quarta-feira, 11 de agosto de 2010

A Maçã Era a Lei


Quando certo dia Guilherme Tell descansava sob a sombra de uma macieira, quis o destino que uma maçã lhe caísse na cabeça. Apesar de aparentemente insignificante, o acontecimento deixou Guilherme bastante intrigado. Segurou o fruto com a mão e pôs-se a pensar. Após alguns momentos de profunda reflexão, chegou à conclusão de que aquela maçã lhe caíra na cabeça por estar devidamente madura e julgou aquilo um sinal para que recomeçasse os seus treinos de pontaria. Guardou a maçã, correu para casa, pegou o arco e as flechas e chamou o seu filho, que no momento se distraía com um livro de Física, para que o ajudasse. O resto da história todos se lembram e muitos se perguntam, até hoje, de onde teria surgido aquela estranha obsessão do arqueiro por inutilizar toneladas de maçãs, flechando-as por sobre a cabeça de seu próprio filho.
Apesar de frustrada pela incompreensão, a macieira não desistiu. Afinal, não era a primeira vez que a sua tentativa de revelar ao Homem um segredo científico da maior importância era mal interpretado. Na verdade, ela já tentara fazê-lo desde o seu primeiro contato com a espécie humana, há muito, muito tempo. Mas, infelizmente, apareceu uma maldita serpente para estragar tudo. De qualquer forma, não teria dado certo mesmo, pois Adão, na época, parecia ainda mais preocupado com outros assuntos. Físicos, mas de outra ordem...
Uma nova oportunidade surgiu quando, anos depois, uma senhora, trabalhando num sítio, resolveu fazer uma pausa perto da macieira. Sem perder tempo, a histórica árvore pôs-se em ação. Largou o fruto e ele, como era de se esperar, lançou-se para baixo, acertando em cheio a mulher, uma quituteira famosa que, imediatamente, inventou a torta de maçã.
Indignada, cansada de tanta incompreensão, a macieira finalmente desistiu de tentar revelar ao homem o seu segredo, pelo qual fora justamente batizada, no Éden, de “Árvore da Sabedoria”. Tomada a decisão, a macieira, resignada, nunca mais bombardeou com seus frutos as cabeças daqueles que vinham ao encontro de sua sombra para descansar.
Foi assim durante muitos anos, até o dia em que nasceu um garoto chamado Newton. Cresceu e tornou-se um jovem problemático, cheio de dúvidas em relação a si próprio e à sua verdadeira vocação. Ele queria porque queria ser arqueiro, de tanto que gostava de atirar com arco-e-flecha. Seu maior ídolo era Guilherme Tell, que flechara uma maçã na cabeça de seu filho. Mas o pai de Newton o contrariava, dizendo-lhe que deveria ir para a Universidade, estudar e ficar rico e famoso, que o arco-e-flecha não dava dinheiro para ninguém e que, afinal de contas, ele atirava muito mal. Tentando provar o contrário, Newton inscreveu-se num concurso de tiro-ao-alvo. Treinou bastante, colhendo algumas maçãs e colocando-as na cabeça de seus amiguinhos, para flechá-las. Teve de cessar os treinos quando perdeu todos os seus amiguinhos, mas não desistiu de participar. Classificado em antepenúltimo lugar, Newton quebrou seu arco e foi curtir a fossa sob a sombra da famosa árvore. Ficou lá sentado durante horas e horas, e a macieira nada. Ela estava mesmo decidida a não voltar atrás em sua atitude de nunca mais se meter nos rumos da humanidade.
E estaríamos até hoje nos perguntando por que a droga da caneta cai no chão quando escorrega de nossos dedos suados, obrigando-nos a fazer as mais mirabolantes contorções na tentativa de catá-la, arranjando, assim, lamentáveis dores nas costas e na cabeça, que bate na mesa quando já estamos voltando, se não fosse aquele ventinho providencial que soprou naquele momento e derrubou a maçã na cabeça de Newton, tornando-o famoso como o seu pai queria.
Pena que a História e as lendas costumem omitir tais detalhes...
(Crônica premiada em primeiro lugar no Concurso Literário Felippe D’Oliveira, de Santa Maria – RS -, em 1990)

Um comentário:

silvana disse...

Oi lindo!!

O texto está ótimo, faz jus ao prêmio que recebeu.

bjs
Sil