sexta-feira, 22 de julho de 2011

Adrenalina na boca

A pior sensação que existe na vida é a de ser traído. Minha esposa, por exemplo. Eu já devia ter aprendido, mas o amor, como se sabe, é cego e faz a gente reincidir nos erros e na condescendência. Pois vira e mexe a cena se repete: eu condescendo e ela reincide. Alguma razão acaba renovando em mim o poder do perdão, e semanalmente repetimos o ciclo, como que vítimas de uma maldição que nos aprisiona em um círculo infinito de fatos, um eterno retorno nietzcheano que nem Freud ousaria explicar.
Ontem à noite, por exemplo, fizemos tudo outra vez. Fui à locadora e encontrei o filme de terror que ela tanto me pedia para assistir. Ela adora filmes de terror. Gosta de sentir a adrenalina subir pelas costas (a adrenalina dela sobe pelas costas) e ir enchendo a boca com uma saliva amarga, no compasso em que a tensão do enredo vai crescendo até explodir no susto, num verdadeiro orgasmo apoteótico de medo e pulo arrepiado no sofá da sala. Ela gosta disso. Desde criança, afirma, apreciava ficar sozinha na sala à noite, vendo filmes tenebrosos e sentindo medo. Não sente medo de sentir medo, ela. Que coisa.
Já eu sou o oposto. Odeio a atmosfera pesada e angustiante dos filmes de terror. Não gosto de sentir a minha adrenalina subir por onde quer que seja e vir se esparramar pela minha boca, provocando um formigamento chato que depois demora para desaparecer. Mas o que tarda mesmo para sumir é o mal-estar que esses filmes me imprimem na alma. Fico angustiado e amedrontado, mesmo sabendo que não existem na vida real os motoqueiros fantasmas e os baixos espíritos que fazem copos voarem direto na testa dos protagonistas. Mesmo assim, loco os filmes e sento-me ao lado dela no sofá da sala para assistirmos juntos a essas desconfortanças.
Só que, via de regra, quando a coisa começa a esquentar, ela cai no sono e me deixa sozinho enfrentando gatos endemoniados, crianças possuídas e casas mal-assombradas. Traidora. Dorme o sono dos anjos enquanto me deixa na companhia de anjos-caídos. Será que precisamos de Freud para explicar a dose de masoquismo que me impele, apesar de tudo, a ver sozinho os filmes até o fim e na semana seguinte repetir o ritual?
(Crônica publicada no jornal Pioneiro em 22 de julho de 2011)

6 comentários:

Le Vin au Blog disse...

Hahahahah!
Muito bom!

Poderia ser pior, ela poderia gostar só de comédias românticas. :) Veja a situação pela qual passa o Claudio.

Eu tenho horror de filmes de horror! Nunca consegui vê-los. Minto. Vi um na adolescência que bastou para me deixar assustada pelo resto da vida.

Beijos.
Rafaela

marcos fernando kirst disse...

Já eu inventei de assistir sozinho no cinema, nos anos 80, ao filme "O Exorcista", e até hoje aquela cara de peixe podre endemoniada da Linda Blair me atormenta. Prefiro ficar só nas comédias romanticas.... hahaha!
Abs
Marcos K

Anônimo disse...

Marcos Kirst, és um BRAVO! Eu simplesmente não consigo.
Vai ver é a própria adrenalina que anestesia a língua e impede de acordar a amada para ver o final hhehehe

:-D


J.Cataclism

marcos fernando kirst disse...

Hehehe.... Pois é, Cataclism.... Mas descobri uma estratégia que me permite assistir sozinho a filmes de terror.... eu tiro o som nos momentos criticos.... experimente ver filme de terror sem trilha sonora.... fica tudo light.... A Profecia se transforma em Branca-de-Neve.... hehehe

Anônimo disse...

Haha isso aí, valeu a dica! Não digo que não vou tentar, mas te GARANTO que vai demoraaaaaaaaar....

J.Cataclism

SandmanIsHere disse...

A expressão criada “desconfortanças” é genial e parece-me muito apropriada para o causo citado. E tais desconfortanças ficam pairando nos gostos e desgostos dos seres e de suas proximidades e de necessidades de agrado mútuo que chega ao nível da meiguice de aceitar e se propor a “aturar” uma situação em prol da alegria e satisfação do outro ser... valerá sempre a pena passar por desconfortanças na vida (mesmo que as “traições” sejam constantes) enquanto o eterno retorno e suas maldições (benéficas) amalgamarem os dois seres!!!