair mais dinheiro, para assim dar no bico do seu vizinho e nos bicos da família toda.
Portanto, anote já todas as datas em que terá de adquirir presentes, para mostrar que você também é um cidadão de bem que gasta dinheiro como forma de expressar seus sentimentos, para depois não se surpreender desprovido de reservas na hora H: Dia das Mães, Dia dos Pais, Dia das Crianças, Páscoa, Dia dos Namorados, Halloween, Natal, Ano Novo, aniversários em geral e amigos secretos. Feito isso, estrebuche-se trabalhando e fazendo dinheiro, para poder gastar bastante, ter e dar muitas coisas e ser um pleno cidadão do século 21.
Eu falei em texto de autoajuda. Não falei em dicas para a felicidade.
(Crônica publicada no jornal Pioneiro em 30 de dezembro de 2012)

sexta-feira, 23 de dezembro de 2011

Goleada didática

Muito se falou, ao longo desta semana, sobre uma suposta “aula de futebol” que o time do Santos – e por tabela todo o Brasil – teria recebido em campo do Barcelona, no último domingo, na partida decisiva pelo Mundial de Clubes da Fifa, disputada no Japão. Após definir o placar em quatro a zero a seu favor (e poderia ter sido mais, como todos os que assistiram à partida, como eu, perceberam), o Barcelona levou o título e os aplausos pela qualidade do espetáculo futebolístico apresentado.
Mas o que aconteceu naquela manhã de domingo foi, em termos de futebol, apenas isso: um espetáculo. Em momento algum houve ali uma “aula” de futebol. O Brasil, leitores, convenhamos, não precisa de nenhuma “aula de futebol”. Isso é um daqueles jargões de efeito que um comentarista televisivo expele no calor do momento e, devido à criatividade intrínseca, logo se transforma em mantra repetido a torto e a direito, de norte a sul, sem nenhum pingo de reflexão. Reflitamos, então, agora, um pouco.
O Brasil não precisa de “aula de futebol”. Leva-se a sério o futebol neste país há mais de um século. Existem agremiações profissionais dedicadas à prática, ao ensino, ao treino, ao cultivo e à formação de jogadores no nobre esporte bretão em nosso país tropical e lindo por natureza desde a alvorada do século passado. Somos detentores de cinco títulos mundiais, marca até agora inigualada por ninguém outro no planeta, e a qualidade dos jogadores com RG brasileiro é cobiçada e reconhecida nos quatro continentes. Não precisamos de “aula de futebol”.
Precisamos, sim, é da verdadeira lição que o Barcelona deu em campo a todo o Brasil na manhã do último domingo. Que foi, em resumo, uma aula completa de profissionalismo, de seriedade, de comprometimento, de envolvimento, de trabalho em conjunto, de cidadania, de proatividade, de humildade, de foco, de abnegação, de método, de maturidade. Essa foi a verdadeira lição, e não poderia ser diferente, uma vez que, como também se repete à exaustão por aqui, “o futebol imita a vida”. O furo foi bem mais embaixo, senhoras e senhores. Precisamos abrir os olhos e perceber que nós, brasileiros, andamos levando goleada do mundo em muitos aspectos. Até no futebol.
(Crônica publicada no jornal Pioneiro em 23 de dezembro de 2011)

terça-feira, 20 de dezembro de 2011

A Era das Laranjas de Amostra

Deve-se julgar um livro pela capa? Até que ponto o invólucro gráfico utilizado para embalar e apresentar de forma atraente o produto livro ao consumidor tem influência no momento da decisão de adquirir a obra, levá-la para casa e começar a lê-la? A julgar pela importância que as editoras do mundo inteiro vêm dedicando à qualidade artística de toda a parafernália que acompanha e antecede o folhear da primeira página do texto propriamente dito, a resposta é sim, os leitores modernos são altamente influenciáveis pelos atrativos estéticos visuais que envolvem as obras literárias. Uma capa bonita, em uma edição com orelhas atraentes e contracapa apresentando excertos de críticas laudatórias ao livro publicadas em veículos de imprensa renomados são expedientes seguros para garantir uma boa performance do título nas prateleiras das livrarias.
O fenômeno não é motivo de espanto, especialmente para quem tem consciência de estar vivendo em uma era em que o poder do apelo superficial do visual é a tônica que rege os estímulos de consumo da opressora maioria da população humana espalhada pela superfície do planeta. Quando se trata de pesar na balança os elementos “forma” versus “conteúdo”, o primeiro, infelizmente, anda levando desmesurada vantagem, e não é de hoje. O escritor que simplesmente aposta todas as fichas no sucesso de sua obra pelo simples fato de acreditar ser dono de um bom texto e desempenhar com competência e criatividade a condução narrativa está fadado a sucumbir à realidade dos fatos ditados pelas (rasas) exigências do público moderno. Será pouco lido, quando não simplesmente ignorado pelas massas, para seu desespero e frustração.
Paralelamente a isso, registra-se no meio literário outro fenômeno que vem chamando a atenção dos especialistas em literatura e teoria literária, como a pesquisadora gaúcha Lígia Cademartori recentemente explanou em Caxias do Sul, quando veio participar do I Seminário Internacional de Língua, Literatura e Produtos Culturais, promovido pela Universidade de Caxias do Sul. Conforme a estudiosa, não basta mais apenas apostar no luxo da edição, bem como na ampla divulgação do livro em todos os meios de comunicação de massa para obter uma boa performance no meio literário nos dias de hoje. Para alcançar o reconhecimento e o sucesso, é preciso que o escritor também se transforme, ele mesmo, em um showman, com desenvoltura capaz de arrebanhar atenções e (consequentemente) leitores por meio de palestras, bate-papos, entrevistas, presença em eventos sociais e assim por diante. Nas palavras dela, é preciso fazer “um pacto com a mídia” para sair do anonimato e conseguir um lugar ao sol no disputadíssimo mercado editorial da atualidade.
Ou seja: apenas escrever bem já não basta mais. E também não significa que quem canta e rebola – e por isso mesmo obtém espaço – é detentor das mais altas qualidades literárias. Tudo depende de um encaixe perfeito entre as peças do jogo de mercado que, na maioria das vezes, é injusto para com os quesitos qualidade, arte, competência, conteúdo. Como em tudo, aliás.
De minha parte, continuo julgando um livro pela qualidade de seu texto. Sigo sendo seduzido pelas arrebatadoras frases iniciais de excelentes obras literárias, que me acompanham por toda a eternidade de minha existência enquanto ela durar. A edição em que li a abertura de “Cem Anos de Solidão”, de Gabriel García Márquez, é uma brochura horrorosa pertencente a uma coleçãozinha barata com uma capa cuja arte é repugnante. Guardo até hoje a edição ordinária, que resguarda em si o teor de um dos mais belos livros já escritos, iniciado com as seguintes palavras: “Muitos anos depois, diante do pelotão de fuzilamento, o Coronel Aureliano Buendía havia de recordar aquela tarde remota em que seu pai o levou a conhecer o gelo”.
Julgasse eu o livro pela capa, teria torcido o nariz para um diamante.
(Texto publicado na seção "Planeta Livro" da revista Acontece Sul, edição de dezembro de 2011)

sexta-feira, 16 de dezembro de 2011

Palmas aos pinguins



Entre as 70 mil pessoas que circularam pelos superpopulacionados corredores do Shopping Iguatemi no domingo do dia 11 deste mês, em busca de presentes natalinos, figurávamos eu e minha esposa. Ela, estupefaciadamente cortejando vitrines. Eu, exasperadamente desviando de cotovelos. O resultado obtido após duas horas de permanência dentro do templo erigido ao Deus Consumo foi tão esperado quanto diverso: ela, plena de satisfação, carregando pacotes de regalos; eu, repleto de hematomas físicos e psicológicos decorrentes de minha fobia a multidões (só tolero aglomerações humanas quando em shows de rock protagonizados por ex-beatles e em manifestações por eleições diretas para presidente da República).
Cumprida a inevitável, anual e decembrina tarefa, lancei-me no sofá da sala pretendendo liberar ali aos poucos a carga psíquica que me atormentava quando fui informado por ela da situação: somente metade da lista de presentes havia sido solucionada. Precisávamos, portanto, empreender nova ida ao templo, a fim de completar a incumbência natalina. Gelei mais que a cerveja.
Felizmente, conseguimos organizar nossas agendas a ponto de efetivarmos o retorno ao shopping na manhã da quarta-feira seguinte, quando minhas previsões se confirmaram: corredores repletos de espaços vazios, lojas ocupadas só por gerentes e atendentes, muito ar para respirar. Chegamos às dez horas em ponto e presenciamos o abrir das portas do local, sendo os primeiros a ingressar por aquela entrada. Na área em que figuram a árvore de Natal e a decoração repleta de bonecos, fomos surpreendidos, em nossa caminhada rumo aos presentes faltantes, pelo início de uma canção natalina entoada por um coro de simpáticos pinguins cantantes, animada pelas brincadeiras de papais noéis com ursos polares que agitam o pedaço ao som de “Noite Feliz”.
No shopping ainda vazio, éramos, nós dois, a única esperança de plateia para aquela generosa apresentação exclusiva protagonizada por máquinas pré-programadas. Decidimos parar e apreciar o show até o final, para não desapontar pinguins, ursos e papais noéis tão simpáticos. Deve ter sido um rasgo de espírito natalino que esvoaçou sobre nós naquele instante. Só pode.



(Crônica publicada no jornal Pioneiro em 16 de dezembro de 2011)

segunda-feira, 12 de dezembro de 2011

Caindo a ficha

- Por favor, gostaria de uma ligação a cobrar para Ijuí.
- Qual o número?
- Número tal.
- Com quem quer falar?
- Com Lurdes.
- E quem vai falar?
- Marcos.
- Um momentinho, senhor Marcos.
Muitos momentinhos de espera depois, escuta-se a telefonista entabular conversação com a pessoa do lado de lá da linha:
- Ligação a cobrar de Santa Maria, por parte do senhor Marcos, para Lurdes. A senhora aceita a ligação?
- Sim, pode completar.
- Senhor Marcos, pode falar.
- Oi, mãe. Sou eu. Tudo bem por aí?
Pois é, era assim, no final dos anos 80, esse suplício todo para um estudante universitário desprovido de telefone fixo e nem sonhando com a invenção de celulares, conseguir falar, uma vez por semana, com a sua família na cidade-natal, para dar e receber notícias. Faziam-se filas homéricas junto aos orelhões (tradução simultânea = “telefones públicos”) para pacientemente aguardar a sua vez de matar a saudade da voz materna, ouvir notícias de todos, fazer encomendas, narrar novidades. As filas demoravam, dependendo do dia, mais de hora, e escutava-se as conversas alheias, fazia-se novas amizades, lia-se, estudava-se.
Notícias urgentes e importantes vinham mesmo era por telegrama. Assuntos a serem tratados mais longamente chegavam e eram enviados por cartas via correio ou pelas mãos de colegas e amigos que viajassem mais amiúde para a mesma cidade. Comunicar-se à distância era bem mais difícil, demandava mais tempo e maiores esforços do que hoje. Isso, apenas um par de décadas atrás, ou até menos.
Hoje, isso tudo é bem mais fácil. A profusão de parafernálias facilitadoras da comunicação entre as pessoas impede que qualquer um exerça a vocação para ermitão. Não tem como não ser achado e contatado. É quase impossível não localizar alguém com quem se precise ou com quem se queira falar. Difícil mesmo começa a ser encontrar, em meio a tantas facilidades, quem tenha o que dizer de útil e aproveitável via celular, telefone, e-mail, twitter, blog, MSN, torpedo, orkut etc etc.
Não precisamos mais rachar lenha para assar lasanha em casa; não precisamos mais ordenhar a vaquinha para beber o leitinho no café da manhã; não precisamos mais datilografar carta e levá-la até o correio para nos comunicarmos com alguém lá no Japão. Tudo isso agora pode ser feito quase que instantaneamente. Temos tempo de sobra, hoje em dia. Problema é que, agora, sobra tempo mesmo é para sermos desinteressantes.
(Crônica publicada no jornal Pioneiro em 24 de junho de 2010)

