sexta-feira, 20 de agosto de 2010

A traição de Hermenilda

(Trio de senhoras na hora do chá, enquanto degustam torradinhas e criticam minhas crônicas)


Tirei do sério mais uma vez aquele grupo de distintas senhoras que me lê com assiduidade e que, tempos atrás, oficializou reclamação referente a meu estilo de escrita de tirar o fôlego devido à extensão impiedosa de alguns dos períodos que componho quando escrevo estas crônicas, nos quais acabo sendo irritantemente parcimonioso com o uso das pausas advindas das benfazejas vírgulas. A exemplo desta última frase, como podem ver, elas estavam cobertas de razão, pelo que, aliás, procuro não mais me estender tanto, o que nem sempre consigo, como também esta segunda e interminável construção frasal se esforça em comprovar, sem falar que esta, bem mais rica em vírgulas do que a anterior, em nada ajudou na intenção de proporcionar uma leitura menos asfixiante.
Desta vez, a reclamação dessas minhas fiéis leitoras aponta contra o hábito nem sempre explícito que tenho de tascar nos meus textos termos, expressões e vocábulos de difícil compreensão, dando não só a impressão de que possuo a ignóbil intenção de pavonear meus supostos dotes literários como, pior do que isso, obrigo-as a abandonar as confortáveis poltronas nas quais se abancam para degustar minhas crônicas com chás e torradas para dirigirem-se às estantes em busca dos pesados dicionários que lhes auxiliarão a desvendar as minhas más intenções literais. (Pausa para retomarmos as forças após este último maratonístico período).
Recompostos, sigamos, com as sobreviventes que houver. O que indignou agora esse grupo de fiéis leitoras foi a minha crônica de semanas atrás, que, segundo elas, já começava mal, com o despudorado uso da palavra “desagravo” logo no título. “Acho que devemos dar outro puxão de orelhas nesse rapaz”, disse uma delas, entornando a xícara de chá. “Vamos escrever para ele, reclamando”, propôs a que se chamava Hermenilda, mastigando uma torradinha. “Usaremos palavras difíceis e num estilo asfixiante, para ele ver o que é bom para a tosse”, ameaçou a terceira, tossindo. “Ele não encontrará ninguém que o desagrave”, emendou Hermenilda. Quero crer que ela foi vista pelas outras como traidora ao usar o hermético termo. Ela não sabe, mas desagravou-me.


(Crônica publicada no jornal Pioneiro em 20/08/2010)

2 comentários:

silvana disse...

Olá querido!

Ficou muito legal essa ilustra, casou perfeito com o teu inspirado texto.

Abraço

Laura disse...

ei primo! após a leitura sobre as alterações climáticas e a união social, eu estava realmente pensando com meus botôes: devo pegar um dicionário para poder ler e entender o que meu estimado primo escreve,ou deixarei de le-lo. Mas,após ler esta crônica sinto-me mais tranquila ao saber que existem outros seres sem um dicionário na cabeça e gostaria muito de me unir às mocinhas do café e torradas.
Sucesso.
abraços da prima
Laura