segunda-feira, 18 de setembro de 2017

Velhas novas sobre a Terra

Parafraseando um antigo e respeitado filósofo uvanovense, “não há o que não haja”. E não há mesmo como não evocar o certeiro adágio quando deparamos com determinadas informações que nos chegam diuturnamente por meio das mídias falada, escrita, televisionada e navegada. Descubro, por exemplo – não sei se a madama já estava sabendo –, que anda ganhando volume e força um movimento mundial que reúne pessoas comungantes de uma mesma certeza: a de que a Terra não é redonda, mas, sim, plana. Isso mesmo, madama, tem gente (e muita gente, por sinal) em pleno século 21 que está convicta de que nosso planeta é chato, além de, algumas vezes, também enfadonho. Incrível, pois não?
Autointitulam-se eles como “terraplanistas”, em oposição a gentes como a madama e eu, que batemos o pé no chão ao insistirmos na antiga crença de que a Terra é redonda; somos os “globalistas” (de minha parte, preferiria um termo mais poético, como “redondistas” ou “terrabolistas”, a senhora não concorda?). De qualquer forma, não se trata tão-somente de apenas duvidar do que reza a ciência moderna em relação ao formato do planeta que habitamos, como uma avaliação mais, digamos, plana, tenderia a apontar. Não. Os “terraplanistas” fundamentam a sua crença sobre eventuais falhas na sustentação da tese de que a Terra seria redonda, e vão aos fatos, elencando-os e desenterrando o debate.
Ou seja, o que se pode perceber é que está na moda vasculhar o passado e ressuscitar antigos conceitos, trazendo-os de novo à tona, insuflando-lhes sobrevida. Isso, em vários aspectos, não só em questões científicas. O boneco Falcon, da Estrela, por exemplo, que citei aqui nesta crônica de segunda, na segunda última. Descubro agora que, coincidentemente, a marca de brinquedos que o fabricava décadas atrás decidiu reeditar o boneco para celebrar os 80 anos da empresa, evocando produtos que fizeram história entre as crianças do passado.

Mas olha, madama, vou lhe dizer uma coisa. Enquanto essa onda “revival” de trazer para o presente as coisas do passado se restringir a teorias científicas sobre a esfericidade da Terra e a brinquedos que ficaram na memória, estará tudo muito bem. Problema, mesmo, é quando esse tipo de movimento começa a querer revitalizar visões de mundo totalitaristas, ditatoriais e segregacionistas, que a História tanto penou para extirpar. Tipo a censura prévia a bens culturais, por exemplo, como se fazia na Alemanha nazista, na Rússia stalinista, no Brasil ditatorial. Daí, sim, o caldo entorna, como diziam os antigos. É preciso ficar atento.
(Crônica publicada no jornal "Pioneiro", de Caxias do Sul, em 18 de setembro de 2017)

segunda-feira, 11 de setembro de 2017

Na ausência do Falcon

Era lá pelo final dos anos 1970 e meu sonho de consumo, assim como o de toda a gurizada de minha época, era ter um boneco Falcon, da Estrela. Quem tem menos de 40 anos e estiver lendo esta crônica, não vai ter a mais remota ideia do que estou falando. Então, tento explicar. Falcon era um boneco de plástico de uns 30 centímetros de altura, mais ou menos articulado, barbudo, trajando roupa militar camuflada, botas e repleto de acessórios de combate como metralhadora, pistola, paraquedas, turbocóptero, walkie-talkie, lanterna, binóculos, facões, bússolas e tudo o mais que fosse possível imaginar. Falcon era tudo! Falcon era aventura e diversão garantidas! Ah, como eu queria um Falcon!
Tratava-se, repito, do final dos anos 1970. Para ser mais específico, descubro, após uma rápida busca google (afinal, escrevo no início do século 21, né), que o boneco fora lançado pela fábrica de brinquedos Estrela exatamente em 1977, quando, então, eu tinha 11 anos de existência. E eu queria um Falcon. Havia propaganda na televisão à tarde, enquanto eu assistia, depois das aulas, no aparelho Telefunken em preto e branco, aos desenhos animados da Hannah-Barbera (A Arca do Zé Colmeia, A Corrida Maluca, Tom & Jerry, A Feiticeira Faceira, Zé Buscapé, O Esquilo Sem Grilo, Tutubarão etc), que mostravam a versatilidade do boneco Falcon que, inclusive, vinha em duas versões: com e sem barba! Em outra opção, o boneco mexia os olhos! Ah, eu sonhava diariamente com um boneco Falcon. Mas nunca tive um.
Havia um coleguinha, que imaginávamos rico, que possuía um Falcon. Era o Ricardo. Ele tinha não só um Falcon, como também um autorama, outro sonho de consumo. Não tive nem um nem outro. Tive, óbvio, muitas outras coisas, mas não um Falcon. Eis aí outro tópico que coloco na lista de temas a serem abordados e dissecados, futuramente, assim que me animar a começar a fazer análise. A ausência do Falcon em minha vida e como a possibilidade de tê-lo poderia tê-la mudado. Afinal, olha só a situação hoje daqueles meus colegas que tinham Falcons! Nossa! Que coisa! Como ponderou dia desses meu amigo Cristiano, que também nunca teve um Falcon, vejam o Donald Trump! Deve ter tido dezenas de Falcons! Digo mais: Trump deve ter tido a coleção completa dos Falcons na infância! E chegou onde chegou, sendo a coisa que é, pelo simples fato de ter tido Falcon! Não tenho dúvidas disso.

Nem Cristiano e tampouco eu somos presidentes dos Estados Unidos por uma só razão: faltou um Falcon em nossas biografias. Bom, se for pensar por esse viés... Sorte do mundo...
(Crônica publicada no jornal "Pioneiro", de Caxias do Sul, em 11 de setembro de 2017) 

segunda-feira, 4 de setembro de 2017

Tem queijo no meu sorvete

O surgimento e o estabelecimento de “manias” temporárias, também conhecidas como “febres” ou “ondas”, revela muito a respeito do espírito da época em que se vive. “Diga-me a onda em que surfas e dir-te-ei quem és”, poderia sentenciar uma pitonisa, sabendo todos nós que, na atualidade, pitonisas e oráculos foram substituídos pelos consultórios de psicologia. Uma das ondas que parece ter vindo para ficar, ou, pelo menos, para durar por um bom tempo, é essa de conferir sabores diversos a produtos que, na sua origem e essência, em nada se relacionam a eles, provocando surpresas (e às vezes, sustos) aos consumidores.
Uma das mais facilmente verificáveis se dá no âmbito das cervejas artesanais. Tenho um amigo que está perdida, profunda e ebriamente deslumbrado pela onda da saborização das cervejas, o que o conduz a degustar com fascínio copos espumosos de cervejas com sabor de mel, de café, de barril de carvalho envelhecido (não imagino o gosto de um barril de carvalho envelhecido, mas já provei, pelo menos, um copo de cerveja que garante estar a oferecer essa sensação gustativa), de pitanga colhida por jovens ruivas e assim por diante. Abre-se a garrafa, despeja-se a cerveja no copo, mete-se o beiço na borda e, ao empinar, o que as papilas gustativas detectam não é o tradicional sabor amargo do lúpulo misturado à cevada, mas, sim, sabores dessas coisas e de coisas outras, que não cerveja. Já cheguei ao extremo de degustar, certa feita, uma cerveja com sabor de bacon. E havia até um porquinho voador desenhado no rótulo. Ah, juro! Juro mesmo!
De minha parte, minha onda é mais mansa, uma marolinha. Sou adepto dos sorvetes com gostos surpreendentes e assíduo frequentador de uma sorveteria em Porto Alegre cujos sabores da sorvetança me fascinam. Jamais volto da Capital sem ter suprido, no dito estabelecimento, minha dose sazonal de sorvete sabor queijo, por exemplo. Uma delícia! Tem também o sorvete de amendoim, com gosto de amendoim descascado. E o de milho verde! O de melancia, o de abacate, o de melão, com a sensação de melão fresquinho recém cortado!

Não me espanta se chegar o tempo em que, para saborear um café de manhã, terei de beber uma cerveja e, para a cerveja do happy hour, tiver de devorar uma bola de sorvete. Comerei melancias com gosto de mel e, para a base de meu risoto, picarei bananas a título de cebola frita. Ó, admirável mundo novo! Em uma era em que as máscaras tomam conta do salão, torço para que a maré amanse e tudo não passe de ondas.
(Crônica publicada no jornal "Pioneiro", de Caxias do Sul, em 44 de setembro de 2017)

segunda-feira, 28 de agosto de 2017

Frio na pele, calor n´alma

Sobre uma coisa somos todos unânimes: unanimidade não existe. Poucos ou raros são os aspectos sobre os quais é possível deitar o véu da unanimidade. Os aviões, por exemplo, são uma delas. Afinal, todo o avião que sobe acabará descendo, de um ou de outro jeito. Sempre descem, é unânime. Difícil encontrar outra coisa que atinja esse grau de unanimidade. Reflito sobre isso nessa reta final (ainda pouco menos de um mês) de um inverno muito estranho na Serra gaúcha. O frio não é unânime. Há quem goste e há quem não goste, já que somos humanos e não pinguins, apesar de, algumas vezes, eu me sentir como se fosse um deles quando desavisadamente fixo o olhar no termômetro.
O frio não só não é unânime como também não é democrático. Pois que é difícil integrar o grupo dos bem-aventurados que dizem apreciar o inverno devido aos prazeres que ele proporciona, como uma lareira acesa, um bom vinho, um passeio a Gramado para ver a neve, o enrodilhar-se em um cobertor, um chocolate quente, essas coisas. Nem todos podem. E os que não podem, acabam vivenciando na pele os rigores malvados não só do frio, mas especialmente do ato de passar frio, essa vergonhosa mazela decorrente das incompetências da (in) civilização humana. Eu, de minha parte, quanto mais avanço nos anos, menos gosto do frio. Combato-o com as armas que tenho ao meu alcance e passo o inverno tiritando e torcendo para que as temperaturas subam.
Bom é saber que não estou só. Dia desses, encontrei um poema, elaborado provavelmente no alto do inverno serrano, em que o frio é desancado com ritmo e rima. Adorei. É de autoria do poeta caxiense Alfredo de Lavra Pinto (1887 – 1939), patrono da cadeira número 8 da Academia Caxiense de Letras, e só posso imaginá-lo compondo-o envolto em um cobertor, à noite, de tamancos e carpins, tremendo o queixo e irritado. Intitulado “Inverno”, reproduzo-o aqui, como uma arma a mais contra as cortantes friagens que nos assolam:
“Inverno, eu voto horror aos teus rigores,/ Eu abomino, em cólera fremente,/ O teu minuano, a sibilar, algente,/ E a música dos tristes amargores./ Detesto esses nevoeiros e tristores/ Que trazes, ó Briareu impenitente,/ Para nos torturar, horrivelmente,/ Para nos imergir num mar de horrores!/ Odeio o teu entono e o teu império!/ Odeio esse ar glacial, de spleen funéreo!/ Odeio o teu sinistro desvario!.../ E odiando-te, com toda a força da alma,/ Eu juro que prefiro a ardente calma/ Ao teu desesperado e intenso frio...”.