sexta-feira, 9 de dezembro de 2011

Incômodas entrelinhas

Já comentei aqui algumas vezes a existência daquele grupo de velhinhas que se reúnem às sextas-feiras à tarde para tomar chá, mordiscar biscoitos de água e sal e ler as minhas colunas, nas quais não conseguem encontrar gosto algum, classificando-as como normalmente mais insossas do que as bolachinhas, quando não, odiosas (minhas crônicas, não as bolachinhas). Elas sentem-se desrespeitadas pela minha recorrente construção de parágrafos intermináveis, como o do período anterior, a lhes exigir um fôlego de leitura incompatível com a longevidade que as caracteriza.
Tenho tentado (bem pouco, confesso) corrigir essa minha falha de estilo, decorrência direta de meu caráter tergiversante, policiando o andamento dessas frases quilométricas que mais parecem estar se preparando para uma maratona do que desenvolvendo uma ideia literária, mas nem sempre consigo cercear o empilhamento de intercalações virguladas a tempo de encerrar mais cedo as sentenças, desperdiçando antiecologicamente as vírgulas e perpetuando uma economia injustificável de pontos finais, como isso agora, que viciadamente acabo de estender até o limite do gás vital. É como se as frases tomassem fermento após a letra maiúscula e fossem crescendo desmesuradamente até abatumarem a palavrança toda lá no longínquo ponto final. Que horror, isso!
Mas as minhas desafetas de carteirinha informam, na última missiva, que descobriram outro motivo para odiarem os textos de minha autoria. Trata-se do excesso de entrelinhas, de camadas de leitura, que camuflam duplos sentidos em temas e situações aparentemente banais, mas que, para o leitor mais atento, sugerem reflexões acuradas sobre o cotidiano e escapam ao alcance do grau dos óculos que elas andam usando para ler-me. Resumindo: elas me querem mais curto e mais grosso. Odeiam serem obrigadas a abrir a despensa de suas almas em busca da geleia com a qual poderiam avivar o conteúdo de textos aparentemente indeglutíveis. Elas já fazem isso com as bolachinhas de água e sal, e lhes é o bastante. De resto, que tudo lhes chegue já mastigado, a começar pelos meus escritos.
Mas por que elas simplesmente não trocam de marca de bolacha?
(Crônica publicada no jornal Pioneiro em 9 de dezembro de 2011)

segunda-feira, 5 de dezembro de 2011

Espírito natalino, ou...?

Vários são os indícios diários que me chegam incumbidos da missão de me conscientizar de que eu sou mesmo um cidadão do século passado. Nos meus tempos de criança e adolescência, lá nos anos 60 e 70, Papai Noel era uma criatura que tirava a barba de molho só às vésperas do Natal.
Saíamos a passear em família a pé pelas calçadas das ruas centrais, à noite, para maravilhar os olhos com as decorações natalinas das vitrines das lojas e tomar sorvete. O espírito natalino ia invadindo lentamente nossos corações, de mansinho, gerando uma expectativa pulsante que atingia um ápice dois ou três dias antes de 25 de dezembro, quando ainda utilizava-se (ecologicamente incorretos) pinheirinhos de verdade na sala a fim de serem enfeitados para abrigar os presentes que seguramente apareceriam, independentemente das eventuais traquinagens que havíamos prometido nunca mais repetir.
Isso, naqueles tempos de antanho. Hoje, confesso que fico um pouco chocado quando trafego pelas ruas da cidade e detecto residências ornamentadas com luzinhas piscantes e papais noéis dependurados nas sacadas desde o dia primeiro de novembro, mais de 50 dias antes da celebração natalina. Não consigo evitar o fato de ser assolado pela sensação de que uma incômoda dose de exagero parece reger essa necessidade competitiva de ser o primeiro da rua a ostentar a entrada no espírito natalino.
Tudo bem que o comércio inicie suas campanhas de vendas focadas na data com antecedência, afinal, os dias andam mesmo competitivos e é preciso fisgar a clientela o mais cedo possível, sob pena de perdê-la para a concorrência. Mas é preciso mergulharmos também nós, cidadãos comuns, nesse espírito competitivo? O espírito não era para ser o natalino? Fica sempre me parecendo que tudo aquilo que extrapola os limites do bom senso e da normalidade acaba correndo o risco de promover um esvaziamento dos significados que deveriam estar contidos nos símbolos com os quais lidamos.
Natal, para mim, que sou do século passado, ainda é em 25 de dezembro, e significa bem mais do que ter a porta da casa ornamentada por 60 dias. Se bem que, ano que vem, cravarei um Papai Noel na sacada ainda em 8 de julho. Duvidam?
(Crônica publicada no jornal Pioneiro em 3 de dezembro de 2011)

sexta-feira, 25 de novembro de 2011

Rumo à civilização

A gente só muda maus hábitos quando se conscientiza internamente de que de fato aquela postura não condiz mais com o perfil que você pretende ver em si mesmo. Você é inteligente, você se alfabetizou, você tem acesso à informação e você sabe que, por exemplo, fumar faz mal à saúde. As próprias embalagens trazem impresso o alerta, o que se configura em um quase surreal tiro no pé em termos de marketing. Em um mundo lógico, deveria bastar para afastar do produto todo consumidor que saiba extrair sentido do ajuntamento de letrinhas.
Mas apenas saber não basta para mudarmos. É preciso ocorrer aquele momento de iluminação interior que a psicologia gosta de chamar de “insight”, para que a mudança comece realmente a tomar forma. Sem isso, nenhuma campanha faz efeito, qualquer conselho sensato aterrissa de imediato no cesto de lixo de nossas raras boas intenções. E não significa que basta acontecer esse instante de compreensão para que a mudança se efetive de imediato. Largar um vício, abrandar um traço ruim de personalidade, adotar um novo hábito saudável são caminhos que exigirão esforço e perseverança e, como tudo, independem de mágica para virar realidade. Haverá suor, e sabemos disso.
Se é assim em se tratando de adotar uma nova postura individual, a equação fica ainda mais complexa quando se deseja empreender uma mudança profunda de comportamento na coletividade. Nesse quesito, a sociedade brasileira vivencia hoje um momento histórico e crucial que, vindo a bom termo, é capaz de elevá-la em alguns degraus importantes na escala da civilização. Promover o divórcio total entre álcool e direção é uma bandeira que começa aos poucos a ser empunhada pela sociedade, e só vai virar realidade quando a conscientização proposta pelo poder público, pelas leis e pela mídia passar a ser uma verdade viva no íntimo de cada cidadão.
Esta semana, um motorista alcoolizado, que dirigia em ziguezague pela BR-116, foi dedurado à Polícia Rodoviária via celular por outro condutor que seguia atrás. O ato de cidadania do motorista “dedo-duro” pode ter ajudado a salvar vidas e tirou um inconsequente das estradas. É o cidadão comum ajudando, no dia-a-dia, a que uma nova postura crie raízes. Só assim o quadro vai mudar.
(Crônica publicada no jornal Pioneiro em 25 de novembro de 2011)

sexta-feira, 18 de novembro de 2011

Zunido na memória



A gente quando vai ficando mais vivido (eu ainda tento evitar o termo “velho”), vai recordando com mais frequência os fatos da infância e traçando paralelos com a existência que moldamos para nós mesmos, no transcorrer desses anos todos. O comum é irmos amargando a boca e os sentimentos e passarmos a nos convencer de bobagens como “no meu tempo as coisas eram melhores”, como se o mundo fosse um eterno desenvoluir, teoria que não se sustenta frente a uma análise desvestida de saudosismo rancoroso por épocas que só permanecem vivas em nossas memórias.
Particularmente, desconfio um pouco da sanidade de minha interação pessoal com esse natural processo, uma vez que me surpreendo frequentemente recordando coisas que eu classificaria de, no mínimo, esdrúxulas, uma vez que fogem do conjunto aceitável normalmente composto pela saudade da máquina de escrever, do disco de vinil, da televisão a válvula, dos vizinhos reunidos nas calçadas à noite para conversar, dos Pedro e Paulo, das fogueiras de São João, do Maverick e assim por diante. Madrugada dessas, por exemplo, acordei recordando dos mosquiteiros de minha infância. As camas eram encimadas por ganchos que sustentavam perenemente aquelas redes recheadas por milhões de furinhos que permitiam a passagem do ar e deixavam do lado de fora a mosquitança que viria sugar nosso sangue e infernizar nossos ouvidos caso não existissem aqueles delicados escudos que as mães lançavam sobre os berços como véus a proteger e velar pela profundeza de nosso sono.
Eles foram caindo em desuso com o advento dos aparelhinhos elétricos que repelem os insetos, e os raros exemplares da espécie devem jazer esquecidos e rasgados no fundo de baús de velharias em casas de avós. Minha memória voltou no tempo aquela madrugada, induzida pelo zunir inesperado de um mosquito ao redor de meu ouvido, fenômeno que há muitos anos não me sucedia. Tenho certeza de que existem hoje menos mosquitos do que nos tempos de minha infância, e nunca pensei que a lembrança de um sempre tão detestado inseto me viria a servir de anfitrião para o saborear de doces lembranças. Despertei sorrindo ao escutar o zunido. Meu deus, como a gente muda...
(Crônica publicada no jornal Pioneiro em 18 de novembro de 2011)

segunda-feira, 14 de novembro de 2011

Um karatê na panqueca

Noite dessas, enquanto fazia umas panquecas na cozinha, peguei de canto de ouvido uma declaração de um menino de uns dez anos de idade que concedia entrevista a uma repórter de televisão sobre a importância da prática de esportes na formação do caráter da gurizada. “Depois que passei a praticar karatê, minhas notas na escola melhoraram muito”, disse o moleque. “Miau”, exclamou, no instante seguinte, Bioy, o gato que vive lá em casa, parado ao meu lado, olhando-me com aquele enorme par de olhos verdes que ele arregala sempre que está matutando algo.
“Pois é”, pensei eu, induzido pelo questionamento proposto pelo gato panquequeiro. “Esperto, esse garoto”, prossegui, enquanto tentava fazer a panqueca saltar na frigideira e arremessava sem querer a massa ainda molenga contra a parede sul da cozinha. “Aprendeu karatê e agora, instantaneamente, obtém boas notas no boletim. Vai ver que ameaça os professores. Ou obriga os coleguinhas que sentam nas cercanias a lhe passarem cola”, imaginei, raspando a ex-panqueca da parede com uma espátula e evitando com o pé a aproximação do gato, que já farejava as migalhas se espalhando pelo chão. Afinal, agora, ele sabe karatê. Amanhã ou depois, vai ser sempre escolhido para jogar no melhor time na hora do recreio, vai receber refrigerante e chokito de presente de toda a galera na hora da merenda, vai ganhar picolé de melancia dos primos no shopping, não vai mais precisar arrumar a cama de manhã quando levanta. Agora, ele luta karatê. Cuidado com ele!
Óbvio que tudo aquilo não passava de elucubração politicamente incorreta minha, derivada das influências mentais maléficas do gato que pretendia justamente me distrair do trabalho com as panquecas que, agora, aos cacos no chão, lhe refestelavam os bigodes. É óbvio que o menininho estava satisfeito e orgulhoso por ter conseguido reorientar seu comportamento a partir da prática do esporte, eu é quem estava desvirtuando o foco da coisa toda. Afinal, gostamos muito, nós, humanos, de rapidamente desvirtuar as boas coisas que nos chegam ao conhecimento. E, logo depois, colocar a culpa em quem não pode se defender. Menos nocivo seria aprender direito a fazer panquecas...
(Crônica publicada no jornal Pioneiro em 11 de novembro de 2011)

