sexta-feira, 21 de dezembro de 2012

O colo premiado


Súbito, sem prévio aviso, em um jorro curto e certeiro, o vômito do afilhado inunda parte da minha camisa e das calças, impregnando a atmosfera com um aroma oriundo da mescla entre leite materno, suco gástrico e restolhos de papa com feijão e beterrabas, já que ele, aos sete meses de idade, adora beterrabas, cioso que já é de suas preferências gastronômicas. “Acho que ele vomitou”, anuncio, desconcertado, para os adultos que nos circundam, na esperança de que alguém com maior prática (especificamente o pai ou a mãe de João Vitor) adote os procedimentos de praxe nessas ocasiões que, para mim, ainda são novidade.
“Aunhamm ngaaa”, me confirma o pequeno, sorridente, enquanto é retirado de meu colo sob os risos gerais dos demais (todos eles secos), para ser limpo com o paninho cheiroso azul que fico cobiçando naquele instante, porém, a mim, adulto, resta dirigir-me ao banheiro e me limpar com papel higiênico, o que remedia a situação apenas  parcialmente, já que, ao retornar ao meu lugar, mergulho o traseiro na sobra do vômito que havia também encharcado o assento do sofá.
Casa com nenê novinho é assim mesmo, repleta de situações inesperadas, com as quais os pais novatos vão rapidamente se habituando e os dindos inexperientes vão ampliando as cinturas a fim de terem o jogo necessário para corresponder às demandas que o ato de apadrinhar exige, como aprender a não chacoalhar demais a criança no colo logo após ela ter se alimentado, por mais que a achemos encantadoramente linda e fofa por trás daqueles sorrisos largos e generosos aliados aos bracinhos estendidos que requerem colo, frente aos quais não conseguimos resistir, tampouco manter a fleuma.
“Putz, sentei no vômito”, foi minha segunda observação da tarde, e lá voltei eu ao banheiro, agora irremediavelmente cheirando a leite. Até então, andava faltando somente eu para ser premiado com os regurgitos-relâmpago do afilhado, que, ao chegar a minha vez, foi generoso na dose que me reservava. Apadrinhar também é isso: ser vomitado, achar graça e não ver a hora de chacoalhar o afilhado no colo de novo. Quem disse que padrinho velho aprende alguma coisa?
(Crônica publicada no jornal Pioneiro em 21 de dezembro de 2012)

2 comentários:

Le Vin au Blog disse...

Cinco afilhados e ilesa!

(Tudo bem que uma delas de crisma, outra de primeira comunhão)

Pegar afilhados no colo nunca foi uma característica desenvolvida por esta madrinha.

* confesso que ri da sua desgraça

marcos fernando kirst disse...

Ja eu estou acumulando milhas de colo sendo saracoteado pelo pequeno... e curtindo....