Essa impressão deve ser unânime: o frio esquentara bem a pena do poeta...
(Crônica publicada no jornal "Pioneiro", de Caxias do Sul, em 28 de agosto de 2017)

segunda-feira, 21 de agosto de 2017

Coelhos para encher o bolso

Queríamos ganhar dinheiro. A mesada que recebíamos de nossos pais não estava sendo suficiente para suprir nossas necessidades adolescentes. Eu, por exemplo, desejava adquirir logo todos os livros de Monteiro Lobato que ficavam expostos nas prateleiras da Livraria Progresso, bem como colecionar todos os títulos de gibis dos heróis Marvel que surgiam mensalmente na banca de revistas também batizada de Progresso. Havia muito progresso na nossa Ijuí natal (Rádio Progresso, Armazém Progresso...) e queríamos também progredir, meu primo e eu. O que ele planejava fazer com sua parte do futuro dinheiro que ganharíamos, eu nunca soube, mas um propósito nos unia: empreender.
Tínhamos a mesma idade (ainda temos), cursávamos a mesma classe na escola e, por volta dos 15 anos (início da década de 1980), sentamos para planejar. O pai de um colega, dentista famoso na cidade, instalara uma criação de coelhos em sua chácara e fomos lá visitar o empreendimento, cujo mercado era promissor. Achamos aquilo relativamente fácil de administrar e decidimos: criaríamos coelhos (estávamos convictos de que ficaríamos ricos vendendo ovos de páscoa, se alimentássemos e treinássemos bem aqueles coelhos). Meu pai liberou um pedaço do terreno nos fundos de casa para instalarmos ali o futuro viveiro. Pegamos enxadas numa tarde de sol e limpamos a área onde ergueríamos as gaiolas. Agora só faltava construí-las e adquirir os coelhos.
Mas precisávamos de dinheiro para o investimento inicial, o tal do capital de giro. Verificamos nos bolsos que nosso capital não girava além de algumas moedas sobradas de troco dos gibis e das merendas. Tínhamos primeiro de fazer dinheiro para investir no empreendimento que, depois, nos traria fortuna. Que coisa complicada essa vida de capitalistas! Mas fomos em frente. Aceitamos trabalho temporário de dois meses, nas férias, para administrar uma lojinha de especiarias pertencente a um tio-avô enquanto ele veraneava no litoral. Guardaríamos os salários para construir as gaiolas e comprar dois casais de coelhos, torcendo para que se reproduzissem com rapidez (não lembro de termos orçado as cenouras e as couves).

Na segunda semana de trabalho, meu primo derrubou ácido acético no pé e teve de ser substituído por outro colega. Meu sócio, então, retirou-se do projeto, que acabou naufragando junto com os salários devidamente torrados em gibis, livros e lanches. Nenhum de nós jamais criou coelhos. Quem saiu no lucro foi meu pai, com a roçada gratuita que fizemos no terreno de casa. Aprendemos que empreender não é brincadeira.
(Crônica publicada no jornal "Pioneiro", de Caxias do Sul,em 21 de agosto de 2017)

terça-feira, 15 de agosto de 2017

O reinado da peçonha

Dia desses vi circular pela internet um artigo de um jornalista do centro do país elencando cinco “roubadas” (definidas por ele) para se evitar ao visitar certa cidade turística da Serra Gaúcha. Apesar do título chamativo, logo fica claro, na leitura do texto, que as tais “roubadas” não passam de ataques direcionados à essência daquilo que o turista encontra ao visitar a cidade, como sua gastronomia, sua estrutura, suas atrações. Não é um texto crítico, porque não amplia as fontes, não oferece o contraponto, não aprofunda as questões, não busca alternativas. A intenção do autor é uma: atacar, desconstruir, fazer terra arrasada e escapulir das cinzas exibindo a própria (autossuposta) sagacidade.
Uma cidade turística (ou não) tem problemas? Claro que sim. Qual não tem? Melhorar, desenvolver, organizar, são metas constantes dos administradores (públicos e privados) de qualquer município, empresa, estado, país, instituição, grupo, comunidade, o que for. Por isso, críticas e sugestões são sempre bem vindas por parte de quem está envolvido nos processos de gestão. Mas é fácil separar a crítica construtiva do raso ataque destilador de peçonha. E estamos a viver um tempo em que a destilação da peçonha virou o senso comum a pautar a maioria das manifestações em todas as plataformas dos relacionamentos humanos. Picar e injetar veneno virou esporte nacional, a despeito de classe social ou de nível de instrução. Combater o ódio com o ódio se transformou em alternativa instantânea para o descarrego urgente das insatisfações, porém, o método não acarreta melhora alguma no quadro, pelo contrário, só amplia o mar de ódio. Os ataques deselegantes resultam no imediato nivelamento do atacante ao perfil de seu alvo.
Desconstruir, desmoralizar, consolidar pré-conceitos, endemonizar virou moda. “Vejam como sou esperto, olhem só como mordo, como sou temerário” são os motivadores das ações grotescas da maioria contra os alvos que elegem para receber as toneladas de ódio que brotam dos gramados sombrios de suas próprias índoles. São usinas de produzir raivosidades que não hesitam em metralhá-las em volta, desde que, claro, elas não os atinjam. Imaginam que, latindo e mordendo, se colocam a salvo do julgamento dos outros, posicionando-se no topo da pirâmide da intocabilidade. Empreendem energia não para criar e transformar para melhor, mas para latir enquanto as caravanas construtivas passam.

Frente a esse quadro, é melhor já ir intitulando minha própria lista de antídotos anti-peçonha: “Trocentos motivos para ficar na minha”.
(Crônica publicada no jornal "Pioneiro", de Caxias do Sul, em 14 de agosto de 2017)

segunda-feira, 7 de agosto de 2017

Xeque-mate na "bisca"

Após duas décadas e meia vivendo na Serra Gaúcha e por mais de 15 anos frequentando Uvanova, essa simpática e discreta cidadezinha situada na divisa entre Vila Faconda e Tapariu, encravada ao pé (ou às patas) do Rio das Antas, descobri que qualquer pessoa provida com um mínimo de inteligência aprende a jogar bisca. Prova disso é que eu não aprendo. Já tentaram de tudo, meus sogros, minha esposa, meus cunhados, os primos de meus cunhados e de minha esposa, as tias e os tios de minha esposa e cunhados, os vizinhos, as crianças semialfabetizadas, os primos dos primos e os tios dos primos e os cunhados dos tios dos primos e agregados vindos de todas as redondezas (porque a família ali é grande e não há quem não saiba jogar bisca), mas não adianta. Eu não aprendo.
Chego a provocar espanto até entre os bois e as vaquinhas da roça, que me fitam de olhos esbugalhados sempre que surjo, e sei bem o que ruminam quando passo me enroscando nos arames farpados e estapeando mosquitos: “muuu, lá vem aquele que não sabe jogar bisca”. Sou motivo de espanto imensurável entre todos os uvanovenses devido a essa minha peculiar incapacidade cognitiva. “Esse homem joga xadrez e não aprende a jogar bisca”, já flagrei sussurrarem enquanto mexiam a mêscola dentro do tacho a produzirem massa de tomate. Que eu não saiba sacudir a mêscola, até admitem. Mas não aprender bisca, sacramento!
Além do mais, não é verdade que eu saiba jogar xadrez. Domino apenas o movimento de cada peça e consigo fazer cara de gênio enquanto fico uns 15 minutos com a mão no queixo observando o tabuleiro antes de mover decidido – pam! – a torre duas casas à frente para vê-la de imediato – pam-pam! – ser capturada pela dama adversária, que não precisou mais do que 15 segundos para detectar minha babaquice. Fico constrangido quando uma dama captura minha torre mas, pelo menos, no xadrez, engano durante algum tempo. Na bisca, escancaro minha burrice já na primeira rodada, quando não entendo o que é um “cargueiro” ou o que acontece quando sou “estroçado” (han?) e por que diabos antes o sete de copas era o cara e agora não vale nada? Ah não! Desisto. No xadrez, a rainha é sempre a rainha; o bispo só faz o que os bispos fazem. O mundo representado pelo jogo de xadrez parece estável, com regras claras e imutáveis.

Já a bisca... A bisca representa a mutabilidade imprevisível da vida. E ela, em si, já é tão difícil de apreender. Nesse cada vez mais caótico mundo em que vivemos, tenho preferido a ilusória segurança das certezas do xadrez. Isso, até levar o xeque-mate, claro...
(Crônica de Marcos Fernando Kirst publicada no jornal "Pioneiro", de Caxias do Sul, em 7 de agosto de 2017)

O cotovelo do "troglolaite"

Não adianta, e a madama bem sabe disso: pau que nasce torto jamais endireita. É o meu caso, como a amiga leitora já percebeu. Observe. Noite dessas, presente que me fazia a um evento social concorridérrimo (o sufixo “dérrimo” é mais chique que o sufixo “díssimo”, são detalhes que fazem a diferença ao socializar, a senhora atente), transitava eu feito um Titanic periclitante por um mar de icebergs, equilibrando minha tacinha de champanha que aprendi a chamar de espumante, quando meu cotovelo esbarrou contra uma pirâmide de macarons que de pronto foi a pique.
Veio abaixo a refinada estrutura piramidal de plástico que sobre uma mesinha de centro sustentava e exibia os delicados, coloridos, deliciosos e disputados (especialmente entre as madamas, madaminhas e madamoças) docinhos ao estilo francês, que redonda e rapidamente se espalharam pelo salão, por entre saltos e sapatos, alguns indo parar junto aos rodapés e outros sendo infeliz e grotescamente esmagados e espetados pelo transitar frenético da sociedade. Meu desequilibrado gesto antissocial foi flagrado por uma dupla de garçons, cujas bandejas petrificaram. Boquiabertos, não sabiam o que fazer frente ao desconhecido (frente ao desastre desconhecido, não frente a mim, que por essas e outras ando cada vez mais conhecido).
Mas, como já aprendi nessas sociais ocasiões, fiz que não era comigo. Recolhi o cotovelo desastrado, bebi um gole do champanha, digo, do espumante e parti rumo ao garçom que no outro canto distribuía fumegantes panelinhas de louça recheadas com risoto ao funghi, a julgar pelo aroma de cogumelo farejado por minhas narinas que, nesses eventos, ficam afiadamente antenadas. Em duas passadas deixei às costas a cena da tragédia, sem presenciar os atos de salvamento. Isso até ser flagrado pelo olhar fixo e recriminador da senhora, madama! A senhora, que viu tudo: não só meu ato titânico de abalroar e desmantelar a pirâmide de macarons, como especialmente a minha imediata e covarde fuga da cena do crime, uma mão no bolso e a outra na taça da champanha (do champanha... da champanhe... do champanhe... e afunda-se de vez a classe).

Pois é, madama, a senhora, enfim, conseguiu ver o que há por trás da máscara: eu não sou um socialaite. Sou mesmo é um troglolaite. Um troglodita social. Um protossocial, um ser desprovido de ginga social. Um cavernossocial. Engomadinho, ensacado em um blaser e perfumado, até que engano alguns poucos por curtos momentos. Só que é impossível deixar em casa os cotovelos. O cotovelo de um troglolaite sempre acaba vindo à tona.
(Crônica de Marcos Fernando Kirst publicada no jornal "Pioneiro", de Caxias do Sul,em 31 de julho de 2017)

segunda-feira, 24 de julho de 2017

Cada um com seu tempero

Tenho aqui comigo a ingênua convicção de que fazer comida é um ato de amor. Sei lá por qual razão. Alguma coisa me diz que botar-se às panelas para cozinhar evoca sentimentos ancestrais protagonizados por mães, por avós e mães de avós, em eras remotas nas quais manusear panelas, conchas e mêscolas representava a habilidade de levar à mesa, para os entes queridos, os sabores dos alimentos preparados com a pureza do coração. Para mim, permanece viva até hoje a percepção de que cozinhar é uma atividade feliz. Porém...
Porém, pois é. Antes do “porém”, mais alguns “senões”. Lembro de minha avó materna, a dona Ilse, que cozinhava para toda a família como quem ama. Leitora contumaz e dona de casa aplicada, dona Ilse reinava na cozinha com a propriedade que as avós adquirem frente ao tempo de atividade junto aos fogões criados para alimentar proles ao redor do planeta. Ela fazia guisados de moranga como ninguém, galinhadas como só ela, feijão e bifes únicos. Vendia o peixe com frases marqueteiras como “não é porque eu fiz, mas está delicioso” e “nunca fiz tão bom”, com as quais concordávamos em silencioso uníssono, metendo bocas adentro os nacos de sua competência gastronômica.
O mesmo se dava com minha avó paterna, a dona Hermine. Delicada e elegante, dona Hermine produzia saladas de batata inimitáveis, que faziam sucesso nos churrascos de domingo pilotados por meu avô. Ela também moldava sonhos na Páscoa e esculpia tortas alemãs como a apfelstrudel, encravando marcas indeléveis em nossas lembranças gustativas. Ofertavam elas a nós, familiares, os frutos de seus atos amorosos. E saboreávamos aquilo tudo, digerindo lembranças. Minha mãe e minha sogra também cozinham com o mesmo amor herdado.