sexta-feira, 4 de novembro de 2011

Súbito ataque lírico

Despertei meio sentimental, intoxicado pelo pólen da primavera que, quando a chuva não despenca, parece de fato existir por alguns períodos nessa nossa região serrana de clima insistentemente invernoso, a despeito do que tentam sugerir as folhinhas do calendário. Decidi então produzir uma crônica lírica e poética, para aproveitar ao máximo o estado de espírito enlevado que se apossava de minh’alma, o que bem sabemos não é sempre que acontece. Problema é que havia algumas pedras no meio das linhas.
A primeira delas é a que insiste em me lembrar que eu não sou poeta e que essa coisa de lirismo n’alma, apesar do apóstrofo que sempre fica poeticamente bem colocado em construções frasais que se pretendem sensíveis, se não for trabalhada com competência e talento, soa forçado e coloca por terra toda a tentativa. Problema dois é que acordei também acossado por uma ponta de teimosia, e segui insistindo em tentar tirar do forno das ideias uma crônica lírica para homenagear a primavera.
O caminho das entrelinhas prosseguia povoado por pedregulhos que teimavam em me mostrar que, por mais fingidor que se pretenda o pseudopoeta, se ele se bota a fingir completamente como propõe o lusitano afamado, sentirá deveras a dor que finge sentir e estatelar-se-a (será essa forma poética?) de fuças em meio a seu Tejo de incompetências literais. Era o que me estava acontecendo e, antes de murchar por completo, recorri ao dicionário em busca de termos poéticos e líricos que eu poderia espalhar pelo texto, a fim de pelo menos me aproximar de meu objetivo. Com a pinça de minha sensibilidade aleatória, pesquei de lá termos como “tanger”, “desvelo”, “alvura”, “conjuras” e “arquejos”, porém, não soube como aplicá-los de maneira que soasse lindo.
Nem a releitura rápida de meus poetas preferidos, como Pessoa, Drummond, Medeiros, Menezes, Quintana, Vanessa, Dall’Alba, Oscar, Manuel Maria e outros, foi capaz de fazer sobre mim brilhar a luz do Belo. Resignei-me, enfim, a somente respirar e sentir a Poesia que eu detectava em volta, recolhendo minhas incompetências para dentro de mim mesmo e aprendendo que Arte também se faz apenas existindo, sem ter de gerar poluição criativa. Todos agradecem.
(Crônica publicada no jornal Pioneiro em 4 de novembro de 2011)

segunda-feira, 31 de outubro de 2011

Tomate para guacamole

Dia desses fui à quitanda comprar um tomate para fazer guacamole, a fim de aproveitar um abacate que habitava a geladeira e já estava passando do ponto de maturação. Percebe-se esse ponto por meio da técnica do toque na casca aliada ao mais refinado grau de sensibilidade gastronômica, obtida após muita experiência culminada no descarte de quilos de abacates imprevidentemente não tocados na hora certa.
Cheguei na quitanda e fui anunciando ao quitandeiro: “Quitandeiro, me veja aí um belo exemplar de tomate porque hoje vou fazer guacamole”! O quitandeiro não imaginava ser ele um quitandeiro (pois que virara quitandeiro uns 20 anos depois de o termo sair de moda) e tampouco supunha ser possível produzir guacamole a partir de um tomate (o termo, para ele, soava pastoso e repugnante), mas, mesmo assim, para não perder a venda, providenciou de pronto um lustroso exemplar que despontava, todo empinado e faceiro, por entre a tomatada geral encerrada no cercadinho de madeira reservado aos tomates.
Peguei em mãos o rubro espécime e, enquanto o quitandeiro batia na máquina de calcular a soma de minhas compras, eu me detinha a admirar as qualidades visuais do suculento produto. “Mas que belíssimo fruto este tomate aqui, hein, quitandeiro”, exclamei. O quitandeiro não respondia nada, absorto no ensacar de minhas aquisições, classificando-me mentalmente como beócio por julgar ser o tomate um fruto (o que de fato o tomate é, e beócio é quem me chama) e começando a não achar graça alguma naquilo de quitandeiro para cima dele, pois, assim que eu saísse, telefonaria para a filha pedindo que trouxesse à tarde o dicionário para ele dar uma olhadinha, para o espanto descomunal da menina frente a pedido tão esdrúxulo do quitandeiro pai.
Cheguei em casa são e salvo e logo pus mãos e avental à obra. Parti o tomate ao meio com uma facada certeira e ali tive a surpresa desagradável: estava podre por dentro, o maldito fruto quitandal. Esqueci que não se deve julgar um livro pela capa e muito menos um tomate pela casca. Aquela quitanda estava fora de moda e passada do ponto. Segredos como esses não vêm descritos nas receitas e dependem da vivência do cozinheiro. É o que se aprende, com certo custo.
(Crônica publicada no jornal Pioneiro em 28 de outubro de 2011)

sexta-feira, 28 de outubro de 2011

Deus nos livre!

Graças a Deus que nunca fui e jamais serei candidato à Presidência da República nem no Brasil e muito menos nos Estados Unidos. A profundidade desse meu alívio psíquico pode parecer inverossímil para quem pouco me conhece, e, para não passar tão facilmente por megalômano, ponho-me de pronto a me explicar. Esse meu alívio se dá pelo fato de que, se por ventura os caminhos da vida me tivessem conduzido para o universo da política e eu calhasse vir a ser o nome escolhido para defender as ideologias de meu partido na Presidência de República, teria eu a obrigação de não me furtar a comparecer a debates e a entrevistas, situações nas quais ser-me-ia invariavelmente impingida a seguinte pergunta: o senhor acredita em Deus?
Como bem sabemos, a questiúncula já deixou em maus lençóis e de saias curtas candidatos ao cargo máximo da administração pública, entre elas, figuras conhecidíssimas no Brasil (como Fernando Henrique Cardoso, Lula e Dilma Roussef) e nos Estados Unidos (Bill Clinton), países que se dizem laicos no discurso oficial mas nos quais os temas religiosos são tão importantes no cotidiano das pessoas quanto nos chamados países teocráticos. Vários materialistas e ateus convictos tiveram de rebolar para fugir da resposta honesta e direta à pergunta (que, no caso de muitos deles, seria um simples “não”, desses que se usa para negar alguma coisa), a fim de evitarem perder uma massa de votos crucial para suas eleições. Desconversaram alguns, mentiram outros, e assim elegeram-se muitos, que souberam driblar a saia justa aparentemente tão prosaica, mas no fundo tão decisiva.
Onde entram eu e minha consciência nisso tudo? Primeiro, repito meu alívio de não ser candidato ao cargo em nenhum desses países, agora que já consegui passar a dimensão da coisa toda. Passo então a explicar o motivo do alívio: porque eu, no caso de ser confrontado em público com o questionamento, simplesmente não saberia o que responder. Minha resposta sincera teria de ser algo do tipo: “esta manhã acordei acreditando um pouco mais do que ontem. Semana passada eu passei não acreditando nadica de nada, e tudo leva a crer que amanhã estarei fervorosamente crendo. Mês passado, no entanto, eu andava ateíssimo que chegava a dar dó”. Dessa maneira, não levaria um voto sequer, creio que nem mesmo o meu.
Isso se dá porque existem no mundo gentes como eu que são habitadas por múltiplas facetas de pensamento, que se alternam e duelam entre si, coabitando harmoniosamente o meu íntimo. Consigo conviver racionalmente com visões muitas vezes antagônicas de mundo, dependendo de meu estado de espírito ou do rumo que andam tomando minhas reflexões. Acho o mundo interessante e impressionante demais para simplesmente descartar por completo certas maneiras de pensar e de encarar a existência. Acho todas elas fascinantes, e aprecio saborear a sensação que cada uma me proporciona, durante certos períodos. Depois me canso e parto para outras. Encarno em mim a metamorfose ambulante sem ter de cantar Raul, e me desobriguei há tempos de escravizar-me a supostas coerências. Sendo assim, que credibilidade teria eu para presidir alguma república, seja ela qual for? Nem mesmo uma de bananas. A muito custo, presido a democracia anárquica de meus pensamentos...
(Crônica publicada no jornal Informante, de Farroupilha, em 28 de outubro de 2011)

sexta-feira, 21 de outubro de 2011

Cada um com seus parentes

Parentes de além-mar me dão notícia da existência de um primo distante residente em Sintra (distante, pois, nos dois sentidos), proprietário de uma fábrica de móveis antigos. Vende ele, portanto, aos patrícios lusitanos, mobília velha novinha em folha, recém saída dos tornos, com cheirinho de cedro recém abatido. Imagino poltronas lascadas, descascadas, com silhuetas fora de moda, sendo produzidas em série e comercializadas como provenientes de nobres famílias decadentes que há décadas tiveram de se desfazer de seu patrimônio para saldar as dívidas acumuladas pelos anos de opulência e desregramento social. Ora, pois, fábrica de móveis antigos... Estranho, no mínimo, não?
Isso me fez lembrar de um tio-avô que vivia em minha longínqua (porém um pouco mais “pertínqua”) Ijuí natal e que possuía, no centro da cidade, uma lojinha de secos e molhados voltada aos habitantes das colônias circundantes, intitulada “Casa das Essências”. Entre os frascos de ácido acético para fazer vinagre em casa, saquinhos de ácido bórico para produzir veneno contra baratas, lúpulo e cevada para fabricar cerveja caseira e pozinhos para fazer sorvete no freezer da mãe, ele comercializava um artigo que fazia a família olhar de soslaio e torcer o nariz: bisnagas de essência de mel de abelha. E dava de graça a receita ao cliente: uma bisnaga daquelas derramada em um balde de tantos litros de água mais não sei quantos quilos de açúcar e tanáááááá! Você obtinha não sei quantos quilos de mel puro e fresquinho! Meu tio-avô tinha, assim, a capacidade de ensinar os colonos ijuienses a se transformarem em abelhas... e a ludibriarem seus clientes nas vizinhanças de Santo Ângelo, Cruz Alta, Catuípe e outras proximidades.
Ainda não descobri qual o ente familiar que une esse meu tio-avô com o tal primo distante residente em Sintra. Espero que seja bem longínquo mesmo. E rezo para que a propensão não integre a carga genética da família, uma vez que eu, por ora, apenas ludibrio telas em branco de computador por meio dessas semanais maltraçadas linhas virtuais...
(Crônica publicada no jornal Pioneiro em 21 de outubro de 2011)

domingo, 16 de outubro de 2011

Essas sensações que nos invadem

Não quer dizer muita coisa se o céu amanhece azul, despovoado de nuvens, especialmente depois de vários dias chuvosos que nos obrigaram a preferir ficar em casa a ter de esgueirar-se pelas quebradas da cidade em cumprimento de nossos incessantes deveres de existir. Não quer dizer se a temperatura está amena, convidando as camisas de manga curta dos rapazes e as saias das moças a se espreguiçarem e saltarem dos roupeiros para acompanhar nossos corpos a desfilar pelos shopping centers da região. Não quer dizer se é início de primavera e inesperadas pétalas de rosa pousam em nosso jardim, trazidas de longe por um rápido pé de vento morno que, de passagem, despenteia a legião de vizinhos que se encaminha para a parada de ônibus ali da esquina, rumo a mais um capítulo de suas vidas.
Nada disso quer dizer coisa alguma se, justamente naquele dia, sua alma acorda chovendo para dentro. Às vezes, não tem explicação, não há motivo racional e identificável nenhum que justifique esse estado de espírito que te deixa amarrotado nas ideias e lento de movimentos. Às vezes, é simplesmente isso mesmo: lá fora é primavera e você se faz inverno. Algo desregulou o ciclo das estações de seu estado de espírito e coloca você em descompasso com a atmosfera que o circunda, e nem adianta ficar buscando motivos. O canto feliz de um pássaro equilibrado no fio do poste de luz ali fora desvia a sua atenção de si por alguns segundos, mas nem isso é capaz de içá-lo para a superfície do poço em que o ato de ser e estar se transformou repentinamente.
Quando isso ocorre em um final de semana ou feriado, uma boa maneira de lidar com a coisa é aproveitar o excesso de pena de si mesmo para tentar transformar a sensação em inspiração para a produção de um poema sensível. É claro que, via de regra, você no máximo vai conseguir deitar ao papel um poema meloso, repleto de lugares-comuns e candidato a aterrissar em seguida no cesto do lixo (isso se você for uma pessoa dotada de bom senso e de um grau mínimo de autocrítica). Mas quando o fenômeno se dá em dia normal de trabalho, em que é preciso arregimentar forças psíquicas a partir de reservas emocionais que nem mesmo você imaginava possuir, aí, meu amigo, a coisa aperta mesmo, e qualquer movimento causa uma dor inexplicável que você sente não se sabe exatamente onde, mas percebe que ela está ali, incomodando, e não há aspirina que a extirpe.
O feitiço, porém, nem sempre é tão poderoso, e basta uma gentileza inesperada, um telefonema amigo, um sorriso brilhante acompanhado de um “bom-dia” pronunciado com vontade, para que a nuvem se desfaça e retomemos nas mãos a condução de mais um fundamental dia de nossas vidas, como o são todos aqueles que nos são dados viver. Nunca sabemos o poder curativo alheio que existe latente em pequenos gestos que muitas vezes esquecemos de exercitar. Sim, senhores, essa é uma crônica de autoajuda. Tenho o direito adquirido de, uma vez na vida, praticar uma delas. Aliviou meu início de dia.
(Crônica publicada no jornal Informante em 14 de outubro de 2011)

sábado, 15 de outubro de 2011

Os olhos de quem vê

Nós, jornalistas, aprendemos cedo, nas aulas de jornalismo, que não existe verdade absoluta, apesar de a busca pela fidelidade dos fatos ser o dever primordial e incansável de nossa profissão, semelhante à sina dos cavaleiros andantes em suas jornadas à procura do Santo Graal. Como bem sabemos os que lemos as lendas arturianas, encontrar de fato o cálice sagrado é o ponto menos importante da jornada. O processo de transformação do cavaleiro se dá justamente durante o transcorrer da busca, quando, ao enfrentar perigos, ocorre o fenômeno do autoconhecimento e o consequente amadurecimento do personagem, que seria, em última instância, simbolicamente, a conquista do Graal.
Nós, jornalistas andantes, temos ciência de que não existem verdades absolutas, mas, sim, versões dessas verdades, narradas a partir da ótica de cada testemunha. Tenho um exemplo claro e vívido da veracidade desse axioma sempre que me ponho a assistir a uma partida de futebol sentado no sofá da sala de casa, ao lado de minha esposa. Somos apenas duas pessoas compartilhando o mesmo ambiente (o gato não conta aqui, pelo bem da credibilidade jornalística), mas assistimos a partidas diferentes.
Terça-feira à noite o fenômeno se repetiu, durante o amistoso da Seleção Brasileira contra o México. Arrepiei-me de susto quando, no segundo tempo, um atacante mexicano atentou contra nossa meta e um valoroso cruzado amarelo de nossa zaga cabeceou o arredondado Graal para a linha de fundo, sobre o travessão. Suspirei de alívio, enquanto minha mulher se torcia de raiva ao meu lado, exclamando: “Droga, ele cabeceou mal e botou para fora”! Mirei-a, aparvalhado, até perceber que, enquanto eu via o México atacando e nós defendendo bravamente, ela testemunhava outra situação: imaginava que quem atacava era o Brasil, e o zagueiro defensor salvador da pátria se transformava, aos olhos dela, em um incompetente atacante que cabeceara para fora. Ela havia confundido os lados do campo.
Quantas vezes em nossas vidas, ao acelerarmos nossos prejulgamentos e preconceitos de plantão, não estamos nos colocando no campo inverso de uma situação? É quando corremos o risco de botar bola fora ou de cometer gol contra.
(Crônica publicada no jornal Pioneiro em 14 de outubro de 2011)

sexta-feira, 14 de outubro de 2011

Eu tenho um sonho

Eu tenho um sonho. Não exatamente igual ao do líder religioso e social norte-americano Martin Luther King (1929-1968), mas tenho também um sonho e, em minha fé de sonhador, julgo-o concretizável. Enquanto estou desperto, imagino esse meu sonho tão fervorosamente que chego a sonhar de fato com ele quando estou dormindo. Assim, o sonho-esperança que alimento acordado se transforma em sonho-sonhado quando durmo, ambos unindo forças psíquicas na construção do desejo de transformá-lo em parte integrante da realidade.
Meu sonho, esse, é ver, um dia, o livro transformado em objeto de desejo das massas planetárias, a ponto de ser disputado pelas pessoas, e a literatura transformada em obsessão intercontinental da mesma forma como acontece com o rock and roll e com a música sertaneja. Gostaria de viver em uma era em que seria temerário deixar um livro à vista em cima do banco traseiro do veículo quando estacionasse em algum parque e me afastasse, correndo o risco de ver meu carro arrombado e o livro furtado por temerários e destemidos ladrões de cultura. Tudo contra o crime de roubar, nada a favor do roubo de livros, mas tudo a favor do desejo incontrolável de possuí-los e querer lê-los, a ponto de ser arriscado deixá-los à solta, o que, atualmente, não é o que acontece.
Observe a solidão de um pobre livro abandonado em um banco de praça. Quantas horas você imagina que ele ficará ali, jogado ao sabor das intempéries e vulnerável à mira certeira dos pombos, antes que alguém se interesse me recolhê-lo e dar-lhe o abrigo de um lar e o aconchego de um par de olhos que se coloquem a lê-lo? Cruel mundo esse, que não se preocupa um pingo sequer com a orfandade dos livros. Até as baleias já têm quem as defenda e perca por elas o sono. Já os livros, disparam olhares esperançosos por detrás dos vidros das vitrines das livrarias a cada raro transeunte que para e olha, mas mais raros ainda são os que escutam o chamado, entram e adotam um deles, por módicos valores.
Quisera eu viver em um mundo em que uma palestra de um escritor lotasse estádios de futebol com pessoas interessadas em ouvir o que ele tem a dizer, além daquilo que já escreveu e que a tantos encantou por meio do deleite da leitura. Que surgisse uma revista semanal intitulada “Rostos, Folhas de”, esmiuçando a vida pessoal dos escritores para saciar a fome de conhecimento sobre suas interessantíssimas personalidades, as páginas com muitos textos e poucas fotos. Que as tiragens de suas obras fossem contadas às dezenas de milhares e que escritores fossem convidados para protagonizar comerciais de televisão e campanhas beneficentes. Que os escritores virassem celebridades a ponto de serem convidados para participar de reality shows televisivos intitulados “Casa dos Escribas” e ficassem confinados lá dentro meses e meses debatendo literatura e levando a audiência das televisões a estratosféricas alturas.
Mas, como eu disse lá no começo, o que eu tenho é um sonho. Acho que ando lendo demais...
(Publicado na seção "Planeta Livro" da revista Acontece Sul, edição de outubro de 2011)

sexta-feira, 7 de outubro de 2011

A alegria do lixo

Tenho uma leve desconfiança de que alguns dos sacos de lixo produzidos aqui em casa estão entre os mais faceiros de Caxias do Sul. Isso se explica pelo fato de que não é raro eles serem levados para passear por vários pontos da cidade, esquecidos no porta-malas do carro, quando deveriam ter sido somente transportados até cinco quadras adiante e despachados nos coletores seletivos públicos ali instalados.
A mente atopetada de pensamentos que transitam pelos compromissos a serem cumpridos assim que a chave faz o motor do veículo girar acaba esquecendo frequentemente dos passageiros detritais recém colocados no bagageiro e me faz rumar direto para o centro da cidade ou para outros bairros no atendimento a reuniões de trabalho, entrevistas, pesquisas e demais atividades. E lá seguem junto os saquinhos repletos de descartes, pulando alegremente a cada solavanco proporcionado por quebra-molas, eventuais buracos, freadas e arrancadas.
Poderia até imaginar a algazarra deles circulando pelas ruas da cidade, gargalhando a cada nova arrancada e fazendo piruetas no claustrofóbico espaço do porta-malas durante a rodagem pelas perimetrais. Dia desses só fui me dar por conta de que os havia esquecido ali quando sua presença foi denunciada pelo trabalho atento de meu nariz, que reconheceu dentro do veículo o aroma da sobra do macarrão almoçado no dia anterior. Descartei-os em uma lixeira em Farroupilha, os mais viajados de todos.
Nada disso se compara ao episódio provocado pela distração de uma ex-colega minha de jornal, que, certa feita, ainda estudante de jornalismo, saiu de casa apressadamente para pegar o ônibus e ir para a universidade levando consigo o saquinho de lixo que deveria ter sido descartado na lixeira da esquina do prédio onde morava. Deu-se conta de que transportava o repelente volume consigo só quando ergueu o braço para se segurar no corrimão do ônibus lotado, já em movimento, e encarou o saquinho face a face, ali, feliz da vida, agarrado à sua mão e indo para o campus com ela. Nessa sociedade de consumo e do descarte, não são todos que conseguem se livrar fácil do lixo que produzem. E isso que, por enquanto, nem estou sendo metafórico...
(Crônica publicada no jornal Pioneiro em 7 de outubro de 2011)

domingo, 2 de outubro de 2011

Uma mágica dica

Na infância e adolescência vividas em Ijuí, minha cidade natal, nossa casa situava-se no número 119 da Rua dos Viajantes. O maior viajante da rua – de não mais de 400 metros de extensão ­–, tenho certeza, era eu, que passava as tardes depois das aulas – e dos respectivos deveres – sentado sob a sombra de uma grande timbaúva que imperava no centro do pátio, lendo. Nesses primeiros destinos a que fui conduzido por minhas incipientes leituras, um dos portos mais significativos em que desembarquei foi no das crônicas de Luis Fernando Verissimo, pelo início dos anos 80 do século passado.
Lá se vão já umas boas dumas três décadas, quando eu vivia aqueles meus 15 anos com o cheiro de carro novo que essas primeiras idades trazem com elas. Certa tarde, cansado de produzir histórias em quadrinhos com canetinhas hidrocor ajoelhado ao lado de minha cama, fui tomado por um impulso de proatividade e corri para a máquina de escrever que eu tinha ali, sempre à minha disposição, sobre a escrivaninha de madeira (sobre a qual repousa hoje o notebook em que elaboro essas crônicas, daqui de Caxias do Sul), e decidi escrever uma carta. Até aí, nenhuma novidade, pois naquela época eu era um missivista dedicado, possuindo uma extensa rede de amigos (numa era pré-facebook) epistolares espalhados por todos os cantos do país, com os quais debatia assuntos diversos. O novo e a ousadia residiam no destinatário a quem, daquela vez, enviaria uma tentativa de contato: Luis Fernando Verissimo, o escritor que eu tanto começava a admirar.
Enfiei o papel na máquina e mandei bala nas teclas, fazendo saltitar a fita bicolor (preto e vermelho) e externando minha admiração pelo autor, revelando que eu acalentava o sonho de um dia me tornar escritor e, na ingenuidade daqueles priscos anos, solicitando dicas que pudessem me auxiliar na condução para o sucesso. Envelopei a missiva, colei os selos com cola Tenaz, caminhei até o centro da cidade e despachei pelo Correio a ousadia endereçada à Editora L&PM, que na época publicava suas obras. Duas semanas depois, a leitura de algum livro de Sherlock Holmes, à qual eu me dedicava em outra mormacenta tarde ijuiense na Rua dos Viajantes, foi interrompida pela chegada do carteiro que, entre o maço de correspondências, me brindava com uma inacreditável resposta de próprio punho escrita por Luis Fernando Verissimo. Baita viagem! E, daquela vez, real!
O cronista gaúcho aniversariou na última segunda-feira, dia 26 de setembro, quando completou 75 anos de idade. Fazendo rápidos e fáceis cálculos, concluí que ele tinha mais ou menos a idade que possuo hoje, quando, 30 anos atrás, roubou pedaços de seu tempo para dar atenção a um fedelho ousado que lhe escrevia pedindo dicas mágicas para virar escritor. Não revelo o conteúdo da carta, que obviamente guardo como relíquia até hoje, juntamente com as outras duas que ele me enviou na época, e das quais certamente não se lembra. Só sei que, em dado momento, quando tocava na questão da fórmula mágica, ele citava a necessidade de obter ingredientes como filtros fumegantes e pêlos de núbias virgens. Meu problema, pensando bem, não foram as viagens a partir da Rua dos Viajantes... foi, isso sim, nunca ter investigado o que eram núbias...
(Crônica publicada no jornal Informante, de Farroupilha, em 30 de setembro de 2011)

sexta-feira, 30 de setembro de 2011

Embarque na Praça Dante

Atenção senhores passageiros do voo 027 partindo de Caxias do Sul com destino às mais altas nuvens da literatura local, nacional e universal, favor dirigirem-se a partir desta sexta-feira ao portão de embarque da Praça Dante Alighieri. A decolagem está prevista para logo mais, às 18h30min, na plataforma do palco central da Feira do Livro de Caxias do Sul. Tenham em mãos seus cartões de embarque, constituídos pela vontade de ler, de vasculhar livros, de circular pelos estandes das livrarias, de encontrar pessoas, de bater papo com autores, de capturar autógrafos nas sessões de lançamento, de participar dos debates, de ler no Leiturário, de frequentar o café literário, de respirar cultura.
A previsão de duração de voo até o nosso destino, as paradisíacas praias do crescimento pessoal a partir da leitura, é de 17 dias, independentemente de sol ou chuva, uma vez que não existe mau tempo quando se trata de alçar a viagem da literatura. Sobrevoaremos ininterruptamente a Praça Dante, nos esforçando para proporcionar a todos os passageiros o melhor serviço de bordo capaz de agradar aos clientes de nossa companhia literária. No cardápio, oferecemos uma dieta de leitura farta, eclética e compatível com todos os gostos, da poesia à crônica, do romance à autoajuda, dos contos às fábulas, apta a alimentar os espíritos de todas as gentes.
Oferecemos às crianças que optam por nossos serviços um atendimento personalizado, com cabines especialmente projetadas para os seus interesses e gostos, bem como uma programação específica elaborada no sentido de fidelizá-las para sempre em nossa companhia e na dos livros. Em caso de turbulência, não se espantem: é apenas o tremor causado pela algazarra dos pequenos leitores correndo a bordo de nossa aeronave, entusiasmados com a diversidade de livros a seu dispor durante o passeio.
Não há distinções de classe em nossa aeronave, sendo permitido o acesso livre dos passageiros a todas as dependências existentes, criadas para o deleite de todos. Se a bagagem de mão forem livros, não há nenhum limite de peso por passageiro. Desapertem os cintos, circulem à vontade e uma ótima viagem a todos, sob os cuidados da comandante Luiza Motta e do patrono-piloto Marco de Menezes.
(Crônica publicada no jornal Pioneiro em 30 de setembro de 2011)

sexta-feira, 23 de setembro de 2011

Foi sempre assim?