Porém... É embalado por esse tipo de elo afetivo que passeio pelos atuais programas de competição gastronômica, prolíficos nas grades dos canais de tevê, e me decepciono. O que vejo ali é desaforo, agressividade e humilhação pautando relações de gastronomia, onde o fazer de um prato deveria ser temperado somente por emoções como prazer, compartilhamento, alegria e estética. Mas, não. O chef, que tudo sabe, precisa escrachar o neófito, a serviço da audiência. Que tipo de audiência? A de quem vibra ao ver alguém ser espezinhado pelo outro, que sabe mais? O ideal não seria esperar que o detentor do saber ensinasse ao aprendiz com generosidade e acolhimento? Ah, não; eu, fora. Não assisto. É azedume demais. Desligo a tevê e vou para as panelas, orientado apenas por doces lembranças ancestrais. Para mim, esse ainda é o melhor tempero.
(Crônica publicada no jornal "Pioneiro", de Caxias do Sul, em 24 de julho de 2017)

Naquelas datas queridas

Naqueles remotos tempos de antanho, quando éramos crianças e fazíamos aniversário, não existiam empresas especializadas na produção e organização de festas infantis. Os palcos das reuniões dos amiguinhos, dos pais dos amiguinhos e dos parentes (tios, avós, primos) eram as casas das famílias mesmo, que em geral possuíam pátios e gramados pelos quais podíamos, depois de cantado o “Parabéns” e engolidos alguns litros de refrigerante, sair correndo desenfreados a brincar de esconde-esconde, pega-pega, chutação de bola, pula-corda e assemelhados, cujo resultado podia-se verificar à noite na hora de dormir, quando os joelhos esfolados eram apaziguados com a ardência do Merthiolate e os assopros consoladores das mães.
Se chovia, a bagunça era dentro de casa mesmo e arredavam-se cadeiras na sala para dar espaço à montagem do Forte Apache e das pistas para corrida de carrinhos de ferro (Matchbox, não Hot Wheels), ou para o esconde-esconde que resultava nas cortinas da casa emporcalhadas por mãozinhas e bocas lambuzadas de brigadeiro e glacê. Corria-se muito. Gritava-se muito. Ria-se aos borbotões. Caía-se às pencas. Levantava-se e voltava-se a correr. E a gritar. E a dar mais uma acelerada rumo à mesa dos doces, ultrapassar a barreira das pernas de algum tio esfomeado que atacava os croquetes e capturar uma mãozada de docinhos produzidos pelas próprias mãe, tias e avós do aniversariante. E de volta ao agito. Doce de confeitaria? Nem pensar! As já citadas mães, avós e tias é que formavam o batalhão que rumava às cozinhas às vésperas da data, para produzir as guloseimas que seriam fartamente consumidas no dia aniversarial. A única telentrega de que se tinha notícia era a de amor e afeto.
Ah, os bolos de aniversário configuravam um capítulo à parte. Minha mãe e avós eram verdadeiras artistas e produziam esculturas comestíveis tão belas quanto saborosas com massa de bolo, cremes doces, chantilly, merengues, gelatinas e assemelhados. Certa feita, meu bolo de aniversário era uma oca indígena, com índios de plástico do Forte-Apache dançando em volta (que, felizmente, sobreviveram ao ataque voraz dos mocinhos e mocinhas esfomeados). Em outra ocasião, o bolo era um tambor; depois, um relógio; um saloon de bangue-bangue com a diligência puxada a cavalo; a cara de um palhacinho e assim por diante.
Mas eram outros tempos. Hoje há quem faça e entregue. E ainda bem, afinal, não há mais horas de sobra nos dias de ninguém. Só espero não chegar a ver o tempo em que terceirizaremos também os convidados.

 (Crônica publicada no jornal "Pioneiro", de Caxias do Sul, em 17 de julho de 2017)

segunda-feira, 10 de julho de 2017

Um centauro na manga

Fica difícil escrever sobre centauros em plena vigência do século 21, uma vez que nós, cidadãos de nosso tempo, não acreditamos em centauros. Seria mais fácil (e plausível) fazê-lo se ainda estivéssemos mergulhados nas trevas supersticiosas da Idade Média, quando a maioria da população era iletrada e as fronteiras do mundo conhecido raramente se expandiam para além do perímetro das aldeias em que cada um carregava sua dura vida, monótona e descolorida. Naqueles tempos pesados, era crível haver terras rudes, além do horizonte, habitadas por gente exótica, falante de línguas indecifráveis, em meio a criaturas maravilhosas como os centauros, a fênix, o unicórnio, as sereias, os cíclopes, as salamandras, os silfos, dragões, harpias e sátiros. Entre outras.
Não era necessário avistar um centauro para ter certeza de sua existência a partir de relatos oriundos dos viajantes ou dos versos cantados por menestréis errantes. Isso, naqueles tempos remotos. Hoje, precisamos ver para crer e, assim, os centauros já não encontram mais lugar para se assentar entre as coisas em cujo existir cremos e que moldam o cenário de nosso mundo aceitável. Mesmo assim, falaremos sobre centauros, nos quais não acreditamos. Os centauros são seres híbridos, formados pela metade de um homem e a metade de um cavalo. O torso, a cabeça, o tronco até o ventre compõem a parte humana da criatura, que se encaixa sobre o corpo de um cavalo, formando uma figura bizzara. Um ser com rosto, peito e braços humanos sobre quatro patas equinas é como resumiríamos, sem elegância, a morfologia de um centauro.
Os centauros habitavam as páginas dos bestiários, compilações que na antiguidade se dedicavam a elencar os seres extraordinários que povoavam terras distantes, a excitar a imaginação, alimentar os pesadelos e cultivar o terror entre as gentes. O escritor argentino Jorge Luis Borges (1899- 1986) dedica atenção a ele em seu “O Livro dos Seres Imaginários”, obra em que procura listar alguns dos “estranhos entes que a fantasia dos homens engendrou ao longo do tempo e do espaço”. Borges apreciava atentar a questões como essa, apesar de também confessar sua falta de crença no centauro.

Por que, então, dispensar energia nos debruçando sobre uma criatura em cuja existência descremos e que, para nós, não faz o menor sentido? Ora, porque anda difícil para os cidadãos deste também sombrio século 21 acreditar em alguma coisa. Por via das dúvidas, talvez seja prudente guardar na manga algum centauro no qual se possa voltar urgentemente a crer, pois não?
(Crônica publicada no jornal "Pioneiro", de Caxias do Sul, em 10 de julho de 2017) 

segunda-feira, 3 de julho de 2017

Ontem, o tecer do amanhã

Estudar o passado é a melhor ferramenta que existe (quiçá a única) para compreender o presente e construir o futuro. Foi sobre os erros e os acertos do passado que o presente moldou-se, e o futuro que queremos só poderá ser erigido se conseguirmos evitar os antigos erros cometidos e repetirmos (ou aprimorarmos) os acertos. Muitas vezes, o passado, que parece ilusoriamente mais remoto a cada ano que dele nos afastamos, vê seus reflexos e consequências se entranharem profundamente nos aspectos do cotidiano, tecendo e comandando o presente de maneira vital, aproveitando-se de nossa miopia. É um perigo.
A Segunda Guerra Mundial, por exemplo, conflito que terminou há 72 anos, exerce influência determinante no perfil do mundo que vivemos hoje, não só nos aspectos geopolíticos, econômicos, humanísticos e ideológicos, mas essencialmente nas questões éticas e morais. A portentosidade do episódio histórico conhecido como Segunda Guerra Mundial, a extensão de suas consequências e transformações, é tão imensa que segue gerando estudos, despertando atenções, estimulando teorias. E deve ser assim mesmo, porque é dessa tentativa de compreensão que resultará a possibilidade de se construir um mundo melhor, especialmente se a humanidade conseguir, na prática, varrer para o lixo todos os aspectos que pautavam a proposta de mundo conduzida pelo nazismo e pelo fascismo.
Os escritores franceses Louis Pauwels e Jacques Bergier defendem que o nazismo representava uma civilização completamente diferente daquilo que conhecemos como civilização, sem pontos de convergência e de comunicação intelectual, moral e espiritual com a nossa. Por isso que precisou ser combatido até a derrocada absoluta. A visão nazista de mundo é excludente, opressora, racista, intolerante, criminosa, violenta, sexista, assassina, corrupta, psicopata e movida pelo ódio. Seus mentores e acólitos foram derrotados militarmente e suas ideias execradas. Mas é preciso permanecer alerta.

Temos de estar constantemente atentos ao florescer de visões de mundo que não conversam com aquilo que aceitamos, conhecemos e adotamos como civilização, sob pena de implosão dos pilares sobre os quais se sustentam a vida em sociedade. A corrupção que carcome a sociedade brasileira não conversa com aquilo que se entende por civilização, e precisa ser combatida onde quer que ela se expresse, desde o roubo milionário dos cofres públicos nas altas esferas até o motorista que se diz cidadão mas foge do local após colidir o carro. A História é construída a partir do cotidiano dos anônimos.
(Crônica de Marcos Fernando Kirst, publicada no jornal "Pioneiro", de Caxias do Sul, em 3 de julho de 2017)

segunda-feira, 26 de junho de 2017

O bauru da libertação

Entre as 127 razões para amar Caxias do Sul, elencadas semana passada pelo jornal Pioneiro, em sintonia com o 127º aniversário da cidade, transcorrido dia 20 de junho, figurava o bauru como iguaria local com grande ibope entre o público. Sim, Caxias do Sul é reconhecida gastronomicamente, entre várias outras delícias (a sopa de agnolini, o sagu servido quente, o galeto al primo canto, o xis burguer grandalhão, o rodízio de pizzas etc), pela qualidade e pelas especificidades do bauru servido ao prato nos vários restaurantes da cidade que incluem a atração gustativa no cardápio. Eu, que aqui encravo raízes há 25 anos, também me tornei um ativo apreciador dos baurus locais, sentindo, sazonalmente, necessidades imperiosas de me conduzir a algum estabelecimento e saciar (por instantes) o desejo pelo reencontro com seus sabores, aromas e texturas.
Ah, nada como vivenciar e repetir a experiência de estar sentado à mesa do restaurante ou da lancheria e presenciar a chegada da travessa ocupada pela titânica peça de filé envolta em queijos e presunto, adornada com o fumegante molho vermelho sobre o qual ainda estira-se uma camada de molho verde, cuja receita é secreta e depende da criatividade de cada estabelecimento. Ao lado, os indispensáveis pãezinhos aquecidos e a travessa de arroz branco, trazidos para evitar o desperdício das últimas gotas dos molhos, que não podem restar no prato. É crime de lesa gastronomia e lesa gula devolver à cozinha a travessa e o prato contendo resquícios dos molhos. Só de descrever as cenas minhas papilas gustativas se excitam, a imaginação ferve e degusto garfadas imaginárias ao tecer da crônica.