Estou convicto de que a evolução é uma das mais significativas características que moldam a história da humanidade através das eras. Mais do que a mera evolução biológica, interessa-me a evolução social de nossa espécie, manifestada por meio do aprimoramento dos indivíduos em si, das regras das sociedades em que convivem e, por consequência, do próprio conceito de humanidade. A evolução é um processo contínuo e permanente de transformação, na busca por melhores condições de vida a todos.
O contrário desse processo é a inércia, a estagnação, que agem como forças poderosas regidas pelos interesses sempre de alguns poucos, no sentido de manter privilégios em detrimento do alargamento do bem comum. A evolução, portanto, não se dá de forma natural, mas, sim, decorre da determinação de indivíduos ou grupos de indivíduos que se municiam da coragem necessária para empreender as transformações que alteram o quadro vigente e alçam a história para novos e mais significativos patamares.
“Sempre foi desse jeito, as coisas sempre foram assim” é o falso argumento que sustenta a tentativa de manutenção de uma situação que começa a caducar frente a uma nova visão de mundo que se estabelece. Até o início do século 18, na Europa, por exemplo, a visão que se tinha de poder político era aquela que conferia aos reis o dom divino de governar. “Sempre fora assim”, até que começaram a entrar em cena as visões transformadoras do filósofo Jean-Jaques Rousseou, afirmando que o poder político emanava era do povo, e não de Deus.
Africanos foram capturados, feitos prisioneiros e trazidos ao Novo Mundo para serem escravos e servirem aos senhores brancos. “Sempre fora assim”, até que, enfim, o “assim” ficou inaceitável e foi mudado. Mulheres não tinham direito a voto, nem a voz, nem ao mercado de trabalho, como “sempre”. Até que o “sempre” foi questionado e transformado. Tudo o que “sempre foi assim” acaba chegando ao fim quando seus propósitos não atendem mais aos anseios de uma comunidade em constante processo de transformação. É preciso estar em sintonia com os novos tempos, para não correr o risco de ter a cabeça guilhotinada por defender arcaísmos.
(Crônica publicada no jornal Pioneiro em 23 de setembro de 2011)

domingo, 18 de setembro de 2011

Miseri Coloni: 30 Anos de Palco



Meu mais novo livro, "Míseri Coloni: 30 Anos de Palco", será lançado, com sessão de autógrafos, na Sala de Autógrafos da 27ª Feira do Livro de Caxias do Sul, dia 1º de outubro (sábado), a partir das 17h, na Praça Dante Alighieri. Estão todos convidados.


O embrião para o surgimento de um dos mais importantes polos geradores de cultura e de resguardo das tradições regionais surgiu em Caxias do Sul durante um típico dia de chuva que acelerava o cotidiano no centro da cidade, no hoje distante ano de 1981. A partir de um encontro casual proporcionado por aquele cenário urbano, Arcangelo Zorzi Neto e Pedro Parenti tiveram a ideia de formar um grupo de teatro que resgatasse os costumes e a cultura dos descendentes de imigrantes italianos localizados na região da Serra Gaúcha, mantendo vivo o dialeto vêneto e levando a arte do palco a localidades interioranas que jamais haviam tido contato com essa forma de expressão artística.
Surgia ali o grupo teatral Miseri Coloni que, ao longo dessas últimas três décadas, ultrapassou os objetivos iniciais e estabeleceu-se como um foco produtor de arte de primeira qualidade, protagonizando um capítulo fundamental na história da cultura de Caxias do Sul, da região e do Rio Grande do Sul. Montagens como “Nanetto Pipetta”, “Quatrilio”, “De Là Del Mar” e outras encantaram plateias em capelas e salões paroquiais no interior bem como nos palcos urbanos de cidades gaúchas, de fora do Estado e até do exterior.
A trajetória do grupo, os detalhes de sua formação, a montagem de todos os espetáculos e saborosas histórias de bastidores são a tônica do livro “Miseri Coloni: 30 Anos de Palco”, escrito pelo jornalista e escritor Marcos Fernando Kirst, a partir de depoimentos de seus integrantes e de um profundo trabalho de pesquisa em documentos e recortes de jornais. A obra, com 248 páginas, foi aprovada pelo Financiarte e sai sob o selo da Editora Maneco, trazendo ainda ilustrações feitas pelo artista plástico Antonio Giacomin.

sábado, 17 de setembro de 2011

De geração em geração

Adultos são malas. Todo adulto ou esqueceu que já foi criança e adolescente ou idealiza a sua própria infância e adolescência, querendo convencer a si mesmo de que, quando tinha aquelas idades, já era uma pessoa madura, consequente, refinada, perspicaz, mansa, obediente, culta e tudo o mais de bom que se possa imaginar. Fala sério. Se isso for verdade, então você de fato nunca foi criança e sua adolescência foi vivida em um colégio interno de freiras otomanas. Se não isso, só resta uma alternativa: está mentindo. Adulto mentiroso? Belo exemplo para as novas gerações, hein?
Veja a questão do cantor-mirim Justin Bieber, esse que vem ao Brasil em outubro e que deixa a molecada eletrizada de expectativa. Canso de escutar adultos malhando o menino, criticando o suposto mau gosto da gurizada e implicando com o cantor tachando-o de mero produto de mídia e marketing, desprovido de talento e de estofo artístico. Ora, pois, senão vejamos. Em primeiro lugar, a discussão relativa ao gosto musical de cada um não tem cabimento. Esperava-se o quê? Que a meninada fosse, aos 10, 12 anos de idade, fã incondicional de Beethoven, de Villa-Lobos, dos Beatles?
Aliás, falando em Beatles, só para recordar algumas coisinhas aos maladultos de plantão... Se hoje o grupo britânico é universalmente aceito como “clássico” do rock and roll, criador das mais belas canções pop que perduram em nossas mentes até a atualidade, é bom lembrar que, quando estouraram na mídia, no alvorecer da década de 60 do século passado, eles se constituíam em um fenômeno eminentemente adolescente. Quem comprava os discos, quem ia aos shows, quem gritava histericamente os nomes de John, Paul, George e Ringo, eram menininhas (e alguns meninos) de 12 a 15 anos, criando aquilo que entrou para a história como “beatlemania”. Adultos só passaram a prestar atenção na banda algum tempo depois, quando o som dos caras também começou a amadurecer. Hoje, porém, qualquer sessentão grisalho e barrigudo sacode o pezinho ao som de “Please, please me” e “I wanna hold your hand”, achando-se cidadão de bom gosto (eu incluso, apesar de apenas quarentão).
E tem mais. Deem graças a Deus (e aos marketeiros internacionais) por seus filhos, sobrinhos, netos, afilhados, priminhos pendurarem em seus quartos pôsteres de Justin Bieber, que não passa de fase passageira e se constitui, em última instância, em entretenimento sadio. E rezem para que, quando se tornarem adultos, não troquem as imagens dele enquanto ídolo por cartazes de Fernandinho Beira-Mar ou de políticos como aqueles que dizem estarem se lixando para a opinião pública, só para citar algumas podridões que infestam a sociedade.
A que ponto de maturidade cheguei... defendendo Justin Bieber... Realmente, acho que não tive infância...
(Crônica publicada no jornal Informante, de Farroupilha, em 16 de setembro de 2011)

sexta-feira, 16 de setembro de 2011

Herança psíquica

Como é a primeira vez que os atentados terroristas ao World Trade Center completam dez anos (e seguramente será a única), julguei cabível seguir com algumas reflexões a que dei início na semana passada, quando recordava o clima sombrio de expectativa apocalíptica que se apoderou de boa parte do mundo nos dias subsequentes ao fato e que acabaram marcando a psiquê coletiva deste início de novo século. Como eu era editor de Mundo no Pioneiro à época do 11 de setembro de 2001 e coordenei a cobertura feita pelo jornal, guardei, naturalmente, a título de recordação, exemplares das primeiras edições especiais cobrindo os fatos.
Hoje, passado esse tempo, aquelas páginas falam muito sobre como o mundo mudou em apenas uma década. A edição do dia 12 de setembro trazia, em 14 páginas, os fatos ainda em boa parte desconexos que atordoavam o planeta e sabíamos que entravam para a história da humanidade. Já a edição de 13 de setembro, mancheteada como “O dia seguinte”, trazia os rescaldos iniciais dos atentados e começava a apontar suspeitos e possíveis reações de retaliação por parte dos norte-americanos, aprofundando a sensação de catástrofe iminente que tomava o mundo.
Mas o que me chamou a atenção, folheando essa última edição em específico, foi o anúncio da Lojas Arno publicado na página 5 do jornal, exibindo os preços imperdíveis dos artigos mais procurados na época. Entre eles, me detive em uma máquina de escrever elétrica Olivetti Práxis, com memória de 7 mil caracteres e inserção automática de papel. Ainda vendia-se máquinas de escrever em 2001! Quanta coisa mudou em dez anos: as Torres Gêmeas não existem mais; a Lojas Arno foi vendida e máquinas de escrever só despertam o interesse de arqueólogos da tecnologia.
Dia desses viajei ao exterior. Na ida, tive de tirar até o cinto das calças e segurá-la com as mãos para ser aprovado pelo detector de metais no aeroporto. Na volta, tive de deixar de presente na alfândega um vidrinho de licor que trazia de lembrança e esqueci na bagagem de mão. Desde 11 de setembro de 2001, até eu posso ser um terrorista. E isso que, até agora, só assassinei minhas antigas máquinas de escrever...
(Crônica publicada no jornal Pioneiro em 16 de setembro de 2011)

quarta-feira, 14 de setembro de 2011

A renovação de um deleite

Se a primeira impressão é a que fica, o mesmo se dá com as sensações. O contato primordial com algo que nos confere prazer vem carregado de tamanha força psíquica que nos fica impressa a sensação na alma de tal maneira que, no transcorrer de nossas existências, passamos em vão tentando resgatar com a repetição do ato, sempre sem sucesso.
O sabor do chocolate, por exemplo. Houve alguma vez, lá na longínqua infância, em que nossas papilas gustativas tiveram pela primeiríssima vez a alegria de se verem confrontadas com o gosto e o sabor apaixonante de uma barra de chocolate, amorosamente ofertada por algum de nossos parentes. Lambuzamo-nos as mãos e a boca em uma sessão de alegria infantil frente ao maravilhamento que aquela sensação primordial provocava em todos os nossos sentidos, descobrindo um deleite até então jamais vivenciado. Dali para adiante, sempre que rasgamos o invólucro de algum chocolate qualquer, inconscientemente estamos tentando repetir em nossos sentidos a mesma explosão de prazer que ocorreu naquela vez primeira, mas esse efeito jamais será repetido em igual intensidade. Nossa busca, no entanto, é incessante, e passamos a vida a comer chocolates, degustar vinhos, fazer amor, escutar (e reescutar milhares de vezes) a mesma música, praticar os mesmos atos.
O escritor francês Philippe Delerm publicou um livrinho intitulado “O primeiro gole da cerveja” (Editora Rocco), em que enfileira algumas dezenas de crônicas versando sobre a questão dos singelos prazeres que tornam nossas vidas mais deliciosas. E justamente o texto que dá título ao livro é o que se refere à sensação primeira de um prazer, no caso, o ato de saborear um copo de cerveja. Segundo Delerm, nenhum dos goles seguintes se equipara ao prazer do primeiro, fazendo eco à teoria que estou aqui defendendo.
Algumas vezes, no entanto, é possível acontecer um raro fenômeno de epifania, quando estamos a repetir pela milionésima vez um prazer já conhecido e, sem que esperemos, somos possuídos pela sensação explosiva e arrebatadora do novo. É a renovação do prazer, algo que ocorre uma vez em duzentos trilhões, conforme pesquisas recentes que eu gostaria que de fato existissem. Deu-se comigo anos atrás quando experimentei pela primeira vez um vinho chileno produzido com a uva carmenére, que me renovou a sensação de degustar algo realmente novo em termos de varietais viníferas. E dá-se comigo, na razão de uma vez a cada dez anos, no quesito da leitura.
Lá de vez em quando, em meio a tantos livros (e a tantos livros bons, importante ressaltar), ocorre de me cair em mãos a leitura de um texto que renova meu prazer primeiro de estar tendo o contato com um tecelão da genialidade da escrita. Que sensação deliciosa! Deu-se comigo cerca de dez anos atrás, quando li meu primeiro Ítalo Calvino (“As Cidades Invisíveis”), o que me obrigou a adquirir e ler de um fôlego só toda a sua obra. E deu-se agora, neste 2011, ao ler os dois únicos livros escritos pelo mexicano Juan Rulfo (1917-1986), “Pedro Páramo” (romance de 1955) e “Chão em Chamas” (contos, de 1953). Estou extasiado. Amortecido pela inundação do prazer primeiro de uma sedutora leitura, como se nunca tivesse lido algo tão bom antes.
Bom mesmo é ter a certeza de que, prosseguindo nesse ritual de leituras incessantes, haverei de ainda ser brindado com a repetição da unicidade deste prazer ainda várias vezes ao longo da vida. É a recompensa pela dedicação à leitura, que sempre está à espreita dos leitores por vocação.
(Texto publicado na seção "Planeta Livro" da revista Acontece Sul, em setembro de 2011)

sexta-feira, 9 de setembro de 2011

Quando o terror bateu à porta



Dez anos atrás, eu era editor de Mundo do jornal Pioneiro. Na manhã daquela terça-feira, 11 de setembro, eu estava em casa, me preparando para ir ao trabalho, quando meu vizinho e colega, o também jornalista Daniel Corrêa, então editor de Polícia, chamou-me junto à cerca, apavorado, dizendo para eu ligar a televisão que estava acontecendo algo estranho em Nova York. Liguei o aparelho e vi a inesquecível imagem de uma das torres do World Trade Center em chamas, com a informação de que um avião havia colidido contra ela. Corri para o jornal, a fim de solicitar um espaço especial para minha editoria, já prevendo que a notícia seria importante. Naquele momento, não imaginava ainda que estava presenciando um capítulo dos mais importantes da história do mundo moderno.
Chegando lá, os televisores da redação já estavam sintonizados nos canais que transmitiam as imagens e, sem perceber na hora, assisti ao vivo ao choque do segundo avião contra a segunda torre. Na hora, imaginei estar vendo a reprise da primeira colisão. Só depois percebi que a dimensão do que estava acontecendo não se enquadrava na seara das catástrofes acidentais e apontava para um ataque planejado. O que senti naquele momento, e nos dias seguintes, em que o cenário do que havia realmente ocorrido se clareava aos poucos, foi medo. Muito medo.
Tive um temor profundo, decorrente da possibilidade de estar presenciando o início de um catastrófico conflito mundial, nuclear e apocalíptico. A ansiedade gerada pelos anos de Guerra Fria já havia sido eliminada e um conflito atômico era assunto que fora varrido para debaixo dos tapetes. Agora, o sinal vermelho reacendia, rugindo alto. Lembro de, nos dias seguintes, ter levantado da cama e ficado a observar o sol nos amanheceres, imaginando que estávamos vivendo o prelúdio de uma guerra mundial que não se confirmou.
A Terceira Guerra Mundial não aconteceu, o mundo não acabou. Apenas ficou mais sombrio, e os efeitos da ressaca psíquica mundial causada pelo episódio se prolongam até os dias de hoje, com uma humanidade cada vez mais desconfiada e individualista. Tomara consigamos reverter o processo.
(Crônica publicada no jornal Pioneiro em 9 de setembro de 2011)

segunda-feira, 5 de setembro de 2011

Bichos papões

(O temperamento bufante do Lobo Mau comprometia minha paz de espírito na infância)


Assim como são as coisas, são também as pessoas: quanto mais crescem, maiores ficam, pois não? Pois sim, e podemos inserir aí nesse balaio os nossos temores, que interessantemente também vão evoluindo (ou, ao menos, se modificando) com o passar do tempo. Vejam só:
Quando eu era ainda bem pequeninho, vivendo aquilo que chamam de tenra infância, recordo que meu medo primordial era do bicho-papão. Se eu não fizesse as coisas direito, diziam que o bicho-papão viria me pegar. Em meus devaneios, eu me via entornando o prato fundo de mingau e, ato contínuo, sendo pego pelo pé e arrancado à força da cadeirinha pela mão viscosa e verde do bicho-papão, que me arrastaria até debaixo da minha cama (de cuja escuridão eu sempre procurava me manter previdentemente afastado) e lá transformaria a mim mesmo em mingau para ser papado por ele e justificar assim o apelido. Muito de mingau empapei-me temendo o bicho-papão, ora vos conto.
Um pouco mais tarde, já crescidinho, me borrava de medo do Lobo Mau, aquele que atazanava a vida dos Três Porquinhos assoprando as casas deles até que caíssem (sofria de Síndrome de Katrina, aquele bicho bufante). Eu tinha uma coleção de disquinhos de vinil com histórias da Disney, e vivia repetindo o dos Três Porquinhos, mesmo ciente de que, sempre que entrasse em cena a voz do Lobo Mau dizendo “Eu bufo, eu sopro, até a casa despencar, e esses porcos eu vou agarrar”, eu arrepiaria as jovens penugens do pescoço de medo. Muito medo.
Depois, na pré-adolescência, passei a ficar com medo do demônio. Achava que ele viria entrar no meu corpo se eu fizesse coisas erradas, se cometesse pecados, se cultivasse pensamentos malvados, se dissesse nomes feios, se ficasse excitado imaginando estar perdido numa lagoa azul junto com a atriz Brooke Shields e ela nuazinha ao meu lado. Como era impossível não dizer nomes feios e não pensar nos seios da Brooke Shields, tinha certeza de que, a qualquer dobrada no corredor de casa, meu corpo seria possuído pelo demônio e não haveria Cristo que me salvasse. Mas depois vi a Lidia Brondi pelada na Playboy e não me aconteceu nada, e na sequencia vieram a Claudia Ohana (primeira versão, agreste), a Nádia Lippi, a Yoná Magalhães, e nada de ruim me aconteceu, muito antes pelo contrário, e mandei o demônio ir catar coquinhos.
Daí cresci, fiquei adulto e, sem perceber, exorcizei os temores imaginários sem fazer esforço para isso. Meu medo agora é outro, mas não menos apavorante. Tenho medo dos maus políticos. Um medo que me pelo. Medo que faz minhas grisalhas penugens da nuca arrepiarem sempre que vejo as maracutaias que eles aprontam, e as consequências diretas disso no dia-a-dia dos cidadãos, como a insegurança, a buraqueira nas estradas, o colapso da saúde pública etc etc. Sinceramente? Ai, que saudades do Lobo Mau...
(Crônica publicada no jornal Informante, de Farroupilha, em 2 de setembro de 2011)

sexta-feira, 2 de setembro de 2011

A utilidade do dedo

(Todos os meus dedões em ação, tentando domar a esperteza de meu telefone esperto)


Enfim, ingressei na era digital. E isso literalmente falando, porque quem me conduziu a esse novo status foi meu dedão da mão direita, que se revelou um expert em questões digitais. Agora pertenço à casta dos cidadãos planetários que utilizam o dedão para se comunicar com o mundo, dedilhando com ele as teclas do meu moderníssimo telefone celular. Ele, meu dedão, entrou em cena na condição de protagonista desde que ganhei um smartphone, que, como sugere o nome estrangeirado do aparelho, trata-se de um telefone celular esperto, cujos comandos respondem ao toque do dedo na tela (isso se chama touchscreen, ok?).
Sempre invejava a inserção tecnológica representada pela galera que manipulava seus celulares usando com destreza o dedão da própria mão que segura o aparelho. Orangotangos não conseguem fazer isso, e eu me sentia um orangotango. Mas agora desci das árvores e estou inserido via meu dedão, que, após 45 anos de existência, ganhou uma função a mais: colocar-me em contato com o hodierno mundo das comunicações.
Antes, meu dedão servia para poucas e simples funções, como produzir o sinal de “positivo” quando desejava mostrar satisfação com algo, ou de “negativo” para aplicar em situações contrárias. Ele também era fundamental para represar todos os demais dedos na posição de punho fechado sempre que eu me indignava com notícias políticas cabeludas. Agora, ele toca suavemente a tela de meu smartphone para abrir e-mails, tirar fotos, fazer ligações, navegar na internet etc. Refinou-se no uso, esse meu dedão.
Mas o problema é que ele continua sendo um grosso. Apesar de inserido tecnologicamente, segue sendo o grosso dedão que sempre foi, e insiste, devido à grossura que lhe é peculiar, em apertar duas ou três teclas ao mesmo tempo na delicada tela, causando-me constantes embaraços tecnológicos. Acabo telefonando para quem não quero, desligando o telefone na hora de aceitar uma chamada, apagando e-mail importante, desconfigurando o despertador e assim por diante. Tenho tentado colocar o dedinho nessas tarefas, mas as cãibras na mão têm me matado. Acho que não fui projetado anatomicamente para navegar com facilidade nesse admirável mundo novo digital...
(Crônica publicada no jornal Pioneiro em 2 de setembro de 2011)

domingo, 28 de agosto de 2011

Guias da alma humana

Imponho-me algumas regras a serem seguidas nessa minha já longeva trajetória de leitor, a fim de manter aceso o interesse pela leitura, ampliar meus horizontes literários e aprofundar meus gostos. Na estante dos “livros a serem lidos”, divido-os em cinco grupos temáticos, aos quais vou recorrendo alternadamente, para atender assim a todo o espectro de leituras que julgo serem necessárias para que eu não me torne um leitor obtuso, preguiçoso, previsível.
As cinco divisões são as seguintes: clássicos da literatura universal (desde títulos consagrados pelas eras até trabalhos recentes que alcançaram projeção); obras de não-ficção (que versem sobre assuntos vários de meu interesse); literatura geral (tudo aquilo que por algum motivo me desperta a atenção); literatura brasileira (é preciso saber o que anda sendo – ou foi – produzido no país) e literatura local (é crucial conhecer os autores que produzem literatura em nossa própria aldeia). Isto posto, vou pirilampeando pelos volumes dispostos ordenadamente junto a seus respectivos grupos, puxando para perto aquele que o momento me induz a dar início à leitura.
Mas o que tenho percebido, no andar dos anos e das leituras, é que cada vez mais meu prazer em ler é recompensado pelos chamados clássicos da literatura universal. O termo “clássico” traz em si um ingrediente fundamental, que é a qualidade do texto, a profundidade da abordagem, a competência na caracterização dos personagens e das tramas. Como é bom ler o que é bom. Conferindo minhas anotações de leituras, detecto que, nos últimos 12 meses, tive a felicidade de debruçar minha alma sobre cinco dessas obras que me proporcionaram inesquecíveis momentos de fruição do melhor da arte da escrita, e que recomendo a todo o qualquer um que tenha o desejo de vivenciar a mesma experiência. Vamos a eles.
Começamos com “A Romana”, do italiano Alberto Moravia (1907-1990). Moravia, se não tivesse sido escritor, seria um psicólogo de primeira linha, tamanha a capacidade que possui de vasculhar a psiquê dos personagens que cria. É enternecedor e ao mesmo tempo angustiante acompanhar a vida da prostituta Adriana nessa obra que prima pelo estilo simples, direto e genial. Depois, passados alguns meses, fui para “A Boa Terra”, da autora norte-americana Pearl S. Buck (1892-1973), acompanhando a saga de vida do camponês chinês Wang Lung, em uma obra que marcou época por desvendar para o Ocidente os mistérios da cultura e das tradições chinesas.
Continuei a saga de leituras com “Orgulho e Preconceito”, da inglesa Jane Austen (1775-1817), precursora dos dramas de amor a partir de um texto refinadíssimo e também da construção convincente da personalidade de seus personagens. Na sequência, conferi a famosa novela “Morte em Veneza”, do alemão Thomas Mann (1875-1955) e, por fim, a também famosa novela do norte-americano Scott Fitzgerald (1896-1940), “O Grande Gatsby”, ambas lidando, em última instância, com as consequências da incapacidade de refrear impulsos hedonistas.
Além do prazer de saborear as mais belas páginas já escritas, o que esses autores nos presenteiam é com instrumentos para melhor conhecermos, por meio da leitura de suas tramas, as nuances da alma humana. E, por óbvio, a nós mesmos. Recomendo.
(Texto publicado na seção "Planeta Livro" da revista Acontece Sul, edição de agosto de 2011)