Nem sempre, no entanto, estamos (nós, caxienses fissurados por baurus) municiados de tempo e, especialmente, dos fiorins necessários para saciarmos esse desejo de consumo que nos é intermitente e avassalador. Em várias ocasiões, precisamos nos contentar com uma sopinha de feijão em casa mesmo, que tem seu inegável valor, claro, mas nada se compara a um bauru quando estamos com fome de bauru. Felizmente, dia desses, transitando pela tevê a cabo, flagrei um renomado e generoso chef caxiense apresentando um programa de culinária em que ensinava os segredos e as técnicas para produzir em casa o seu próprio bauru. Com molho verde e tudo! Acompanhei atentamente todos os passos, tomei nota e, no dia seguinte, de volta das compras, lancei-me às panelas. Deu certo! Agora, sei fazer bauru. A conquista da liberdade é uma experiência multifacetada, ao sabor das motivações de cada um. Bom apetite!
(Crônica publicada no jornal "Pioneiro", de Caxias do Sul, em 26 de junho de 2017)

segunda-feira, 19 de junho de 2017

Problema que salta à vista

A senhora viu essa, madama? Dizem que o pessoal não anda enxergando direito. E não é qualquer um que diz isso. São os cientistas. E quando os cientistas dizem, é melhor a gente ver de perto, não é mesmo? Ainda mais quando se trata de cientistas americanos. Aí, sim, deve-se abrir os olhos. Pois andei lendo nessas minhas naveganças que o mundo está sofrendo uma verdadeira “epidemia de miopia”. É, madama, as pessoas estão ficando míopes iguais a mim e à senhora. Nosso grupo das toupeiras está aumentando a olhos vistos, se é que a madama me permite o trocadilho infame.
Mas, sim, o alerta é de arregalar os olhos. Dizem lá os pesquisadores da Faculdade de Optometria da Universidade de Houston (EUA) que até 2020 (logo ali) um terço da população sofrerá de miopia e, até 2050 (mais adiante), a metade dos habitantes do planeta será míope. A coisa é séria, não podemos fazer vistas grossas. Eu, que sou míope como um jabuti desde criancinha, conheço bem a sensação de ver o mundo todo borrado, como em um filme fora de foco. Minha miopia se manifestou ainda antes de erradicar-se em mim o analfabetismo, quando tinha uns quatro anos de idade, creio, e não demorou para que um par de óculos passasse a integrar meu visual permanente. Na época, éramos ainda poucos os portadores do problema, ao menos, que eu pudesse ver, mas, admito, não conseguia ver muito longe.
Um dos fatores desencadeadores da crise de miopia, conforme os cientistas, é a genética, contra a qual ainda pouco se pode fazer. O outro parece derivar de nossos hábitos sedentários. Detectou-se que pessoas que passam mais tempo dentro de casa correm risco maior de ficarem míopes do que aquelas que optam por uma vida mais ligada ao ar livre. No meu caso, tem lógica, sou o exemplo perfeito. Ficar dentro de casa tende a nos fazer forçarmos mais as vistas na leitura, na navegação em computadores, defronte à televisão e assim por diante. Já ao ar livre, a luz solar natural e intensa parece ajudar a visão a ver melhor e mais longe, conforme as pesquisas.

Quanto a isso, tudo muito bem, existem recursos como os oculistas, os óculos, as lentes, as cirurgias corretivas e a mudança de hábitos. Mas e aquela outra miopia, madama, a da alma, que faz as pessoas não enxergarem direito as mazelas do mundo ao seu redor, que faz as mesmas pessoas, quando as enxergam (as mazelas), virarem o rosto para o outro lado, agindo como quem não quer ver? Sobre essa algum cientista já pesquisou a incidência, as origens e as possibilidades de cura? Ou ainda seguirá embaçando o planeta até perder de vista?
(Crônica publicada no jornal "Pioneiro", de Caxias do Sul, em 19 de junho de 2017)

segunda-feira, 12 de junho de 2017

Uma autópsia da solidão

Já houve quem comparasse a solidão do goleiro à frente do gol à solidão do escritor à espera de público na sessão de autógrafos. Trata-se de uma comparação equivocada, e vou demonstrar o porquê. Verdade que jamais atuei como goleiro, mas não é preciso vivenciar a experiência na carne para conseguir imaginar as sensações de uma vivência. Para isso, existem instrumentos como sensibilidade, empatia, pesquisa, observação, estudo, leitura. Já a angústia que antecede a abertura de uma sessão de autógrafos para a qual a afluência de público é sempre uma incógnita, isso conheço bem e posso falar de cadeira.
A questão, em seu cerne, remonta ao problema da solidão, que, apesar de parecer, não é um sentimento absoluto, sentido da mesma forma por todas as pessoas. Há solidões e solidões. A solidão que uma pessoa sente frente a determinada situação pode agir (e ferir, e doer) nela diferentemente do que em mim, confrontado com situação similar, porque são nossas vivências específicas, nosso temperamento singular, nosso grau de maturidade que vão construir as defesas e os instrumentos com os quais combateremos e lidaremos com o sentimento. Você, goleiro, na frente do gol, sentirá solidão diversa da minha, também goleiro, frente ao mesmo gol. Isso é uma coisa.
A outra coisa é que os exemplos usados (o goleiro e o escritor) não possuem pontos de convergência que os habilitem a serem utilizados como ilustração plausível para o problema. O goleiro, na frente do gol, está sozinho na maior parte do tempo da partida, exceto quando o time adversário ataca. O goleiro torce para que essa solidão se prolongue pelo maior tempo possível dentro dos 90 minutos da partida. Quanto menos ameaçado seu gol, melhor para o time todo. Já o escritor à espera de público na fila de autógrafos de seu livro deseja que essa solidão inicial se dissipe logo. Para o escritor, gol significa uma longa fila de leitores com exemplares do livro na mão esperando para um abraço e uma dedicatória. E se não vier ninguém? Que angústia...

Eis aí, então, a chave da equação. O que define o tipo de solidão que sentimos é a carga de angústia que ela tem o poder de gerar. A solidão do goleiro à frente do gol não produz nele angústia. Ele prefere permanecer sozinho, com todo o seu time fustigando o gol da equipe adversária. Já a solidão do escritor na abertura da sessão de autógrafos lhe angustia deveras. O problema da solidão é a angústia, e ela nem sempre está necessariamente presente ao lado do solitário. Boa reflexão para uma crônica de segunda, não é mesmo, madama?
(Crônica publicada no jornal "Pioneiro", de Caxias do Sul, em 12 de junho de 2017)

segunda-feira, 5 de junho de 2017

Negociamos com quem?

Vender a alma ao diabo, fazer o pacto com as forças obscuras das profundezas abissais em busca de poder, glória, dinheiro e outras benesses é um símbolo e um recurso alegórico amplamente explorado pela literatura a fim de aprofundar o olhar sobre as nuances da alma humana. Facilmente seduzidos por promessas de artimanhas que lhes proporcionem os maiores ganhos frente aos menores esforços, os seres humanos, em essência e no geral, cortejam a ideia de negociar o que lhes seria o bem imaterial mais precioso (simbolizado pela alma) em troca de benefícios egoístas, imediatos e autocentrados que lhes posicionem em ponto superior e favorável em relação ao próximo, estabelecendo com ele distâncias artificialmente criadas, deixando o próximo cada vez mais longe. Esse é o termo principal do pacto. O outro, se dá ao final, representado pelo resgate da alma do “beneficiado”, quando, então, ele sofrerá as drásticas e irreversíveis consequências de sua escolha e não haverá mais a quem recorrer. Mas aí o caldo já terá entornado.
A literatura aborda o tema do pacto sinistro há séculos, com ótimos autores debatendo a questão por meio de personagens e tramas inesquecíveis. “Fausto”, de Goethe (1749 – 1832), é o primeiro que vem à lembrança quando se trata do assunto, baseado na peça teatral criada anteriormente pelo dramaturgo Christopher Marlowe (1564- 1593), “A Trágica História do Dr. Fausto”. Thomas Mann retoma o tema já no século 20 com seu romance “Doutor Fausto” e a questão do pacto com um ser mefistofélico em busca da conquista de projetos pessoais sempre está no centro das tramas. O menos conhecido Edelbert Von Chamisso (1781 – 1838) faz o mesmo em seu “A História Maravilhosa de Peter Schlemihl.” 

No Brasil, Guimarães Rosa (1908 - 1967) também insinua a questão como pano de fundo possível para as motivações de seu jagunço Riobaldo, protagonista de “Grande Sertão: Veredas”. Desde o início do romance, Riobaldo mostra-se preocupado com o problema da existência ou não do demônio e a possibilidade (ou não) de firmar um pacto com ele. Já quase no final da caudalosa obra, o personagem chega a uma conclusão inequívoca, expressa por suas próprias palavras: “Digo ao senhor: o diabo não existe, não há, e a ele eu vendi a alma... Meu medo é este. A quem vendi? Medo meu é este, meu senhor: então, a alma, a gente vende, só, e sem nenhum comprador”. Negociamos (ou nos desvencilhamos) nosso bem mais precioso (a alma, que evoca nossa ética, nossa moral, nossa humanidade) mesmo sem que haja nenhum comprador. O mal reside é nisso.
(Crônica publicada no jornal "Pioneiro", de Caxias do Sul, em 5 de junho de 2017)

segunda-feira, 29 de maio de 2017

Uma abobrinha irrecusável

Como o mar não está para peixe, decidi requentar uma abobrinha, na esperança de que o tema seja de mais fácil digestão. Pode ser, madama? Essa questão da abóbora oferecida pela Ana Maria Braga à Taís Araújo, recusada pela atriz ao vivo e a cores no ar, dia desses, no programa “Mais Você”, rendeu um caldo, concorda? A bela e competente Taís Araújo, uma das convidadas do dia na atração matinal chefiada pela apresentadora chef, viu-se confrontada com um prato feito à base da única coisa no planeta que ela não come, nem que seja amarrada e levada à força, digamos, ao programa da Ana Maria Braga: abóbora.
Taís Araújo não come abóbora, ponto. Ela até jurou que não se mixa frente a uma pratada de bucho, ou de um quiabo, ou mesmo de uma caldeirada de lula. Enfim, qualquer coisa, mas, abóbora, não! Taís revelou que come não só de tudo, mas que também come muito. Gosta de prato fundo, de comida “de verdade”, que é como ela classifica um prato de feijão, arroz, massa e pata de elefante. Come e gosta de falar de comida, seu assunto predileto. “Sou monotemática, só falo em comida”, explicou a longilínea atriz, enquanto o aroma do nhoque de abóbora da Ana Maria Braga saltava das panelas e invadia os estúdios do Projac, quase chegando até nossas casas, lembra, madama? E a pobre da Taís ali, com cara de quem não comeu, não comerá e não gostou.
Foi o que bastou para que o episódio viralizasse pelo país inteiro. Uns, defendendo a sinceridade da Taís, em recusar aquilo que não gosta (questão de postura e respeito). Outros, achando que ela foi indelicada (questão de postura e respeito, também). Outros, ainda, criticando a inoperância da produção do programa, que não identificou com antecedência as restrições gastronômicas da convidada (questão de competência). Mas, também, né, madama, convenhamos. Primeiro, quem iria imaginar a existência de uma criatura que não gosta de abóbora? Pepino, cebola, repolho, chuchu, vá lá, mas, abóbora? Francamente! E, depois, tem outra: como disse a própria atriz, quem iria imaginar ser servido com nhoque de abóbora no desjejum, às oito da manhã? Francamente, também!