Eu sou um viciado

Há um vício frente ao qual não consigo reunir forças suficientes para opor resistência eficaz. Pior de tudo é que ajo em relação ao problema igual ao alcoólatra que não admite estar dominado pela bebida, e insiste em sustentar a falácia de que é capaz de largá-la quando bem entender, bastando querer. Só que jamais chega o momento de querer largá-lo, e é aí que a garra do vício vai apertando seu indesatável nó.
O mesmo se dá comigo, não em relação ao álcool ou ao consumo de qualquer espécie de droga lícita ou ilícita, mas sim no quesito aquisição-compulsiva-de-livros-que-me-interessam-sobremaneira-e-que-precisam-ir-morar-lá-em-casa-agora. Não posso entrar em uma livraria que eles saltam das prateleiras e pulam no meu colo, disputando atenção e desejando seguirem comigo para uma eterna vida conjunta.
Mas minha compulsão não se restringe, logo aviso, à simples aquisição dos livros, como que atendendo a uma inclinação à mera posse e acúmulo de objetos a fim de saciar alguma tara psíquica flutuante nos recônditos de minha psiquê. Também leio compulsivamente os livros que adquiro, e procuro manter equilibrada a equação entre o volume de obras a ler e a admissão de novos títulos para dentro de casa. O problema é que a casa não aumenta espacialmente na mesma medida em que os livros vão chegando, e aí sim é que reside o perigo maior de minha compulsão. Antes de um de nós ter de sair (eu ou os livros), temo que minha esposa e o gato se unam para me internar na LLL, a Liga dos Livristas Lascivos, para desintoxicação.
Felizmente sei da existência de seres semelhantes a mim perambulando soltos por aí, o que me dá um alento. Dia desses o Germano, lá da livraria Do Arco da Velha, relatou-me o episódio de um cliente dele que telefonou-lhe da praia, no verão, avisando que ele, o cliente, passara a perna no Germano. “Por quê”? Quis saber o livreiro. “Porque eu comprei aí de ti três livros maravilhosos e em troca deixei apenas um punhado de dinheiro”. Bingo! Frase típica de presidente da LLL, que reconhece a impossibilidade de mensurar o valor de um bom livro. Depois da história, claro que alimentei meu vício comprando um livrinho...
(Crônica publicada no jornal Pioneiro em 26 de agosto de 2011)

segunda-feira, 22 de agosto de 2011

O mal do século

Não é a Aids, não é o câncer, não é o Alzheimer, não é o estresse e tampouco a depressão. A doença que simboliza o mal do século não é outra senão a velha e medieval preguiça, apresentada em sua forma mais devastadora, que é a preguiça mental. É a falta de vontade de colocar o cérebro em funcionamento o grande problema crônico que devasta milhões de seres humanos espalhados pelos quatro cantos do mundo, transformando-os, por autoindução, em robôs idiotizados cujos pescoços circulam pelas ruas servindo meramente de suporte para uma caixa craniana pesada em ossos e esvaziada pelo vácuo que represa em seu interior. Muito triste de ver, senhores.
A tal preguiça mental (doença classificada como autoimune, uma vez que é produzida pelo próprio organismo do portador) é responsável por desencadear uma série de outros sintomas correlacionados, sendo os mais comuns o desinteresse e a apatia em relação ao mundo que cerca os portadores da enfermidade. Essa manada de neoacéfalos prefere aceitar todo o tipo de informação que lhes chega sem contrapor o menor questionamento, engolindo qualquer coisa que lhes for arremessada, a exemplo dos bebês-pássaros que permanecem de bicos escancarados nos ninhos à espera do jantar que a mamãe-pássaro se incumbe de procurar. De bocarras abertas, aguardam passivamente o que o céu lhes atirar goela abaixo, e dependem da boa-vontade de terceiros para que a qualidade do cardápio seja decente. Na maioria das vezes, engolem é minhocas mesmo. Se preferirem dourados e saborosos grãos de milho, vão ter de aprender a voar e a caçar por conta própria (mas aí é necessário superar a preguiça, exatamente no ponto em que a porca começa a torcer o rabinho).
Dia desses li num jornal uma professora da PUC de São Paulo afirmando que a internet utiliza uma “retórica da infantilização” na criação de nomes de empresas virtuais que se transformam em ferramentas de uso diário, como o Google e o Yahoo, entre outros. A tese até pode estar correta, mas os exemplos foram infelizes, e faltou à pesquisadora pesquisar um pouco mais a respeito da origem dos termos que utilizou como exemplo. O Google faz referência ao número imaginário (batizado como “googol”) inventado por um matemático norte-americano (Edward Kasner), representado pelo número dez elevado à potência 100, que simboliza uma quantidade astronômica maior do que qualquer coisa mensurável no universo. É um número inatingível, maior até do que as partículas subatômicas existentes na Criação. Alguém sabia disso?
Já “Yahoo” é um termo criado pelo escritor irlandês Jonathan Swift (1667-1745), no livro “As Viagens de Gulliver”, e utilizado pelos personagens houyhnhnms para se referirem aos seres humanos, no País dos Houyhnhnms. Quer saber quem e o que são os houyhnhnms? Ah, ficaste curioso? Ótimo. Ou és sadio ou começas a se curar da doença. Leia o livro ou pesquise em fontes confiáveis, e saberás. Aliás, sabes o significado do nome de sua rua? É nome de pessoa? E já tiveste a curiosidade de saber quem foi a pessoa que dá nome à rua em que você mora?
O caminho para a cura é simples, mas não significa que seja desprovido de esforço pessoal. Deixar de ser uma anta depende de a própria anta desejar empreender um esforço mínimo (seguramente menor do que o Google) para ultrapassar a fase houyhnhnm e se transformar em um verdadeiro Yahoo. É tudo com você.
(Crônica publicada no jornal Informante, de Farroupilha, em 19 de agosto de 2011)

domingo, 21 de agosto de 2011

Elas, de novo

Pronto! Elas outra vez! As velhinhas do chá das tardes de sextas-feiras, que masoquistamente insistem em seguir lendo minhas crônicas, apesar de reiterarem o ódio que nutrem pelos meus escritos e por esse meu teimoso estilo de períodos longos que as deixa em suspenso e quase lhes rouba o fôlego ao final de cada interminável parágrafo nos quais as vírgulas pouco se fazem presentes, para desespero delas todas, e nas quais penso com certa compaixão ao depositar agora aqui algumas delas, as vírgulas, para que possam sentar um pouquinho e perceberem que não sou de todo tão mau assim, apesar de sempre reincidir no vício, como podem ver. Ponto.
Dessa vez, o que despertou a incontinência da ira delas (sempre que não se contêm elas se animam a me endereçar cartinha selada e postada em Correio, me desancando de alto a baixo) foi o tema de crônica assinada por mim aqui neste espaço, semanas atrás, a respeito do problema do vandalismo contra monumentos públicos. Odiaram elas a tal crônica, conforme sustentam na missiva, não devido ao teor do que defendi no texto, mas sim porque, conforme dizem, eu estaria abordando um tema que já fora discutido por outro cronista deste periódico, não muito tempo atrás, configurando-se portanto o fato em falta de inspiração de minha parte. E assinam, de próprios punhos, firmes e raivosos, as senhoras Fulana, Beltrana, Sicrana e Roldana, sem temor algum de se exporem frente à minha atacável figura.
O instinto de autodefesa logo me impeliu a desenterrar a máquina de escrever e iniciar a datilografia de uma resposta ao quarteto, seguindo pela linha de pensamento (e de preservação dos cronistas) que sustenta que “tudo já foi dito, mas não por todos”, justificando que os temas são restritos e o que vale é a criatividade de cada autor em abordá-los. Inspirei-me na argumentação e escrevia pensando “ahá, elas vão ver só”, quando me dei por conta de que eu jamais publicara uma crônica sobre tal assunto. Elas se enganaram de cronista. Só não se enganaram no ódio que direcionam a mim, que, a bem da verdade, não precisa de maiores justificativas para ser exercitado. Coisas da vida.
(Crônica publicada no jornal Pioneiro em 19 de agosto de 2011)

sexta-feira, 12 de agosto de 2011

Pingos valiosos

Homens têm sérias dificuldades para compreender a alma feminina. E isso por um único e irreversível motivo: são homens, pobrezinhos. Somos homens, coitados.
Felizmente, elas, às vezes, exercitando a generosidade que lhes é peculiar, deixam pingar algumas pistas que auxiliam no entendimento de seus espíritos encantadoramente complexos. Cabe a nós – ou àqueles entre nós capazes de fazê-lo – recolher esses pingos, decifrá-los e obtermos, assim, uma leve aproximação da compreensão de algum sutil aspecto do universo feminil, tão vasto e tão insondável.
Angelina Jolie, a atriz e übermãe, largou um desses pingos dia desses, em meio às declarações que conferia a algum jornalista de alguma publicação internacional. Inquirida sobre o que mais a excita em um homem, ela respondeu que não existe nada mais excitante do que um homem sendo um bom pai. Assim mesmo, curto e grosso. Sutil e delicado. Um pingo-pista raro, prontinho para ser decifrado. O login para a abertura de um vasto disco rígido de segredos propulsores da maneira mulheril de ver o mundo.
O que você, homem amigo, confrade de infortúnio de gênero, responderia a uma pergunta desse calibre, hein? “O que mais excita você em uma mulher?”. Com que tipo de asneira você logo se sairia como resposta? “A calipígia delas”, claro, especialmente em sendo macho brasileiro. “As suas curvas, reentrâncias e saliências”, para não fugir dos clichês, como se o corpo feminino fosse uma pista de corrida. Ou “os lábios, o olhar, o aroma exalado pela suavidade da pele”, se quisermos parecer românticos e diferenciados homens do sexo masculino providos de (duvidosa) alma poética. Mas não iremos muito além disso.
Quem entre nós, entre todos os integrantes de nossa planetária manada homeral, seria capaz de imaginar que uma mulher como Angelina Jolie (e bota mulher nisso, já emendaríamos imediatamente nosotros todos) valoriza a dedicação à paternidade amorosa em um homem, a ponto de exatamente esse aspecto transformar esse homem em um ser capaz de despertar nela os mais sensuais desejos? Elas querem que sejamos gente. Nenhum de nós jamais seria capaz de imaginar isso...
(Crônica publicada no jornal Pioneiro em 12 de agosto de 2011)