Antes que a madama julgue ser abobrinha comentar a abóbora da Ana Maria Braga, antecipo que o episódio guarda, sob as asas do Louro José, alguns aspectos para a reflexão. Entre eles, figura a linha fina e tênue que separa a chamada “sinceridade” da boa educação, bem como a linha fina e tênue que separa a convicção de atitudes do cuidado e o respeito com o outro e suas peculiaridades. Conviver é uma arte que não se aprende lendo receitas.
(Crônica publicada no jornal "Pioneiro", de Caxias do Sul, em 29 de maio de 2017)

segunda-feira, 22 de maio de 2017

Há bárbaros na trincheira

Se é verdade que a História se repete como farsa (a rigor, a frase de Karl Marx, pensador alemão que viveu ente 1818 e 1883, diz assim: “A História se repete, a primeira vez como tragédia e a segunda como farsa”), então, frente aos tufões políticos recentes que sacodem o país, achei por bem dar uma revisitadinha básica em alguns pontos do passado que talvez possam lançar alguma luz na escuridão que por aqui vivenciamos nesse assombroso presente. Lembrei, então, da queda do Império Romano, e lá fui eu, aos alfarrábios, para ver se aprendia alguma coisa.
O portentoso e poderoso Império Romano já vinha decaindo em todos os aspectos (político, militar, social, ético e moral) há muito tempo, quando as famosas invasões bárbaras foram corroendo e enfraquecendo cada vez mais suas estruturas, lá nos meados do século cinco depois de Cristo. “Bárbaros” era como os romanos classificavam os povos que viviam em tribos a leste do Império, em regiões hoje conhecidas como Alemanha, Áustria e redondezas. Em resumo, “bárbaros” eram aqueles que não falavam latim (a língua oficial do Império), não seguiam as leis romanas e não participavam da civilização da forma como a romanada entendia o conceito.
E os tais bárbaros vieram e botaram tudo abaixo de vez, decretando oficialmente a queda do Império Romano em 476 d.C., com o saque liderado por Odoacro, chefe dos hérulos (povo germânico originário do sul da Escandinávia). A data específica se dá devido à conquista de Roma, a capital do Império, que, àquela altura, já andava meio abandonada, com boa parte dos moradores tendo fugido para o interior, prevendo a vindoura desgraça final. E se tem coisa que a humanidade sabe há milênios é isso: se uma desgraça se anuncia e dá sinais de que vem, ela acaba vindo mesmo.

Li essas coisas e fiquei refletindo, especialmente sobre essa forte imagem dos bárbaros que não falam a mesma língua do povo, que vivem leis próprias que se impõem às leis que regem o povo e estão a serviço de seus próprios interesses e que, por fim, acabam por protagonizar a derrocada absoluta desse povo, saqueando-o, vampirizando-o, fragilizando-o, subjugando-o, barbarizando-o de todas as formas. E saem ilesos depois da queda do império. Fácil encontrar semelhanças frente ao que vivemos hoje no país. Com uma diferença crucial e ainda mais estarrecedora: no nosso caso, os bandos de bárbaros não precisam cruzar fronteiras e vir de longe apodrecer as bases da civilização. Eles agem por dentro mesmo, a partir das entranhas dessa mesma civilização, tendo sido gerados entre nós.
(Crônica publicada no jornal "Pioneiro", de Caxias do Sul, em 22 de maio de 2017)

segunda-feira, 15 de maio de 2017

Do branco e preto ao fúcsia

Minha dúvida, madama, é a seguinte: não sei se é o mundo que vai ficando a cada dia mais complexo ou se é a gente que vai emburrecendo à medida em que a velhice avança. Sim, claro que uma coisa não elimina a outra, é possível mesmo que as duas hipóteses estejam ativas e operem concomitantemente, e a senhora veja bem, empregar o termo “concomitantemente” é uma maneira complexa de se referir à simples expressão “ao mesmo tempo”, mas por que optar pela forma mais complicada?
Pois é, fico aqui matutando essas coisas depois de observar a palheta de cores disponíveis no estojo de lápis-de-cor de meu afilhado de quatro anos de idade e ser incapaz de reconhecer pelo nome a exata tonalidade a que o fabricante pretende se referir em alguns lápis. Tem ali “azul turquesa”. O que é azul turquesa? Uma espécie de azul criada pelos turcos? Os turcos criam cores? E, se sim, criaram somente um tipo de azul? Ou existe o amarelo turquesa? O vermelho turquesa? Eu nunca vi. Ou, se vi, não soube reconhecer como sendo. Nos meus tempos, havia dois tipos de azul: azul claro e azul escuro, sendo um mais forte do que o outro e pronto. O mesmo se dava com o verde: verde claro e verde escuro. Não havia verde limão, nem verde mar. Mar é verde? Conheço mar azul e mar marrom (nossas praias, né madama, que coisa). As paletas de cores se resumiam ao básico do básico, como amarelo (os coleguinhas abastados já exibiam o amarelo ouro, reconheço), laranja, vermelho, lilás, roxo, cinza, preto, marrom. Até lápis branco havia, creio que para usar quando se estivesse desinspirado ou com a alma descolorida. Mas era só.

Lembro quando surgiu o ocre. Tratava-se de um marrom mais aguado, corzinha assim de barro lavado ou de... de... enfim, o ocre era o ocre e ampliou, na adolescência, minha capacidade de detectar as cores do mundo. Eu via ocre em tudo. Era especialista em detectar ocre. Depois fiquei sabendo que alguns vermelhos podiam ser classificados como púrpura, mais puxando para o roxo, um híbrido de cores. Nessa linha de especificações e detalhamentos do vermelho, agregou-se, anos mais tarde, o carmesim, cujo nome é tão poético quanto a cor em si. E o fúcsia, que é outra forma de se referir ao magenta. Que sabia eu de fúcsia, magenta, carmesim, púrpura, ocre, lá nos idos do jardim de infância, quando o desafio maior era colorir corretamente as sete faixas do arco-íris que a gravura colocava às costas de Noé desembarcando da Arca? As coisas eram mais simples no nosso tempo e no de Noé, né, madama. Ah, sim, e mais descoloridas também. Bom, tem isso...
(Crônica publicada no jornal "Pioneiro", de Caxias do Sul,em 15 de maio de 2017)

segunda-feira, 8 de maio de 2017

Então é um contra nove

A onda da hora nas redes sociais são as listas de nove contra um. Até a madama já viu, porque sei que a madama também dá lá suas navegadinhas de quando em vez. Começou com a proposta de cada socializado (ou enredado, como queiram designar quem está mergulhado nas redes sociais) postar nove verdades e uma mentira a respeito de si mesmo e ficar lá, na moita virtual, a monitorar os esforços dos demais navegantes na tentativa de descobrir qual a mentira, quais as verdades. Há quem poste meias-verdades. Há quem se descubra enfronhado em meias-mentiras. De tudo há e o jogo foi ganhando derivações, como nove lugares que visitei e um que não. Nove coisas que fiz e uma que não. Nove frutas que comi e uma que desejo. Nove pessoas que adoro e uma que detesto (bah, essa é cruel, nem sei se rolou de fato).
Eu, assim como a madama, resisti à tentação virtual enredante e não postei lista alguma. Deixei para fazer isso aqui, nesta crônica de segunda, a fim de valorizá-la botando-a em consonância com os temas que movem na atualidade as atenções das gentes. E vou fazê-lo cinematograficamente, porque decidi listar nove filmes que sempre revejo e um que não revisito jamais. Vamos ver se a madama acerta a película dissonante. Vou dar uma dica, para facilitar a vida da senhora: atenção ao final da lista. Lá vai.

“O Iluminado” (1980), de Stanley Kubrick, com Jack Nicholson e Shelley Duvall. “Apocalypse Now” (1979), de Francis Ford Coppola, com Martin Sheen, Marlon Brando, Dennis Hopper, Harrison Ford e Robert Duvall. “Zelig” (1983), de Woody Allen, com Woody Allen e Mia Farrow. “Blade Runner” (1982), de Ridley Scott, com Harrison Ford, Sean Young, Rutger Hauer e Daryl Hannah. “Pulp Fiction” (1995), de Quentin Tarantino, com John Travolta, Bruce Willis, Uma Thurman, Quentin Tarantino, Samuel L. Jackson, Rosanna Arquette e Harvey Keitel. “O Sentido da Vida” (1983), do Monty Python. “Nosferatu” (1979), de Werner Herzog, com Klaus Kinski, Isabelle Adjani e Bruno Ganz. “Três Homens em Conflito” (1966), também conhecido como “O Bom, o Feio e o Mau”, de Sergio Leone, com Clint Eastwood, Eli Wallach e Lee Van Cleef. “Alguém Qualquer” (2012), de Tristan Aronovich, com Tristan Aronovich e Amanda Maya. E, por fim, “O Exorcista” (1974), de William Friedkin, com Linda Blair (ou seria Bleargh?) e creio que com o capeta em pessoa, porque esse eu assisti uma vez, décadas atrás, e até hoje tenho pesadelos, sendo que não revejo nem de olhos fechados, porque basta a trilha sonora do Mike Oldfield para me causar arrepios. E a madama? Qual a sua listinha?
(Crônica publicada no jornal "Pioneiro", de Caxias do Sul, em 8 de maio de 2017)

segunda-feira, 1 de maio de 2017

Garfo e faca nas pétalas

A coisa tem até nome. Parece que o termo correto e elegante é “gastronomia contemporânea”. E vou dizer uma coisa para a senhora: agora, come-se até flores. Sim, madama, acredite. Já apliquei para a senhora antes? Jamais! A senhora ainda vai me agradecer por eu lhe alertar sobre essas coisas, evitando que passe pelas situações embaraçosas nas quais me vejo às vezes enredado justamente por não contar com um cronista benemérito que me previna.
Flores, madama, decidiram que flor é artigo comestível. E come-se. Descobri isso noite dessas em que me vi assentado, penteado e engomado, em uma mesa redonda repleta de talheres e pratos sobrepostos, em evento de suma importância ao qual fui convidado juntamente com a esposa. O jantar era à francesa, o que significa, conforme a esposa pacienciosa e discretamente me ia explicando, que a comida seria servida empratada pelos garçons, primeiro a entrada, depois a salada, depois o prato principal, depois o segundo prato e daí a sobremesa. Nada daquilo de se levantar correndo até o buffet posicionado no meio do salão e, aos cotovelaços, disputar os melhores nacos de medalhão ao molho madeira e as colheradas de purê de batatas, conforme estou habituado. Tudo bem, entendi o recado, tirei os cotovelos de cima do prato após o joelhaço desferido por ela sob a toalha alva e fiquei à espera, quietinho.
Chegou a entrada. Havia um tijolinho de patê que minha esposa chamou de “terrine”; uns fiapos de vinagre escuro espalhados pela base do prato, que ela batizou de “aceto balsâmico” e... pétalas de flores encimando o conjunto. Ok, achei bonitinho o arranjo, tirei para o lado as folhinhas coloridas e desandei a destruir o tijolinho de patê a golpes de garfo. Sim, a terrine, madama, a terrine. Quando terminei de comer, minha esposa cochichou em meu ouvido: “não seja grosso, coma as flores, não as deixe no prato”. Comer as flores? Não perguntei duas vezes. Ao ver que o joelho dela novamente se movimentava em minha direção, engoli as florezinhas de uma só garfada.

Aprendi, então, que flor se come. Ao menos, em restaurante, sim. Quer dizer, não é bem assim, nunca é bem assim. Ontem, ao chegar com a esposa em outro estabelecimento gastronômico integrado à rede dos “contemporâneos”, não tive dúvidas ao sentar à mesa e ir atacando, de garfo e faca, o arranjo de flores disposto em um vasinho no centro da mesa. Horrorizada com o gesto, minha esposa rosnou: “não seja grosso, largue essas flores”. Mas, afinal, grossura é não comê-las ou comê-las? Já não entendo mais nada. Preciso ir a uma churrascaria...
(Crônica publicada no jornal "Pioneiro", de Caxias do Sul, em 1 de maio de 2017)

segunda-feira, 24 de abril de 2017

Um dilema está à mesa

A vida, às vezes, nos coloca diante de dilemas profundos que se camuflam sob um aparente véu de trivialidade. Esses pequenos dramas do cotidiano, quando analisados um pouco mais a fundo, sentados no sofá à noite ou durante a escovação das costas sob o jorro do chuveiro, podem nos oferecer vislumbres valiosos a respeito de aspectos constitutivos de nossas próprias essências, o que se torna uma ferramenta muito útil em ocasiões diversas. Conhecer-se a si mesmo é um conselho que vem sendo ofertado à humanidade há milênios e sempre é bom revalidar sua importância, mesmo que seja em crônicas de segunda como esta que palmilhamos agora juntos, brioso leitor e persistente leitora.
Dia desses de feriado, por exemplo, pulei da cama cedo (porque feriados foram feitos para serem aproveitados hora a hora e dormindo não as vejo passar) e logo atinei à ideia de retirar do congelador uma bandeja de filés de primeira, a serem devidamente trabalhados mais tarde, já descongelados, na hora do almoço. Um almoço de feriado requer atenções especiais, porque, afinal, é feriado e feriados são autojustificáveis para quase tudo. Feito isso, enquanto esquentava a água para o café da manhã, dei uma verificada na geladeira e na despensa, onde constatei a presença tranquilizadora de ingredientes suficientes para fazer daqueles filés um verdadeiro manjar sem ter de ir ao supermercado.
Havia cebola em profusão, havia temperos, havia arroz para o acompanhamento, havia creme de leite para a eventualidade de querer produzir um molho, havia óleo de girassol para a fritura, havia palmitos, havia extrato de tomate, havia mostarda, havia alcaparras, havia pimenta em grãos, havia champinhons, a coisa estava realmente sortida e bem fornida. Foi daí que estabeleceu-se o drama. Frente a tantas alternativas, o que fazer com os meus filés? Um estrogonofe era a pedida que saltava alegre na ponta da fila dos desejos gastronômicos; mas logo surgia a ideia de um suculento, simples e certeiro bife acebolado; ou, quem sabe, um filé ao molho de pimentão; ou, ainda, picar tudo em cubos e preparar um saboroso goulash... ou... ou... ai!

Simplesmente não conseguia decidir. A disponibilidade de ingredientes levava ao infinito o espectro das possibilidades e meus filés jaziam ali, perplexos, subjugados à inércia de minha indecisão. Era preciso obter uma lição daquela situação, e ela não demorou a vir. Guardei os filés ainda congelados de volta no freezer e saí para almoçar em uma churrascaria. Aprendizado: feriado não é dia para tomar decisões de envergadura vital.
(Crônica publicada no jornal "Pioneiro", de Caxias do Sul, em 24 de abril de 2017)

segunda-feira, 17 de abril de 2017

Tire o chapéu quando à mesa

Convido os leitores a construírem na mente, comigo, uma situação hipotética. Digamos que você tem um filhinho de cerca de um ano e meio de idade e, por alguma razão qualquer, fica claro que não irá vê-lo nunca mais na vida. É um momento doloroso de despedida, pungente, você sabe disso, a atmosfera está impregnada de emoção. A criança está no colo da mãe (ou do pai), que verte lágrimas, e você percebe que terá de antecipar ao filho os conselhos que guardaria para ir presenteando a ele ao longo de seu processo de crescimento, mesmo que, naquele momento, ele não compreenda o sentido das palavras. Mesmo assim, frente ao Universo, você precisa falar. O que você diria? Qual o legado você pretende transmitir para as gerações que lhe sucedem? Quais os conceitos e valores o definem e você imagina serem dignos de repasse?
Uma cena assim pontua um dos capítulos da temporada final de uma minissérie televisiva norte-americana que venho acompanhando. Trata-se de “Hell on Wheels” (“Inferno Sobre Rodas”), cujo pano de fundo são as relações dos personagens que povoam o acampamento móvel que acompanha a construção da primeira ferrovia transcontinental a ligar os Estados Unidos de ponta a ponta, na década de 1860. O personagem principal é Cullen Bohannon (vivido pelo ator Anson Mount), um ex-soldado confederado que lutou na recém-terminada Guerra da Secessão e acaba se transformando no manda-chuva do canteiro de obras da ferrovia. A cena acontece no capítulo 9 da quinta (e última) temporada da série.
Bohannon se despede do filho que deixa nos braços da mãe e, entre lágrimas, elenca conselhos: “Espero que se esforce a vida toda para ser humilde. Respeite as mulheres. Tire o chapéu à mesa. Nunca comece uma briga nem fuja de um ou de outro. Perdoe. Esqueça. Fale a verdade. Respeite sua mãe e seu pai”. Poucas palavras, sábias, profundas, banhadas na sabedoria adquirida pelo personagem ao longo do embate duro e cru frente às pedras e tropeços encontrados no caminho da vida. “Tire o chapéu à mesa” confere credibilidade ao discurso do personagem, imerso nos costumes da época retratada no seriado. Aos dias de hoje, soa como metáfora para o cultivo da gentileza e da consideração para com os outros ao redor (conselho mais que vital nesses modernos dias de individualismo). Os demais pontos falam por si, são universais e atemporais e concordo com todos.

E você? Que outros conselhos reuniria para repassar aos que nos sucedem na representação, sobre o palco da vida, daquilo que de melhor podemos oferecer ao mundo enquanto seres civilizados?
(Crônica publicada no jornal Pioneiro, de Caxias do Sul, em 17 de abril de 2017)

segunda-feira, 10 de abril de 2017

A verdade é um sem-teto

A verdade, onde mora a verdade? Analisando os bastidores da História, tanto a antiga quanto a recente que está sendo tecida diante de nossos olhos e narizes; tanto a de nosso povo quanto a das outras nações, bem como as biografias dos protagonistas e o que elas ocultam ou sugerem nas entrelinhas, chega-se à conclusão de que a verdade é um elemento meramente decorativo na composição dos fatos que entram para a historiografia oficial da humanidade. Onde mora a verdade? Ora, em lugar algum. Ela é, a bem da verdade (ops), um sem-teto, um ser vagante que não encontra abrigo em página alguma na História da raça humana.
A verdade bate de porta em porta, é recebida com sorrisos na condição de convidada de honra nos salões mais nobres da História, acomoda-se em assento especial a ela reservado na mesa principal e posa para as fotos que ilustrarão as páginas oficiais do jantar. Porém, é mantida estrategicamente à distância dos porões da mansão onde, a portas fechadas, são tratados os verdadeiros acordos, onde as intrigas ganham forma, onde as intenções são postas à mesa, onde a barganha se concretiza, onde as máscaras são despidas. Ali, a verdade não entra. A música embala o baile no salão nobre onde a verdade é ludibriada pelos sorrisos e flashes que irão compor a História oficial. O alegre bailado sacode as tábuas do teto dos porões esfumaçados que ficarão à margem da narrativa. Porém, é ali que a verdadeira História ganha forma, só que ninguém fica sabendo. Alguns indícios às vezes sobem as escadas e tentam vir à tona, porém, logo são varridos para o meio-fio e classificados como teorias da conspiração, frutos de mentes ingênuas e deturpadas. Terminada a festa, a verdade volta a ser arremessada para a sarjeta.
E assim, vamos acreditando no que nos contam sobre as mortes de Marilyn Monroe e de John Kennedy, sobre o suicídio de Getúlio Vargas, sobre os reais desdobramentos da Segunda Guerra Mundial, sobre o assassinato de John Lennon, sobre os motivos dos processos de impeachment de presidentes brasileiros, sobre as planilhas de custo de certos produtos, sobre o atentado ao World Trade Center, sobre a inocência de revelarmos todos os nossos dados pessoais permanentemente conectados à internet, sobre as intenções de determinados políticos e assim por diante.

A humanidade está em pé de guerra contra a verdade desde que o mundo é mundo. Nem mesmo os ditados populares escapam dessa equação. Por exemplo: quem veio primeiro, o ovo ou a galinha? Nem um nem outro. Na verdade, quem veio primeiro foi o galo, mas isso nunca nos é contado.
(Crônica publicada no jornal "Pioneiro", de Caxias do Sul, em 10 de abril de 2017)

segunda-feira, 3 de abril de 2017

O Pretinho da Viajantes

Houve um tempo, lá na Rua dos Viajantes, onde eu morava na infância e adolescência, em Ijuí, em que cultivávamos a estimação de dois gatos e de dois cachorros, a saber: Pretinho e Fips (os gatos) e Balú e UFO (os cachorros). Vou me ater à questão relativa aos gatos, nestas mal-digitadas linhas de segunda (de segunda-feira, né, leitor atilado e leitora benevolente), deixando a dos cachorros para uma próxima, caso seja de manifesto interesse. Se não for, farei da mesma forma, sabe, né, madama.
Os gatos, então. Pretinho era o mais velho da dupla e compartilhava com o novato Fips o privilégio concedido na casa aos da espécie felina, que era o de transitarem livremente entre o ambiente doméstico e a rua, o pátio, as redondezas. Eram livres. UFO e Balú, os cães, obedeciam às regras do regime semi-aberto destinado aos caninos da casa: vida restrita ao pátio, sem coleiras, dentro dos limites das cercas mas vetados às dependências da residência. Detentora de claros privilégios, a dupla de gatos perambulava soberba perante a mal disfarçada inveja dos dois cachorros, porém, a convivência era pacífica, amistosa, desprovida de incidentes. Praticava-se irracionalmente a tolerância com as diferenças, a aceitação mútua, o convívio tranquilo.
Pretinho, o gato mais velho, era escuro como um carvão e esperto e serelepe como um saci de quatro patas (e cauda). Brincava de esconde-esconde comigo e minha irmã pelos corredores da casa, por onde saltava detrás das portas e cortinas para nos dar sustos e sair em disparada porta afora, dando risada, esperando que corrêssemos atrás dele. Subia nas árvores do pátio, especialmente em uma frondosa timbaúva, e de lá de cima chamava o novato Fips para com ele aprender escaladas. Fips ficava ao pé das árvores, admirando seu mentor, reunindo coragem para avançar além do tronco de um magrinho jacarandá. Não tinha vocação para aventuras radicais como Pretinho, e preferia passar as tardes me fazendo companhia no quarto enquanto eu produzia, com lápis de cor, minhas histórias em quadrinhos. Era um gato literato. Cada felino com suas nuances, bem sabemos.

Um dia, Pretinho morreu, sabe-se lá exatamente de quê. Uma vizinha telefonou avisando que o encontrara morto em seu pátio e fui lá com uma caixa de papelão resgatar o corpinho duro do estimado felino. Peguei pá e enxada e fui enterrá-lo num canto remoto do quintal de casa, sob o olhar atento de Fips, deitado ao lado, na terra. Só ele e eu estivemos presentes às cerimônias fúnebres de Pretinho. O primeiro amigo que se enterra, a gente nunca esquece.
(Crônica publicada no jornal "Pioneiro", de Caxias do Sul, em 3 de abril de 2017)

terça-feira, 28 de março de 2017

Zumbis ali, zumbis aqui...

Quando eu nasci, meio século atrás, na distante e pequena Ijuí, interior do Rio Grande do Sul, os tempos eram outros, inimagináveis para gerações já surgidas na era das redes sociais e do fantástico google. Não havia computadores, não havia internet, nem telefones celulares. “Rede social” era um fenômeno que acontecia sempre que pessoas em carne e osso se reuniam em família ou entre amigos em torno de um objetivo humano comum como conversar, jogar cartas, jantar, dançar, fazer um churrasco, conviver olho no olho, com as almas presentes junto aos corpos físicos e não distanciadas em mergulhos autocentrados pelas barafundas viciantes (algumas delas imbecilizantes) dos meandros proporcionados por aparelhinhos que nos dias de hoje disputam o lugar de gente de verdade, criando gerações de zumbis.
Não é à toa que os seriados televisivos e filmes que mais fazem sucesso na atualidade são aqueles protagonizados por mortos-vivos cambaleantes e babões, com os quais o público parece se identificar plenamente. Veem-se representados pelos zumbis nos quais estão se transformando do lado de cá das telas, sempre que optam conscientemente por trocar convivência humana real por navegação virtual. Fazer o quê? Afinal, não se pode medir as consequências das invenções tecnológicas que vão surgindo e revolucionando o mundo, tampouco responsabilizar os inventores pelo mau uso de suas criações. Quem inventou o fogo pensando em cozinhar as sobrecoxas de mamute não previu seu uso posterior por Nero no incêndio deliberado de Roma. Quem inventou o avião para encurtar distâncias não imaginava seu uso bélico na destruição de cidades por bombardeios aéreos. Quem criou o automóvel não tem culpa na mortandade do trânsito irresponsável. Quem inventou a internet, as redes sociais e os aparelhinhos portáteis que lhes dão acesso ilimitado e onipresente não pensava em gerar zumbis.