sábado, 6 de agosto de 2011

Fáceis descartes



Se eu fosse psicólogo e tivesse a mim mesmo como paciente, eu diagnosticaria em mim uma insana compulsão em apegar-me a determinados objetos, por razões que nem Jung seria capaz de desvendar. Deve ser alguma espécie de obsessão ou compulsão ainda não suficientemente estudada, que, se bem analisada, poderia explicar muita coisa. Que perigo!
As canetas, por exemplo. Tenho um dó profundo em desapegar-me delas, quando elas secam. Seja uma humilde Bic ponta porosa ou uma Montblanc (eis outro traço de minha megalomania, uma vez que jamais tive uma Montblanc, a BMW das canetas, e cito-a aqui apenas para obter efeitos literários), dói-me sempre n’alma despachar as pobrezinhas lixeira afora. Exauridas as suas essências tinteiras, é duro desapegar-me delas, justo elas, com as quais escrevi poesias – traços de minha alma –, crônicas – vestígios de meu olhar sob o cotidiano –, cheques – indícios do naufrágio de minhas finanças –, listas de supermercado e outras manifestações escritas de minha existência. Mas não me é fácil. Ponho-as fora, sequinhas como estão, e verto para dentro uma lágrima incolor de adeus ao pequeno objeto. Loucura, eu sei. Loucurinha do dia-a-dia, dessas que a gente cultiva sem alardear muito.
Pior é que não são só as canetas que provocam em mim tal sentimento. Tenho-o também em relação aos guarda-chuvas, especialmente ao vê-los inertes nas esquinas ou no meio-fio das calçadas em dias de chuva e vento, quando suas frágeis estruturas não resistem à violência das intempéries e transformam-se em um amarfanhado informe de pano e ferros retorcidos. É com angústia que percebo a facilidade (e até a raiva) com que os proprietários se desfazem de seus guarda-chuvas quando um súbito pé de vento os esbrodonga (esbrodongar é o verbo que melhor ilustra essa ação), tornando-os inúteis para cumprir sua tarefa. Suas carcaças são lançadas ao chão sem maiores ritos de despedida, e esfacelam-se sob as rodas do primeiro veículo que passe zunindo. Que dor.
Como nos desvencilhamos fácil de tudo aquilo que repentinamente não nos tem mais serventia. Muitas vezes, até de gente...
(Crônica publicada no jornal Pioneiro, em 5 de agosto de 2011)

sexta-feira, 5 de agosto de 2011

Quem ousa ousar?

“Temos, todos que vivemos, uma vida que é vivida e uma vida que é pensada. E a única vida que temos é essa que é dividida entre a verdadeira e a errada”. Os versos são do poeta lusitano Fernando Pessoa, e convidam a refletir sobre temas comuns a quem cultiva o hábito de ensimesmar o pensamento: a realidade da existência, os sonhos não realizados, os rumos outros que poderiam ter sido tomados, o que somos, o que deixamos de ser, o que gostaríamos de ser, o equilíbrio difícil entre vida real e vida sonhada e por aí afora.
É cada vez mais comum hoje em dia encontrarmos pessoas – ou tomarmos conhecimento por meio de relatos – que subitamente decidem mudar os rumos de suas vidas. De repente, sem maiores preâmbulos, largam o emprego onde vinham construindo carreiras sólidas e promissoras, ou mudam de cidade, ou decidem fazer um curso, ou desfazem o casamento, enfim, promovem mudanças profundas nos próprios caminhos de suas vidas, em busca da realização pessoal. Tem sido corriqueiro saber de gente que afirma ter percebido que a vida é uma só, não dá para ficar esperando que milagres chovam do céu, e optam, então, por fazer com que os milagres aconteçam dando um empurrão nas tramas do Destino, que às vezes se apresenta meio lento e desatento, convenhamos. Menos dinheiro e mais paz de espírito, menos correria e mais tempo para encher pulmões e almas de vida. Não são poucos os que têm ousado dar o passo no sentido de tornar mais real a vida pensada, conforme aponta o poeta.
Porém – sem um porém não teríamos crônica, pois não? -, há um aspecto que ainda passa batido, mesmo para essas almas que se colocam a materializar sonhos em vida. Trata-se da tendência que ainda temos de manter subentendidos sentimentos que só vamos ter coragem de expressar depois que as pessoas que nos são caras nos deixam para sempre. Escrevemos mensagens tocantes, bonitas e emocionantes em obituários, declarando o quanto amávamos nossos entes queridos e o quanto eles eram importantes em nossas vidas, como uma espécie de catarse pessoal e acerto de contas com a memória do falecido. No entanto, o falecido segue falecido, e não lerá a homenagem, não escutará as belas palavras referentes à sua memória cochichadas entre os que ficaram.
O que nos impede de dizermos claramente a essas pessoas o que sentimos em relação a elas enquanto convivem conosco? Imaginamos que basta trocarmos presentes nas datas impostas pelo calendário comercial para subentender que gostamos. Mas não basta. Temos de ter a coragem de dizê-lo – ou de escrevê-lo – em vida. A mesma coragem que às vezes temos ao chutarmos o balde e reorientarmos os prumos de nossas caminhadas. Porque depois, é tarde, e as mensagens caem em solo seco. Julgamos que acertamos as contas emocionais com quem partiu, mas na verdade ficamos é devendo. Para nós mesmos.
(Crônica publicada no jornal Informante, de Farroupilha, em 5 de agosto de 2011)

sexta-feira, 29 de julho de 2011

Vidas dubladas

Mais essa agora! Notícias de jornal revelam que a maioria do público adulto que freqüenta salas de cinema no Brasil prefere filmes dublados em detrimento dos originais legendados que trazem o som e as vozes reais dos atores. Preferem dublado! Preferem encarar a trama com metade da obra cinematográfica adulterada por meio de uma banda sonora enxertada em cima, com reincidentes vozes metálicas e repletas de ecos de estúdio. Preferem isso! Consomem arte pela metade, mas pagam preço de arte inteira. E se julgam espertos!
Tudo bem, se forem analfabetos. Infelizmente o problema ainda persiste em várias regiões do país, não somos uma Bélgica. Sei disso. E se for esse o caso, apresso-me a dizer que minha crítica não se aplica a eles. Perdoados estão os analfabetos, que obviamente não conseguem decifrar as legendas. E não se está falando aqui sobre crianças (já alfabetizadas ou não), que não possuem ainda a destreza de leitura necessária para acompanhar o ritmo dos diálogos. Outro perdão concedido aos velhinhos, que adoram cinema mas cujos reflexos visuais já não são mais os mesmos de outrora. Perdão a eles também. Pronto.
Agora voltemos aos tais dos adultos brasileiros que preferem que os filmes sejam dublados. A parte imperdoável da coisa toda reside na razão que motiva tal preferência: pura preguiça mental. Opção deliberada pelo não pensar. Desleixo com a própria inteligência. Porque preferem tudo pronto, mastigadinho. Não vão ao cinema para degustar uma obra completa, como são os filmes, que reúnem o melhor de todas as artes (roteiro, texto, interpretação, fotografia, música etc). Vão para cumprir tabela. Para fugir de si próprios, ao invés de se alimentar com cultura. Correm, isso sim, o risco de virem a ter suas próprias vidas dubladas.
Para eles, espero que inventem uma pílula milagrosa que, engolida, proporcione imediatamente a sensação de já terem visto determinado filme (ou lido determinado livro), bombardeando o cérebro com as lembranças do filme que nunca viram ou do livro que nunca leram. Para que não tenham trabalho e possam usar o tempo que sobra para... para... para o que mesmo??
(Crônica publicada no jornal Pioneiro em 29 de julho de 2011)

domingo, 24 de julho de 2011

Sentem-se: vou elogiar

Hoje estou de bom humor e vou usar este espaço para tecer um merecido elogio. E ele vai para o comércio em geral, os lojistas, os atendentes de estabelecimentos gastronômicos e os prestadores de serviços que atuam em Farroupilha. E logo explico a razão dessa minha incomum generosidade toda.
Já faz alguns anos que minha esposa e eu, sempre que possível, decidimos nos desincumbir de algumas de nossas tarefas particulares optando por fazê-lo em Farroupilha, cidade vizinha à nossa, uma vez que residimos em Caxias do Sul. Sempre que dá, é para Farroupilha que vamos (usando o desvio do pedágio, naturalmente, porque ninguém aqui tem vocação para babacolândio – aliás, estamos de olho em suas promessas, governador Tarso Genro) quando temos de fazer alguma transação bancária que exija ingressar na agência; é para Farroupilha que vamos quando desejamos comprar roupas e sapatos; é para Farroupilha que vamos buscar assistência técnica para aparelhos elétricos e eletrônicos e, muitas vezes, vamos a Farroupilha frequentar bares e restaurantes.
Não, não temos parentes em Farroupilha que justifiquem uma estada mais constante na cidade, e tampouco trabalhamos no município, apesar de eu assinar esta coluna de crônicas desde o nascimento deste jornal. O que nos atrai para a cidade a fim de desenvolver essas atividades todas é um motivo só: a qualidade do atendimento que normalmente detectamos nas lojas, nos postos de gasolina, nas agências bancárias, nos estabelecimentos gastronômicos e de prestação de serviços em geral. Via de regra, somos bem atendidos, com cortesia, simpatia e profissionalismo. Características que começam a ficar escassas em centros maiores, onde os proprietários de estabelecimentos tendem a baixar a guarda justamente no atendimento, uma vez que a clientela parece vir aos borbotões. Postura bastante arriscada, como bem sabem aqueles que de repente fecham as portas devido à debandada dessa mesma clientela, que não tem longa paciência para ser tratada a chineladas.
Pode ser que sejamos sortudos. Pode ser que essa não seja a mesma impressão que possuem os farroupilhenses a respeito do assunto. Nós, porém, enquanto a coisa continuar assim, seguiremos percorrendo os vinte quilômetros que separam nossas cidades tendo a certeza de que a distância compensa a busca pelo atendimento que, enquanto clientes e seres humanos, merecemos e exigimos. Não temos dinheiro para jogar pela janela. Mas de uma coisa temos convicção: negamos o nosso para quem se esforça em não merecê-lo.
Aos farroupilhenses que lerem este texto e acharem que serve o chapéu, parabéns. É para vocês mesmos o elogio. Aos demais, farroupilhenses ou não, eis aí um exemplo a ser seguido. Todos só têm a ganhar.
(Crônica publicada no jornal Informante, de Farroupilha, em 22 de julho de 2011)

sexta-feira, 22 de julho de 2011

Adrenalina na boca

A pior sensação que existe na vida é a de ser traído. Minha esposa, por exemplo. Eu já devia ter aprendido, mas o amor, como se sabe, é cego e faz a gente reincidir nos erros e na condescendência. Pois vira e mexe a cena se repete: eu condescendo e ela reincide. Alguma razão acaba renovando em mim o poder do perdão, e semanalmente repetimos o ciclo, como que vítimas de uma maldição que nos aprisiona em um círculo infinito de fatos, um eterno retorno nietzcheano que nem Freud ousaria explicar.
Ontem à noite, por exemplo, fizemos tudo outra vez. Fui à locadora e encontrei o filme de terror que ela tanto me pedia para assistir. Ela adora filmes de terror. Gosta de sentir a adrenalina subir pelas costas (a adrenalina dela sobe pelas costas) e ir enchendo a boca com uma saliva amarga, no compasso em que a tensão do enredo vai crescendo até explodir no susto, num verdadeiro orgasmo apoteótico de medo e pulo arrepiado no sofá da sala. Ela gosta disso. Desde criança, afirma, apreciava ficar sozinha na sala à noite, vendo filmes tenebrosos e sentindo medo. Não sente medo de sentir medo, ela. Que coisa.
Já eu sou o oposto. Odeio a atmosfera pesada e angustiante dos filmes de terror. Não gosto de sentir a minha adrenalina subir por onde quer que seja e vir se esparramar pela minha boca, provocando um formigamento chato que depois demora para desaparecer. Mas o que tarda mesmo para sumir é o mal-estar que esses filmes me imprimem na alma. Fico angustiado e amedrontado, mesmo sabendo que não existem na vida real os motoqueiros fantasmas e os baixos espíritos que fazem copos voarem direto na testa dos protagonistas. Mesmo assim, loco os filmes e sento-me ao lado dela no sofá da sala para assistirmos juntos a essas desconfortanças.
Só que, via de regra, quando a coisa começa a esquentar, ela cai no sono e me deixa sozinho enfrentando gatos endemoniados, crianças possuídas e casas mal-assombradas. Traidora. Dorme o sono dos anjos enquanto me deixa na companhia de anjos-caídos. Será que precisamos de Freud para explicar a dose de masoquismo que me impele, apesar de tudo, a ver sozinho os filmes até o fim e na semana seguinte repetir o ritual?
(Crônica publicada no jornal Pioneiro em 22 de julho de 2011)