Porém, basta olhar em volta para sentir-se imediatamente imerso dentro do cenário de “The Walking Dead”, porque a instalação da Zumbilândia caminha a passos largos e firmes, embalada no cambalear trôpego dos que preferem abandonar sua própria humanidade em benefício da vida virtual. Tudo o que é em demasia preocupa. Perder a medida do uso é o que gera a doença. Até ar demais pode explodir o pulmão. Água cristalina em demasia pode afogar. Internet e rede social em excesso imbeciliza e gera zumbis, sim. Mas nunca é tarde para acordar, afinal, como mostram os seriados, até contra zumbis existem antídotos. Nesse caso específico, o antídoto é a opção pela vida real.
(Crônica publicada no jornal "Pioneiro", de Caxias do Sul, em 27 de março de 2017)

A hora certa do "sim"

Nunca é tarde para aprender lições de vida. Nossos avós nos ensinam com sua larga experiência palmilhando as nuances da existência, é verdade. Aprendemos com eles se estamos dispostos a ouvi-los. Depende de nós saber sorver dos mais velhos a vivência que vão acumulando no transcorrer de suas jornadas e que generosamente compartilham. Se fazemos ouvidos moucos ao que nos dizem, azar o nosso. Bateremos com a cara contra a parede por conta e risco. Saberemos que dedo na tomada dá choque enfiando o dedo na tomada e arcando com a consequência (no caso, a dor do choque e a humilhação de termos sido avisados e insistido na patuscada). No frigir dos ovos, tudo sempre depende de nós mesmos, de como nos posicionamos, das escolhas que fazemos.
Eu, dia desses, aprendi que é preciso pensar um pouco antes de dizer “sim”. Já estava na hora, afinal, faz anos que não cozinho mais na primeira fervura. E aprendi levando no lombo, para não citar outra região anatômica propícia a sentir as dores do aprendizado que se dá quando não se usa a sabedoria. Antes de um “sim”, há que se refletir, para que a anuência seja consciente e suas consequências devidamente sopesadas. Mas não foi assim no momento em que meu afilhado de quatro anos de idade (quase cinco) resolveu passar o sábado na casa dos dindos, mochila nas costas, escova de dentes, mamadeira, cachorro de pano a tiracolo.
Depois de várias aventuras inenarráveis, voltamos para casa após o almoço no shopping com um recém comprado livro de atividades em que havia figuras a serem destacadas e adesivadas nas páginas dos respectivos cenários: gatos, flores, abelhas, monstros amigáveis, corações, barcos lilases e assim por diante. Destacávamos as figuras e nos divertíamos tentando definir o melhor lugar no livro para grudá-las. Isso até o momento em que o afilhado decide fazer uma pergunta. “Posso colocar no seu quarto os adesivos, dindo”? Ora, sim, pode, ué. Imaginei que ele quisesse guardar no meu quarto o livro de adesivos. E disse “sim”.

Foi o que bastou para que a cabecinha voasse corredor adentro e sumisse em silêncio no quarto por alguns minutos. Silêncio de criança requer investigação, já diziam nossas avós. Então, fui ver. Fui ver e deparei com as paredes de meu quarto totalmente redecoradas (na altura de meu umbigo) com dezenas de adesivos de monstros amigáveis, abelhas, barcos lilases, sanduíches... “Colocar no meu quarto” não significava “guardar o livro no meu quarto”. Significava grudar os adesivos nas paredes. E eu disse “sim”. Pelo menos, ficou bonitinho...
(Crônica publicada no jornal "Pioneiro", de Caxias do Sul, em 20 de março de 2017)

domingo, 19 de março de 2017

Mandam que ela não cante

Fiquei sabendo que mandaram a simpática moça do caixa do mercadinho parar de cantar. Achei uma violência isso que fizeram, essa ordem anti-felicidade, expedida pelos gerentes contra ela, a mocinha do caixa, que cantarolava baixinho enquanto passava as mercadorias dos clientes pelo leitor automático para ir fazendo a soma de seus ranchos. Confesso que o cantarolar da mocinha do caixa era um dos atrativos que me faziam escolher gastar ali, naquele estabelecimento, e não em outro, o meu dinheiro destinado às compras do que iria rechear a despensa de casa. Que presente para as almas das gentes, atormentadas pela correria desumanizante do dia a dia, poderem ser brindadas pelo cantar de alguém que trabalha feliz.
Mas agora isso nos foi tirado. Dela, foi cerceada a liberdade de expressar seu estado de espírito leve e de bem com a vida defronte à clientela. De mim (e talvez de outros clientes, pois torço para não estar sozinho no sentimento), foi surrupiado o prazer de deparar, de vez em quando, com alguém que recusa fechar em torno de si o zíper da dureza humana e ainda consegue adotar leveza, apesar de tudo, de tudo, de tudo. Ela não pode mais cantarolar, porque isso “poderia pegar mal”. Claro que a mocinha simpática do caixa (aliás, por si só, já é tão difícil encontrar simpatias por trás dos caixas, seja de mercados ou de estabelecimentos comerciais em geral, némesmo?), claro que ela não expressava sua leveza da alma somente cantarolando. Ela conversava com os clientes, sorria, olhava no olho, perguntava da vida, contava da dela. Nada disso mais pode. “Precisa ficar mais na sua”, sentenciaram. Para não perder o emprego, ela cumpre o ordenado. Ela não perde o emprego, mas o mercado perde a mim como cliente, por certo, porque não serei conivente com a injustiça feita a ela e também a mim, que gostava de ouvi-la cantar enquanto passava pela registradora as bananas, o extrato de tomate e o detergente em pó.

“Ela canta, pobre ceifeira, julgando-se feliz, talvez”, já dizia o poeta Fernando Pessoa em versos inspirados, quiçá, em alguma outra moçoila despretensiosamente faceira com a qual há de ter deparado em sua poética vida lusitana. A ceifeira que cantava em Lisboa não teve seu canto cerceado, mas, sim, eternizado pela verve poética do poeta. Já a pobre moça do caixa ali do mercadinho, sofre a censura dos que optam conscientemente pelos tons de cinza e não tem um poeta que cante seu canto. Tem gente a quem a felicidade incomoda. Depois, os passarinhos vão cantar no quintal do vizinho e as pessoas não entendem a razão.
(Crônica publicada no jornal "Pioneiro" em 13 de março de 2017)

segunda-feira, 6 de março de 2017

Quem lidera os pombos?

Sou ligado em experiências científicas. Gosto de assistir a documentários científicos na televisão e de ler reportagens sobre as novidades da ciência. O dia em que eu ficar famoso e vier a ser convidado a responder a esses questionários que se aplicam a celebridades, já sei que resposta darei ao quesito “se não tivesse essa profissão, que profissão você escolheria?”. Eu responderei: seria cientista. Que não leiam isso meus antigos professores de química, biologia e física do primeiro e segundo graus (é, eu sou do tempo do primeiro e do segundo graus, galera), que eles morreriam de rir. Ou de medo. Até porque eles certamente recordariam daquela vez em que eu fiquei sozinho no laboratório de física da escola e... Bem... Deixa pra lá. Sou cronista (felizmente), sigamos lendo a crônica.
Por gostar de assuntos relativos à ciência é que fiquei dia desses assistindo na tevê a um documentário sobre uma experiência feita não sei onde com pombos. Descobriram os cientistas que os pombos que voam em bandos seguem as decisões aéreas de um líder. O líder normalmente é o pombo mais forte, que voa mais alto, mais rápido, mais decidido. É ele quem orienta o voo da pombaiada toda, guinando à esquerda, depois à direita, mais para cima, descida amalucada em parafuso, um rasante sobre os fios de luz e... Ooopaaaa... Subida repentina na vertical, como os pombos tanto gostam. Isso sim, que é pombo-líder! Só tem uma coisa, que os cientistas descobriram. O pombo-líder não pode errar. Se errar, babau. É destituído imediatamente do cargo e outro assume o seu lugar.
Os cientistas concluíram isso inserindo nas costas do pombo-líder um aparelho que recebia os raios solares e enviava a ele coordenadas equivocadas, fazendo-o errar o plano de voo. Filmavam o voo do bando e depois analisavam o que acontecia. Era batata: os pombos percebiam que o líder estava desorientado, levando-os a rumos incertos, e logo outro pombo assumia o comando, o ex-pombo-líder sendo deixado para a rabeira do grupo. O que os cientistas ainda não sabem dizer é se são os pombos que destituem o líder equivocado e colocam outro em seu lugar ou se é o próprio líder que, ao perceber sua incompetência, cede o posto a outro e se retira, abrindo espaço para quem demonstra ter mais capacidade de liderança em benefício do bem comum da comunidade columbina.

O fato é que, entre os pombos, líder incompetente, que não sabe para onde está conduzindo o grupo, não dura muito. Não tem lugar. Não mantém a posição. Perde credibilidade. Precisa se retirar. Pombos são bichinhos bem inteligentes.
(Crônica publicada no jornal "Pioneiro" em 6 de março de 2017)

segunda-feira, 27 de fevereiro de 2017

O cheiro da água

Meu afilhado, de quatro anos de idade (quase cinco), tem cheiro de água. Não sou eu quem está dizendo. Quem afirma é ele, convicto. E, frente a uma convicção, sempre é difícil rebater. Quando ele disse isso, precisei frear meu ímpeto de imediatamente cheirá-lo, até porque, estava dirigindo e não cabia, naquele momento, estacionar para efetivar a conferência olfativa. “Será que ele cheira a água”? Fiquei refletindo sobre o fenômeno enquanto enfrentava o trânsito e ele tergiversava ali atrás, no cadeirote. Felizmente, logo tratou de municiar-me com mais informações capazes de amenizar meu estranhamento e conduzir a bom termo meu entendimento sobre as coisas.
“Sim, dindo, eu tenho cheiro de água. Sempre que minha mãe passa protetor solar em mim, eu fico com cheiro de água. É por isso que os gatos não chegam perto de mim. Gatos não gostam de água, e eu tenho cheiro de água”. Aahh! Tudo sempre tem uma explicação, afinal de contas. Mas... E os cachorros? Fiquei preocupado com a questão dos cachorros, afinal, ver-se discriminado pelos gatos em função do cheiro, mesmo que seja de água, me pareceu bem grave, sendo crucial um paliativo zoológico urgente. “Os cachorros, só um pouquinho”. Uhm... Certo... Mas... “Só um pouquinho” o quê? (Convenhamos, sou um dindo muito lentinho, reconheço). “Os cachorros não gostam só um pouquinho, dindo”! Ah, tá! Ok! Entendido, captei.
Ter cheiro de água não deve ser uma condição muito corriqueira, especialmente aos quatro anos de idade, quase cinco. Ainda mais se, em função disso, gatos passem a não gostar de você e cachorros, só um pouquinho. Mas deve haver uma saída, um consolo. Ah! E os peixes? Peixes gostam de água! Os peixes, então, devem gostar de você e de seu cheiro de água! Silêncio no banco de trás. Ahá! Ele não havia pensado nisso! “Você gosta de peixes?”, pergunto. “Sim, gosto”. Resposta não muito entusiasmada. “De quais peixes”? Insisto. “Mariscos”, informa, distraído.
“Mariscos”? Opa, estamos entrando em terreno estranho. Evoquei o “gostar”, na questão dos peixes, pensando em afetividades, tipo as caninas e felinas, que estabelecemos com bichos de estimação. Mas a resposta me pareceu gastronômica. E nem imaginava que ele conhecesse a palavra “marisco” no alto de seus quatro anos de idade (tá, quase cinco). Será que já comeu mariscos? Eu já comi mariscos? Por que respondeu “mariscos”?

Assim não dá. Estaciono, espicho o corpo e grudo meu nariz no pescoço dele. Tem cheiro de afilhado de quase cinco anos de idade. Não sabia que água cheirava tão bem. Ligo a ignição. Em frente!
(Crônica publicada no jornal "Pioneiro" em 27 de fevereiro de 2017)

segunda-feira, 20 de fevereiro de 2017

O desandar da maionese

“Cada um com a sua fissura”, como já dizia o Keith Richards. Eu, hoje, vou falar sobre a minha, com a licença da madama leitora e do cavalheiro leitor, que devem ter também as suas, mas quem sou eu para pedir que revelem, até porque isso aqui não é divã de psicanalista, mas tão-somente uma croniqueta de segunda (de segunda-feira, que fique claro e se evitem os mal-entendidos, que de mau entendedor já bastamos eu certos senadores que assinam coisas sem ler pela aí, né, madama minha?). Pois, como eu ia dizendo (e não ia, porque o texto não engrenou de primeira devido aos parêntesis e às intercalações que tanto caracterizam este prolixo escriba que certos alguéns gostariam de des-caracterizar pro-lixo, mas, avante!). Como eu ia dizendo, direi a partir do segundo parágrafo, se ainda houver audiência.
Então, as fissuras. A minha, é por maionese. Sou fissurado por maionese. Maionese que, no meu entender de descendente de alemães oriundo de Ijuí, deve ser traduzida por salada de batata. Minha fissura de verdade, então, é por aquilo que chamo (e como) como salada de batata e que por essas plagas serranas define-se (e come-se) como maionese. Para mim, maionese é apenas um dos ingredientes utilizados para compor as irresistíveis saldas de batata, nas quais se utiliza batatas, maionese e penduricalhos que lhe vão acrescentando sabor e fazendo a diferença, tipo pepinos, azeitonas, rodelas de ovo cozido, salsa picada, crem (como, madama? Crem não? Ah, então crem não se usa em tudo? Cronicando e aprendendo. Crem não, então). Mas, classifiquem como maionese ou salda de batata, não importa. Minha fissura emerge das entranhas de minha gula e eu ataco sem dó nem piedade.

Sou um potencial candidato a vitimar-me por salmonela, porque basta disponibilizarem, em qualquer boteco, um pratinho de maionese ali no canto da mesa que meu radar detecta e eu crau! Quero nem saber, foi! Sei lá, devem ter metido maionese na minha mamadeira quando eu era pequeno, para ter se entranhado em mim essa fissura tão essencial pelo prato. Questionei minha mãe, dia desses, a respeito, e ela ficou me olhando de lado, em silêncio. Esse olhar dela sem responder pode significar coisas. Um: que ela fez mesmo isso, mas não ousa revelar. Dois: que só eu mesmo para imaginar uma sandice dessas. Três: que apesar de ser uma sandice, ela de fato o fez, mas não vai revelar. Claro que já estou viajando na maionese. Mesmo sem ser senador, basta colocarem um prato de maionese na minha frente que eu assino qualquer coisa. Não votem em mim, que a maionese desanda!
(Crônica publicada no jornal "Pioneiro", de Caxias do Sul,em 20 de fevereiro de 2017)

segunda-feira, 13 de fevereiro de 2017

O despertar do vindimeiro

Uma coisa é obter conhecimento sobre as nuances do mundo pela leitura de livros. Outra coisa é vivenciar uma experiência que proporcione o conhecimento antes apenas vislumbrado nas palavras impressas. O exposto confirma a antiga sabedoria helvética de que “uma coisa é uma coisa e outra coisa é outra coisa”. Também ilustra a relação dialética conhecida como “práxis”, pela qual a teoria orienta a prática que, quando posta em prática, aprimora e calibra a teoria, e assim por diante. Considerações que evocam à lembrança o símbolo do Tai Chi, aquele círculo dividido ao meio por uma linha serpenteada, um lado preto, outro branco, contendo em seus extremos bolinhas pretas e brancas, a branca no preto, a preta no branco, simbolizando o fato de todo o processo final conter em si a semente do novo processo que se inicia, permitindo-nos concluir que uma coisa pode não ser outra coisa, mas sempre remeterá a um vislumbre da coisa outra que ela ainda não é, mas que poderá virá a ser. Entende?
Pois é, filosofar por conta e risco, sem ajuda especializada, dá nisso: a mente vira um pião tresloucado batendo contra as paredes de um labirinto em Creta enquanto se busca a saída antes que o Minotauro nos agarre e solucione o jantar (o jantar dele, por suposto). Compartilho esses devaneios com a estimada leitora e o paciencioso leitor após ter vivenciado, em Uvanova, dia desses, a experiência da vindima. Para mim, nascido em urbanidades distantes nas quais acreditava-se que leite dava em saquinhos em prateleiras de supermercado e salame nascia em árvores, tive a oportunidade de meter a mão na massa (sentido figurado) e auxiliar no processo de transformação de uva em vinho.
Até então conhecedor apenas da etapa final do ciclo vinífero (a arrancada da rolha e o verter do líquido perolado nos cálices), esfolei os dedos embaixo do parreiral cortando os cabinhos dos cachos que lotaram cestos de vime depois transportados para o porão da casa dos sogros. Lá, alcei ao topo de um escorregador de madeira as 37 cestas repletas de uvas que iam sendo mastigadas por um moedor pilotado pelo cunhado. O sumo disso era erguido em latão pelo irmão do sogro ao alto de um mastel onde se posicionava o próprio sogro, manuseando um coador, a fazer com que para dentro do mastel jorrasse somente o líquido das uvas que, em breve, magicamente virará vinho em nossas mesas.

Vinho que, dessa vez, ajudei a fazer, na prática. Entusiasmado, já anunciei que, ano que vem, quero ajudar a plantar e a colher a bela polenta. Por alguma razão, me sugeriram voltar aos livros...
(Crônica publicada no jornal "Pioneiro", de Caxias do Sul,em 13 de fevereiro de 2017)

segunda-feira, 6 de fevereiro de 2017

Moedinhas no bolso

Não se trata de sparagnar (“poupar”, “economizar de forma avarenta”, cujo significado logo aprende, a partir do dialeto “talian”, todo imigrante moderno que venha habitar estas plagas serranas), mas, sim, de saber utilizar até o final a capacidade operativa que proporciona qualquer produto que se tenha adquirido com o soldi (“dinheiro”) advindo do fruto do seu lavoro (“trabalho”). Depois de alguns anos residindo em Uvanova, em Tapariu ou mesmo Vila Faconda, a gente descobre que há sabedoria no ditado dos antigos, ao alertarem que “qui sparagna el gato magna” (“quem economiza, o gato come”, em tradução livre e mescolada deste lavoroso cronista), admoestando aqueles que pensam que vão enriquecer mantendo a mão fechada a qualquer custo, sendo que, conforme as nonas (e as irmãs das nonas, que, para todos os efeitos, são as tias), da vida só se leva a vida que se levava e moeda em bolso de defunto não ilumina parede de caixão (essa inventei agora, ao sabor do entusiasmo). Mas, apesar disso, esbanjar desmesuradamente sempre foi, é, continua sendo e sempre será pecado. Certas as nonas.
Penso nisso sempre que chega ao fim um pote de xampu no banheiro. Reluto em aceitar o advento do esgotamento absoluto e irreversível do conteúdo daquele recipiente de artigo capilar. As informações na embalagem prometem 200 ml de produto. Mas, será que havia mesmo tudo isso ali dentro? E, se sim, consumi de fato tudo em meus a cada dia mais esparsos cabelos? Acabou? Morreu? Não mais xampu? Terei de abrir outro? Custo a acreditar. Destampo a embalagem e meto um pouco de água dentro, embaixo do chuveiro. Tampo com a mão, chacoalho com força para que a água lave as paredes do tubo e extraia os resquícios de xampu que nelas ainda se agarram. Ah, varda só (“olha só”, um híbrido ítalo-brasileiro), ainda rende mais uma ensaboada. Alora (“então”), mãos à obra, ainda consigo mais uma lavada. Afinal, salame não dá em árvore, como descobriram já na chegada os primeiros imigrantes que vieram para cá com o sonho de conquistar a cucagna (“fortuna”) e acabaram dando de cara com banhados de pissacán (“pissacán” é pissacán mesmo, lamento).

Não quero sparagnar, mas também me recuso a esbanjar. É por isso que bebo até a última gota da garrafa aberta de espumante, mastigo até a última migalha do pão assado na palha, chupo a casquinha do pistache (onde reside a maravilha do sabor) antes de colocar fora. Ah, e levo sempre umas moedas no bolso. Pois vai que brilhem no caixão. Afinal, o seguro morreu de velho. Morreu, como todos, é verdade. Mas de velho.
(Crônica publicada no jornal "Pioneiro" em 6 de fevereiro de 2017)

segunda-feira, 30 de janeiro de 2017

Eis o sumo da caipirinha

Agora inventaram a caipirinha de melancia. Tudo bem, é preciso estar aberto às novidades que o andar do tempo faz surgirem (houve época em que sequer caipirinha de limão existia e alguém teve de inventá-la, um gênio dos coquetéis, por suposto), e assim os menus dos barmen vão sendo incrementados com caipirinha de abacaxi (que, admito, é uma delícia quando feita dentro da casca da fruta, desmistificando também a carga negativa da expressão “descascar o abacaxi”, que se transforma em prazer urgente quando o propósito é fazer uma caipirinha), caipirinha de maracujá, de morango e afins (lá vai o kirst-quiz da semana: qual a caipirinha mais esdrúxula que você já provou?).
Mas eu, dinossauro que começou a andar por sobre a Terra ainda no início da segunda metade do longínquo século passado (aquele, no qual música vinha de aparelhos três-em-um; no qual creme dental era pasta-de-dente; em que parecer descolado era usar calça boca-de-sino, tênis Bamba e chamar os caras de “bicho” e as minas de “mina”; em que era preciso esperar a válvula do televisor esquentar para assistir, em preto-e-branco, ao “Vila Sésamo” e outras cavernices), eu, que daquele tempo sou, ainda reluto em pedir ao garçom uma caipirinha que não seja a clássica, feita com limão esmagado, açúcar, gelo e cachaça (da boa). E isso que avancei: admito, no lugar da cachaça, uma vodka de qualidade, e, para agradar aos paladares femininos e pavonear gourmetices, uma pitada secreta de canela-em-pó, que fica docinho no copo delas e serve de desculpa para preparar outro, mais forte, “só para a homarada”.

A senhora minha esposa, com quem casei, é apreciadora do brasileiríssimo drinque. Na verdade, quase uma “expert”, dada a capacidade que desenvolveu de avaliar as qualidades de uma caipirinha bem feita, especialmente as tradicionais, sobre as quais traça tratados teórico-práticos. Aprendo com ela que existe uma lógica de consumo, que inclui saber bebericar a goles pequenos (na próxima encarnação, talvez, eu...) e, principalmente, impedir o garçom de recolher o copo quando o conteúdo parece ter sido totalmente consumido. Nãnãnã... Espera, deixa aí. O melhor reside justamente nos pedacinhos de limão que sobraram no fundo, encharcados do sumo caipirístico resultante do amálgama da polpa da fruta com a cachaça e o açúcar. É com propriedade profissional que ela saboreia aqueles nacos de limão. Deve haver poesia e metáforas profundas nisso. Fica a cargo do leitor e da leitora pescarem-nos. Afinal, é verão, tempo de férias e eu esqueci o que queria dizer... Garçom!
(Crônica publicada no jornal Pioneiro em 30 de janeiro de 2017)